quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Teses, julgamentos e impasses

 

buscado no Juremir Machado da Silva 

 

por Juremir 
 
Quando, num julgamento de especialistas, cinco adotam uma tese e quatro esposam a tese contrária, o examinador intelectual tem uma certeza: a a dúvida é maior do que a clareza técnica.
Em outras palavras, tese e antítese, argumento e contra-argumento, são equivalentes.
Igualmente legítimos.
Qualquer posição está na margem de erro.
Não há elementos suficientes para o esclarecimento.
Em matéria clara deve haver consenso de especialistas.
Um placar desses permite recorrer.
Na dúvida, a favor do réu.
Absolvição.
Por que, então, quem está de fora adota com a convicção dos ignorantes a tese ou a antítese?
Pelo óbvio: está predisposto a sustentar o argumento ou o contra-argumento.
Chama-se a isso de posição de princípio, filosófica. Ideológica.
Se defendo a tese, quem vota por ela vota tecnicamente.
Quem vota contra ela, vota ilegitimamente.
Torna-se suspeito.
Pode dizer que o especialista que nos desagrada não é, de fato, especialista.
Em alguns casos, é possível demonstrar as razões não técnicas da inclinação de um especialista para a tese ou para a antítese. Em outros casos, há uma inversão: pelo fato de ter escolhido a tese ou a antítese, deduz-se que tem esta ou aquela preferência não técnica ou tendência política.
Pode-se sustentar outra tese: todos os julgamentos de especialistas com resultados do tipo 6 a 4 ou 5 a 5, ou 6 a 5, são suspeitos. Qual é a suspeição? Falta de elementos claros para uma decisão consistente.
Esta é uma tese geral, abstrata, que não pretende defender a ou b.
Uma tese que busca a universidade.
Se um especialista diz que a leitura correta é “a” e outro especialista diz que é “b”, também se pode pensar em outra hipótese, radical: não há mais especialidade. Tudo é possível.
Voltamos ao ponto de partida. Como o “ignorante com iniciativa” decide a questão: chama de especialista apenas aquele que defende uma posição que coincida com a sua.
Como reage o observador intelectual a isso:
1 – Faz o seu próprio exame da matéria.
2 – Conclui que é impossível decidir claramente por um ou por outro lado.
3 – Reconhece a legitimidade das teses em jogo e, se escolher uma a partir da sua análise, não deixará de aceitar como racional a escolha da tese oposta, salvo se for capaz de provar o que leva à escolha da tese ou da antítese. Só a prova empírica pode acrescentar elementos ao julgamento.
Mas, no julgamento, isso não está em questão.
Resta uma hipótese: todo julgamento da política é político.
Mesmo tecnicamente.
Pode não implicar manipulação direta, mas envolve uma infraestrutura mental, um imaginário, que não se pode, ou dificilmente, colocar entre parênteses, em suspensão, para julgar.
Nada de novo: esse é paradoxo do julgador.
Para julgar bem, precisa, antes, julgar a si mesmo.


terça-feira, 13 de agosto de 2013

Xô urucubaca e suas catracas!

 

buscado no Trezentos

 

 


Semana decisiva para os protestos que desde junho sacodem o Brasil

As manifestações que desde o mês de junho tomaram conta do país inauguraram um processo inédito de participação popular na democracia brasileira. Fizemos as mais grandiosas manifestações de rua de toda nossa história política e de lá para cá as ocupações se multiplicaram por todo o Brasil e os protestos, ainda que menores, seguem acontecendo diariamente. A multidão derrubou os 20 centavos e também o consenso através do qual nos faziam crer que o povo brasileiro aceitaria sempre passivamente o jogo mafioso feito na política tradicional.
Desde junho, a elite política que ocupa os diferentes níveis de governo não tem mais consigo dormir porque o barulho feito nas redes e na rua não cessa. No Rio, Cabral já não sabe mais como pedir pra que lhe deixem recuperar o sono. Em São Paulo, Alckmin acendeu todas as luzes de alerta com o vazamento do escândalo do cartel milionário do metrô e um novo chamado às ruas feito pelo MPL, principal organizador daquilo tudo que vimos em junho. Enquanto isso em Brasília, apesar do esforço de Dilma em tentar viabilizar uma Reforma Política, o Congresso já não faz mais nenhuma questão de ‘mostrar serviço’ pois acreditam estar livres do sufoco em que se viram com a multidão às suas portas.


Um fantasma ronda as redes sociais



Desde que o MPL anunciou sua volta às ruas marcada para esta quarta-feira, dia 14/08, o sono tem ficado ainda mais difícil para os todos os nossos governantes e principalmente para os que temem as ruas. Com a multidão de volta à cena em SP, em pleno escândalo do tucanoduto, em meio ao teatro da Reforma Política ‘subir no telhado’ e somados às ocupações de Câmaras Municipais pelo país poderíamos mesmo estar diante do estopim de questionamentos ainda maiores e principalmente de um novo ciclo de protestos gigantescos como fizemos em junho.

Evitar que a multidão volte às ruas dia 14 e pare São Paulo tornou-se a principal ocupação do obscurantismo que liga o governador de SP, a elite tucana e ‘comitê central do conservadorismo’ cujos porta-vozes mais conhecidos são Reinaldo Azevedo e a Veja.
 
A estratégia utilizada por eles não é nova: a criação de um ‘factoide político’ capaz de ‘dividir para conquistar’. Os factoides obedecem sempre à mesma lógica: trazem a público alguma ‘revelação’ capaz de instalar uma ‘crise moral’ para dividir aqueles que estão juntos realizando coisas em comum. Pautados pela crise moral, os organizadores dos protestos se dividem em longas discussões de acusação e defesa, cujo resultado é a natural desmobilização das ruas e o consequente fracasso do chamado à mobilização.


A revista Veja, desde junho, procura construir ‘dossiês antídoto’ contra os organizadores dos protestos para criarem factoides na medida de sua necessidade. 

 O MPL, exemplar em sua organização e blindado pela vitória da revogação dos 20 centavos, dificultou a armação do factoide contra eles. Foi por isso que o alvo escolhido pelo obscurantismo do tucanato para boicotar o chamado às ruas tornou-se a Mídia NINJA. Plataforma surgida no calor das ruas, os NINJA alimentaram a rede social com a continuidade do processo aberto em junho. Não foi difícil para o obscurantismo saber de críticas que se faz Fora do Eixo e de suas inegáveis contradições, afinal, qual organização não as tem? Os NINJA tornaram-se então o melhor alvo para instalar a crise moral. O convite ao Roda Viva, aceito ingenuamente por eles, já obedecia à estratégia de colocá-los no olho do furação. Ao mesmo tempo, buscaram incentivar ‘testemunhos’ que fossem capazes de impactar nas redes e por em colapso a organização dos novos protestos. Acertaram no alvo. Qual organização está livre de críticas? Quem não tem entre seus ex-membros quem acuse incoerências? Gerando desconfiança e provocando a divisão, neutraliza-se ou minimiza-se compartilhamento das convocatórias e das transmissões online dos protestos


As acusações feitas ao FdE obedecem à lógica do factoide.

Acusações gravíssimas para tornar a necessidade de apuração uma exigência que o próprio ativismo se veja obrigado a fazer e também para abrir a via legal de criminalização através do Ministério Público é mesmo o método tradicional do factoide. Mas quando falamos em ‘trabalho escravo’, ‘fanatismo’, ‘estelionato’, ‘abuso sexual’, etc não estamos falando de coisas graves demais para terem perdurado tanto tempo em silêncio?
É mesmo estranho demais que, poucas horas depois de postado, um ‘depoimento’ feito via Facebook se replique de forma ainda mais completa no blog de Reinaldo Azevedo e na Veja para sintonizar uma campanha difamatória e causar a repercussão que causou. A cineasta cujo depoimento foi o estopim da campanha e o blogueiro da Veja já seriam antes “amigos no Facebook”? Qual ‘duto’ da rede social ligaria os dois?

Conheço pessoalmente Beatriz Seigner e mantivemos longos diálogos sobre o Fora do Eixo. Em janeiro, durante o Festival de Tiradentes, passamos horas analisando o coletivo e suas limitações e potência. Até então, não havia qualquer referência a ‘trabalho escravo’, ‘fanatismo religioso’, ‘estelionato’ ou ‘abuso sexual’ no relato de sua experiência com eles. Consultei outros amigos sobre as ‘denúncias’ expressas por ela e todos constatam que jamais tiveram o teor criminal que o ‘testemunho’ pós-Roda Viva trouxe dando início ao processo de satanização e ‘caça às bruxas’ feito contra este coletivo. O que mudou agora? Por quê? A última novidade da campanha é a criação de uma plataforma anônima de denúncia contra o Fora do Eixo na internet nos moldes do Wikileaks.
Não pretendo lançar qualquer dúvida sobre a participação ativa de Beatriz Seigner na armação do factoide. Sei que ela não aceitaria fazê-lo de modo explícito. Mas teria sido incentivada a fazer isto, nesta hora e neste tom?  Se sim, quem incentivou? O que pessoalmente mais me decepciona em relação àquilo que eu esperava de Bia é não ter visto qualquer texto seu, 10% sequer dos caracteres usados contra o Fora do Eixo, expressando seu repúdio à apropriação de seu depoimento pela Veja ou palavras suas que colocassem Reinaldo Azevedo em seu devido lugar. Alguém viu? Tem o link?


Atenção, senhores! Tentam nos desviar do foco!

Apurar e investigar o Fora do Eixo? Fala sério! Eu quero apurar a máfia dos transportes, o escândalo do metrô paulista, os estádios da Copa, as relações inescrupulosas da grande mídia. Eu quero lotar o Anhangabaú com o MPL no dia 14 de agosto. Eu quero que as manifestações convocadas na rede sigam seu curso vitorioso. Que os NINJA continuem ao nosso lado transmitindo a porra toda. Que não venham querer sabotar as lutas como se nós fôssemos otários. Não é hora de dividir! Não se faz isso quando a rua está viva e temos a obrigação de vencer. Precisamos, isso sim, é fortalecer as lutas.

Mudar o mundo exige bem mais que curtir e compartilhar. Vínhamos vencendo porque estávamos no caminho certo, apontando os alvos verdadeiros daquilo que nos sufoca.  

Não permitam que nos confundam o alvo. Não permitam que nos esvaziem as ruas. Não permitam estratégias sórdidas pra nos calar e vencer.
O bom combate continua.
A nossa primavera apenas começou!


Escrito por em 12 agosto 2013