quinta-feira, 2 de maio de 2013

Leilões

1. A promulgação da lei 9.478, de 1997, foi um dos mais execráveis atos antinacionais praticados por FHC, na linha das mega-negociatas da privatização.


2. Ela permite leiloar o petróleo para as empresas estrangeiras, dando-lhes o direito de dispor dele para exportá-lo.

3. Ademais, instituiu a Agência Nacional de Petróleo, a qual, desde sua criação, favorece as transnacionais, inclusive licitando mais depósitos de petróleo do que a Petrobrás, que os descobriu, tem interesse em explorar a curto e médio prazo.  Esta já foi também  impedida de adquirir blocos licitados.

4. A ANP promoveu, sob governos petistas, maior número de rodadas que sob os do PSDB.  Agora, está chegando à 11ª  rodada, na qual, abriu, nos leilões, quantidade enorme de áreas para exploração, como sempre, arbitrariamente e sem controle da sociedade.

5. Esse é mais um desmentido dos fatos quanto à pretensa natureza democrática do regime político, em que as eleições são movidas a dinheiro e influenciadas por TVs  e outras mídias que sempre propugnaram a entrega do mercado e dos recursos naturais do País a empresas estrangeiras, até com dados falsos e argumentos distorcidos.

6. Como apontam competentes técnicos, inclusive o ex-diretor de energia e gás da Petrobrás, Eng. Ildo Sauer,  o governo joga uma cortina de fumaça para a população, pondo os royalties no foco das discussões, quando a grande questão é licitar 289 blocos de exploração, sem sequer saber o valor deles. 

7. Diz Sauer: “Os royalties não passam de 15% do valor total gerado pelo petróleo nacional, e as entidades representativas da sociedade devem defender a estatização e o controle público do pré-sal e toda a cadeia petroleira do Brasil.”  

8. Os royalties foram o tema dominante durante a tramitação no Congresso da lei 12.351/2010, que regula o pré-sal. E, na realidade, essa lei dá tais “compensações” às petroleiras mundiais, que o que fica no Brasil é bem inferior a 15%.
9. O foco nos royalties, além de insensato, acirra disputas entre Estados, provocando rachaduras no pacto federativo. Governadores e parlamentares brigam por migalhas, em vez de buscarem a revogação da Lei Kandir, a qual isenta as exportações do ICMS.

10. Aos que ignoram ser o Brasil um país ocupado – ou, no mínimo, que o governo se comporta como se fosse – vale lembrar que, nos anos 50 do Século XX, o Xá do Irã, considerado fantoche do império, fez acordo com as grandes petroleiras anglo-americanas, passando a receber 50% das receitas da exploração.

11. O Eng. Paulo Metri mencionou declarações da Diretora-Geral da ANP em que esta declara esperar a descoberta 19,1 bilhões de barris de petróleo nos 289 blocos. Ele lembra que esse petróleo será exportado e pergunta: “quem definiu que a exportação, seguindo a lei 9.478, é a melhor opção para a sociedade brasileira?”

12. Metri: "o porquê de tanta agressividade autoritária e decisão antissocial está relacionado com o fato de que a desinformação do povo é imensa, os governantes não esperam nenhuma reação, e os brasileiros serão respeitados somente quando mostrarem estar informados e revoltados com as decisões antissociais.”   

13. Ele aponta que a ANP só convida para suas audiências, realizadas em locais fechados e guardados, os representantes das empresas interessadas.  Nada de povo, nem de gente que o represente.

14. Sauer: “É uma grande irresponsabilidade o Governo organizar outra rodada desta mesma maneira, considerando ainda o momento de valorização do óleo existente nos blocos.”

15.  E: “Tenho informações seguras, do Consulado americano, de que Dilma sempre defendeu os interesses do capital financeiro. Quando secretária no Rio Grande do Sul, seu nome sempre esteve ligado às privatizações. Inclusive, o Governo vem criando empresas extremamente lucrativas financiadas pelo endividamento público, coordenadas pelo BNDES.”

16. A prioridade do Brasil é reindustrializar-se e renacionalizar sua indústria, com ênfase nos setores de maior valor agregado e intensidade tecnológica, fazendo que empresas nacionais, em competição, se capacitem  para  absorver tecnologias desenvolvidas no exterior e para desenvolver suas próprias. Claro que isso só é possível com política industrial bem diversa da atual.

17. Apostar na exportação de produtos primários, a errada trilha que o Brasil  está seguindo (com o agronegócio e minérios brutos ou em baixo grau de processamento), tornando-se também grande exportador de petróleo, é entrar no caminho da Venezuela no Século XX, quando se formou ali a estrutura econômica menos diversificada e mais dependente da América do Sul, até para alimentos.

18. Não tem base real a propalada falta de recursos da Petrobrás para investir no abastecimento interno, nem carece ela de tecnologia para explorar em águas profundas.

19. Nem há necessidade de exportar petróleo, até porque este - como outros minerais que o Brasil permite exportar - deveria ser preservado para épocas mais próximas a 2050, a partir de quando se projeta, em âmbito mundial, escassez da oferta em relação à procura.

Biomassa

20. Importante seria reformular a produção de combustíveis de origem vegetal. Se o fizesse a sério, o Brasil teria ganhos fantásticos em todos estes campos: 1) econômico-financeiro; 2) social;  3) tecnológico: 4) ecológico; 5) estratégico.

21. Essa produção, ao contrário de prejudicar a de alimentos, deve ser associada a esta. De fato, o cultivo associado de plantas alimentares e de criação de animais propicia excelente sinergia com a do álcool e a do óleo vegetal, porquanto os subprodutos das plantas necessárias aos combustíveis são insumos na produção de alimentos, e vice-versa.  

22  As usinas de álcool e as processadoras de óleo devem ser de pequeno e de médio porte, sendo o combustível usado local e regionalmente: poupa-se a viagem da cana, em caminhões, gastando mais energia, por grandes distâncias, até as destilarias, e outro tanto do etanol, na volta.

23. Com descentralização e desconcentração,  emprega-se  mais  mão de obra e eleva-se a produtividade desta e seus rendimentos, trazendo benefícios sociais junto com os econômicos. Também, segurança no abastecimento de energia e no de  alimentos.

24.  Esse modelo afasta as distorções das atuais plantations de cana-de-açúcar  e das grandes usinas. Em relação aos óleos – cuja produção é hoje intencionalmente mal planejada e dá resultados pífios – ele permitirá aproveitar as plantas de alta produtividade.

25. Entre essas, o dendê na Amazônia e no trópico úmido, em geral. Macaúba, copaíba e pinhão manso na maior parte do Leste e do Centro-Oeste. Até no  semi-árido do Nordeste, há plantas excelentes para a produção de óleos. Com dendê produz-se mais de 6 mil litros/hectare/ano, enquanto com soja, não mais de 400 litros.

26. Esse potencial, precisa, para ser bem aproveitado, de investimentos muito mais modestos que os destinados ao petróleo, e possibilita ao Brasil tornar-se, num período de cinco a dez anos, maior produtor de combustíveis líquidos que a Arábia Saudita, como dizia o Prof. Bautista Vidal.

27. Não há problema algum em dispensar ou adaptar os motores de veículos para o diesel de petróleo. É viável e econômico fabricar, em série, motores para os óleos vegetais, mesmo porque o “biodiesel” envolve a desesterificação dos óleos, ou seja, a extração da glicerina, a qual, queimada pelos motores apropriados, eleva o teor da energia aproveitada.

28. O programa de biomassa gera, portanto, benefícios tecnológicos na fabricação de máquinas para o  cultivo e processamento das plantas e para a associada produção de alimentos, na melhoria das espécies vegetais e na indústria de motores, em que o Brasil ganharia escala, ficando imbatível em preços e qualidade.

29. Há, ainda, ganhos notáveis do ponto de vista ecológico. É falaciosa a campanha de que o desmatamento de áreas na Amazônia e outras causaria danos ao ambiente.

30.  A área necessária para a produção de energia de biomassa, em grande escala,  é modesta  fração da desperdiçada em pastagens para exportar gado e exportar carne barata. É menor que a empregada na soja (esta usa 50% das terras usadas pela agricultura), para  exportar farelo destinado a gado, porcos e galinhas no exterior.

31. Tudo isso traz muito mais danos ambientais e menos ganhos dos que os que adviriam da produção de biomassa. Não têm base científica as estórias das fundações financiadas por grandes petroleiras mundiais – as maiores poluidoras do Planeta – , porquanto as plantas só retiram óxido de carbono da atmosfera quando estão crescendo, pois é isso que elas comem.

32. Florestas já formadas em nada contribuem para a melhora do ambiente. O grande produtor de oxigênio  não são as florestas existentes, mas, sim, os oceanos, na realidade, agredidos pela poluente indústria do petróleo:  terríveis vazamentos de óleo negro nas embocaduras de grandes rios, nos mares  na  exploração costeira e das plataformas continentais, ademais dos naufrágios de gigantescos petroleiros.

33. E que tal a imensa massa de plásticos não biodegradáveis,  provenientes do petróleo,  acumulada sobre os mares e oceanos?

34. Por fim, atente-se para a segurança nacional. Um país que não tem como defender suas águas territoriais, não deveria engajar-se no petróleo antes de aparelhar a marinha e a aviação militares. Para tanto, tem de, antes, desenvolver a indústria nacional, pois ela nem sequer fabrica os chips para os mísseis e demais equipamentos.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Reforma Agrária versus Inflação

buscado no Correio da Cidadania   



(...) Digam-lhe que outro dia, na rua Larga
Vi um menino em coma de fome (coma de fome soa esquisito, parece
Que havendo coma não devia haver fome: mas havia).

“Mensagem a Rubem Braga”, de Vinicius de Moraes.


 por Julio Cesar de Castro 
 
Infelizmente, este imenso país, contrário ao vento da civilização, não encontrou o rumo para o desenvolvimento pleno e sustentável, porque perdura a política da grande propriedade rural e da especulação no atacado, da selvageria humana, e sob a cultura de senhoria à moda das Capitanias Hereditárias. São as inflexíveis oligarquias de sempre, armadas até os dentes de maus políticos e à cara-feia de juízes ímprobos, impondo poder econômico e afrontando o Estado de Direito. Ou, quando não contentados em ostentar domínio sobre terras improdutivas, invadem áreas de proteção ambiental para a devastação e exploração infrenes. E com aplausos de “comunistas”, feito Aldo Rebelo (hoje, ministro dos Esportes nas tetas da Mãe-gentil)!

Nosso país (cabe o pronome possessivo?!) intitulado sexta economia mundial ainda depende da exportação de produtos primários – embora notável capacidade tecnológica – para o equilíbrio da balança comercial; apesar da ineficiência logística e precária infraestrutura. Apesar de não ter extirpado a praga da corrupção e o escravismo à brasileira. Daí, devido a legislações mais rigorosas em países ditos de Primeiro Mundo, muitas empresas criminosas, produtoras de agrotóxicos, migram e acumulam lucros, envenenando um mundo de terras, cujos governantes subservientes evacuam sobre a Ética. O estrume da animália política, e de matizes partidárias diversas, que também degrada o solo. No Brasil, “bonito por natureza”, à grande vista do mercado internacional como “a bola da vez”, mais desditoso desde o nefasto (des)governo Lula, por ironia do destino de João Pedro Stédile, a Reforma Agrária tem sido tratada à mera Bolsa Família. Programa que visa tão somente amordaçar e ridicularizar os sem-terra, para o repasto de ministros (ex e atual) da Agricultura, apadrinhados pela Casa Grande.

Se a canalha política amaldiçoa o útero da própria terra natal, o que dirá ela a legislar em prol da sociedade? E, sobretudo, na redefinição do percentual de produtividade das fazendas e implantação da Reforma Agrária? Qualquer desatento cidadão nota que a inflação pesa é no bolso do pobre consumidor. Que os termos “cesta básica” e “xepa” têm a ver com povo. As elites não se atordoam em insônia com custo de vida, com escalada do processo inflacionário. Mesmo porque não deixarão de desperdiçar, em seus lixos domésticos, os cerca de 40% do todo que adquirem nos supermercados de shopping centers. Se, porventura, inquietam com inflação, ditam ao Banco Central aumentar a taxa de juros para “conter” o consumo das massas, e a classe A assegurar alimentos de primeira necessidade em suas mesas fartas. A imensa população de baixa renda, fervorosa e esperançosa, é que nunca perde o simplismo, implora à misericórdia divina não sofrer tanto a aridez da carestia.

Contudo, se a Reforma Agrária saiu do cuspido discurso da extinta esquerda brasileira, anda démodé nas análises de críticos midiáticos, cabe à consciência da ala lutadora do que restou do Movimento dos Sem Terra e dos formadores de opinião independentes trazer à flor do debate nacional as consequências de possível retorno àqueles insuportáveis tempos de inflação, de remarcação hora a hora dos preços, com desvalorização do poder de compra dos salários e engorda do capital especulativo. E, com a redução do consumo, mais desemprego!

Para as calendas! Quando deixaremos o berço esplêndido da comodidade, se a classe oprimida carece de lideranças autênticas, livres do oportunismo cooptante? Se o possível salve-se quem puder, produzido pela crescente inflação, não abala o bem-estar da corja que comanda partidos políticos e organizações pelegas? Se há muito nem a Igreja reza mais o Salmo de Salvação da Reforma Agrária, neste rebanho de maior população católica? Ora, se o Petróleo da Petrobrás S/A não é nosso, se a extração do minério em carie do solo (oficial e sorrateiramente consentida) só serve à exportação, se boa parte das nossas áreas cultiváveis está em posse de transnacionais da monocultura... Que sentimento verde-amarelo sustenta o orgulho dos que não têm aonde cair mortos? Quem viu o Velho Chico em rios de dinheiro público na bandalheira das empreiteiras?

Sem intenção de excessiva tinta impressa do texto (“Por tudo que o céu revela!/ Por tudo que a terra dá”...), poderíamos afirmar que a Reforma Agrária, obtida de sérios estudos de produção sustentável, segundo potencialidade pontual da terra em cada região do país, resolveria mais da metade de nossas mazelas. A miséria – reduzindo e transferindo recursos públicos de atuais programas sociais para áreas prioritárias da educação e da saúde –, a violência urbana por superpopulação e o congestionamento de processos judiciais. Pela ordem do dia, Reforma Agrária é que enterra o dragão da inflação e enxota o vulto da fome. Nem que, para tanto, tenha que se encurralar o infame Renan Calheiros, maldizer por cãibras na língua predatória de Lula, obrigar o Stédile a pegar em enxada para que seja útil a si e ao MST, mandar o tucano Aécio Neves grasnar nos ouvidos do Pimentel. Enfim, reaver o INCRA das mãos do Estado plutocrático para o controle social, sem os vícios de ONGs sanguessugas.

Para insensatos, Reforma Agrária é só como antiga sonata de queda d’água. Todavia, diz-se que gutta cavat lapidem (a gota cava a pedra). E talvez seja este o momento mais propício para desengaiolar o projeto de Reforma Agrária, enfrentar a resistência da propriedade improdutiva ou escravagista, avançar na luta por socialização do bem comum e pela produção familiar no campo. Crer no ditame da Carta Magna quanto ao uso social da terra. Afinal, crescimento econômico resulta em crescimento populacional e, consequentemente, mais boca para se alimentar, mais investimento público. Se, aqui, com menos de 200 milhões de habitantes, vê-se injustiça, barbárie e desmando, imagine o estimado leitor quando o país chegar a 2050, inclusive abraçando milhões de imigrantes vítimas da crise econômica europeia, ainda discutindo a Reforma Agrária?




ESTAMOS DE OLHO: Dia 15 de maio próximo, no Tribunal de Justiça de MG, em Belo Horizonte, ocorrerá o julgamento de Adriano Chafick, fazendeiro influente e réu confesso, protagonista do famigerado “Massacre de Felisburgo”. E registre-se a expressão do então presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, quando de audiência a lideranças do MST no Palácio da Alvorada: “Companheiros, questão de honra, podem contar vitória, pois aquela fazenda ocupada (objeto da chacina) será considerada assentamento do INCRA”. Promessa também não cumprida, conforme previa a bancada de ruralistas no Congresso Nacional.

Julio Cesar de Castro presta assessoria técnica em Construção Civil.
E-mail: jota.castro(0)yahoo.com.br">jota.castro(0)yahoo.com.br