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terça-feira, 20 de novembro de 2012

Zumbi vive na Serra da Barriga

 

 

buscado no Cappcete

 

 



Se apurarmos o ouvido, escutaremos os atabaques chamando às armas, anunciando a chegada dos negreiros malditos    

Mario Maestri



Escultura de Zumbi dos Palmares na praça da Sé, em Salvador (BA) -
Foto: Gorivero/CC



Em 20 de novembro de 1695, Nzumbi dos Palmares caía lutando em mata perdida do sul da capitania de Pernambuco. Seu esconderijo fora revelado por lugar-tenente preso e barbaramente torturado. Mutilaram seu corpo. Enfiaram seu sexo na boca. Expuseram a cabeça do palmarino na ponta de uma lança em Recife. Os trabalhadores escravizados e todos os oprimidos deviam saber a sorte dos que se levantavam contra os senhores das riquezas e do poder.           
Em 1654, com a expulsão dos holandeses do Nordeste, os lusitanos lançaram expedições para repovoar os engenhos com os cativos fugidos ou nascidos nos quilombos da capitania. Para defenderem- se, as aldeias quilombolas confederaram- se sob a chefia política do Ngola e militar do Nzumbi. A dificuldade dos portugueses de pronunciar o encontro consonantal abastardou os étimos angolanos nzumbi em zumbi, nganga nzumba, em ganga zumba. A confederação teria uns seis mil habitantes, população significativa para a época.      
Em novembro de 1578, em Recife, Nganga Nzumba rompeu a unidade quilombola e aceitou a anistia oferecida apenas aos nascidos nos quilombos, em troca do abandono dos Palmares e da vil entrega dos cativos ali refugiados ou que se refugiassem nas suas novas aldeias.          
Acreditando nos escravizadores, Ganga Zumba deu as costas aos irmãos de opressão e aceitou as miseráveis facilidades para alguns poucos. Abandonou as alturas dos Palmares pelos baixios de Cucuá, a 32 quilômetros de Serinhaém. Foi seduzido por lugar ao sol no mundo dos opressores, pelas migalhas das mesas dos algozes.     
Então Nzumbi assumiu o comando político-militar da confederação.            
Para ele, não havia cotas para a liberdade ou privilegiados no seio da opressão! Exigia e lutava altaneiro pelo direito para todos!         
Não temos certeza sobre o nome próprio do último nzumbi que chefiou a confederação após a defecção de Nganga Nzumba. Documentos e a tradição oral registram-no como Nzumbi Sweca.            
Nos derradeiros ataques aos Palmares, as armas de fogo e a capacidade dos escravistas de deslocar e abastecer rapidamente os soldados registravam o maior nível de desenvolvimento das forças produtivas materiais do escravismo, apoiado na superexploração dos trabalhadores feitorizados. As tropas luso-brasileiras eram a ponta de lança nas matas palmarinas da divisão mundial do trabalho de então.   
Não havia possibilidade de coexistência pacífica entre escravidão e liberdade. Palmares era república de produtores livres, nascida no seio de despótica sociedade escravista, que surge hoje nas obras da historiografia apologética como um quase paraíso perdido, onde a paz, a transigência e a negociação habitavam as senzalas. Palmares era exemplo e atração permanentes aos oprimidos que corroíam o câncer da escravidão.         
Como já lembraram, nos anos 1950, o historiador marxista-revolucionário francês Benjamin Pérret e o piauiense comunista Clóvis Moura, a confederação dos Palmares venceria apenas se espraiasse a rebelião aos escravizados dos engenhos, roças e aglomeração do Nordeste, o que era então materialmente impossível.   
Palmares não foi porém luta utópica e inconsequente. Por longas décadas, pela força das armas e a velocidade dos pés, assegurou para milhares de homens e mulheres a materialização do sonho de viver em liberdade de seu próprio trabalho. Indígenas, homens livres pobres, refugiados políticos eram aceitos nos Palmares. Eram braços para o trabalho e para a resistência.   
A proposta da retomada da escravidão colonial em Palmares, com Zumbi com um “séquito de escravos para uso próprio”, é lixo historiográfico sem qualquer base documental, impugnado pela própria necessidade de consenso dos palmarinos contra os escravizadores. Trata-se de esforço ideológico de sicofantas historiográficos para naturalizar a opressão do homem pelo homem, propondo- a como própria a todas e quaisquer situações históricas.          
Palmares garantiu que milhares de homens e mulheres nascessem, vivessem e morressem livres. Ao contrário, em poucos anos, os seguidores de Ganga Zumba foram reprimidos, re-escravizados ou retornaram fugidos aos Palmares, encerrando- se rápida e tristemente a traição que dividiu e fragilizou a resistência quilombola.      
A paliçada do quilombo do Macaco foi a derradeira tentativa de resistência estática palmarina, quando a resistência esmorecia. Ela foi devassada em fevereiro de 1694, por poderoso exército, formado por brancos, mamelucos, nativos e negros, entre eles, o célebre Terço dos Enriques, formado por soldados e oficiais africanos e afro-descendentes. Não havia e não há consenso racial e étnico entre oprimidos e opressores.       
O último reduto palmarino, defendido por fossos, trincheiras e paliçadas, encontrava- se nos cimos de uma altaneira serra.        
A Serra da Barriga e regiões próximas, na Zona da Mata alagoana, com densa vegetação, são paragens de beleza única. Quem se aproxima da serra, chegado do litoral, maravilha-se com o espetáculo natural. O maciço montanhoso rompe abruptamente, diante dos olhos, no horizonte, como fortaleza natural expugnável, dominando as terras baixas, cobertas pelo mar verde dos canaviais flutuando ao lufar do vento.     
Se apurarmos o ouvido, escutaremos os atabaques chamando às armas, anunciando a chegada dos negreiros malditos. Sentiremos a reverberação dos tam-tans lançados do fundo da história, lembrando às multidões que labutam, hoje, longuíssimas horas ao dia, não raro até a morte por exaustão, por alguns punhados de reais, nos verdes canaviais dessas terras que já foram livres, que a luta continua, apesar da já longínqua morte do general negro de homens livres.     

Mario Maestri é professor do programa de pós-graduação em História da UPF.

domingo, 26 de agosto de 2012

'Outros 500 - Uma Conversa Sobre A Alma Brasileira'

buscado no Koyaanisgatsi


Lucy Dias e Roberto Gambini

“O ataque à natureza e a posse da mulher índia pelo branco, de cujo casamento resulta a protocélula do povo brasileiro, são sinais do nosso batismo, que resultará na criação de um híbrido que nunca saberá quem é porque nem pai nem mãe lhe servirão de espelho ou modelo de identidade. Um menino brasileiro, filho de pai português e mãe tupinambá, não tinha lugar na corte quinhentista, era um pária, um fruto do acaso. Também não pertencia ao mundo da mãe. Ele não tem saída. Vai ficar no vazio, à espera de que algo seja construído... não sabe que direção seguir. O que é um ‘bandeirante’? É um homem com uma tropa atrás e uma obsessão na frente. Que modelos são esses? Não é o modelo do quaker americano, marido, mulher e uma enxada. Não houve síntese, porque há uma negação. Havia uma recusa, por parte do elemento dominante, de incluir a identidade dos dominados. Os filhos da terra são maltratados e desprezados. Nós precisamos de símbolos de comunhão, de síntese, de junção das partes. O outro, de classe inferior, as crianças abandonadas... Nos tornamos bárbaros com o passar dos séculos, até chegar onde chegamos. As diferenças sociais ...se confundem com diferenças físicas, naturais e corpóreas. Quando pensamos em "nós, os brasileiros", temos consciência de que somos um povo multirracial… mas na hora em que alguém, de fato, tem que pensar o que é o brasileiro, não pensa no negro. É um pouco assim: ' eu sou feito de várias partes, porém só me identifico com algumas dessas partes e não com outras' ou 'acho que certas partes não tem o mesmo valor que outras'… Então, aí se oculta uma sabotagem. A sociedade brasileira está amarrada, mas não sintetizada. Não houve amálgama, não houve síntese. Por quê? Porque houve uma negação. Isso cria um ser mal-resolvido. Cria uma tensão interna em nível profundo. Não podemos ser um todo enquanto houver esse tipo de relação entre as partes. O Brasil tem muita energia vital, mas tem uma tristeza enorme. A tristeza daquele que não vê o seu valor reconhecido, daquele que sabe que podia ser diferente, que não tinha que ser assim, que arrasta uma coisa que não combina. Isso entristece porque não se consegue mudar, mas a gente sofre. Cada uma das barbaridades que acontecem a cada dia, as barbaridades brasileiras, a mortalidade infantil, a seca, o caos urbano, a violência, a imoralidade e a corrupção. As patologias todas… Há um débito psíquico que, se não for formulado e trabalhado, não permitirá que surja um processo de conscientização da identidade.