domingo, 2 de setembro de 2012

Um museu à deriva e uma cidade sem olhar

 por  Almandrade |


A iniciativa do Secretário de Cultura e do Departamento de Museus em ouvir artistas e agentes do circuito de arte para encontrar uma saída para um museu é um modelo viável de compartilhar responsabilidades. Com a devolução das obras de Rodin, o Palacete das Artes – Museu Rodin, sem acervo, solicita uma solução para se justificar como instituição museológica. Inaugurado, sem projeto curatorial, para abrigar peças do escultor francês Auguste Rodin, sobreviveu alheio a qualquer perspectiva de curadoria, a depender sempre de onde sopra o vento. Com uma programação de exposições desarticuladas, sem desconhecer a qualidade de muitas delas, parece mais uma luxuosa casa de eventos culturais que mostra joias e bijuterias, numa cidade com bastante luminosidade e um olhar míope.
O Museu Rodin não é um caso isolado na história recente dos museus. Muitos foram criados no mundo inteiro nos últimos anos, sem nem ao menos saber o que se colocar dentro deles, verdadeiras casas de espetáculo. Vivemos no século dos museus, nunca eles foram tão referendados, celebrados e reproduzidos através de filiais em diferentes cidades e países. Não estamos mais nos tempos das vanguardas rebeldes, nos tempos de Maiakovsky, por exemplo: “Está na hora que os projéteis e as bombas batam nas paredes dos museus”. Atualmente, eles são sempre bem vindos, são eles que certificam a autenticidade da experiência artística.
Atravessamos um estágio de carência, revolta, desconfiança e descontentamento com a política cultural e as poucas  iniciativas do Estado. Nesse cenário, qualquer reunião com os representantes oficiais, gestores da cultura e produtores de artes visuais é transformada numa arena de reclamações e reivindicações que vão além da pauta. É hora de aproveitar a oportunidade para emitir suas verdades. Perguntas e sugestões são muitas, às vezes marcadas pela emoção e pela ansiedade. Pensar sentado numa plateia não é tarefa fácil para o artista plástico acostumado na rotineira solidão do atelier, com a única companhia do trabalho que fala sem fazer ruído.
É nesse lugar de solidão e silêncio, depois do encontro público, que é possível pensar, avaliar e opinar a respeito do que veio à tona, até ao que escapa ao tema. Estamos às voltas com a aplicação de uma lei que garante a inclusão de uma obra de arte na edificação de um prédio. Mas sem desejo, sem vontade de ver, é uma imposição que resulta em fracasso. Quantos murais em edifícios deixaram de ser vistos? E se não são vistos, não existem. É um cego chamado Jorge Luis Borges quem diz: “Eu sou o único espectador desta rua: se eu deixar de ver, ela morrerá.”  No hall de um cinema no centro da cidade, uma obra de arte existe atrás do cartaz do cinema. Ninguém percebe. Nem a arquitetura resistiu ao empreendimento imobiliário.
No interior de um Banco, na rua Chile, uma das mais importantes obras de arte do mais baiano dos artistas, o argentino Carybé, não está visível, a impressão é que ela é um incômodo para a instituição. Um mural localizado nos limites da antiga capital do país, fundada pelo governador geral Tomé de Souza, com uma iconografia que faz referência à história do Brasil e da Bahia, com um domínio técnico e  tratamento conceitual que surpreende a arte contemporânea, termina numa parede perpendicular, transparente, com uma vista para a Baía de Todos os Santos, principal porta de entrada da velha capital. O mural é um rico objeto para uma tese acadêmica. Que privilégio e sabedoria desse artista e quanta ignorância de nossa geração que não sabe olhar.
Diante desses achados, não sei se a lei é o caminho… Voltando ao tema da ocupação do  Museu Rodin, a ideia de uma galeria permanente da arte baiana deve ser descartada, esta é uma atribuição do Museu da Cidade, que conta com uma pinacoteca de artistas baianos, embora sem uma coleção representativa e em péssimas instalações. É uma outra questão que pertence a Prefeitura Municipal e à comunidade que se omite. Ocupar com esculturas de artistas baianos disponíveis nas coleções dos museus do Estado, no lugar das obras de Rodin, é uma opção possível, a meu ver, com um projeto expográfico e uma curadoria capaz de fazer o diálogo dessas esculturas com o espaço. Afinal, o museu não é também um lugar de confronto de histórias?
Por que também não se esboçar um projeto curatorial emergencial pra o anexo do Museu Rodin a partir das reivindicações e sugestões de artistas e agentes do circuito? As falas, depois de garimpadas e filtradas, apontam para a necessidade de iniciativas por parte da instituição, para que ela não seja o receptáculo  de atendimento de demandas. As opções estão no ar, uma série de mostras coletivas que façam um panorama da arte na Bahia com a análise do contexto, pode ser uma alternativa. Compete ao Estado avaliar, principalmente, sua política de editais e investir nos museus para que eles cumpram sua função junto à sociedade.

Almandrade
(artista plástico, poeta e arquiteto)  Salvador / Ba.

sábado, 1 de setembro de 2012

Embrapa investe 4% do orçamento em agricultura familiar

buscado no Gilson Sampaio 


Segundo presidente do Simpaf, setor não é tratado com prioridade, embora responda por 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros.

(7’24” / 1.7 MB) – A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) se apresenta publicamente como uma instituição que tem como missão “viabilizar soluções de pesquisa, desenvolvimento e inovação para a sustentabilidade da agricultura, em benefício da sociedade brasileira.” No entanto, interesses comerciais parecem sobrepor a função assumida pela estatal. É o que alerta o presidente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário (Sinpaf), Vicente Almeida.
Ele diz que há relatos de que a Embrapa estaria ingressando no continente africano para representar interesses de grandes corporações, como a fundação Bill Gates. Além disso, falta incentivo para projetos na área de agroecologia. Segundo Almeida, embora a agricultura familiar seja responsável por 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros, somente 4% dos recursos aplicados na empresa no ano passado foram destinados para pesquisa no setor.
A Embrapa, fundada em 1973, está vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. É considerada uma das principais empresas no desenvolvimento de pesquisas na região tropical. Em entrevista a Radioagência NP Vicente Almeida analisa o papel desta empresa pública que detêm a 4ª maior reserva genética de alimentos de origem animal e vegetal. 

Radioagência NP: Vicente, qual a importância de uma estatal do porte da Embrapa?
Vicente Almeida: Temos aí aproximadamente 1 bilhão de pessoas em situação de insegurança alimentar no mundo. Temos uma outra crise que é a crise energética, com a possibilidade de trazer soluções energéticas na área de agricultura sustentável. E também temos a crise ambiental e aquecimento ambiental. Então, toda a tecnologia desenvolvida hoje pela Embrapa pode ser usada para solução de boa parte dos problemas que estão aí causando para a população mundial transtornos e danos, às vezes, irreversíveis.

Radioagência NP: E qual tem sido o investimento da Embrapa nas pesquisas em agroecologia?
VA: A gente percebe que o recurso destinado para a Embrapa nesse campo, por exemplo, é insignificante. O ano passado ela teve um aporte de R$170 milhões em pesquisa e [foi destinado] para agricultura familiar apenas 4% desse recurso, o que demonstra claramente que a agricultura agroecológica quando está presente dentro da empresa é apenas de uma forma marqueteira. É apenas para dizer que consta, mas não existe dentro da empresa e as próprias falas do diretor presidente da empresa em entrevistas em nenhum momento aponta como uma das prioridades da empresa o investimento em pesquisa para a agricultura familiar.

Radioagência NP: Qual é o papel da agricultura familiar? Por que ela merece ser tratada como prioridade?
VA: A agricultura familiar e agroecologia é o que sustenta a população brasileira, 70% da alimentação, hoje, que vai para a nossa mesa vem da agricultura camponesa e da agricultura familiar. Então, esse é um desafio que o governo brasileiro, os movimentos sociais e o movimento sindical têm. Então, a gente precisa apontar esses equívocos na condução da política dentro da empresa de forma muito firme, no sentido de cobrar do Estado brasileiro o retorno devido a esse segmento tão fundamental e importante para o desenvolvimento da agricultura brasileira e para a segurança e soberania alimentar do povo.

Radioagência NP: As parcerias da Embrapa com laboratórios dos Estados Unidos e da Europa são positivas para o Brasil?
VA: Nós ainda não temos elementos suficientes para demonstrar com clareza os impactos dessa cooperação internacional da Embrapa, o que nós temos são informações que apontam para um nível de repetição preocupante do mesmo modelo de pesquisa que está sendo implantado aqui e em outros países. Especialmente na África, a gente tem tido contato com trabalhadores do Itamaraty, com movimentos dos camponeses na África onde a Embrapa atua e temos ouvido relatos preocupantes em relação à condução da empresas nesses espaços. Então, o que a gente na verdade cobra nesse momento é maior transparência em relação a execução dessas pesquisas que têm sido feitas em nível internacional e uma análise mais detalhada dos impactos delas. Se elas estão indo para efetivamente contribuir com a cultura local, com o fortalecimento das comunidades locais, com o fortalecimento da segurança e soberania alimentar desses povos ou se ela está indo, na verdade, como ponta de lança em um processo de internacionalização dessa agricultura nesses países, fortalecendo, na verdade, as empresas multinacionais e esse grande mercado de sementes e de alimentos que está se tornando o mundo.   

Radioagência NP: Você pode dar mais detalhes dessas denúncias?
VA: Eu tenho relatos que a Embrapa estaria sendo ponta de lança da fundação Bill Gates na África ou da Monsanto e de multinacionais para representar interesses dessas corporações e não interesses legítimos das comunidades locais. E relatos que apontam também para devastação da biodiversidade local, com a mesma implantação da chamada Revolução Verde, que foi implantada aqui no cerrado brasileiro, lá na savana africana, repetindo os mesmo erros, como a devastação ambiental, perda da biodiversidade, expulsão de comunidades locais. 

Radioagência NP: Como você interpreta a decisão da Embrapa de descontar dos salários dos trabalhadores os dias parados em razão da última greve?
VA: Ela [a Embrapa] tem se posicionado de uma forma muito equivocada no processo de negociação, rechaçando todas as propostas apresentadas pelos trabalhadores, e ainda se posicionando de forma a retirar os direitos e benefícios já conquistados anteriormente. Além de tudo isso, ela ainda não apresenta proposta econômica que vá para além da mera reposição da inflação. Com essa proposta, os trabalhadores avaliaram que era uma proposta muito rebaixada e desrespeitosa inclusive aos trabalhadores e eles rejeitaram por unanimidade. E como retaliação a essa decisão, a Embrapa não prorrogou os efeitos dos acordos coletivos vigentes, ou seja, todos os trabalhadores hoje da Embrapa encontram-se sem amparo dos direitos da já conquistados nesses últimos 23 anos de existência do nosso sindicato.     

De São Paulo, da Radioagência NP, Daniele Silveira.