quarta-feira, 18 de julho de 2012

Mauro Santayana: O crime organizado pelos banqueiros

buscado no Gilson Sampaio


Mauro Santayana 
A invenção da moeda, contemporânea à do Estado, foi um dos maiores lampejos da inteligência humana. A primeira raiz indoeuropeia de moeda é “men”, associada aos movimentos da alma na mente, que chegou às línguas modernas pelo verbo sânscrito mányate (ele pensa). Sem essa invenção, que permite a troca de bens de natureza e valores diferentes, não teria havido a civilização que conhecemos.
A construção das sociedades e sua organização em estados se fizeram sobre essa convenção, que se funda estritamente na boa-fé de todos  que dela se servem. Os estados, sempre foram os principais emissores de moeda. A moeda, em si mesma, é neutra, mas, desde que surgiu, passou a ser também servidora dos maiores vícios humanos. Com a moeda, vale repetir o lugar comum, cresceram a cobiça, a luxúria, a avareza — e os banqueiros.
A moeda, ou os valores monetários, mal ou bem, estavam sob o controle dos Estados emitentes, que se responsabilizavam pelo seu valor de face, mediante metais nobres ou estoques de grãos. Nos tempos modernos, no entanto, a sua garantia é apenas virtual. Os convênios internacionais se amarram a um pacto já desfeito, o Acordo de Bretton Woods, de 1944. A ruptura do contrato foi ato unilateral dos Estados Unidos, sob a Presidência Nixon, ao negar a conversibilidade em ouro do dólar, moeda de referência internacional pelo Acordo.
 Surge uma nova era em que o valor  da moeda não se relaciona com nada de sólido
Essa decisão marca o surgimento de uma nova era, em que o valor  da moeda não se relaciona com nada de sólido. Os bancos, ao administrá-la, deveriam conduzir-se de forma a merecer a confiança absoluta dos depositantes e dos acionistas, e assegurar essa mesma confiabilidade às suas operações de crédito. O papel social dos bancos é o de afastar os usurários e  agiotas do mercado do dinheiro. Mas não é desta forma que têm agido, sobretudo nestes nossos tempos de desmantelamento dos estados.Hoje, não há diferença entre um Shylock shakespereano e qualquer dirigente dos grandes bancos.
Na Inglaterra, o escândalo do Barclays, que se confessou o primeiro banco responsável pela manipulação da taxa Libor, provocou o espanto da opinião pública, mas não dos meios financeiros que não só conheciam o deslize como dele se beneficiavam.
Segundo noticiou ontem El Pais, os dois grandes executivos da Novagalícia, surgida da incorporação de duas instituições oficiais da província galega  —  a Nova Caixa e a Caixa Galícia  —  e colocada sob o controle de Madri em setembro do ano passado, pediram desculpas aos seus clientes, por ter a instituição agido mal. Entre outros de seus malfeitos, esteve o de enganar pequenos investidores mal informados, entre eles alguns analfabetos, com aplicações de alto risco, ou seja, ancoradas em débitos podres, as famosas subprimes, adquiridas dos bancos maiores que operam no mercado imobiliário do mundo inteiro.
Além disso, os antigos responsáveis por esses desvios,  deixaram  seus cargos percebendo indenizações altíssimas. E os novos administradores tiveram sua remuneração reduzida, por serem as antigas absolutamente irracionais. Com todas essas desculpas, a Novagalícia quer uma injeção de 6 bilhões de euros a fim de regularizar a sua situação.
Este jornal reproduziu, ontem, artigo de The Economist, a propósito da manipulação da taxa Libor, por parte do Barclays, e disse, com a autoridade de uma revista que sempre esteve associada à City, que não há mais confiança nos maiores  bancos do mundo, como o Citigroup, o J.P.Morgan, a União de Bancos Suíços, o Deutschebank e o HSBC. Executivos desses bancos, de Wall Street a Tóquio, estão envolvidos na grande manipulação sobre uma movimentação financeira  total  de 800 trilhões de dólares.
Para entender a extensão da falcatrua, o PIB mundial do ano passado foi calculado em cerca de 70 trilhões de dólares, menos de dez por cento do dinheiro que circulou escorado na taxa manipulada pelos grandes bancos. A Libor, sendo  a taxa usada nas operações interbancárias, serve de referência para todas as operações do mercado financeiro.
O mundo se tornou propriedade dos banqueiros. Os trabalhadores produzem para os banqueiros, que controlam os governos. E quando, no desvario de sua carência de ética, e falta de inteligência, os bancos investem na ganância dos derivativos e outras operações de saqueio,  são os que trabalham, como empregados ou empreendedores honrados, que pagam. É assim que estão pagando os povos da Grécia, da Espanha, de Portugal, da Grã-Bretanha, e do mundo inteiro,  mediante o arrocho e o corte das despesas sociais, pelos governos vassalos, alem do desemprego, dos despejos inesperados, das doenças e do desespero, a fim de que os bancos e os banqueiros se safem.
Se os governantes fossem realmente honrados, seria a hora de decidirem pela estatização dos bancos
Se os governantes do mundo inteiro fossem realmente honrados, seria a hora de decidirem, sumariamente, pela estatização dos bancos e o indiciamento dos principais executivos da banca mundial. Eles são os grandes terroristas de nosso tempo. É de se esperar que venham a conhecer a cadeia, como a está conhecendo Bernard Madoff. Entre o criador do índice Nasdaq e os dirigentes do Goldman Sachs e seus pares, não há qualquer diferença moral.
Os terroristas comuns matam dezenas ou centenas de cada vez. Os banqueiros são responsáveis pela morte de milhões de seres humanos, todos os anos, sem correr qualquer risco pessoal. E ainda recebem bônus milionários.

terça-feira, 17 de julho de 2012

80 anos de Quino

Buscado na Aldeia Gaulesa


 
"Que importam os anos? O que importa mesmo é comprovar que afinal de contas a melhor idade da vida é estar vivo." 
Quino

Quino é um dos cartunistas sul-americanos de grande repercussão no cenário mundial, principalmente pelas tiras de jornal e histórias em quadrinhos da famosa personagem Mafalda, que foi publicada originalmente entre 1964 até 1973.
Quino, cujo nome verdadeiro é Joaquim Salvador Lavado, nasceu na Província de Mendoza, Argentina, no dia 17 de julho de 1932, mas só foi registrado no dia 17 de agosto e é descendente de imigrantes espanhóis.
Desde muito cedo recebeu o apelido carinhoso de Quino e logo começou a se destacar com seus rabiscos e rapidamente chamou a atenção de seu tio Joaquim Tejón que é um pintor e desenhista publicitário, que notou o talento de seu sobrinho para o desenho e passou a incentivá-lo desde pequenino.
Por volta dos seus sete anos de idade entrou na escola primária onde nunca se destacou como um grande aluno e ao terminar seus estudos, por volta de 1945, sua mãe morreu e então decidiu se matricular na Escola de Belas Artes de Mendonza.
Pouco tempo depois com a morte também de seu pai, deixou a escola com o sonho de se tornar um cartunista. Segundo alguns relatos, Quino conseguiu vender a sua primeira história, num anúncio colocado numa barraca que vendia sedas. Empolgado com isso, foi procurar trabalho nas editoras portenhas, mas acabou não encontrando nenhuma.
Pouco tempo depois em 1953, teve de prestar o serviço militar obrigatório, onde passou momentos de grande angústia sob a rigidez militar e conviver com pessoas vindas de todas as partes, fazendo-o encarar a vida de outra maneira. Depois disso foi morar na capital, Buenos Aires, com pouco dinheiro que tinha, conseguindo alugar um quarto de pensão que dividia com mais três ou quatro pessoas.
Começou a procurar trabalho e aos poucos foi conseguindo trabalho como desenhista aqui e acolá, quando a sorte começou a sorrir ao conseguir publicar sua página de humor no jornal “Esto Es”. Depois vieram outras poucas oportunidades para a publicação de suas tiras, mas para poder sobreviver ainda precisou trabalhar como desenhista para as agências de publicidade.
Foi somente por volta de 1957, que suas tiras e outras produções como "Rico Tipo" começaram a circular regularmente pelos jornais e revistas argentinas, bem como outras publicações como "Dr. Merengue" e "Tia Vicenta", fazendo com que, aos poucos, seu nome começasse a ser conhecido pelo país.
Em 1960 Quino se casou com Alicia Colombo, mas eles não tiveram nenhum filho. Sua lua-de-mel aconteceu no Rio de Janeiro, onde também passou a ter contato com os cartunistas brasileiros como Ziraldo, Millôr Fernandes e toda a turma do "Pasquim".
Somente três anos mais tarde conseguiu lançar o seu primeiro livro humorístico, chamado "Mundo Quino", uma reedição de desenhos animados gráficos. Um ano depois, em 1964, foi convidado para ser encarregado de uma campanha publicitária para uma linha de produtos eletrodomésticos chamados Mansfield, razão pela qual começa a pensar e criar uma personagem começada pela letra M e assim nasceu a Mafalda.
A agência acabou não fazendo a campanha, mas Quino aproveitou a personagem e começou a trabalhar nas primeiras histórias da Mafalda, que foram publicadas pela primeira vez em "Gregorio", um suplemento do humor da revista "Leoplán", que publicou três tiras da Mafalda.
A partir de 29 de setembro de 1964, as histórias em tiras da Mafalda passaram a ser publicadas regularmente no semanário "Primera Plan" de Buenos Aires, onde permaneceram até o início do ano seguinte. Em 9 de março de 1965, Quino passou a publicar as tiras da Malfalda no jornal "El Mundo". Um ano depois, o editor Jorge Álvarez reuniu as primeiras tiras em ordem de publicação e publicou-os no primeiro livro da Mafalda, numa tiragem de 5000 exemplares que se esgotaram rapidamente.
Em 1966, a Argentina passava por diversos problemas de ordem política. O presidente foi deposto pelos militares e passaram a proibir toda e qualquer manifestação política. O general Onganía assumiu o poder e começaram a ocorrer uma severa repressão dentro das universidades e nos meios culturais do país.
Um ano depois, em 22 de dezembro de 1967, o jornal "El Mundo" foi fechada e as tiras pararam de serem publicadas. O editor Jorge Álvarez resolveu então publicar o segundo livro da Mafalda com o título de "Asi es la cosa, Mafalda". Pouco tempo depois em 2 de junho de 1968, os quadrinhos de Mafalda voltaram a serem publicadas. Também seus desenhos começaram a serem conhecidos pela Europa e Quino viajou pela primeira vez e foi para Paris, Londres e Madri.
Em 1969, o editor Jorge Álvarez publicou o terceiro livro de Mafalda chamada "Mafalda 5". Nesse mesmo ano a primeira edição do livro de Mafalda foi publicada fora da Argentina. Na Itália foi publicado o primeiro livro chamado: "Mafalda la Constestaria" com a apresentação de Umberto Eco, diretor da coleção. Depois começaram a surgir publicações também na Espanha e Portugal.
Em 25 de junho de 1973, Quino decidiu parar de desenhar as tiras da Mafalda, mas os livros e histórias dela passaram a serem publicadas no México, Alemanha, França e finalmente em 1974 chegou ao mercado norte-americano. Somente em 1977 voltou a desenhar Mafalda a pedido da UNICEF, para uma campanha internacional da Declaração dos Direitos das Crianças.
Segundo o site “http://es.wikipedia.org/wiki/Quino”, as histórias da Mafalda apareceram em duas séries animadas na Argentina: uma produzida em 1965 e a outra em 1982. Também foram realizadas mais duas séries animadas em Cuba, através de Juan Padrón: a primeira entre 1986 a 1988, chamada "Quinoscopio", baseadas nas idéias de Quino e a outra "Mafalda" em 1994, uma série de 104 episódios com aproximadamente um minuto de duração.

Os personagens de Quino são geralmente pessoas normais que fazem parte de sua vida, que ele as desenham sem renunciar as alegorias surrealistas e nem as reações caricaturescas. Assim também se apresenta Mafalda, que aparentemente era uma tira destinada ao público infantil, mas seu conteúdo acabou também por trazê-la para o mundo adulto.
As histórias de Mafalda são recheadas com suas preocupações com a política internacional e os progressos científicos que passam a afligir o coração infantil da pequena personagem, refletindo conflitos que as pessoas enfrentam principalmente com a progressiva mudança de costumes e a chegada de novas tecnologias no dia-a-dia das pessoas.
Quino possui um humor tipicamente ácido e muito cínico, aborda com freqüência a miséria e o absurdo da condição humana, sem limites de classe. Desta forma, faz com que o leitor enfrente as burocracias, os erros das autoridades, as instituições inúteis, entre outras coisas. Sem dúvida, Quino utiliza seus personagens para enviar suas mensagem de conteúdo social aos seus leitores.
Este enfoque pessimista da realidade não impede que as suas histórias não tenham ternura e mostrem o mundo inocente infantil. Devido ao tema de suas criações, Quino tem enfrentado diversos problemas em vários lugares, que não aceitam o seu pensar. Em alguns países como a Espanha, por exemplo, todos as suas publicações apareciam com uma tarja avisando os leitores tratar-se de uma obra para adultos.
Depois de 1973, Quino se mudou para Milão de onde continua até hoje criando suas tiras de humor. Apesar disso, Mafalda ainda possui uma grande legião de fãs pelo mundo afora. Quino criou também outros personagens, mas nenhuma que se compare a Mafalda, uma menina de seus 8 anos, que odeia sopa, macarrão e adora fazer diversos tipos de questionamentos sobre a vida e o mundo.

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