sexta-feira, 30 de março de 2012

Cartier-Bresson, fotógrafo e anarquista - por ANA

“O anarquismo é, acima de tudo, uma ética e, como tal, mantêm-se intacta. O mundo mudou, mas não o conceito libertário, o desafio frente todos os poderes. Com isso, conseguiu se liberar do falso problema da celebridade. Ser um fotógrafo conhecido é uma forma de poder e eu não o desejo” (Henri Cartier-Bresson, 1998).

Alguém disse algo parecido como onde tivermos que lutar por dignidade, haveria um anarquista. Esta reflexão do grande fotógrafo francês, libertário até o fim de sua longa e lúcida vida, é um exemplo. Cartier-Bresson esteve na Espanha durante a República, e voltaria várias vezes, identificando-se com os anarquistas espanhóis e reivindicando a anarquia como um sentido ético para a vida. Nunca abandonou seu compromisso social em sua turnê pela Europa, Ásia, África e América Latina, deixando para a posteridade numerosos momentos históricos e retratos de personagens, graças à sua Leica e sua objetiva de 50 mm. Não é tão conhecido por seu trabalho para o cinema, durante a década de 30, com Paul Strand nos Estados Unidos e com Jean Renoir na França. Sua primeira vocação, no entanto, seria a pintura e o desenho, considerando o surrealismo como uma forma subversiva que casava bem com suas ideias libertárias. É início dos anos 30 quando se fascina pela fotografia, mas nunca abandonaria sua “paixão privada” pelo surrealismo e seu amor pelo desenho, dedicando seus últimos anos para este lado e deixando muitos nus femininos feitos em carvão (curiosamente, este interesse artístico é muito diferente de sua fotografia). De fato, tinha um grande interesse em fotografia a pintores como Matisse - com quem teve uma grande amizade - Braque, Giacometti, Bonnard, Bacon e muitos outros.

Cartier-Bresson se tornou anarquista muito jovem, ao descobrir mundos diferentes ao das civilizações judaico-cristãs e muçulmanas. Diante da inanidade presente em um mundo onde a tecnologia permite uma corrida contínua de imagens, reivindicou sempre a sensibilidade do olho do artista. Curiosamente, e apesar de considerado um dos pais do fotojornalismo e de possuir um inegável compromisso com o social, se distância da obra de outro grande fotógrafo como Sebastião Salgado. Cartier-Bresson acreditava que o trabalho de Salgado não foi concebido pelo olho de um pintor, mas pelo de um sociólogo, economista e ativista; apesar de respeitar muito o seu trabalho, acreditava que o brasileiro colocava um “aspecto messiânico” que a ele mesmo era estranho. Em uma ocasião, rejeitou o trabalho documental e jornalístico, pois considerava “extremamente chato”, algo que o próprio Robert Capa o repreendeu, aconselhando-o a se afastar de suas origens surrealistas, coisa que Cartier-Bresson parece ter feito apenas publicamente. Em qualquer caso, parece que o fotógrafo francês nunca se considerou um repórter e reivindicou sempre sua subjetividade artística: “Quando vou a algum lugar, tento fazer uma foto que resuma uma situação que encante, que atraia o olhar e tenha um bom relacionamento de formas, que para mim é essencial. Um prazer visual”. Pode se dizer que o fotojornalismo, considerado como mera acumulação e registros de fatos, é para Cartier-Bresson o caminho para lugar nenhum; a coisa verdadeiramente interessante é o ponto de vista a ser tomado sobre esses fatos, e a fotografia deve ser considerada como um re-evocação desses eventos. Além disso, não mais trabalhava para agências de publicidade, já que se manteve firme em sua crítica à sociedade de consumo desenvolvida desde a década de 60 do século XX. Sempre manteve até o fim sua rebeldia e encontrou mais motivos para alimentá-la com o surgimento da tecno-ciência, que ele considerava um verdadeiro monstro, e com a falácia do “conflito de gerações”; Cartier-Bresson reivindicava uma humanidade unida pela solidariedade, valor fundamental com o qual se encontrou uma e outra vez durante toda a sua turbulenta e longa vida, independentemente da sua idade ou condição.

Vejamos as palavras do próprio Cartier-Bresson sobre a atividade fotográfica: “Para mim, a fotografia é o reconhecimento simultâneo em uma fração de segundo do significado de um evento e a organização das formas que lhe dão seu próprio caráter”. O ser humano deve encontrar um equilíbrio entre sua vida interior e o mundo ao seu redor, buscando a influência recíproca e até mesmo considerar, finalmente, o resultado de um único mundo que reúne subjetividade e objetividade. Como visto, o fotógrafo francês rejeitava o sucesso e até mesmo o reconhecimento, mas queria transmitir algo às pessoas e saber, ao mesmo tempo, que era bem recebido.

Capi Vidal

Fonte: Tierra y Libertad – março de 2012, Espanha

Puxadinho do Jader

Henri Cartier-Bresson (22 de agosto de 1908, Chanteloup









A caserna volta a se coçar

buscado no  - QTMD?

Por Amilcar Neves*, no Diário Catarinense

 
A imprensa nacional reproduziu declarações que o aposentado Gilberto Barbosa de Figueiredo deu na quinta-feira, 1º de março. Disse ele:
- Não vou aceitar ser cerceado do meu direito de expressar minha opinião. Não ofendi ninguém. Estou exercendo meu direito de expressar minha opinião, como todo e qualquer cidadão.
Suas palavras traduzem um brado retumbante, digamos assim, em favor do Estado de Direito e da Democracia, um juramento de respeito à Justiça e à Constituição. Belas palavras.
Figueiredo pronunciou-se deste modo após assinar um manifesto de título altamente belicoso, maniqueísta e provocativo: Alerta à Nação – Eles que venham. Por aqui não passarão!, com ponto de exclamação marcial e tudo. Eles quem, camarada? O texto do manifesto não deixa claro a quem são dirigidas tais ameaças.
Abrindo um parêntesis: segundo o maniqueísmo, “o Universo foi criado e é dominado por dois princípios antagônicos e irredutíveis: Deus ou o bem absoluto, e o mal absoluto ou o Diabo”. Não há meio termo: se te opões ao golpe militar de 1964 e à ditadura que se seguiu, então és favorável à implantação de uma ditadura cubano-sino-soviética no Brasil. O maniqueísta não consegue conceber uma democracia e não entende como ela pode abrigar uma opinião contrária à sua. Fechando o parêntesis.
O manifesto citado, de 28 de fevereiro, referendava um outro, do dia 16, de título circunspecto: Manifesto interclubes militares. Neste, oficiais da reserva das Forças Armadas censuravam a presidenta Dilma por não ter censurado uma ministra sua que opinou sobre a possibilidade de surgirem processos judiciais em decorrência do trabalho da Comissão da Verdade, por não ter censurado outra ministra que opinou sobre a ditadura militar de 1964 a 1985, e por não ter censurado o seu partido, o PT, que decidiu realçar sua luta contra a repressão e o terrorismo de Estado promovidos pela mesma ditadura.
Como chefe das Forças Armadas, Dilma considerou quebra de hierarquia os termos do manifesto do dia 16, mandando tirá-lo do portal do Clube Militar (associação de oficias da reserva do Exército), o que resultou no manifesto do dia 28 – e aqui o cinismo – publicado no sítio A Verdade Sufocada (no qual, como na ditadura, se abusa da bandeira do Brasil, tentando associar o País às causas que defende), mantido por Maria Joseita Silva Brilhante Ustra, esposa do coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, o mais notório torturador de presos políticos e opositores do regime ainda vivo.
No novo manifesto, os militares de pijama endossam o documento anterior, não reconhecem autoridade ao ministro da Defesa para retirá-lo do ar e – eis o cerne da questão! – investem contra a Comissão da Verdade, um “ato inconsequente de revanchismo explícito e de afronta à lei da Anistia com o beneplácito, inaceitável, do atual governo”. Embora tenham feito tudo dentro da legalidade, embora tenham defendido a Pátria, embora tenham salvado a democracia, como dizem, esses senhores não aceitam que os arquivos da ditadura sejam abertos nem que a História seja conhecida, o que joga suspeita e desconfiança sobre todas as fardas, inclusive aquelas que se opõem às barbáries cometidas. Se não há o que esconder, por que escondem tudo?
Figueiredo, general reformado e ex-presidente do Clube Militar, brada pelo seu direito à opinião mas não o reconhece sequer para ministras de Estado. Como é que eu, humílimo aqui no meu Contexto, vou poder opinar sobre tal assunto?

quinta-feira, 29 de março de 2012

Clarice Herzog: “Eu não anistio os torturadores do Vlado”

buscado no ditadura no Brasil 

 

Entrevista com a publicitária Clarice Herzog, viúva de Vladimir Herzog.

 

Por Cylene Dworzak Dalbon
 25 de outubro de 1975, Rua Tutóia, cidade de São Paulo. Nas dependências do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna), um homem é torturado com pancadas e choques elétricos. Seus companheiros, na sala ao lado ouvem seus gritos.
 O homem recusa-se a assinar um suposto depoimento por não admitir que as informações constantes naquele pedaço de papel sejam verdadeiras. Ele não escrevera nenhuma palavra daquilo. Em um ato de indignação, rasga o papel. E num ato de maior indignação ainda, mesclado a ira, seu torturador o esbofeteia. Os amigos, na outra sala, não ouvem mais seus gritos.
 Algumas horas mais tarde, dentro de uma cela no mesmo departamento, uma foto do homem morto, amarrado por uma tira de pano em um pequeno pedaço de ferro no alto da cela. O Inquérito Policial Militar, IPM dá como causa da morte suicídio por enforcamento. Esta era a versão oficial sustentada pelos militares e ignorada pela família. Vladimir Herzog havia sido assassinado e seus torturadores haviam montado uma farsa grotesca para encobrir a barbaridade que haviam feito.
 O relato acima caberia muito bem em um romance policial. Mas não é ficção. O fato tenebroso e covarde existiu. Quando os gritos silenciaram, Vladimir Herzog estava morto. Inicia-se então, o começo da luta pela abertura política na história ditatorial que acabaria de fato, 10 anos depois, em 1985. Vlado, como era conhecido por familiares e amigos, é hoje um símbolo, e não só para os jornalistas. E está tão vivo na memória de quem presenciou e viveu a história, como na de pessoas que se apaixonam pela emocionante história de vida de Vlado e se revoltam com a monstruosidade e tristeza de sua morte.
 Vladimir Herzog
 Foto: Sindicato dos Jornalistas
          de São Paulo
Em conversa exclusiva com o Jornal Segundas Intenções, a publicitária Clarice Herzog fala do terrível outubro de 1975, quando seu marido, o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado dentro das dependências do DOI-CODI pelos órgãos de repressão da ditadura.

 O outubro de 1975

 “O outubro de 1975 foi complicadíssimo. Ficaram na memória as coisas relacionadas ao que aconteceu com o Vlado. No começo do mês vários jornalistas foram presos. Estava havendo inclusive um encontro nacional de jornalismo e mesmo assim as prisões continuavam. Foram presos muitos jornalistas ligados ao Vlado e da TV Cultura, o Markum, o Anthony, Rodolfo Konder, o Sérgio Gomes. Foi um momento extremamente tenso. Esperávamos que o Vlado fosse preso devido a essas prisões, e discutimos muito sobre qual seria o teor de seu depoimento – o que nunca passou pelas nossas cabeça é que ele acabaria sendo morto. Vlado, naquele momento estava no Partido [Comunista Brasileiro]. Ele nunca foi muito ligado à política, ele não era comunista – aliás era bastante crítico ao partido. Na verdade, o Vlado era um intelectual, ligado a teatro, cinema, que desejava um mundo melhor, um mundo onde as idéias pudessem ser discutidas e respeitadas. Naquela época existiam duas forças contra a ditadura militar: uma era a igreja e a outra o PCB. Como o Vlado era judeu, optou pelo Partido – a sua área de atuação como militante era a discussão da situação cultural no país – a produção artística, nos vários níveis, estava sendo totalmente massacrada pela censura. O motivo da forte repressão contra o PCB, é que ele estava se tornando uma nova e forte frente e enfrentando a ditadura. Mas aconteceu o que não esperávamos que acontecesse: afinal, apesar do Vlado estar envolvido com o partido comunista, tínhamos empregos, passaporte, residência fixa e não éramos envolvidos com a luta armada.”

 Londres
“Depois do término do contrato do Vlado com a BBC em Londres, eu retornei primeiro com as crianças e o Vlado ficou mais três meses fazendo um curso sobre TV Educativa. Era pra ele chegar ao Brasil dia 15 de dezembro de 1968 (o AI-05 foi no dia 13). Mas ele não chegou. Antes de vir para o Brasil, ele passou por Roma para se despedir do [Fernando] Birri [cineasta e guru de Vladimir Herzog]  e lá em Roma viu a manchete no jornal: “Ditadura Militar no Brasil”. E aí ficou a dúvida, se voltava pra Londres, se vinha para o Brasil. E durante duas semanas permanecemos nessa dúvida. Mas a sensação que nós tínhamos é, mesmo com o A15 seria possível fazer alguma coisa aqui, valia a pena tentar.

 O grito da sociedade e o silencio dos judeus
“A morte do Vlado foi um basta. A sociedade civil percebeu que aquilo foi a gota d´água. Na hora em que ele morreu houve uma movimentação. Ele era muito conhecido no Brasil e no exterior; então todo mundo ficou sabendo.
A comunidade judaica nunca deu apoio pra nada. Isso é muito importante que se deixe claro. Não havia rabino no velório nem no enterro do Vlado. O culto ecumênico aconteceu graças ao D. Paulo [Evaristo Arns] – aliás, Dom Paulo também esteve presente no velório. Não houve apoio nenhum da comunidade judaica, muito pelo contrário. Tive apoio de amigos judeus, mas não da comunidade enquanto instituição.”

 Correio Brasiliense
“A maneira como foi feita a matéria foi muito sensacionalista, o Correio Brasiliense foi ‘marrom’. Realmente, reconheci a foto de frente como sendo do Vlado; as outras não. A pessoa fotografada era muito parecida com ele, mas houve um engano da minha parte, que só se esclareceu quanto o Nilmário Miranda  (Ministro da Comissão dos Direitos Humanos) e o General chefe da segurança do presidente Lula estiveram aqui e me mostraram o dossiê completo da pessoa que tinha sido fotografada e aí percebi que realmente aquele não era o Vlado.”

 A ação judicial
“Foi um processo importante porque houve um resgate da justiça brasileira, do judiciário, e isso fez com que outras famílias também entrassem com o processo contra a União. Não pleiteei indenização porque queria que fosse reconhecido publicamente que o Vlado não havia se matado e sim, que havia sido assassinado; e eu tinha medo de que me pagassem a indenização sem qualquer processo porque afinal o Vlado estava sob proteção do Estado.

 Clara Charf e Carlos Marighela
“Quando voltei de Londres, eu queria ajudar de alguma forma. Fui então apresentada a Clara Charf que na época tinha um nome de guerra, que eu não lembro qual era. Ela se encontrava, vez ou outra, com o companheiro dela. E quando ia com ele em casa, o Vlado e eu permanecíamos no andar de cima – não queríamos saber quem era a pessoa que estava na clandestinidade. Mas, um dia tive um contato breve com o companheiro da Clara porque ela comentou com ele que eu havia perdido um tio assassinado durante o Estado Novo. Então, ele subiu as escadas e me disse: fui companheiro do seu tio na prisão e posso lhe dizer que ele foi um combatente muito corajoso. E eu não sabia que ele era o Marighela, e nem queria saber. Eu tinha medo de me envolver demais.”

Anistia
“Eu não anistio os torturadores do Vlado. A minha opinião sobre anistia é essa.”

32 anos depois
“Este ano o Vlado completou 70 anos. Dói. É uma dor amenizada, claro, mas ela sempre existe. É uma cicatriz que fica. Pode não estar mais inflamada, mas cada vez que se olha pra ela, lembra-se de toda a dor.”

Saiba mais sobre Vladimir Herzog: Biografia

A manifestação dos caras-pintadas diante do Clube Militar

Por Hildegard Angel –  em seu blog no R7

Foi um acaso. Eu passava hoje pela Rio Branco, prestes a pegar o Aterro, quando ouvi gritos e vi uma aglomeração do lado esquerdo da avenida. Pedi ao motorista para diminuir a marcha e percebi que eram os jovens estudantes caras-pintadas manifestando-se diante do Clube Militar, onde acontecia a anunciada reunião dos militares de pijama celebrando o “31 de Março” e contra a Comissão da Verdade.
Só vi jovens, meninos e meninas, empunhando cartazes em preto e branco, alguns deles com fotos de meu irmão e de minha cunhada. Pedi ao motorista para parar o carro e desci. Eu vinha de um almoço no Clube de Engenharia. Para isso, fui pela manhã ao cabeleireiro, arrumei-me, coloquei joias, um vestido elegante, uma bolsa combinando com o rosa da estampa, sapatos prateados. Estava o que se espera de uma colunista social.
A situação era tensa. As crianças, emboladas, berrando palavras de ordem e bordões contra a ditadura e a favor da Comissão da Verdade. Frases como “Cadeia Já, Cadeia Já, a quem torturou na ditadura militar”. Faces jovens, muito jovens, imberbes até. Nomes de desaparecidos pintados em alguns rostos e até nas roupas. E eles num entusiasmo, num ímpeto, num sentimento. Como aquilo me tocou! Manifestantes mais velhos com eles, eram poucos. Umas senhoras de bermudas, corajosas militantes. Alguns senhores de manga de camisa. Mas a grande maioria, a entusiasmada maioria, a massa humana, era a garotada. Que belo!
Eram nossos jovens patriotas clamando pela abertura dos arquivos militares, exigindo com seu jeito sem modos, sem luvas de pelica nem punhos de renda e sem vosmecê, que o Brasil tenha a dignidade de dar às famílias dos torturados e mortos ao menos a satisfação de saberem como, de que forma, onde e por quem foram trucidados, torturados e mortos seus entes amados. Pelo menos isso. Não é pedir muito, será que é?
Quando vemos, hoje, crianças brasileiras que somem, se evaporam e jamais são recuperadas, crianças que inspiram folhetins e novelas, como a que esta semana entrou no ar, vendidas num lixão e escravizadas, nós sabemos que elas jamais serão encontrada, pois nunca serão procuradas. Pois o jogo é esse. É esta a nossa tradição. Semente plantada lá atrás, desde 1964 – e ainda há quem queira comemorar a data! A semente da impunidade, do esquecimento, do pouco caso com a vida humana neste país.
E nossos quixotinhos destemidos e desaforados ali diante do prédio do Clube Militar. “Assassino!”, “assassino!”, “torturador!”, gritava o garotinho louro de cabelos longos anelados e óculos de aro redondo, a quem eu dava uns 16 anos, seguido pela menina de cabelos castanhos e diadema, e mais outra e mais outro, num coro que logo virava um estrondo de vozes, um trovão. Era mais um militar de cabeça branca e terno ajustado na silhueta, magra sempre, que tentava abrir passagem naquele corredor humano enfurecido e era recebido com gritos e desacatos. Uma recepção com raiva, rancor, fúria, ressentimento. Até cuspe eu vi, no ombro de um terno príncipe de Gales.
Magros, ainda bem, esses velhos militares, pois cabiam todos no abraço daqueles PMs reforçados e vestidos com colete à prova de balas, que lhes cingiam as pernas com os braços, forçando a passagem. E assim eles conseguiram entrar, hoje, um por um, para a reunião em seu Clube Militar: carregados no colo dos PMs.
Os cartazes com os rostos eram sacudidos. À menção de cada nome de desaparecido ao alto-falante, a multidão berrava: “Presente!”. Havia tinta vermelha cobrindo todo o piso de pedras portuguesas diante da portaria do edifício. O sangue dos mortos ali lembrados. Tremulavam bandeiras de partidos políticos e de não sei o quê mais, porém isso não me importava. Eu estava muito emocionada. Fiquei à parte da multidão. Recuada, num degrau de uma loja de câmbio ao lado da portaria do prédio. A polícia e os seguranças do Clube evacuaram o local, retiraram todo mundo. Fotógrafos e cinegrafistas foram mandados para a entrada do “corredor”, manifestantes para o lado de lá do cordão de isolamento. E ninguém me via. Parecia que eu era invisível. Fiquei ali, absolutamente sozinha, testemunhando tudo aquilo, bem uns 20 minutos, com eles passando pra lá e pra cá, carregando os generais, empurrando a aglomeração, sem perceberem a minha presença. Mistério.
Até que fui denunciada pelas lágrimas. Uma senhora me reconheceu, jogou um beijo. E mais outra. Pessoas sorriram para mim com simpatia. Percebi que eu representava ali as famílias daqueles mortos e estava sendo reverenciada por causa deles. Emocionei-me ainda mais. Então e enfim os PMs me viram. Eu, que estava todo o tempo praticamente colada neles! Um me perguntou se não era melhor eu sair dali, pois era perigoso. Insisti em ficar l mesmo, com perigo e tudo. E ele, gentil, quando viu que não conseguiria me demover: “A senhora quer um copo d’água?”. Na mesma hora o copo d’água veio. O segurança do Clube ofereceu: “A senhora não prefere ficar na portaria, lá dentro? “. “Ah, não, meu senhor. Lá dentro não. Prefiro a calçada mesmo”. E nela fiquei, sobre o degrau recuado, ora assistente, ora manifestante fazendo coro, cumprindo meu papel de testemunha, de participante e de Angel. Vendo nossos quixotinhos empunharem, como lanças, apenas a sua voz, contra as pás lancinantes dos moinhos do passado, que cortaram as carnes de uma geração de idealistas.
A manifestação havia sido anunciada. Porém, eu estava nela por acaso. Um feliz e divino acaso. E aonde estavam naquela hora os remanescentes daquela luta de antigamente? Aqueles que sobreviveram àquelas fotos ampliadas em PB? Em seus gabinetes? Em seus aviões? Em suas comissões e congressos e redações? Será esta a lição que nos impõe a História: delegar sempre a realização dos “sonhos impossíveis” ao destemor idealista dos mais jovens?

Vídeo buscado no Lingua Ferina

Uma entrevista com Millôr Fernandes (1923 – 2012)

Buscado no Blog do Rovai


Há sete anos estava numa Flip (Feira Literária de Paraty) mais para curtir do que para trabalhar. Mas ao ver Ruy Castro passeando pelas ruas tranqüilas da cidade, resolvi abordá-lo para uma entrevista. Ficamos uma boa parte da tarde conversando e, ao final, solicitei-lhe que me ajudasse na mediação de uma entrevista com Millôr Fernandes, que também estava no evento e de quem sabia ser ele amigo.
De forma generosa, o escritor me convidou para jantar com ele, Millôr e suas esposas, Heloisa Seixas e Cora Ronai. Disse-me que ali, como quem não quer nada, deveria sacar o gravador e fazer a entrevista. Foi isso que aconteceu.
O resultado foi publicado numa das edições impressas de Fórum. Ao saber de sua morte, decidi recuperar esse texto também como uma homenagem. Tenho diferentes opiniões sobre muito o que Millôr falou ou escreveu, mas negar-lhe imenso talento e cultura é por demais pobre.
Millôr foi um dos maiores intelectuais do seu tempo.

O mundo está muito melhor
Quem diria, Millôr Fernandes, o crítico mais crítico do país, faz 80 anos garantindo que a vida de hoje em dia é muito melhor que a de outros tempos
Por Renato Rovai
“E lá vou eu de novo, sem freio nem pára-quedas. Saiam da frente, ou debaixo que, se não estou radioativo, muito menos estou radiopassivo. Quando me sentei para escrever vinha tão cheio de idéias que só me saíam gêmeas, as palavras – reco-reco, tatibitate, ronronar, coré-coré, tom-tom, rema-rema, tintim-por-tintim. Fui obrigado a tomar uma pílula anticoncepcional. Agora estou bem, já não dói nada. Quem é que sou eu? Ah, que posso dizer? Como me espanta! Já não fazem Millôres como antigamente! Nasci pequeno e cresci aos poucos. Primeiro me fizeram os meios e, depois, as pontas. Só muito tarde cheguei aos extremos. Cabeça, tronco e membros, eis tudo. E não me revolto. Fiz três revoluções, todas perdidas. A primeira contra Deus, e ele me venceu com um sórdido milagre. A segunda com o destino, e ele me bateu, deixando-me só com seu pior enredo. A terceira contra mim mesmo, e a mim me consumi, e vim parar aqui.”
Assim Millôr se apresentou aos leitores quando foi fazer uma coluna na revista Veja, em 1968. Aos 80 anos, completados no último 16 de agosto, Millôr é um dos maiores intelectuais vivos do Brasil. Já fez dezenas de peças de teatro, traduções e lançou e colaborou com outras tantas dezenas de veículos de imprensa. Suas colunas no Pasquim da primeira fase ainda são lembradas em muitas mesas de bar por quem tem mais de 40. Suas frases diretas e perspicazes já encantam muitos garotos e garotas que surfam pela internet e passam pelo Universo On-Line (UOL), onde colabora. Millôr não gosta de dar entrevistas. Por isso, leitor, aproveite essa deixa.

Pessimismo ou otimismo
Não sou otimista, mas quando digo aos meus amigos que estamos vivendo no melhor dos tempos, as pessoas não percebem. Estamos vivendo num tempo de transição, mas o mundo nunca foi tão bom. É curioso dizer isso, mas é verdade. Até 1888 era possível comprar um preto na esquina e carimbá-lo com o seu nome. Trouxeram de 10 a 15 milhões de negros da África e era perfeitamente normal. Isso mudou. Mas, como disse, não sou otimista. A palavra poderia ser, sei lá, realista. Mas não realista no sentido negativo, porque quando se fala realista, em geral se quer dizer, “tá tudo fodido e eu estou vendo a realidade”. Não é isso. Estou vendo uma realidade em que hoje, no mundo inteiro, tem muito mais gente usufruindo os bens da vida do que jamais houve. Tem um bilhão de pessoas passando fome, mas são seis bilhões no planeta. Tem uma classe média hoje no mundo que, se você for muito pessimista, dá 20% da população. Você tem dois bilhões, ou um bilhão e meio de pessoas vivendo muito bem.
Mais perto do socialismo
Quando começam a informatizar tudo, as pessoas vão perdendo o emprego. Isso me parece evidente. Mas quando você desemprega milhões de pessoas, na minha visão, ao mesmo tempo está criando o socialismo. Ou você arranja uma maneira de distribuir melhor os bens da terra, ou esta porra explode. Nesse momento está explodindo, mas ou vai explodir de uma vez ou só estamos num período de transição que pode durar 10, 20, 30 anos. Mas é um período de transição.
Conflitos futuros
Isso eu acho absolutamente imprevisível. É impossível prever o gesto de um maluco. Não se pode saber o que aquele doido da Coréia do Norte pode fazer e nem aqueles filhos da puta dos EUA, não é verdade? A Índia está lá, o Paquistão está lá. É imprevisível. Também não é possível prever, se a coisa pegar em um âmbito mais gigantesco, isso não vá acabar com o mundo ou com a Terra. Ou chegar à barbárie total de novo. De qualquer maneira eu acho muito interessante o mundo.
Qualidade de vida 
Sempre fiz esporte, inclusive frescobol. Aliás, fomos nós os cariocas que inventamos esse esporte. Hoje você tem o skate, que de coisa de vagabundo virou um esporte formidável, maravilhoso. Eu também vi nascer o surfe na minha porta. Aliás, hoje já estamos na terceira geração do surfe. Isso tudo criou um homem novo. Da geração de hoje para a minha geração, deve ter tido um aumento de estatura de 10 centímetros. O garoto de 17, 18 anos, bem alimentado, não tem mais cárie. A expectativa de vida no mundo, que era de 40 anos no início do século XX, hoje é 80. E eu digo isso porque consulto estatística, gosto muito de estatística. Todo ano leio o Year Book da Enciclopédia Britânica. Lá as estatísticas não são ideológicas. Além disso, nesse período você praticamente eliminou a dor e criou hábitos de higiene que atingem todo mundo. Eu me lembro quando fui pra Europa pela primeira vez, em 1952, hotéis bons só tinham banheiro no corredor. Fui nos dois melhores hotéis e você tinha um banheiro só para um monte de quartos.
Tecnologias e TVAcho que nós sempre estivemos a reboque da tecnologia. Hoje, as pessoas sabem muita coisa porque a informação da televisão é muito grande. Você pega um programa do Faustão, da Hebe Camargo, tem 30 milhões de pessoas vendo. Uma audiência de 30 milhões. Aí a coisa mais fácil é você dizer “estão acabando com a cultura. A TV está acabando com tudo”. Mentira. Essa gente que vê esses programas está aumentando sua capacidade de comunicação própria. Elas não leriam Dostoievski nunca. Elas não seriam carreadas para a chamada alta literatura. Agora o que acontece, ali mesmo você terá 1% ou 2% ou até 10%, o que é muita gente, de pessoas que lêem. No terreno prático, não no terreno subjetivo ou intelectual, você pega a novela que eu não sei o nome, sobre o Garibaldi, do Rio Grande do Sul (Millôr se refere à minissérie A Casa das Sete Mulheres), aquele romance não tinha vendido nada. Mas veio a novela e ele começou a vender. E muito. Isso significa, pra mal ou pra bem, que muita gente foi levada a ler também por causa da televisão.
Não às entrevistas
É engraçado. Não vou porque não vou. Mas não é por princípio, eu não tenho princípio, tenho horror a princípio. Tenho a minha vida, de vez em quando brinco, e é verdade, que sou indecentemente feliz. Moro há 50 anos na praia da Vieira Souto, você entende? Até hoje, pego meu calção de manhã e vou andar na praia ou vou para o Jardim de Alá. Depois, vou pro meu estúdio, vou ver meu programa da internet, vou ver minha televisão, vou ver o que tenho que escrever. E como sempre as pessoas me solicitando coisas… aí eu reajo violentamente. Não quero ser dirigido, quero ficar com minha vida. Não vou deixar de ir à praia, de duas vezes por semana receber minha personal trainner. O que eu apareço dá pra minha satisfação, pra minha vaidade. Por isso que não aceito certos convites.
Lula
 É evidente que a ignorância lhe subiu à cabeça, não tem dúvida nenhuma. Porque de repente ele começou a se sentir culto, falar sobre tudo. Já o nosso amigo Fernando Henrique o que falava de besteira também não era brincadeira. Eu não votei no Lula. Aliás, não votei no Lula determinadamente porque achei que ele ia ganhar de qualquer maneira. Então votei no Serra pra dar um voto pro outro lado. Eu também achava que o Tarso Genro era melhor quadro, que o Cristóvam era melhor quadro. Mas o Lula fincou o pé ali. O que vai acontecer agora é muito difícil dizer porque a coisa está muito difícil. A jogada internacional hoje é assustadora, nenhum de nós sabe o que está acontecendo por trás daquilo. Eu não tenho nenhuma competência pra dizer “acho isso ou acho aquilo”. Eu faço especulação.
Capitalismo e mudança
Eu não gosto da palavra revolução. Em geral todas as revoluções que vi e estudei dão dois passos pra frente e três pra trás. Se você pegar aquela história da revolução na URSS, que poderia ter sido a redenção do mundo, veja no que deu. Se comparar o socialismo com o capitalismo, o que acontece? O socialismo é uma idéia tão generosa, tão maravilhosa, essa coisa de você abrir mão de bens seus para beneficiar gente que não é seu primo, não é seu irmão, sua avó, pessoas que você não conhece, é tão generosa que não pode dar certo. Agora, o capitalismo está preso ao umbigo do ser humano. O ser humano quer tomar um pouco do outro, quer ter um pouco mais, quer ter um tapete embaixo dos pés que custa 5 mil dólares, mas não dá dinheiro pra empregada botar a filha no colégio. Então são as circunstâncias de pressão que vão fazendo com que isso mude. Já modificou muito, não tem dúvida.
Revolução humana
Pode ser que esteja errado, mas acho que a grande revolução do ser humano foi o dia em que o homem parou e disse “vou ficar aqui” e descobriu como domesticar o animal e plantar naquele local. O desenvolvimento da civilização não é constante, mas acontece o tempo todo. Estamos diante de milagres. Ninguém mais duvida de que em breve vamos ter um clone humano. Não sei se é bom, se é ruim, se é nada. São coisas que mostram que não estamos parados. Que o mundo está mudando muito.
Rio de Janeiro
A verdade é que no Rio nós vivemos num gueto. Há uma população que vive muito bem, mas pressionada pelas circunstâncias sociais que se chama hoje basicamente tráfico de drogas, com todas as suas implicações. Mas no início do século XIX o Rio de Janeiro era uma merda. Era um antro de doenças. Eu acho que, de modo geral, melhorou. Quer ver, hoje o celular presta um serviço inimaginável ao operário. Antigamente no Rio, tinha que deixar recado no telefone do bar da esquina e o cara não dava.
Dor, medicina e Glauco Mattoso
 Você pega o progresso que fez a odontologia, a oftalmologia… É assustador, o cara está operando com colírio hoje. Dizem que a Mary Stuart com 20 anos, 21, não tinha um dente. Tem uma história de que a rainha Elizabeth teve uma vez uma dor de dente e teve que arrancar. Mas ela não queria, estava apavorada, porque o cara chegava com um boticão. Não tinha outro jeito. Aí, um lorde, pra dizer que a dor era suportável, mandou arrancar um dente bom dele. Hoje ninguém duvida que se possa fazer um clone. A genética, a transgenética, tudo isso é uma coisa inacreditável de poder. Tem um médico amigo meu que me garante que daqui a 20, 30 anos a cegueira vai ser uma coisa rara. Você pega lá em São Paulo, o meu amigo Glauco Mattoso (poeta) está completamente cego. Ele é um gênio, acabou de lançar um livro novo, duca, é um louco, né? Um louco desvairado. Inclusive faz aquela coisa que considero fantasia. Chupa pé, chupa pé… ninguém chupa tanto pé (risos). Ele é maravilhoso. Ele fez 300 sonetos camonianos, 300 sonetos… é maravilhoso. Mas ele não é para aquela senhora ler (aponta uma mulher na outra mesa). Você dá pra ela ler “você dever ser enrabado todos os dias…” (risos). Ele faz isso.
Produção artística e cultural 
Eu vou ficar nas artes plásticas, mais controversas, ou que têm a maior merda evidente. Houve avanço, quando se saiu da prisão do realismo e se passou pra expressionismo, cubismo etc. Na música também e na poesia também você teve aquela coisa da métrica etc. Mas quando você se liberta, você dá acesso a muito mais gente. E muita gente que entra pelo ato de audácia de fazer. Porque antigamente, você, pra fazer um soneto, você tinha que aprender. A poesia evolui até onde? Você pode dizer que não vai mais fazer aqueles sonetinhos de antigamente etc. e tal, mas e os sonetos do Augusto dos Anjos, você não vai fazer? Será que os caras estão fazendo melhor do que aquelas coisas maravilhosas? Mesmo as coisas mais brandas, como Olavo Bilac, você pega meia dúzia que são importantíssimos. Você pega a poesia popular publicitária aqui do Rio, algumas que ficaram famosas “veja, ilustre passageiro, que belo tipo faceiro…”, quando eu te digo isso você dá um sorriso, porque imediatamente afeta. Será que só pode ser importante aquele verso difícil do Ezra Pound? Há uma poesia popular que te afeta diretamente, por mais culto, por mais capaz e exigente que você seja. A arte ficou muito melhor quando se libertou, quando deixou de ser restrita a mosteiros, quando deixou de ser para alguns. É assim com tudo.
Futebol e raça
Por isso eu não gosto de ficar endeusando as coisas difíceis, só as grandes. Ou como fazem alguns, que gostam de futebol, só falam do Garrincha, né, Ruy? (brinca com Ruy Castro, autor do livro Estrela Solitária, sobre o jogador). Tem um monte de jogadores bons hoje. Pega o Ronaldinho, ele é um grande atleta e uma grande personalidade. O Ronaldinho Gaúcho também é um belíssimo jogador de futebol. Você não vê ele se desviando pelos caminhos da sacanagem. Tem os mais novos que ainda estão em julgamento, como o Diego, o Robinho e o Kaká. Tá aparecendo muita gente boa. É uma coisa que acho curiosa, nesse aspecto, que é a famosa mistura da raça brasileira, não é isso? O Ronaldinho que é preto, o Ronaldinho Gaúcho que é preto. Aí aparece o Kaká e o Diego. Ninguém fez isso. É o Brasil fazendo isso. Não é um gueto de brancos e também não é aquilo de “vamos proteger o pretinho”. Acho que, aliás, hoje as pessoas já aprenderam que não podem chegar e dar um berro “e aí, crioulo”, que pode levar uma fubecada. Isso vai posicionando a questão. Agora, existe raça, as pessoas agora vêm com essa de dizer que não. As pessoas têm medo de dizer certas coisas. Uma coisa é raça e outra é racismo. A diferença genética que existe entre negros e brancos é enorme. Esse negócio de dizer que é igual, bobagem. Tem raça sim. Você tá vendo, um é negro e outro é branco, você tá vendo que são diferentes, por que fugir disso? Isso não é racismo porra nenhuma. É não ficar inventando teses para disfarçar, entendeu? O que diferencia não é dizer que é tudo igual, é não haver condições sociais iguais, entendeu?

29/03, estréia: Depoimento emociona elenco de “Memórias Torturadas – A Ditadura e o Cárcere no Paraná”

buscado no Molina



“Quando li fiquei perplexa. Ildeu é meu avô”. Essas foram as palavras que iniciaram um e-mail recebido pela produção do espetáculo “Memórias Torturadas 

– A Ditadura e o Cárcere no Paraná”, enviado por Catarina Rielli Vieira, neta do personagem central da trama, Ildeu, a poucos dias da estreia.
No texto, ela conta que falar sobre a ditadura e suas principais implicações na vida da família nunca foi fácil. “As burocracias com indenizações e outras coisas jurídicas, junto com reportagens que anulam a existência da ditadura no Paraná, e de notícias que mostram que os torturados estão soltos, apenas abrem a ferida que nunca se fechou. Há anos vejo meu pai e meus tios se emocionarem com filmes, músicas, documentários que dizem respeito a essa época. Não era fácil para uma criança ver as expressões de uma dor tão crônica sem entender porque. Hoje eu entendo essa dor, hoje essa dor faz parte de mim”, ressalta.
A peça, além de convidar o público pra uma imersão nas antigas dependências do Presídio do Ahú, traz à tona informações curiosas sobre a ditadura militar no Paraná. “A ditadura no Paraná existiu e o assunto não deve ser evitado como vem sendo há anos”, ressalta Catarina, que garantiu presença na estréia do espetáculo: “E aviso: eu, minha mãe, meu pai e meu tio estaremos na estreia. Será um momento histórico, depois de tantos anos, meu tio e meu pai voltarem ao mesmo lugar onde estiveram com frequência quando pequenos, dessa vez para tomar uma dose de lágrima de fênix”, finaliza.
Trama:
A peça conta a história de um homem e seu filho menor de idade que repentinamente são presos no Ahú e passam a conviver com torturas corporais e psicológicas.
Junto na minúscula cela, estão três outros personagens, ideólogos, que desenrolam conversas acaloradas, e muitas vezes fraternais, revelando informações sobre a luta pela democratização do país que deu início na década de 80 com as "Diretas Já". Estes diálogos trazem informações pouco conhecidas, como a secreta passagem de Che Guevara por Curitiba ou o maior esquema de guerrilha que se armava, no oeste paranaense.
Os fatos históricos são revelados e intercalam-se com as histórias pessoais e a angústia do cárcere humano. “É necessário compreender o valor da luta e do sangue vertido daqueles que deram suas vidas para que hoje tenhamos essa democracia. Entender o processo de democratização vai além de questões partidárias ou ideológicas, é saber sobre nossa identidade brasileira", aponta Hajar.
Ele reforça que a peça é dedicada àqueles que foram presos e/ou perderam a vida pela luta no afã de um estado democrático de direito.
O ineditismo do espetáculo está no tema sobre a ditadura militar no Paraná e o cenário. A montagem vem em boa hora, pois o Tribunal de Justiça irá transformar a Penitenciária do Ahú em Centro Judiciário Civil a partir de outubro deste ano.
Serviço
“Memórias Torturadas – A Ditadura e o Cárcere no Paraná”
DATA: Dias 29, 30 e 31 de MARÇO e 05, 06 e 07 DE ABRIL DE 2012
LOCAL: Penitenciária Ahú;
ENDEREÇO: Av. Anita Garibaldi, 750 – Ahú - Entrada de Segurança – portão grande (com sinalização);
HORÁRIO: 23h59
INGRESSOS: R$ 30,00/ R$ 15,00 


quarta-feira, 28 de março de 2012

Edson Luis – Ano 1968

buscado no Arquivo 68

 

AS MANCHETES
PM Mata Estudantes Durante Invasão (Correio da Manhã)
Assassinato (Correio da Manhã)
Assassinato Leva Estudantes A Greve Nacional (Jornal do Brasil)
Polícia Mata Estudante (Diário de Notícias)
A Ordem Era Quebrar Tudo: PM Acabou Massacrando Estudante
(Diário de Notícias)
 
Negrão Demite Superintendente Da Polícia E Promete Apurar Tudo
PM Fuzila Estudante No Cabouço (O Jornal)

Polícia Mata Estudante – Morte No Calabouço – Uma Patrulha Da PM Abriu Fogo Contra Os Estudantes No Calabouço – Com Um Tiro No Coração Morreu O Jovem Nélson Lima Souto De 17 Anos – Assembléia Reunida – O Corpo Do Jovem Foi Para A Assembléia Legislativa, Que Se Reuniu Em Sessão Permanente – A Tensão Deu Origem A Sucessivos Incidentes – Negão Pune Culpados – O Governador Negrão De Lima Reuniu O Secretariado E Afirmou Que A Tranqüilidade Será Imediatamente Restaurada E Os Culpados Punidos (Última Hora)
PM Mata Estudante A Bala Na Rua (Última Hora)
Nélson Morreu Nos Braços Dos Companheiros (Última Hora)
Milhares De Pessoas No Funeral Do Estudante (O Dia)

AS MATÉRIAS
“A preparação de uma passeata de protesto, que se realizaria hoje, contra o mau funcionamento do restaurante do Calabouço, cujas obras ainda não terminaram, foi a causa da invasão daquele estabelecimento, por choques da Polícia Militar, e que resultou no massacre de alunos e na morte do estudante Edson Luís Lima Souto, assassinado com um tiro de pistola calibre 45, pelo tenente Alcindo Costa, que comandava o Batalhão Motorizado da PM do local.Os estudantes foram surpreendidos com a invasão policial, tendo os soldados disparado rajadas de metralhadoras enquanto o tenente que comandava o choque gritava pelo megafone “parem de atirar, eu não dei ordem para ninguém atirar”. Logo depois, o mesmo oficial sacou sua arma e fêz os disparos, um dos quais atingiu Edson Luís Lima Souto. O corpo de Edson ainda foi levado para a Santa Casa, na Rua da Misericórdia. Ali, o médico Luís Carlos Sá Fortes Pinheiro anunciou que o aluno já estava morto. Seus colegas, em seguida, levaram-no para o saguão da Assembléia Legislativa, onde se formou uma fila de populares para velar o corpo, em meio a violentos discursos de vários líderes políticos.
O massacre policial continuou após a morte de Edson Luís Lima Souto e outros estudantes e curiosos foram feridos por estilhaços de granadas e bombas de gás lacrimogêneo indistintamente. (…)”
“Estudantes reuniram-se, ontem, no Calabouço, para protestar contra as precárias condições de higiene do seu restaurante. Protesto justo e correto. O Correio da Manhã, nesta mesma página, já condenou a inércia em que o Estado vem-se mantendo diante das reiteradas reivindicações estudantis. Apesar da legitimidade do protesto estudantil, a Polícia Militar decidiu intervir. E o fêz à bala. Há um estudante (18 anos) morto, um outro (20 anos) em estado gravíssimo. Um porteiro do INPS, que passava perto do Calabouço, também tombou morto. Um cidadão que, na Rua General Justo, assistia, da janela de seus escritório, ao selvagem atentado, recebeu um tiro na bôca. Êste o saldo da noite de ontem. Não agiu a Polícia Militar como força pública. Agiu como bando de assassinos. Diante desta evidência cessa tôda discussão sôbre se os estudantes tinham ou não razão – e tinham. E cessam os debates porque fomos colocados ante uma cena de selvageria que só pela sua própria brutalidade se explica.
Atirando contra jovens desarmados, atirando a êsmo, ensandecida pelo desejo de oferecer à cidade apenas mais um festival de sangue e morte, a Polícia Militar conseguiu coroar, com êsse assassinato coletivo, a sua ação, inspirada na violência e só na violência. Barbárie e covardia foram a tônica bestial de sua ação, ontem. O ato de depredação do restaurande pelos policiais, após a fuzilaria e a chacina, é o atestado que a Polícia Militar passou a si própria, de que sua intervenção não obedeceu a outro propósito senão o de implantar o terror na Guanabara. Diante de tudo isto, depois de tudo isto, é possível ainda discutir alguma coisa? Não, e não. (…)” Correio da Manhã, 29 de março de 1968.
“A morte do estudante Édson Luís de Lima Souto, de 16 anos – baleado no peito, às 18h30m de ontem, durante um coflito da PM com estudantes no Restaurante do Calabouço – provocou a greve geral de várias Faculdades do Rio e o movimento deverá estender-se pelo País. O corpo da vítima, que está sendo velado na Assembléia Legislativa, sairá às 16 horas de hoje para o Cemitério São João Batista.
Os acontecimentos agitaram a sessão noturna da Câmara dos Deputados onde o Sr. Lurtz Sabiá pediu que o Congresso fique em sessão permanente, e o Deputado Brochado da Rocha sugeriu que as duas Casas do Congresso se transformassem em Comissão Geral para investigar os fatos ocorridos no restaurante dos estudantes. O Congresso Nacional e a Assembléia Legislativa da Guanabara decretaram luto. O Ministro da Justiça, Sr. Gama e Silva, saiu de Brasília e voltou ontem à noite ao Rio.
O Governador Negrão de Lima, numa reunião de mais de duas horas com o Secretário de Segurança, General Dario Coelho, e outras autoridades, no Palácio Guanabara, decidiu afastar o General Osvaldo Niemeyer da Superintendência da Polícia Executiva, para que os acontecimentos sejam apurados com tôda a isenção. Ficou também decidida a instauração imediata de inquérito policial a ser orientado por um membro do Ministério Público.
Todos os estabelecimentos de ensino do Estado não funcionarão hoje em sinal de pesar pela morte de Édson Luís, por determinação do Sr. Negrão de Lima. Alguns teatros do Centro e da Zona Sul, que estavam funcionando quando se verificou o atrito entre a PM e os estudantes, suspenderam os espetáculos em sinal de solidariedade – e o público, ao ser inteirado do motivo, aplaudiu de pé.
O Sr. Carlos Lacerda não se alterou ao receber, em São Paulo, a notícia da morte do estudante. Êle falava no Painel de Debates da Assembléia Legislativa de São paulo, promovido pelo MDB, quando recebeu um bilhete sôbre os acontecimentos do Rio. Fêz uma pausa no discurso, leu o comunicado e declarou: “Não acredito que o Sr. Negrão de Lima seja o responsável”. Em seguida, prosseguiu no seu pronunciamento.
Na Câmara Federal, as galerias ficaram lotadas de estudantes, que aplaudiram sucessivos pronunciamentos dos deputados da Oposição. O presidente do Congresso, Sr. Pedro Aleixo, ameaçou várias vêzes de mandar retirar os manifestantes. Em defesa do Govêrno – sempre atacado pela Oposição – falou apenas o Sr. Último de Carvalho. Leu um texto oficioso, afirmando que já estava prevista, há algum tempo, a passeata dos estudantes, “empunhando as bandeiras do Brasil e do Vietcong”.
Há, por enquanto, duas versões para o atrito de ontem à noite no restaurante dos estudantes: 1) estes jantavam, pacificamente, enquanto outros assistiam a uma aula, quando um choque da PM, chefiado por um tenente de nome Alcindo ou Costa, invadiu o restaurante e iniciou o espancamento, ao qual os estudantes reagiram com pedradas que, por sua vez, provocaram tiros; 2) os estudantes teriam sido colhidos pela PM, em plena manifestação contra o atraso na conclusão das obras do restaurante.
Além do estudante morto, do outro ferido a tiro e de vários espancados pela PM, houve mais uma vítima: o comerciário Telmo Matos Henriques, ferido na bôca por uma bala quando estava à sua mesa de trabalho, numa firma próxima. O choque da PM retirou-se do restaurante desfechando tiros para o ar – e na passagem por uma galeria deixou nas paredes marcas de balas que, segundo testemunhas, seriam de metralhadoras.
O estudante Édson Luís foi conduzido pelos companheiros, à Santa Casa de Misericórdia, onde, constatada a sua morte, iniciou-se o cortêjo rumo à Assembléia Legislativa. O corpo foi erguido nos braços da multidão que entoava o brado “polícia assassina” ao dar entrada na Assembléia. Ali houve, durante a noite, vários comícios estudantis, de protesto violento contra o Govêrno – e uma multidão postou-se, até à madrugada, na expectativa dos acontecimentos.
Em visita à Assembléia, o General Niemeyer defendeu os policiais. Indagado por que a polícia atirara, respondeu:
- A polícia estava inferiorizada em potência de fogo.
- Potência de fogo? É arma?
- É tudo aquilo que nos agride. Era pedra.” Jornal do Brasil, 29 de março de 1968.
“A ordem era “quebrar tudo” e foi cumprida. A PM cercou o Calabouço; depois, houve a invasão e o massacre. A princípio, foram os cassetetes; a seguir, os revólveres. O ataque só foi suspenso quando havia um morto no chão: Nelson Luís Lima, uma bala no coração. Outro estudante – Benedito Frasão Dutra, 20 anos – escapou com vida, fingindo-se de morto. Sèriamente ferido, foi conduzido pelos companheiros juntamente com o corpo do estudante-mártir, até o saguão da Assembléia Legislativa. As violências nào terminaram: a ordem era prender. Mais tarde vieram as bombas de gás lacrimogenio e o número de feridos multiplicou-se.
O massacre virou crise. O Sr. Negrão de Lima reuniu-se com todos os auxiliares. SNI presente. Aulas de hoje estão suspensas. Luto é geral: escolas, diretórios, a própria Assembléia. O general Osvaldo Niemeyer foi afastado; determinou-se abertura de inquérito. Parlamentares pediram a queda de tôda a cúpula da PM. A camisa do jovem morto foi erguida como estandarte por seus colegas: o protesto continua. Os diretórios acadêmicos de tôdas as faculdades decretaram greve geral e marcaram assembléia para hoje. Os teatros da Guanabara fecharam e os artistas hipotecaram solidariedade aos estudantes, ficando em luto oficial durante três dias. Pedido o afastamente de Dario Coelho. O governador mandou prender o tenente assassino. O sepultamento será às 16 horas, no Cemitério de São João Batista, por conta do Estado.”
” “Vão lá e quembram tudo”: a ordem do comandante do choque foi cumprida e, minutos depois, no Calabouço, usando revólveres e cassetetes, a Polícia Militar iniciou o massacre dos estudantes, só parando de bater quando já havia um morto – Nélson Luís de Lima Souto, 16 anos – e vários feridos, a bala, a socos e a coronhadas.
Os jovens estavam reunidos no restaurante, quando foi ordenado o cêrco – seis carros da PM fechando tôdas as saídas – e, logo que os policiais abandonaram suas posições, os moços saíram em direção à Assembléia, levando nos braços um companheiro morto e outro agonizante, para a manifestação de protesto, até a madrugada.
Às 18 horas de ontem, cêrca de 600 estudantes reuniam-se no Calabouço, esquematizando a passeata em que reivindicariam a conclusão das obras do restaurante e do Instituto Cooperativo de Ensino. De repente, surgiram os carros da PM e o cêrco foi feito: dois na frente do prédio, quatro atrás. Às 18h30m, os policiais avançaram, em direção à entrada do restaurante. Quando ocorreu a invasão, os estudantes procuraram defender-se, usando pedras e sacos de areia.
Começaram os disparos: os soldados da PM atiravam para o alto, de início, mas logo passaram a acionar suas armas em tôdas as direções, tanto que chegaram a atingir um comerciário que assistia a tudo, da janela de uma firma comercial. Nélson Luís de Lima Souto foi o primeiro a cair: uma bala no coração derrubou-o na hora. Logo depois, outro estudante recebia dois tiros: no braço e na cabeça. Só então veio a ordem do comandante do choque: iniciar a retirada. (…)” Diário de Notícias, 29 de março de 1968.
“O fuzilamento de estudantes no Calabouço, que provocou a morte do menor Nelson Luiz Lima Souto, levou o governador Negrão de Lima a demitir o general Oswaldo Niemeier Lisboa do cargo de Superintendente da Polícia Executiva, como primeiro passo visando a que o inquérito que vai apurar os responsáveis pelo massacre “não fique sòmente no âmbito policial”. Vários outros feridos, entre populares que assistiam às manifestações, estudantes e jornalistas foram medicados no Pronto Socorro, uns atingidos pelos cassetetes dos Pms, outros pelos estilhaços das bombas e balas.
Às 22 horas, o general José Horácio da Cunha Garcia, comandante do I Exército, decretava a prontidão em tôdas as guarnições da Guanabara. Os estudantes contrataram o advogado Sobral Pinto como seu patrono no processo de punição do autor ou autores da morte de Nelson Luiz.
Enquanto isso o governador Negrão de Lima lamentava a violência policial e decretava luto oficial, hoje, em tôdas as Escolas Públicas, com suspensão das aulas. O governador acentuou também que os estudantes terão “toda a liberdade” para fazer o entêrro de seu colega morto e, por sua ordem direta, foram soltos os 14 estudantes presos nos incidentes.
O secretário de Imprensa da Presidência da República, jornalista Heráclio Sales, decretou, em Brasília, que o presidente Costa e Silva estava plenamente informado, através do Ministério da Justiça, de tôdas as ocorrências na Guanabara e que o Govêrno estava “adotando as providências necessárias para a manutenção da ordem”. Ontem, à noite, veio de Brasília para o Rio, com instruções do titular da Justiça, o coronel Florismar Campelo, diretor-geral do Departamento Federal de Polícia, e hoje deverá chegar ao Rio o ministro Gama e Silva.
Os estudantes não concordaram em que o corpo de Nelson Luiz saísse da Assembléia Legislativa e a uma e meia da madrugada foi feita a autópsia no local onde o estudante está sendo velado. Em Belo Horizonte, universitários reunidos no Centro Acadêmico Afonso Pena fizeram uma série de protestos, com comícios no recinto da Faculdade de Direito. Também os universitários da Faculdade de Direito do Estado da Guanabara decretaram luto oficial por três dias e propuseram às demais Faculdades o não comparecimento às aulas, hoje, em sinal de protesto.
Os acontecimentos também tiveram pronta repercussão no Congresso, que, reunido à noite, suspendeu o início da discussão do chamado projeto dos ociosos, para que diversos oradores abordassem a situação na Guanabara. O Sr. Raul Brunini foi o primeiro orador, fazendo um relato das ocorrências e condenando “o vandalismo e a covardia da Polícia”. O Sr. Mariano Beck falou em seguida, para expressar a solidariedade gaúcha ao povo carioca, o mesmo fazendo o Sr. Pereira Pinto, em nome da bancada do Estado do Rio. Diversos outros oradores sucederam-se na tribuna, inclusive o lider do MDB, deputado Mário Covas, que responsabilizou diretamente o governador Negrão de Lima pelos acontecimentos. A sessão se prolongou até às duas horas da madrugada.” O Jornal, 29 de março de 1968.
“O estudante Nelson Luis Lima Souto, de 17 anos tombou com um tiro no coração quando a polícia militar invadiu o Calabouço, na tarde de ontem, iniciando um massacre que resultou em grande número de feridos e provocou um clima de tensão em todo o centro da cidade. O comandante do choque da PM, Tenente Alcindo, é acusado pelos estudantes de ter assassinado Nélson a sangue-frio, encostando a arma em seu peito. Grande área do aterro foi transformada em campo de batalha, com os soldados da Polícia Militar disparando armas de fogo contra os estudantes, que denunciaram a participação de tropas da Aeronáutica, utilizando metralhadoras.”
“Três choques da PM e a guarnição de duas viaturas de patrulha chegaram ao Calabouço no momento em que os estudantes organizavam a passeata de protesto contra o aumento de precos das refeições e a demora na conclusão do restaurante. Auxiliados por uma tropa da Aeronáutica, entraram no restaurante disparando suas armas e dois estudantes cairam feridos: Benedito Frazão Dutra e Nélson Lima Souto. Este morreu pouco depois, nos braços dos companheiros. Outro tiro feriu o comerciante Talmo Henrique, em seu escritório.” Última Hora, 29 de março de 1968.
“Milhares de pessoas desfilaram, das 6 às 15 horas de ontem, diante do corpo do estudante Nélson Luís Lima Souto, que foi velado na saguão da Assembléia Legislativa depois da autópsia feita pelo legista Nilo Ramos. O corpo estava envolto na Bandeira Nacional e se achavam sôbre o peito dois têrços, cravos e um caderno de Geometria, que pertencia ao extinto. Um representante da Casa do Pará colocou sôbre o corpo uma Bandeira do Pará, terra natal do estudante. Mais de trinta coroas foram enviadas à Assembléia por estudantes sindicais e estudantis.
Cêrca de vinte pessoas, das quais apenas um homem, sofreram crises emocionais. Uma senhora idosa caiu em prantos. Um aluno do Pedro II disse à reportagem: “Antes havia greves e não matavam estudantes”. A jovem Carmem Santos Corrêa, que estava nos jardins da Cinelândia, teve mal súbito, sendo medicada no Hospital Sousa Aguiar.
Cinco mil pessoas, aproximadamente, se aglomeravam em frente à Assembléia, não se notando, nas proximidades, policiais fardados, mas apenas agentes do DOPS e do SNI. O trafégo foi desviado para a Avenida Rio Branco e Rua evaristo da Veiga.
Até às 15 horas, os estudantes haviam recebido, de donativos, três mil cruzeiros novos, que se destinarão à construção de uma estátua, em homenagem ao morto, em frente ao Restaurante Central dos Estudantes. o restante, segundo ficou deliberado, seria enviado à família do estudante, em Belém do Pará e custearia os funerais, pois foi recusado o oferecimento do Govêrno estadual.
A Srta. Cléia Martins, prima, em segundo grau, de Nélson Luís e também comensal do Restaurante Central, disse que teve conhecimento da morte através do rádio.
Com a presença de milhares de pessoas, na grande maioria estudantes, realizou-se, às 19h30m de ontem, no Cemitério de São João Batista, o sepultamento do jovem Nélson Luís de Lima Souto, abatido a tiro durante um conflito ocorrido no Calabouço, quando membros da Cooperativa de Ensino estavam reunidos para acertar detalhes visando à realização de uma passeata de protesto.
O féretro deixou o recinto da Assembléia Legislativa, onde o corpo foi velado, às 16h20m e seguiu por várias artérias da cidade, onde ocorreram alguns incidentes sem gravidade. O enórme número de acompanhantes atrasou sensívelmente o entêrro, já que o caixão teve de permanecer por mais de uma hora à porta do Cemitério, aguardando que a massa humana fôsse retirada da frente.
Com colegas do morto revesando-se na condução da urna mortuária, o cortejo fúnebre tomou a Avenida Beira-Mar, seguindo, após, pela Praia do Flamengo, onde em frente ao prédio da extinta UNE, um grupo de estudantes queimou uma bandeira americana, usando da palavra na oportunidade, os representantes da FUEG Flademir Palmeira e Luís Brito.
Na Praia de Botafogo, utilizando-se de pedras, os participantes do féretro foram quebrando tôdas as lâmpadas dos postes. Na Rua da Passagem pediram a dois guardas que tirassem o quepi à passagem do corpo. Os policiais se recusaram e os estudantes jogaram seus quepis longe, o que quse originou nôvo conflito.
Cêrca de 18,20 horas, o cortejo aproximou-se do Cemitério São João Batista, onde já se encontravam duas tias da vítima, senhoras Virgília Souto e Enedina Souto Pauferro, esta última espôsa do 1o Sargento da Aeronáutica Manuel Pauferro. Dezenas de coroas, a maioria ofertadas por Diretórios Estudantis, foram depositadas na quadra 14, em frente à gaveta 602, última morada do jovem Nélson Luís. Os gritos de “vingança” e de “assassinos” se sucediam, ao mesmo tempo em que faixas eram desfraldadas. Entre elas registramos uma dirigida às mulheres: “Senhoras, Nélson poderia ser seu filho”.
Às 19,10 horas o caixão alcançou a entrada da quadra 14, um corredor com menos de dois metros de largura. Não pôde porém aproximar-se da gaveta 602, situada ao fundo, pois a massa humana invadiu o corredor, ansiosa por ocupar um lugar privilegiado, onde pudesse acompanhar as últimas homenagens que seriam prestadas ao estudante assassinado. (…)
Dez minutos mais tarde, a urna com o cadáver de Nélson Luís foi depositado na gaveta. Grupos de estudantes continuavam a clamar pr vingança, enquanto rasgavam outra bandeira americana, com o fogo quase chegando à multidão. (…)” O Dia, 30 de março de 1968.

28 de março de 1968: tombava Edson Luis..

buscado no Lingua Ferina 



Jornais dos dias seguintes ao assassinato do estudante no interior do restaurante Calabouço, no Rio. Edson foi o primeiro estudante assassinado pela Ditadura Militar brasileira  e sua morte marcou o início de intensas mobilizações contra o regime militar que endureceu até decretar o chamado AI-5, em 13 de dezembro de 1968.


 Centro de Cidadania Presidente Médici, rebatizado de Edson Luis, em Fortaleza.

terça-feira, 27 de março de 2012

Por um punhado de dólares

buscado no Terrorismo Climático

 


Rogério Arioli Silva *
 
   
No filme de 1964 (nome original: a Fistful of Dollars) o pistoleiro sem nome estrelado por Clint Eastwood e apelidado de Joe pela população local, percebe a possibilidade de ganhar dinheiro intermediando ações de dois grupos rivais, um deles contrabandista de bebidas e outro de armas. A história é ambientada em San Martin, um pequeno vilarejo na fronteira entre México e Estados Unidos onde a lei inexiste, e sobrevivem os mais fortes. A San Martin brasileira chama-se Jacareacanga no Pará e o Joe da atualidade bem poderia ser o irlandês Ciaran Kelly atual CEO da Celestial Green Ventures empresa dublinense líder mundial do mercado voluntário de créditos de carbono.

Ao deparar-se com uma terra sem lei, no caso o Brasil, este esperto irlandês protagonizou a mesma história do faroeste da década de 60, aproveitando-se da miséria indígena e do contrabando de irresponsabilidades onde se confundem ONGs, FUNAIs e parte da Justiça brasileira que, com o argumento de proteger os indígenas, entrega o patrimônio nacional e, agora, faz de conta que não sabia de nada.


Notícias dão conta de que 20 milhões de ha, ou seja, uma área do tamanho da Suíça mais a Áustria juntas, já foram negociadas pela Celestial Green Ventures em 17 projetos que totalizam seis bilhões de t de carbono. Assim, grandes empresas podem continuar emitindo CO2 pelo mundo afora que os silvícolas brasileiros se encarregarão de deixar suas áreas intocadas, armazenando o carbono emitido pelos ricos poluidores. Este processo, batizado como REED (reduções por desmatamento evitado), tem sido discutido desde 2003 na COP -9 e a partir daquela época tem sido aperfeiçoado (?), sem que haja consenso da sua melhor utilização. Fato é que a simples compensação do C02 emitido pelos poluidores através da compra do carbono estocado na floresta tropical não garante que se tenha um clima melhor no futuro, paralisando o famigerado aquecimento global, servindo apenas para proporcionar status de “politicamente correto” às empresas adquirentes deste crédito.


Enquanto a discussão segue, com dezenas de ONGs patrocinando a FUNAI e seus fajutíssimos estudos antropológicos, com o objetivo de aumentar cada vez mais as reservas indígenas brasileiras e participar deste grande negócio, surgem os espertalhões como a Celestial Green negociando direto com os índios e deixando todos os envolvidos com aquela incômoda sensação de crescimento auricular. Trata-se de um enorme filão, pois estimativas dão conta de que as florestas tropicais possuem 15% da superfície terrestre e contêm 25% de todo o carbono existente na biosfera.


Fica clara agora a imagem de alguns líderes europeus circulando pelo mundo com os índios brasileiros a tiracolo, com o argumento da preocupação de preservarem-se os direitos dos povos da floresta. O que está em curso há muito tempo é a implantação de uma moderna governança florestal através da criação da Comunidade Indígena Internacional para gerir toda esta riqueza com sendo “patrimônio da humanidade”. Aos menos desavisados basta que pesquisem toda a chamada “calha norte brasileira” e suas reservas indígenas já interligadas, prontas para virar uma nova nação independente a ser administrada pelos defensores do meio ambiente (dos outros).


A Raposa-Serra do Sol, desapropriada em área contínua pelo STF, foi apenas mais uma das muitas que estão em gestação, com o apoio de muitos engajados neocapitalistas entre os quais, grande parte da sociedade brasileira utilizada ingenuamente neste processo.


A Ministra do Meio Ambiente, coitada, com cara de quem caiu de um caminhão de mudanças tem medo de que a valorização da biodiversidade tropical brasileira abra as portas para a biopirataria. Já abriu faz um tempinho, Senhora Ministra. Agora escancara as portas que sobraram para o mercado voluntário dos créditos de carbono onde os índios venderão por uma “merreca” o bilionário patrimônio brasileiro armazenado nas suas florestas tropicais. Melhor pros índios que não agüentam mais as promessas vagas do indigenismo sem resultados. Tomara que, pelo menos, saibam gastar seu punhado de dólares com a melhoria de sua qualidade de vida ao invés de permanecerem como “museus vivos”, situação ainda defendida por alguns antropólogos e indigenistas radicais.


No faroeste antigo Clint, ou se quiserem, Joe, surgia como o mocinho alto e musculoso com o cigarro no canto da boca e, os bandidos por sua vez, apareciam como mexicanos gordinhos, sujos e foras-de-forma. No cenário atual, os mocinhos já se sabe quem são. Os bandidos ainda não foram apresentados, mas bem poderíamos ser todos nós, que ainda insistimos nesta história de soberania nacional, um assunto que já está muito fora de moda nos dias de hoje.


* O autor é Engº Agrº e Produtor Rural no Mato Grosso.

segunda-feira, 26 de março de 2012

A voz dos muitos!

O rapaz falou, frente aos policiais, como se vê no vídeo, durante três minutos. Disse [aqui traduzido, na medida do possível e todas as correções são bem-vindas]:


“Acho que vocês também são gente, só que só sabem obedecer ordens. Que ideia mais estúpida é essa de nos tratar como se fôssemos bandidos? Por que vocês não acordam e largam essa vida fodida de vocês? Não entendo como é possível que um homem faça isso da própria vida. Eu, que sou um João ninguém, posso parar aqui e falar o que penso. Vocês, nem isso podem fazer. De onde tiraram a ideia de que nós algum dia desistiremos? Será que nunca passa pela cabeça de vocês que só um passo nos separa? Que é só resolver viver com mais dignidade e, pronto, vocês têm todo o direito de viver melhor, de serem mais felizes? Onde já se viu isso? As pessoas estavam se manifestando sossegadas. Vocês chegaram como doidos, prenderam gente, feriram gente. Que sentido tem isso? E agora? Estamos aqui, outra vez. De que adiantou aquela loucura toda de vocês? Estamos vivendo. E vocês aí, fazendo esse papel idiota, fodendo a vida de vocês. Estou falando com vocês, não porque tenha mais poder que vocês. Mas eu quero falar e falo. E vocês? Será que são tão idiotas que não percebem nem isso? Que eu não sou bandido? Vão com Deus. Beijos nas crianças.”
Dizia-se aqui na ocupação, que o nome dele é Daniel Murphy.
Tem nas mãos uma faixa do movimento Occupy Wall Street. Um segundo antes, estive conversando com ele. Estava sentado no meio fio. Disse que não dormia há 24 horas. Que foi preso duas vezes e espancado duas vezes, naquelas últimas 24 horas. Que saiu de casa para participar da Marcha “Eu sou Trayvon Martin” – que reuniu mais de um milhão de pessoas e converteu-se, no final, em reocupação de Union Square.

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