sábado, 2 de junho de 2012

Helio Fernandes relembra o AI-5


Helio Fernandes relembra o AI-5, que passou à História apenas como sigla. Foi tão selvagem, cruel e ditatorial, que não precisava mais nada.

O comentarista Jose Guilherme Schossland oportunamente nos envia essa pérola, um artigo de Helio Fernandes publicado no ano passado 2010 sobre o aniversário do AI-5.

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Esse 13 de dezembro é inesquecível. Não apenas para os atingidos, cassados, presos e desaparecidos, mas também para todo o país. Não começou nesse dia 13, vinha de antes, muito antes, na vontade de alguns, e na execução de alguns outros. E a palavra execução define e desarvora tudo.
Acho, não tenho certeza, que é a primeira vez que escrevo sobre esse “documento único” na História do Brasil, Monarquia ou República. Vou me prender, que palavra, apenas a fatos, nenhuma divagação, análise anterior, suposição ou seja o que for. Aqui, o que aconteceu a partir da divulgação desse Ato Institucional número 5, que como todos sabemos, se transformou histórica e ditatorialmente apenas numa sigla.
Retrocesso no tempo, apenas de uma semana, com duas participações de Djalma Marinho, extraordinária figura. No dia 5 de dezembro de 1968, eleição para presidente da Câmara, Djalma contra Nelson Marchesan, do Rio Grande do Sul, apoiado pela ditadura.
Eu era tão amigo de Djalma que não pude deixar de ir a Brasília. Assisti pessoalmente o massacre do deputado do Rio Grande do Norte. Ele era presidente da Comissão de Constituição e Justiça, que uma semana depois julgaria a licença para processar o jornalista-deputado do MDB, Marcio Moreira Alves.
Trocaram todos os oposicionistas da Comissão, ofereceram a Djalma Marinho não só a vitória para presidente da Câmara, mas o que ele quisesse. Os homens como Djalma jamais querem alguma coisa, resistência é o único objetivo, a recompensa. A obrigação do dever cumprido, sem lamento, ressentimento, aborrecimento, mas também sem dar a impressão de heroísmo.
No dia seguinte vim para o Rio. Tudo o que atingiria a muitos (cassação, prisão, censura, mais perseguição) já acontecera ao repórter há muito tempo. Também não podia fazer nada, a censura era brutal e de corpo presente, existiam quase tantos censores (policiais) quanto repórteres, um clima apavorante.
No dia 12 foi votada a licença para processar o jornalista, apenas um pretexto para ENDURECER o mais possível. Posso dizer com total segurança, não se esperava a derrota do governo ditatorial, a mobilização foi espantosa. Até o senador Daniel Krieger, um homem de sensibilidade, teve que trabalhar pela CASSAÇÃO do deputado. Embora senador e a votação fosse na Câmara, foi requisitadíssimo, principalmente pelo carrasco-mor, o Ministro da Justiça, Gama e Silva.
Queriam terminar tudo no dia 12 mesmo, Costa e Silva estava no Rio, no Laranjeiras, deu ordens ao Chefe da Casa Militar, Jayme Portela, D-U-R-Í-S-S-I-M-O: “Não quero ver ninguém, nem atender telefone”. (Ainda não havia celular, claro).
Costa e Silva ficou no segundo andar, com dois amigos civis, sem cargos no governo. Viu filmes (bangue-bangue, que adorava) até por volta de 3 da manhã. Não dormiu, lógico, quem dormiria com quase todos os oficiais das três Armas contra ele?
Só atendia o general Portela, que lhe dizia invariavelmente: “Gama e Silva precisa falar com o senhor, com urgência”. O presidente desligava, ou dizia: “Amanhã, amanhã resolveremos”. O Ministério da Justiça, ponta de lança dos militares mais ansiosos ou exaltados, não parava de agir, se considerava o mentor de tudo.
No dia seguinte, 13 de dezembro, Costa e Silva determinou ao Chefe da Casa Militar, que convocasse reunião ministerial no próprio Laranjeiras, às 13 horas. Discutiram pouco, não houve debate, todos estavam A FAVOR, mesmo alguns que no passado combateram ditaduras ostensivas ou não.
Costa e Silva, surpreendentemente ou para se vingar, já que sabia que estava praticamente deposto pelo Alto Comando, dizia o nome do Ministro e perguntava: “Como vota o senhor Ministro?”. Só o coronel Passarinho, narcisista e exibicionista, fingiu que pensava, demorou um pouco, e explodiu: “Presidente, VOTO A FAVOR do Ato Institucional, ÀS FAVAS COMO OS ESCRÚPULOS”.
O documento já estava redigido, Costa e Silva assinou tudo, o que fazer? Às 20,30, em cadeia da Agência Nacional, o AI-5 foi lido pelo locutor Alberto Cury, irmão de Jorge Cury e do cantor Ivon Cury. Era o fim de um período, a imposição de um regime que sacrificou a todos, incluindo o próprio presidente. Que não sobreviveu, morreria menos de um ano depois, já fora considerado INCAPACITADO.
Eu estava em casa, naquela época existiam jornais MATUTINOS e VESPERTINOS. Os matutinos saíam entre meia-noite e 1 da madrugada, os vespertinos (Tribuna, Globo, Correio da Noite) começavam a circular ao meio-dia. Trabalhávamos até as 6 da tarde, voltávamos às 6 da manhã, fechávamos, rodávamos e circulávamos, por volta de meio dia.
Ouvi a leitura do documento, comecei a me vestir. Rosinha me perguntou: “Você acabou de chegar, vai sair?”. Abraçando-a carinhosamente (o que até hoje é redundância ou pleonasmo), respondi: “Serei preso imediatamente, prefiro ser preso no jornal. Além do mais, tenho que tomar várias providências.
Já ia saindo, o telefone tocou, Rosinha atendeu, disse: “Helio, é o Carlos Lacerda”. Peguei o telefone, disse: “Você talvez seja a única pessoa que eu atenderia, estou indo para o jornal, no Rio devo ser o primeiro a ser preso, a Tribuna fica a 100 metros da Polícia Central”. O ex-governador, simplesmente: “E eu?”.
Respondi sem qualquer dúvida: “Carlos, você será preso e cassado”. Aí, do outro lado, um rugido e a resposta: “Não vou ser preso nem cassado, você está acostumado a adivinhar e acertar, mas essa você vai errar completamente”. Desliguei, o que fazer?
Cheguei ao jornal por volta das 10 horas da noite. Às 11 horas e quase 45 minutos, fui preso. Levado para a Polícia Central, quando entrava naquele edifício tétrico e assustador, o relógio macabro marcava exatamente meia noite, os dois ponteiros se divertiam. O repórter não demonstrava, mas como em outras oportunidades, assustadíssimo e com medo, mas não deixando ninguém perceber.
Me levaram para o Regimento Caetano de Farias, fiquei satisfeitíssimo: eu não fora o primeiro a ser preso, entrei num matagal sujíssimo (mas enorme, o que era ótimo), de lá do fundo surgiu a figura de Osvaldo Peralva. Grande jornalista, Redator-Chefe (como se chamava na época) do “Correio da Manhã”, intimíssimo amigo, ficamos conversando, não havia onde dormir. Até a manhã do dia seguinte, já 14, não apareceu mais ninguém.
Às 8 horas da manhã, quem chegava, evidentemente preso? Carlos Lacerda. Me abraçou como se não tivéssemos falado na véspera, garantiu: “Está bem, Helio, você acertou pela metade, estou preso mas NÃO SEREI CASSADO.
Respondi sem hostilidade, mas sem mascarar a realidade: “Está certo, trouxeram você para cá, apenas por diversão”.
Fomos todos levados para uma estrebaria (o quartel era um centro hípico), dormíamos no chão, não era o mais importante. Chegaram dois advogados que não conhecíamos. Às duas da tarde, uma festa: a entrada de Mario Lago, que foi preso no Teatro Princesa Isabel. Estava de saiote (fazia um personagem da Escócia), foi logo dizendo: “Aqui só quem me conhece é o Helio e o Carlos Lacerda, estou vestido assim, mas não sou viado”. (Na época era dito assim mesmo).
Eu e Lacerda tivemos momentos ótimos, de recordações, e péssimos, de crítica minha a ele. Lacerda só ficou do dia 14 até 22, eu, Peralva e Mário Lago ficamos até o dia 6 de janeiro, “Dia de Reis”. Os ditadores, geralmente, entre uma tortura e outra, são muito católicos.
Carlos Lacerda mandou um filho falar com o Cardeal (amigo dele), outro conversar com o general Sizeno Sarmento (que fora Secretário de Segurança dele governador), e o terceiro foi a São Paulo ver o que Abreu Sodré, grande amigo dele (e “governador”) podia fazer.
***
PS – Um dia disse a ele, que não gostou: “Carlos, preso não pede nem concede nada. Resiste e pronto”. Passamos Natal e Ano Novo lá, Lacerda não.
PS2 – No dia 30, soubemos, Lacerda foi cassado, nenhuma surpresa, só para ele. No dia 2 de janeiro de 1969, viajou para a Europa, ficaria lá mais ou menos 3 ou 4 anos. Teve a generosidade de ir se despedir de mim e de Mario Lago.
PS3 – Nunca mais participou de nada, voltou em 1973, se enclausurou na Nova Fronteira, editora que adorava. Nunca mais nos vimos. Morreu em 1977, de forma estranhíssima, da mesma morte sem explicação válida que atingiu Juscelino e Jango.
PS4 – Tinha 63 anos. Na prisão, num momento de calma, confessou: “Vou viajar, só volto à política para ser presidente”. Morreu dois anos antes da ANISTIA AMPLA, GERAL E IRRESTRITA.
PS5 – O país paga até hoje, nunca se reabilitou. Apesar de muitos acreditarem que tudo vai bem, “e que Dona Dilma será a salvação da lavoura”, como se dizia antigamente.”  

fonte:Tribuna da imprensa


sexta-feira, 1 de junho de 2012

Nas telas e nas ruas, Chile redescobre Violeta Parra

buscado no Opera Mundi


Um filme, um memorial, milhares de vozes a reivindicar um Chile mais justo. No momento em que a mobilização de estudantes por educação pública e gratuita sacode o país, a vida e a obra de Violeta Parra (1917-1967) parecem mais atuais do que nunca. Com sua história retratada nas telas do cinema, é ao som de uma canção da compositora, artista plástica e folclorista chilena que os jovens abalam o governo do conservador de Sebastián Piñera. A música, ou hino, como preferirem, é Me gustam los Estudantes:


¡Que vivan los estudiantes!
Que rugen como los vientos
cuando les meten al oído
sotanas o regimientos
Pajarillos libertarios
igual que los elementos
Caramba y zamba la cosa
¡Vivan los experimentos

Os versos não são um ponto fora da curva na carreira de Violeta, considerada uma das fundadoras da música popular chilena. O conteúdo político das letras refletem uma militância que sempre fez parte de sua vida.
Violeta Parra nasceu na pequena cidade de San Carlos, na província de Ñuble, aos pés da Cordilheira dos Andes. Uma região sem flores, onde florescia, porém, o folclore indígena que ela levaria para todo o mundo. Cresceu num ambiente onde sua pele parda era comum, e a música, tão valiosa, estava entre as poucas coisas que abundavam.
ReproduçãoNaquele semideserto, descobriu desde a infância que estava destinada a uma vida de tormentos, "drástica como ela sempre gostou de ser", diria seu filho Ángel Parra. Ele é o autor do livro Violeta se fue a los Cielos, que serviu de base para a cinebiografia homônima dirigida por Andrés Wood (o mesmo de Machuca). O filme estreou no último dia 11 de agosto.
Seu pai, Nicanor Parra, um professor que também era entusiasmado violeiro, ditava o ritmo das festas na vizinhança, onde a cueca, baile típico das regiões rurais chilenas, era a melodia que mantinha hipnotizados os olhos da pequena Violeta sobre os acordes, que depois ela reproduziria sem maiores ensinamentos. Aos doze, a pareceria de Violeta com sua viola renderia suas primeiras composições.
Perdeu o pai antes dos dezessete –idade para a qual diria querer voltar no futuro, em uma de suas mais célebres canções. A família então se mudou para Santiago, e quando o trabalho de costureira da mãe, Clarisa Sandoval, já não podia sustentar as necessidades dela e dos cinco irmãos, estes fizeram da música sua fonte de renda alternativa. Nos Anos 40, acompanhadas por Lalo Parra no violão, Violeta e sua irmã Hilda constituíram o duo Las Hermanas Parra, requisitadas e reconhecidas em festas regionais e rádios de música popular. Foi o seu primeiro contato com o sucesso.
O segundo chegaria somente após dois casamentos, que lhe renderam os dois primeiros filhos. Seus primeiros discos como solista trouxeram reconhecimento internacional. Violeta Parra foi a primeira artista chilena a conquistar o velho continente.
www.violetaparra.clMas suas viagens ao norte sempre mesclavam satisfações com tragédias. Em 1954, na França, descobre que a filha Rosita Clara, de poucos meses de vida, deixada aos cuidados do marido, havia morrido por um incidente caseiro. Voltou ao país após dois anos de autoexílio, que não lhe serviram para superar a dor.

De volta ao Chile, encontra motivação na busca por tesouros escondidos da cultura do seu país, jornada que contou com a companhia do filho Ángel. "Minha mãe tinha uma capacidade especial de absorver e reproduzir a cultura do povo e para o povo, sempre defendeu essa identidade e os valores como a justiça social", recorda Ángel.

O folclore e as artes plásticas


Nos Anos 50, a artista mergulhou no folclore trasandino. Jamais um artista havia dito tanto sobre o Chile e suas características mais importantes. Foi nesse período que Violeta, dona de uma personalidade complexa, se dedicou mais intensamente às artes plásticas, traduzindo essa experiência numa obra ainda mais grandiosa. Sem abandonar os acordes de sua viola, ela começou a dar mais atenção a suas obras em bordado e em óleo, muitas das quais foram internacionalmente reconhecidas.
www.violetaparra.cl
CONTRA LA GUERRA:Uma das principais obras de Violeta Parra em bordado, exposta no Museu do Louvre, em 1964

Sua obra como artista plástica também revelou sua simpatia aos ideais comunistas e seu peculiar senso de humor. Em uma das mais pitorescas cenas do filme de Wood, Violeta é entrevistada em um programa de televisão argentino cujo apresentador pergunta a ela sobre sua militância, e ela respondeu: "não sou comunista... ou talvez seja tão comunista que se corto minhas veias jorrará sangue vermelho". O entrevistador comentou, curioso, que se ele cortasse suas veias também jorraria sangue vermelho, ao que ela reagiu estendendo a mão e dizendo: "então, é um prazer estar contigo, camarada!".

Tão complexa era Violeta que a atriz que a viveu no cinema, Francisca Gavilán, admiradora de sua obra desde a juventude, confessa que não conseguiu incorporar tudo o que representa sua figura. “Tentei ser a Violeta que reflete o que somos por dentro, o mais humano e o mais natural da sua personalidade. Havia muita luz em sua cabeça”, disse.
Reprodução/Wood Producciones
A atriz Francisca Gavillán, que viveu Violeta Parra no cinema

O casamento e a morte trágica
Seu coração, por outro lado, nunca havia encontrado nos homens o mesmo amor que ela tinha pela música e pelo estilo de vida de sua gente, até conhecer, em 1960, o antropólogo suiço Gilbert Favre, a mais intensa e tortuosa paixão de sua vida. Com Favre, Violeta Parra viaja novamente à Paris, onde, em 1964, expõe no Museu do Louvre algumas de suas mais importantes obras, como a Velório de Angelito e Contra la Guerra. Junto com o sucesso da exposição, surgiram as primeiras turbulências do casal, que levam Violeta a voltar ao Chile, sozinha, no ano seguinte.

Novamente, o retorno marca um reencontro com a cultura do seu país, desta vez mais voltado à música. O período na França também coincidiu com os primeiros sucessos individuais de seus filhos Ángel e Isabel, e foi junto a eles e a um namorado de sua filha (o jovem Victor Jara), entre outros, que Violeta Parra se faz protagonista do movimento Nueva Canción Chilena, que coincide com sua fase mais filosófica. É nesse período quando compõe as duas canções mais reconhecidas de seu vasto repertório: a regozijante Gracias a la Vida e a nostálgica Volver a los Diecisiete.




Ainda em 1965, instala no bairro de La Reina, zona leste de Santiago, seu Centro de Cultura Folclórica, uma arena que viveu primeiros meses de glória, mesmo estando afastada do centro da cidade. Sucesso que não resistiria aos tormentos que traria a visita de Gilbert Favre, quando este foi se apresentar na arena com o grupo boliviano Los Jairas, do qual fazia parte. Após a partida de Favre à Bolívia, Violeta decide segui-lo e o encontra casado.

Sofreu naquele instante o seu pior golpe, encontrou seu beco sem saída. Numa tarde de fevereiro de 1967, se matou com uma bala - o mesmo desenlace que escolheria um presidente chileno, seis anos depois, diante de outro tipo de golpe.

Sua influência sobre a cultura chilena, entretanto, não terminaria ali. Ainda hoje, mesmo depois de anos tão terríveis em seu país, e com a influência estrangeira cada vez mais presente, o folclore transandino ainda tem nela seu símbolo indissociável: aquela que pintava e bordava, literalmente, as coisas mais belas sobre seu país; e também aquela que cantava a la chillaneja, a que cantava sobre as diferenças.
Diferenças que seu país até hoje trata de resolver. Bastaria dizer que os conflitos mais complexos do Chile atual reivindicam algumas de suas canções mais antigas, agregando a elas atualidade. Além do já citado movimento dos estudantes, a opressão sofrida pelos mapuches no sul do país, problema que Violeta sentiu em sua pele de índia, nunca deixou de ser terrível, como descrito na canção Arauco Tiene una Pena.1

O memorial

Além da cinebiografia, o Chile também reencontrará Violeta Parra em formas mais concretas. Em março de 2012, será inaugurado o Memorial Violeta Parra, no edifício conhecido como La Jardinera, apelido retirado de uma de suas canções autobiográficas. O projeto, desenhado pelo arquiteto Cristián Undurraga, construído próximo à esquina das avenidas Vicuña Mackenna e Libertador Bernardo O'Higgins, no coração de Santiago, envolve a Fundação Violeta Parra e o Ministério da Cultura do Chile, e servirá como exposição permanente e definitiva de suas principais obras.

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