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terça-feira, 25 de junho de 2013

A obsolescência programada da humanidade



O mundo é grande o suficiente para atender às necessidades de todos, mas sempre demasiado pequeno, para a ganância de alguns.

Mahatma Gandhi


Por Jader Resende
Na sombra do poder, a obsolescência programada se torna cada dia mais dominante. Nenhum produto industrializado suporta seu uso natural, visa somente garantir um consumo constante.
Obrigando-nos a viver na eterna busca do novo que rapidamente se torna obsoleto, aos poucos nos tornamos dependentes da obsolescência psicológica, ou seja, jogar fora o velho esta se torna a felicidade de comprar o novo.
Tenhamos petróleo, ex-sal, ouro, ferro, vidro, e madeira, também tínhamos diversas profissões tradicionalmente familiares e extintas pela ganância de poucos. Nesta avalanche de produtos descartáveis visando somente maximizar o lucro, nada mais. Em breve este suplício imposto a humanidade sairá caro.
Se não bastasse vender nossa soberania e nossas riquezas e não incentivar a criação de patentes (veja Bina ), somos usados como laranjas, transportando malotes de dinheiro para outros países através das marcas e patentes.
Generosamente damos matéria prima  e somos obrigados a comprar o que não dura e não presta. Desta forma estruturam cada vez mais o consumo de bens materiais. Neste objetivo insane de lucrar, cada vez mais, o neoliberalismo como uma doença vai aliciando todos sem piedade.
Num esforço teatral, ficamos cheio de dedos numa extrema delicadeza artificial, tentando fechar a “torneira plástica” finamente projetada (pra Inglês ver), que acaba sempre quebrando em pouco tempo e suas peças em blocos de plásticos  não permitem consertos.
Convivemos com portas de armário conglomerados  desabando ao menor toque, gavetas que nada suportam e vivem  despencando na cabeça de “velhos e crianças” que dependem de visinhos, porteiros e até mesmo transeuntes para socorrê-los. Trocar frequentimente lâmpadas e outros eletrodomésticos que vivem a queimar ou quebrar é rotina.
O fenômeno industrial da obsolescência programada destrói o poder mágico de dar vida a tudo que nos rodeia, de sentir no lar as vibrações deixadas por gerações passadas. Destroem as lembranças dos velhos, acelerando sua morte e condenam os mais novos a não conhecerem a ultima face mágica vida.
Envelhecer em qualquer situação e difícil. A constante presença da morte entre amigos, visinhos e pessoas queridas é dolorosa, a aceitação das deficiências que surgem com a idade é uma luta constante e buscar nas lembranças escondidas durante a vida em tudo aquilo que o envolve torna-se uma riqueza.
Privá-los destas lembranças é como se arrancasse o idoso de uma casa onde viveu toda sua vida para viver num local completamente desconhecido do seu passado.
Éramos encantados ao ouvir: “Este moveis pertenceram a meus avos e os guardo com carinho, em cada canto tenho um tesouro”. Brotava lembranças em sua face marcada pelas tatuagens da natureza, fluía em seus mínimos detalhes o sorriso suave e um monte de casos buscados no fundo da alma, para cada móvel da casa uma mágica lembrança. Não era necessário remédio para doenças de esquecimentos. Lembranças eram a ultima companhia na solidão da velhice imposta pela sociedade.
Não mais existem estes belos sentimentos que transformava os moveis de madeira de lei num refúgio seguro para os sonhos do passado que a sociedade não conseguiu tomar dos velhos.
A natureza na sua precisão da aos velhos o poder de vivenciar o passado em cada objeto que o cerca, esta felicidade é destruída por aqueles que sem noção do seu próprio envelhecimento convivem com o poder desumano do dinheiro.
O sonho mágico deixou de existir, a aceleração da vida moderna priva-nos de conviver com os objetos que nos transportava para as alegrias vividas, em nome da maldita obsolescência programada. Só a natureza paga por fornece matéria prima para esse esbanjamento estúpido que terá graves consequências ambientais.
Meios de comunicação são usados para impor o consumo e aquecer a economia, partem para endividar o povo, financiando um emaranhado de lixo para o lar sem valor sentimental ou comercial, aproximando cada vez mais a destruição do passado e futuro num curto espaço de tempo.
Tornando-nos consumidores doentios, sugam nossos suor e nosso pão para benefícios dos proprietários de grandes marcas e patentes, destruindo de imediato o companheirismo entre os próprios trabalhadores e da natureza. Cedo ou tarde este desperdício custara caro, isto na melhor das hipóteses.
Espertalhões em mirabolantes e lucrativos casamentos das monstruosas marcas e patentes tornam-se, o que existe de mais genial em nossas vidas. Descartáveis em negociatas nos cassinos econômicos se eternizam como gênios da nossa História.
O futuro dependera do que deixamos ou não, as oito famílias que agora dominam o mundo, fazerem. Haverá tempo deles construírem um mundo artificial? Se for isto que pensam acredito que não.
Por fim podíamos estar fazendo muita coisa produtiva e não podemos somos manipulados e obrigados a venerar o grande irmão pelo suplicio imposto à natureza.
Leia também
http://jaderresende.blogspot.com.br/2012/05/arte-de-envelhecer-
segundo-cicero.html
      

 ACorporação(documentário)


http://jaderresende.blogspot.com.br/search/label/Filme?updated-max=2012-06-19T22:01:00-03:00&max-results=20&start=19&by-date=false
 
end no You tube








terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O GRANDE NEGÓCIO DA SAÚDE




buscado no Mauro Santayana





          (HD) -    Não há melhor negócio no mundo do que a saúde. Não há maior prova de humanismo do que o exercício honrado da medicina. São duas visões conflitantes da mesma idéia, a que une a vontade de viver e o medo permanente da morte.
            O negócio da saúde envolve a indústria do ensino, a atividade médica, as pesquisas biológicas e bioquímicas, o desenvolvimento técnico e científico, a produção e a venda dos medicamentos, os hospitais e as empresas de seguro médico, as chamadas operadoras.
           Desde o governo militar a proliferação de universidades privadas no Brasil tem sido grande negócio político-empresarial. Muitas das licenças para o seu funcionamento foram concedidas aos políticos ou a parceiros de políticos. Essas licenças são renovadas, ainda que a qualidade do ensino seja cada vez mais deplorável. Sem laboratórios, sem  lições práticas de anatomia e patologia, sem professores capacitados, surgiu o sistema em que médicos incompetentes ensinam alunos despreparados a se tornarem também médicos incompetentes e novos mestres de médicos ainda mais incompetentes. 
          Contrastando com esse quadro desolador temos alguns dos melhores hospitais do mundo, estatais e privados, que servem de referência internacional.        Mas esses, embora muitos deles reservem leitos para o atendimento universal, pelo SUS, são de difícil acesso aos pobres.
         A classe média se vale dos planos de saúde, que se têm revelado dos maiores e mais lucrativos negócios do Brasil, cobiçados pelos consórcios internacionais. A Amil, conforme se noticiou, está sendo adquirida por capitais norte-americanos. Essas instituições foram, em seu início, cooperativas de médicos e se transformaram em empresas mercantis comuns.
        No passado tínhamos menos recursos técnicos, mas os médicos, de modo geral, possuíam melhor formação. A maioria dos médicos brasileiros, felizmente, é constituída de homens e mulheres dedicados, com alta qualificação e profundo sentimento humanista. Muitos deles conseguiram superar as falhas do ensino, empenhando-se no aprimoramento constante.
         As operadoras dos planos de saúde poderiam deixar de existir, se os recursos que arrecadam – grande parte deles destinados só a remunerar seus controladores - fossem administrados diretamente pelo Estado. 
      Talvez o governo pudesse enfrentar a ganância dos donos dos planos de saúde de forma corajosa e radical, e não só suspendendo a ampliação do número de segurados, como decidiu agora a ANVISA. É preciso todo o rigor contra os que violam  a lei e, na alteração unilateral dos contratos, lesam os segurados – sobretudo os mais idosos – depois de os terem escalpelado ao longo dos anos.


domingo, 2 de dezembro de 2012

Brasileira/o gasta mais com plano de saúde do que poder público


buscado no diarioliberdade 

 

 

231012 saude
















Brasil - EPSJV-Fiocruz - [Viviane Tavares] Enquanto operadoras de plano de saúde lucram, serviços públicos de saúde são enfraquecidos.





Maria precisava de uma consulta médica com um especialista. Embora não fosse um caso de emergência, ela esperou quase dois meses para conseguir uma consulta e o único lugar que tinha tal especialidade era a 50 km de sua residência. A situação fictícia parece ser o retrato do serviço público de saúde mostrado pela grande mídia, mas é, na realidade, o encontrado por usuários da saúde suplementar.
Atualmente, de acordo com a Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008-2009 - Perfil das Despesas do Brasil do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada em setembro, os brasileiros gastam 7,2% de sua renda mensal com saúde, entre planos de saúde e remédios. Mas, como explicar um aumento nos gastos com saúde por parte do cidadão, superando os investimentos do poder público, e a qualidade dos serviços de saúde cada vez mais precária? 
Para Ligia Bahia, doutora em Saúde Pública e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), esse fenômeno pode ser atribuído ao aumento das mensalidades e não exatamente ao fato de mais brasileiros se vincularem aos planos privados. Apesar do aumento, ela ressalta que a qualidade do serviço prestado não acompanhou a mudança e que essa pode ser a única alternativa para muitos brasileiros. "A maioria das pessoas que adquire ou se vincula via empresa empregadora a um plano de saúde precário sabe que não pode esperar um atendimento igual ao do patrão ou dos cidadãos brasileiros ricos. A expectativa de aderir a um plano privado é a de escapar de dois grandes problemas do Sistema Único de Saúde (SUS): a demora e a total despersonalização da assistência", explica Ligia. Recentemente, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) divulgou que foi de R$ 1,27 bilhão o lucro líquido, no primeiro trimestre de 2012, de cerca de mil operadoras de saúde ativas no país. 

Despesa pública x despesa privada 
De acordo com a Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008-2009, a despesa de consumo das famílias brasileiras com bens e serviços de saúde chegou a R$ 157,1 bilhões (4,8% do PIB - Produto Interno Bruto) em 2009. Enquanto isso, a despesa da administração pública com esses bens e serviços foi de R$ 123,6 bilhões (3,8% do PIB). Portanto, como também informa o relatório Estatísticas de Saúde Mundiais 2011 , da Organização Mundial de Saúde (OMS), a iniciativa privada fica com a fatia de 56% diante de 44% dos gastos públicos com saúde. "É uma contradição estrutural. O Brasil tem um sistema universal lastreado por um financiamento de sistema segmentado. Ou seja, a expansão do mercado de planos privados só nos distancia da efetivação do SUS". 
Para Ligia Bahia, esse crescimento dos planos de saúde ainda interfere na universalização do SUS. "Como as interfaces entre o setor privado e o sistema público são muito extensas no Brasil, a existência de um mercado de planos de saúde em expansão representa um obstáculo concreto à universalização do direito à saúde. Os planos de saúde são os principais vetores de desigualdade do sistema de saúde brasileiro", analisa. 
Baseado em dados da OMS, o Conselho Federal de Medicina (CFM) mostra que o governo brasileiro tem uma participação menor do que as suas necessidades e possibilidades no financiamento da saúde pública. Do grupo de países com modelos públicos de atendimento de acesso universal, o Brasil é o que tem a menor participação do Estado (União, Estados e Municípios). Esse percentual fica em 44%, quase a metade do que é investido pelo Reino Unido (84%), Suécia (81%), e muito inferior a países como a França (78%), Alemanha (77%), Espanha (74%), Canadá (71%), Austrália (68%) e Argentina (66%). 

O que a nova 'classe média' está consumindo?
De acordo com Lígia Bahia, as coberturas dos novos planos para os segmentos de renda C e D são ainda menos abrangentes do que as tradicionais dos planos básicos brasileiros, que já são bem restritas. "O desenho dos planos corresponde à acepção de diferenciação da qualidade da mercadoria de acordo com o preço. O problema é que na saúde tal distinção colide com todas as concepções sobre a igualdade biológica da humanidade", explica.
A professora lembra ainda que a estratificação social não pode ser transposta para a saúde. "Se fosse assim não seria necessário ter política de saúde. A estratificação origina discriminações e privilégios que estão na origem de filas que não andam e atendimento imediato de autoridades públicas e privadas e, portanto a demora injusta e evitável no tratamento de pacientes graves", analisa. 
Vale lembrar também que o próprio poder público ajuda a financiar a saúde suplementar ao oferecer esse tipo de benefício como parte da remuneração aos servidores. Ligia Bahia entende que falta consciência sanitária aos servidores públicos, inclusive àqueles que atuam em instituições de saúde."Muitos servidores públicos consideram que a saúde pública é para os pobres e que o plano privado de saúde ajuda porque desonera o SUS. O fato de os planos serem financiados com recursos públicos é pouco divulgado e as negociações de contingenciamento de salários em troca de alguns benefícios, que ocorrem nas mesas de negociação, nem sempre ficam explicitadas", considera. 

Mercado da saúde
O enfraquecimento do SUS em detrimento do crescimento dos planos de saúde também pode ser observado em outros aspectos. Um exemplo é a aquisição, anunciada no início deste mês, 90% da empresa brasileira Amil pela norte-americana United Health. Dependendo da interpretação, o assunto é considerado inconstitucional, uma vez que está previsto na Constituição Federal o veto a 'participação direta ou indireta de empresas ou capitais estrangeiros na assistência à saúde no país, salvo nos casos previstos em lei'. No entanto, a lei 9656/98 , conhecida como Lei Geral dos Planos de Saúde, autoriza a participação de capital estrangeiro. A questão, no mínimo, merece um sinal de alerta.
Isabel Bressan, diretora do Centro Brasileiro de Estudos em Saúde, em artigo publicado na página da instituição, analisa a compra e aponta o enfraquecimento do SUS em detrimento do crescimento dos planos de saúde. "Certamente, o investidor americano acredita que caminharemos para ser como nos EUA, onde o governo paga por planos mequetrefes para pobres e idosos, garantindo para as empresas de saúde uma renda imensa gerada pelo subsídio público. Não por coincidência, há um projeto de lei (PL 489/2011) nesse sentido, de uma deputada federal do Ceará (Ronalba Ciarlini do DEM/RN), que propõe o pagamento de um adicional em dinheiro para quem recebe Bolsa Família, para aquisição de plano de saúde. Há também uma sugestão de representantes das seguradoras de saúde de que o governo complemente o pagamento de planos para idosos como forma de compensar os preços exorbitantes que cobram das pessoas com mais de 60 anos. Tudo com o dinheiro que certamente faltará ao SUS e aumentará o lucro das empresas", analisa.
De acordo com o artigo, esta transição bilionária é uma nova ameaça à conquista efetiva do SUS. "Conforme destacou um considerado consultor empresarial, a compra da Amil por essa empresa americana deverá forçar a adoção de um novo modelo de saúde no Brasil - o modelo americano", enfatizou.

Foto: MG


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Quando a velhice é negada: o envelhecimento na cultura do narcisismo

buscado no Boilerdo  

 

Os idosos na mídia: eles nada têm a dizer

de Wilson Roberto Vieira Ferreira

Quando o envelhecimento e a morte deixam de ser simbolicamente incorporados na cultura por meio de religiões e filosofias, o discurso midiático parece insistentemente querer demonstrar que a velhice não existe, que é tudo uma questão de atitude psicológica. Gerontologia, geriatria, engenharia genética e todo um aparato tecno-científico é atualmente mobilizado para, associado à mídia, apresentar sensacionais “lições de vida” e “superações”: idosos em praticas e comportamentos análogos ao dos jovens criando não apenas uma aversão aos processos naturais de envelhecimento mas, principalmente, a crise da função dos idosos como “elo geracional”: a transmissão de sabedoria e conhecimento acumulados em uma existência.

Já se tornou um lugar comum nas “notícias diversas” (amenidades que em geral encerram os últimos blocos de telejornais) as chamadas “lições de vida” que idosos nos ensinariam: um senhor de 70 anos que pratica maratonas; uma senhora que aos 75 anos retoma a sala de aula para concluir o ensino médio pensando na universidade e nova carreira profissional; outro senhor de 65 anos diz orgulhar-se por aventurar-se no “mundo das atividades físicas”: “faço atividades físicas com força na academia para fortalecer a musculatura e garantir que tão cedo eu não vou ter que ‘pendurar as chuteiras’”, brinca.

Assim como aquela polêmica campanha publicitária de um banco que afirmava que “nem parece banco”, a visão midiática da terceira idade parece ser essa: “nem parece velho”. O discurso midiático parece insistentemente querer demonstrar que a velhice não existe, que é uma questão de atitude psicológica. Em nome de lições sobre “qualidade de vida” vemos imagens de idosos parecidos com jovens ou querendo provar que são fisicamente capazes, tanto quanto eles.

Por isso, a ciência vai mobilizar uma serie de saberes especializados (geriatria, gerontologia, engenharia genética, tanatologia, criônica etc.) para travar uma verdadeira luta para aliviar ou abolir os estragos do tempo.

A crise social da fução de "elo geracional"

dos idosos

Em culturas tradicionais onde a velhice e a morte eram simbolicamente incorporados no dia-a-dia, os idosos sempre foram “elos geracionais” como transmissores de um saber acumulado, conhecimento e sabedoria. Colocados em posição de destaque na sociedade, o natural declínio físico era compensado pela sabedoria, amor e trabalho unidos em uma preocupação com a posteridade na tentativa de equipar os mais jovens para levar adiante as tarefas dos mais velhos.

Hoje toda a indústria da informação e entretenimento faz o caminho inverso: não apenas a velhice é negada por “lições de vida” e todo um aparato terapêutico renovado a cada dia pela indústria farmacêutica como a própria função de “elo geracional” é esquecida: eles nada têm a dizer para as câmeras, a não ser negar a si mesmos numa tentativa a todo custo de aparentar uma atitude positiva e ficar parecidos com os mais jovens.

Eles foram até elevados à categoria etnográfica no mercado: são agora os “Young Seniors”, ávidos por consumo de gadgets que os tornem jovens. O que há por trás dessa aversão não só dos processos de envelhecimento como, principalmente, do esquecimento da função de elo geracional dos mais velhos?

O envelhecimento na cultura do narcisismo

Desde que a General Motors inventou a obsolescência planejada na década de 1920, o “velho” passou a ser um entrave para a reposição acelerada de produtos no mercado e a maximização dos lucros. Toda a indústria da moda e publicidade vai ao longo das décadas posteriores glamorizar o “novo” e a “novidade” como moralmente bons, prazerosos e estimulantes. O ápice dessa verdadeira engenharia de opinião pública foi a construção da cultura pop e jovem nas décadas de 1950-60. “Não confie em ninguém com mais de 30”, dizia o desafiante lema jovem da contracultura: os “mais velhos” (pais e autoridades) passaram a ser encarados como “quadrados”, ultrapassados e intrinsecamente conservadores.

Se isso foi positivo em um momento histórico como revolução e crítica, por outro lado seus líderes não perceberam a ambiguidade dessa nova cultura: seria a base imaginária (ao lado do crédito) de toda a descartabilidade e hedonismo necessários para a aceleração da sociedade de consumo.

A família patriarcal é rapidamente substituída pela família nuclear reduzida aos pais e poucos filhos. Os idosos são varridos para debaixo do tapete social através da aposentadoria e isolamento em asilos. Essa é a fase, por assim dizer, “dura” do relacionamento do capitalismo com os seus “restos”: lixo, produtos velhos, desempregados e idosos.

"Young Seniors": o novo nicho

de consumismo

O impacto demográfico do aumento da expectativa de vida (associado à melhoria da qualidade de vida urbana) cria repercussões econômicas negativas no sistema previdenciário, mas, por outro lado, chama a atenção pelo potencial de consumo da chamada terceira idade. Dessa maneira, os idosos vão ser incorporados à ideologia politicamente correta da reciclagem universal: os restos do capitalismo não serão mais escondidos, mas agora reciclados como novas comodities para o mercado: lixo (pela reciclagem ecológica), desempregados (pela educação para o empreendedorismo ou empregabilidade) e os idosos (pelo discurso terapêutico dos “Young Seniors”).

Pesquisadores como Christopher Lasch e Richard Sennett chamam a atenção para esse esvaziamento do elo geracional dos idosos por essas transformações trazidas pelas soluções médicas e sociais.

Lasch acredita que o medo em relação à velhice não se deve tanto à cultura da juventude, mas à perda do interesse dos homens pela vida terrena após a sua morte pela ascensão de uma personalidade narcísica.

“Por ter o narcisista tão poucos recursos interiores, ele olha para os outros para validar seu senso de eu. Precisa ser admirado por sua beleza, encanto, celebridade ou poder – atributos que geralmente declinam com o tempo. Incapaz de alcançar sublimações satisfatórias nas formas de amor e trabalho, ele percebe que terá pouco para sustentá-lo quando a juventude passar” (LASCH, Christopher. A Cultura do Narcisismo, R. de Janeiro, Imago, 1983,p. 254-55).

O sofrimento central da velhice (o fato de que vivemos vicariamente em nossos filhos ou em gerações futuras) perde suas formas sublimatórias religiosas ou filosóficas como o amor, a sabedoria e o conhecimento, formas que nos faziam se reconciliar com a nossa própria substituição.

O envelhecimento e o declínio do homem público

"O Retrato de Dorian Gray" de

Oscar Wilde: o horror dândi

à velhice contra a hipocrisia

da sociedade

Para Lasch nossa sociedade perdeu o valor real da sabedoria acumulada por uma existência. A chamada “sociedade da informação” manteve o caráter instrumental do conhecimento onde, de acordo com a mudança tecnológica, torna-se obsoleto e frequentemente intransferível. Dessa maneira a geração mais velha nada terá a ensinar a mais jovem, a não ser as “lições de vida” midiáticas onde obsessivamente pessoas mais velhas tentam equiparar-se aos mais jovens.

Sennett associa a crise do valor da velhice ao próprio declínio histórico do homem público. A hipertrofia das mídias e o culto às idiossincrasias das celebridades políticas ou artísticas cria o esvaziamento da vida pública pela percepção narcísica de que a exposição do “interior” é uma realidade absoluta. Ocorre uma estetização geral da esfera pública por uma percepção performática das relações sociais dominadas pelos princípios de impacto, sedução e encantamento do outro (veja SENNETT, Richard. O Declínio do Homem Público, São Paulo: Companhia das Letras, 1987).

Culturalmente esse movimento se reflete na negação da idade e no esforço pela longevidade que espera abolir a própria velhice.

Aqui somos forçados a estabelecer a diferença entre o culto à juventude dândi de Oscar Wilde em “O Retrato de Dorian Gray” e a negação da velhice da cultura midiática atual. Em Wilde vemos uma revolta metafísica em relação à morte que ceifará toda a sabedoria e experiência que serão perdidos em uma sociedade hipócrita. É a mesma revolta metafísica do replicante Roy no filme “Caçador de Andróides” (Blade Runner, 1982) que, condenado a viver apenas quatro anos, busca desesperadamente seu criador por mais vida para que tudo o que ele viu e conheceu não se percam “como lágrimas na chuva”.

Na atualidade experiência e sabedoria são menos ensinamentos a ser passados para uma geração futura do que uma histérica lição de vida performática: a de ser um velho de “cabeça jovem em um corpo são”, cujo único conselho é o de fazer “young seniors” transformarem-se em ávidos consumidores de mercadorias terapêuticas que ajudem a negar a si mesmos como testemunhas vivas do tempo e de uma sabedoria que se perdeu.

 

 

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Maus trato ao idoso

Conheçam, partícipe de sua luta que deveria ser de todos nós.


Tatuagem da Natureza - Che

83 anos, Hay que endurecer, pero perder la ternura jamás


Buscado no OpenSante


Antonio Conselheiro: um abolicionista da plebe



por Clóvis Moura
O movimento camponês de Canudos, no interior da Bahia, durante o governo de Prudente de Morais, infelizmente ainda não foi estudado em todas as suas diversas vertentes e devida profundidade. A obra de Euclides da Cunha Os sertões tornou-se um clássico literário e aqueles que procuram analisar e interpretar esse acontecimento histórico quase sempre partem de suas informações. Uma pesquisa sistemática e exaustiva, por isto mesmo, ainda não foi feita com a profundidade que o tema merece. Um dos defeitos mais visíveis é ignorar-se a importância de Antônio Vicente Mendes Maciel (O Conselheiro) como líder, agitador e organizador. Ele é sempre visto como um místico, messiânico, quando não um desequilibrado mental. O seu crânio, após a sua degola, foi enviado a Salvador, para estudos médico-legais e antropológicos por cientistas influenciados pela Escola de Lombroso, para serem procurados nele os estigmas do ‘criminoso nato’ (1).
Até hoje, por outro lado, não possui um biógrafo que o estudasse por meio de pesquisas modernas e de uma metodologia satisfatória. O livro de Edmundo Moniz, no particular, que vai nessa direção, ressente-se de falhas teóricas muito acentuadas (2). O certo é que a figura de Antônio Conselheiro é sempre apresentada como se fosse a de uma individualidade mórbida, desligada do contexto social do qual surgiu e sem nenhuma ligação funcional e dinâmica com os problemas e as contradições emergentes da região em que a luta eclodiu.
Por essas razões, poucas vezes é lembrado como abolicionista e pregador para a massa escrava. Mas, esse personagem, que percorreu a partir de 1874 grande parte do território cuja população escrava era considerável, não podia deixar de interessar-se pelos cativos, muitos deles egressos dos quilombos da região ou com a revolta latente em face das condições em que viviam.
Em primeiro lugar, devemos ver as suas raízes étnicas, pois quase todos os que dele se ocuparam afirmam ter sido branco. No entanto, no seu batistério ele é registrado como pardo. Vejamos:
Aos vinte e dois de maio de mil oitocentos e trinta batizei e pus os Santos Óleos nesta Matriz de Quixeramobim ao párvulo Antônio pardo nascido aos treze de março do mesmo ano, filho natural de Maria Joaquina: foram padrinhos, Gonçalo Nunes Leitão e Maria Francisca de Paula. Do que, para constar, fiz este termo em que me assinei. O Vigário Domingos Álvaro Vieira. (3)

Como podemos ver, pela sua certidão de batismo, foi considerado pardo pelo padre que o batizou. Se isto, porém, não é de grande significado para avaliar o seu abolicionismo, serve para repor a verdade. O que é importante é apurar-se se na sua biografia pode se constatar uma postura abolicionista nas suas pregações e mais especialmente se essas prédicas foram dirigidas aos próprios escravos.
Quem toma como fonte de informações de sua vida o texto de Os Sertões de Euclides da Cunha certamente nada encontrará. O seu racismo no particular é evidente pois, como acentua muito bem o professor José Calasans, apoiado em livro que Pedro A. Pinto organizou sobre o vocabulário do livro, as palavras escravo e escravidão não se encontram ali uma vez sequer (4) .
Outras fontes, porém, revelam um Antônio Conselheiro preocupado com a escravidão e a sorte dos cativos, dirigindo-se aos próprios escravos, os quais posteriormente irão engrossar as suas hostes. Ainda o professor Calasans escreve que o jornalista Manoel Benício, correspondente do Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, junto às forças em operações contra os jagunços, autor de um bom livro relativo à vida dos conselheiristas e de seu guia, percebeu e registrou a posição adotada pelo "Bom Jesus" em face do problema da escravidão:
"Ignorante e enraizado nos velhos hábitos da administração de então, desconfiado como são todos os sertanejos" escreveu Manuel Benício, "de índole conservadora por nascença, achava que toda reforma na administração e toda inovação na economia política eram um meio de se roubar o povo. Fora contra a introdução do sistema métrico-decimal no comércio e a única reforma que encontrou sua aquiescência mais tarde, em 1888, foi a abolição dos escravos. Talvez porque grande porção de quilombos e mucambeiros acautelassem sua errante cruzada."

Para José Calasans, ele "transmitiu aos escravos os ensinamentos dos Evangelhos. Não estando formulando uma hipótese", prossegue:
Baseamos nossa assertiva num depoimento contemporâneo, perdido nas folhas de uma gazeta baiana de 1897, no auge da luta fratricida. Um italiano, que trabalhava na construção da estrada de ferro Salvador-Timbó, narrou, nesses termos, seu encontro com o peregrino: "Veja como este povo", disse-lhe o Conselheiro apontando a gente que aguardava a sua pregação, "na sua totalidade escrava vive pobre e miserável. Veja como ele vem de quatro e mais léguas para ouvir a palavra de Deus. Sem alimentar-se, sem saber como se alimentará amanhã, ele nunca deixa de atrair pressuroso às palavras religiosas, que, indigno servo de Deus e por ele amaldiçoado, iniciei neste local para a redenção dos meus pecados". No lugarejo mencionado, que outro não era senão Saco, entre Timbó e Vila do Conde, na então província da Bahia, durante o dia quase não havia viva alma. Mais de duas mil pessoas, porém, surgiram de noite, ansiosas para ouvirem os conselhos do Bom Jesus. "Ao anoitecer", prosseguiu o empreiteiro, "começavam a chegar e às 8 horas a praça estava cheia, tendo mais de mil pessoas, todas escravas, e após o sermão, que em seguida um explicava ao outro, visto que somente os vizinhos podiam ouví-lo, todos cantavam as seguintes estrofes: Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo, ao que as mulheres e meninos respondiam para sempre seja louvado o santo nome de Maria, e isto até a meia noite, algumas vezes. De manhã não havia pessoa alguma no arraial".
A informação transcrita, documenta, com segurança, as relações do Conselheiro com os escravos da zona citada, que atentamente escutavam a pregação do ‘santo’ de Quixeramobim. Convém esclarecer, desde logo, que na região de Itapicuru, onde Antônio Conselheiro passou grande parte de sua vida de pregador, havia, na época aqui estudada, apreciável número de pequenos engenhos, o que explica a presença de grande quantidade de escravos. Os cativos necessitavam da palavra de conforto e de ajuda do bondoso peregrino, que conforme escreveu o informante acima citado, distribuía apreciáveis quantias às famílias pobres, naturalmente obtidas nas casas dos mais ricos, daqueles senhores de engenhos e negociantes mais generosos. (5).

Convém notar que, na zona de Itapicuru, existiu um quilombo que durante muito tempo deu trabalho às autoridades e do qual certamente Antônio Conselheiro ouvira falar, assim como na região de Tucano, um dos locais que forneceu grande número de adeptos ao Conselheiro. José Calasans, cujo notável trabalho estamos acompanhando, escreve ainda que
Outros elementos poderão ser apresentados no mesmo sentido, isto é, comprobatório do papel desempenhado pelo Conselheiro, junto à população escrava no Nordeste baiano, que ele mais de perto conheceu e assistiu. Num interessante artigo publicado no Jornal de Notícias, da Bahia, edição de 5 de março de 1897, o doutor Cícero Dantas, barão de Geremoabo, proprietário no município de Itapicuru, e prestigioso chefe político, contou que com a abolição da escravatura aumentara o número de acompanhantes do ‘Bom Jesus Conselheiro’. "O povo em massa", declarou Geremoabo, "abandonava suas casas e seus afazeres para acompanhá-lo. Com a abolição do elemento servil ainda mais se faziam sentir os efeitos da propaganda pela falta de braços livre no trabalho. A população vivia como que em delírio ou êxtase e tudo quanto fosse útil ao inculcado enviado de Deus facilmente não prestava. (...) Assim foi escasseando o trabalho agrícola e é atualmente com dificuldade que uma ou outra propriedade funciona, embora sem precisa regularidade". (6)

O mesmo autor, refutando as razões do barão de Geremoabo, afirma que talvez esse chefe conservador tivesse confundido a causa com o efeito, pois não teria sido
Antônio Vicente quem afastou das propriedades agrícolas os negros libertados pela Lei de 1888. O Santo Conselheiro outra coisa não teria feito senão recebê-los e, possivelmente, ampará-los, quando eles próprios, sequiosos de desfrutarem a liberdade alcançada, fugiram dos antigos locais de cativeiro. (...) Não foram poucos os ex-escravos recebidos na comunidade conselheirista. Antonio de Cerqueira Galo, morador em Tucano, localidade baiana donde saíram inúmeros seguidores do Conselheiro, numa carta enviada ao barão de Geremoabo, dando notícias dos habitantes de Canudos, destacou que o contingente de ex-escravos formava a maioria. "Lá os vultos que estão disinvolvendo (sic) a revolta" escreveu o missivista, "é o mesmo Conselheiro com os seus sequazes d’entre estes soldados e desertores de diversos Estados e o povo 13 de maio que é a maior parte." (7)

O depoimento altamente esclarecedor de José Calasans, descobrindo novas fontes de informações que recolocam não apenas o pensamento, mas também, a ação de Antônio Conselheiro em relação ao sistema escravista e suas contradições estruturais, é plenamente corroborado pelas próprias palavras do líder de Canudos no manuscrito que sobreviveu à chacina (sabemos que ele redigiu ou ditou outros que certamente foram destruídos) intitulado Prédicas aos canudenses e um discurso sobre a República (8).
A obra foi encontrada em uma velha caixa, no santuário, por João Pondé, médico baiano que se encontrava na expedição. Afrânio Peixoto recebeu-o de quem o encontrou e fez a doação do mesmo a Euclides da Cunha cuja reação sobre o seu texto ninguém sabe. O certo é que o subestimou, pois refere-se a outros manuscritos encontrados nos escombros, mas silencia sobre este (9).
Dizia Antônio Vicente Mendes Maciel nesse manuscrito, referindo-se à escravidão e à abolição do trabalho escravo:
É preciso, porém, que não deixe no silêncio a origem do ódio que tendes à família imperial, porque sua alteza a senhora Dona Isabel libertou a escravidão, que não fez mais do que cumprir a ordem do céu; porque era chegado o tempo marcado por Deus para libertar esse povo de semelhante estado, o mais degradante a que podia ser reduzido o ser humano; a força moral (que tanto a orna), com que ela procedeu à satisfação da vontade divina, constitui a confiança que tem em Deus para libertar esse povo, (mas) não era suficiente para soar o brado da indignação que arrancou o ódio da maior parte daqueles a quem o povo estava sujeito. Mas os homens não penetram a inspiração divina que moveu o coração da digna e virtuosa princesa para dar semelhante passo; não obstante ela dispor do seu poder, todavia era de supor que meditaria, antes de o pôr em execução, acerca da perseguição que havia de sofrer, tanto assim que na noite que tinha de assinar o decreto da liberdade, um ministro lhe disse: Sua Alteza assina o decreto da liberdade, olhe a República como ameaça; ao que ela não ligou a mínima importância, assinando o decreto com aquela disposição que tanto a caracteriza. A sua disposição, porém, é prova que atesta do modo mais significativo que era a vontade de Deus que libertasse esse povo. Os homens ficaram assombrados com o belo acontecimento, porque já sentiam o braço que sustentava o seu tesouro, correspondendo com a ingratidão e a irresponsabilidade ao trabalho que desse povo recebiam. Quantos morriam debaixo dos açoites por algumas faltas que cometiam; alguns quase nus, oprimidos da fome e de pesado trabalho. E que direi eu daqueles que não levavam com paciência tanta crueldade e no furor do excesso de sua infeliz estrela se matavam? Chegou enfim o dia em que Deus tinha de pôr termo a tanta crueldade, movido de compaixão a favor do seu povo e ordena para que se liberte de tão penosa escravidão. (10) .

Pelo exposto, podemos concluir que Antônio Conselheiro não foi aquele personagem bronco ou louco como se costuma afirmar nos ensaios tradicionais sobre Canudos, mas um agente de dinamização social no período que vai da escravidão e posteriormente de 13 de maio até a luta e a destruição do arraial de Belo Monte. Na primeira fase, reunia os escravos e com eles falava mediante um código de linguagem ligado à simbologia religiosa para denunciar a sua situação e sugerir a necessidade de se libertarem, com isto atraindo, numa região de pequena densidade demográfica na época, cerca de dois mil escravos para ouvirem suas prédicas, segundo testemunha da época.
Em 1897, escreve em um dos seus muitos manuscritos a aprovação que deu à abolição e procura explicar, a seu modo, porque a princesa Isabel estava apoiada nas forças divinas ao assinar a Lei de 13 de Maio, defendendo a necessidade de se acabar com a escravidão que para ele era uma situação que chegava aos limites da degradação humana.
Finalmente, quando os ex-escravos fugiam das terras que simbolizavam para eles a escravidão, Antônio Conselheiro abre-lhes um espaço físico, social e humano no qual eles se integraram, participando ativamente como agentes históricos da comunidade de Canudos até o seu final. Fizeram parte de seu componente militar, religioso e político. Lutaram juntamente com o líder que os reintegrou na sua condição humana. E, antes, quando eram ainda escravos, acenava-lhes com a possibilidade da liberdade, com eles reunindo-se e esclarecendo a possibilidade de mudança social capaz de libertá-los, palavra que era transmitida de boca em boca.
Queremos crer, por tudo isto, que Antônio Conselheiro foi um abolicionista plebeu, atuando na área rural do Nordeste, em uma região em que os líderes tradicionais do abolicionismo nunca atuaram dinamicamente, com uma mensagem dirigida às populações oprimidas e à massa dos escravos descontentes, muitos dos quais, possivelmente, saíam dos quilombos para ouvi-lo.
Notas
1. Quem fez o exame craniométrico de Antônio Conselheiro foram os médicos Nina Rodrigues e Sá de Oliveira, tendo escrito o primeiro que "o crânio de Antônio Conselheiro não apresentava nenhuma anomalia que denunciasse traços de degenerescência: é um crânio de mestiço, onde se associam caracteres antropológicos de raças diferentes". Apesar desta conclusão, Nina Rodrigues não teve dúvidas de escrever que "em Canudos representa de elemento passivo o jagunço que corrigindo a loucura mística de Antônio Conselheiro e dando-lhe umas tinturas das questões políticas e sociais do momento, criou, tornou plausível e deu objeto ao conteúdo do delírio, tornando-o capaz de fazer vibrar a nota étnica dos instintos guerreiros, atávicos, mal extintos ou apenas sofreados no meio social híbrido dos nossos sertões de que o louco como os contagionados são fiéis e legítimas criações. Alí se chocavam de fato, admiravelmente realizadas, todas as condições para uma constituição epidêmica da loucura". Ver RODRIGUES, Nina. As coletividades anormais. São Paulo: Civilização Brasileira, 1939. p.42.
2. MUNIZ, Edmundo. Canudos: a guerra social. Rio de Janeiro: Elo, 1987.
3. Citado por MACEDO, N. Antônio Conselheiro: a morte em vida do beato de Canudos. Rio de Janeiro: Record, 1969. p.42.
4. Ver PINTO, P. A. Os Sertões de Euclides da Cunha: vocabulário e notas lexográficas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1930. Para se ter uma posição revisionada do pensamento de Euclides da Cunha em relação à escravidão, ao negro e ao Abolicionismo, veja-se MOURA, Clóvis. Introdução ao pensamento de Euclides da Cunha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, s. d. p.67-94.
5. CALASANS, J. Antônio Conselheiro e a escravidão. Salvador: s. n., s. d.
6. Idem, ibid.
7. Idem, ibid.
8. CONSELHEIRO, Antônio. Prédicas aos canudenses e um discurso sobre a República. Belo Monte (província da Bahia), 12 jan. 1897 apud NOGUEIRA, A. Antônio Conselheiro e Canudos. São Paulo: Editora Nacional, 1974.
9. Cf. CUNHA, Euclides da. Os Sertões. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1933. p.171. Euclides da Cunha refere-se a outros manuscritos encontrados nos escombros, escrevendo ao dar a fonte da transcrição de algumas profecias de Antônio Conselheiro: "Os dizeres dessa profecia estavam escritos em grande número de pequenos cadernos encontrados em Canudos. Os que aí vão, foram, lá mesmo, copiados de um deles pertencente ao secretário do comandante em chefe da campanha".
  1. Antônio Conselheiro, apud CUNHA, E., op. cit., p.47.
Clóvis Moura é sociólogo e escritor, professor examinador de pós-graduação da Universidade de São Paulo, autor de vários livros entre eles Introdução ao pensamento de Euclides da Cunha.

terça-feira, 14 de junho de 2011

capeta-capital ou capetalismo


por Jader Resende
Dizem ter perdido toda família num incêndio do Gran Circo Norte- Americano, ocorrido no dia 17 de dezembro de 1961.
No dia seguinte ao incêndio que culminou com a morte de cerca de 500 pessoas, José acordou alegando ter ouvido "vozes astrais" - segundo suas próprias palavras -, que o mandavam abandonar o mundo material e se dedicar apenas ao mundo espiritual e ajudar o próximo.
Para o bem da humanidade surge o Profeta Gentileza, personagem que fazia pregações e inscrições pacíficas sob viadutos.
Cabelos e barbas longos, vestido sempre com uma túnica branca.

"Gentileza era gentileza pura"

Justo por confortar as vitimas da tragedia o taxaram como louco e para justificar inventaram que perdeu a família no incêndio do circo acontecido dias antes.
Dentro do que consideramos padrão de loucura, mais um louco que merecia ser internado e ignorado.
Lamentavelmente a loucura excluí politico com uma fortuna declarada de varias centenas de milhões e ainda assim mantem 3 duzias de homens em trabalho escravo na sua fazenda, isto não é loucura mas gentileza era considerado louco, não importa se sua vida foi exemplo de honestidade e riquissimos significados humano.
Gentileza também provou a força existente nos idosos e deixou uma mensagem de grandeza e dignidade.

Jader Resende


O Texto abaixo sobre o profeta gentileza
foi Copiadooo do gran circuincêndioio

PESQUISA E SELEÇÃO DE MATERIAS:CLAUDIO DE OLIVEIRAVIEIRA
CONTATO:claudiodeoliveiravieira@gmail.com ou claudiodeoliveiravieira@yahoo.com.br

PROFETA GENTILEZA
Diz a lenda que o Profeta Gentileza perdeu toda a família e enlouqueceu no incêndio do Gran Circus Norte Americano, uma tragédia que matou cerca de 300 A 500 pessoas em Niterói quando ainda era José Dantrino, o empresário dono de uma empresa de cargas em Guadalupe, mas o próprio Gentileza dizia: "No dia 23 de dezembro de 1961 eu recebi o chamado de três vozes astrais para deixar o mundo material, e viver o mundo espiritual na terra. Eu deveria vir como São José para representar Jesus de Nazaré na terra, perdoar toda a humanidade e mostrar o caminho da verdade que é o nosso Pai. (...) Fui ao Circo ser o consolador de todos que chegavam desesperados porque perderam papai, mamãe...". Após a tragédia, virou o Profeta Jozze Agradecido ou Gentileza e criou o universo paralelo Paraíso do Gentileza no local do incêndio onde morou por quatro anos antes de começar a peregrinação. Nas décadas de 70 e 80 era muito comum encontrar uma figura que andava pelas ruas do Rio com longos cabelos grisalhos e enorme barba branca, metido numa bata repleta de apliques e paracangalhos, carregando bandeiras e tábuas que simbolizavam a mensagem de um esforço descomunal para propagar o amor, a beleza, a perfeição, a bondade, a riqueza e a natureza. Com o tempo virou um estandarte que desfilava com o propósito dos céus, e a cada passo seu, cada esforço simbolizava a luta pela propagação da paz, pela fraternidade, enfim, pela gentileza. Era o Profeta Gentileza, ou José Dantrino, nascido no ano de 1917 na cidade de Cafelândia, interior de São Paulo e encantador do cotidiano de jovens, idosos, bons, maus, homens, mulheres e crianças. O artista andante, o cavalheiro montado na palavra do criador, o louco pé no chão de uma cidade impecável pela beleza e crueldade. O louco pé no chão do paraíso do Senhor que peregrinava através dos olhos alheios sem nunca pedir um centavo pela pregação que fazia. Ele dizia: "Não quero seu dinheiro, quero muito mais, quero o seu espírito para Deus." E fez isso incansavelmente por 35 anos. Sua presença era conhecida por toda a Baixada Fluminense, na maioria dos bairros do Rio e até no interior do Brasil, um andarilho incansável, uma presença inquestionável de perseverança e dignidade. Caminhando pelas águas da Baía de Guanabara, era o "Pregador da Lancha", todos conheciam aquela figura celestial, por onde passava virava lenda ou motivo de chacota. Em São Gonçalo e Niterói virou um monumento, uma estátua em movimento tombado pela história de sua vida, pela presença de seu esplendor. Por fazer parte integral da história dessas cidades virou um patrimônio de coração pulsante. E lá ia o Profeta Gentileza, movendo-se pelo Brasil inteiro para mostrar a visualidade do verbo, pregar a mudança plástica no coração da comunidade. Foi várias vezes interno do hospital psiquiátrico de Jurujuba e por onde passou deixou sua marca física e visual num mundo acimentado pelo desconforto da falta de cores. No início da década de 80 começou a fazer a grande obra de sua vida, pela qual é lembrado e será lembrado por muito e muito tempo, pintou 56 profecias visuais, os ditos livros urbanos, nas pilastras do Viaduto do Gasômetro. Sua obra começou na Rodoviária do Grande Rio, passou pelo Caju e foi até a Avenida Brasil acompanhada de um simbolismo etéreo, onde criou uma linguagem baseada na Santíssima Trindade, através de signos religiosos munidos de uma lógica de simbologia trinitária e quaternária. Gentileza dizia: "O Univvverrsso é a criação conjunta de F/P/E (Pai, Filho, Espírito Santo) em VVV e duplamente participação em RR e SS", e dizia mais: "Amorrr material se escreve com um R, o amor universal se escreve com três R, ou seja, um R do Pai, um R do Filho e o outro R do Espírito Santo - Amorrr".Nessas obras, o Profeta definia o capitalismo como o mal do mundo denominando-o como "capeta-capital" ou "capetalismo" e nos mostrava com sua linguagem original que a verdadeira religião está no nosso coração. Fez o caminho de todo grande artista que se presa, mostrou que a verdadeira mudança está no sofrer dos passos firmes da incorrupção de uma vida toda, mostrou que a mensagem sublime, a arte, é um sentimento que deve ser descoberto dentro das maiores profundezas pessoais e que para entendê-lo é preciso aflorar o que está incólume dentro do peito, todos os anseios por liberdade, justiça, amor... Tudo com uma dose necessária de loucura lírica nos olhos de regente.
O Profeta Gentileza morreu em 1996 e desde sempre O Galo venerará a sua ideologia, a sua arte, o seu modo de viver, enfim, a sua dignidade de pisar na terra.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

TATUAGENS DA NATUREZA - Velho é o Mundo

por Jader Resende
 
Velho é o mundo.
Ouve-se com frequência, às vezes de forma sarcástica e muitas vezes agressiva a frase “Velho é o mundo”. Não passa de uma das diversas formas do velho se defender contra pilherias ou agressividades no dia a dia.
Não sei ou não tenho tempo para lidar com idoso, acredito que poucos tem ou sabem. Salvo os que profissionalmente escolheram por amor ou foram escolhidos e descobriram esse amor ao labutar com o idoso.
A mídia denuncia os maus tratos causados por arapucas travestidas de abrigo ou por familiares. Volta e meia vemos na telinha asilos oficiais, clandestinos ou suas casas que mais parecem campo de concentração sendo vasculhados pela policia, e uma revolta transpira na sala entre todos, segundos depois já esquecemos, para nos horrorizar com outras maldades mundo a fora.
Cobrar uma postura política justa para com o idoso depende de uma cultura humana enraizada na história do povo, parelhada a uma politica fraternal, de outra forma fica tudo como esta.
E o velho vai levando mais morto do que vivo.

Fingimos não ver morrer em vida o idoso, ignora-se suas necessidades, fala-se muito da destruição das florestas, dos animais, do planeta, nesta jornada de protestos em todo mundo ganha destaque a pergunta:Será que meus filhos terão oportunidade de ver o que resta da natureza?
E o corpo do idoso? Como ele reage diante dos problemas causados pelas agressões a natureza do seu corpo já delicado e sensível.
Poluição sonora, do ar, da água, visual, sem falar nos alimentos que dia a dia passam a ser mais e mais agrotóxicados, tudo isso provoca grandes danos no corpo do idoso já delicado e sensível. Defender a natureza é destacar dentro dela as necessidades do corpo já cansado e marcado pelas tatuagens da natureza.
Não podemos ignorar uma simples perereca quanto mais um corpo que depois de um vida de luta é ignorado e maltratado principalmente pela forma desumana como são encarados, até parece que o idoso não é um problema politico, que somente familiares e asilos clandestinos os maltratam.
Vê-se constantemente a afirmação que fulano ficou mais rico tantos milhões, que outro ficou tantos milhões a mais e ai sempre aparece alguém que ficou mais rico ainda ou então mais rico em menos tempo, a competição é acirrada para ver quem roubou mais e paralelo vão nivelando a aposentadoria dos aposentados por baixo. Até parece que poderosos não envelhecem, tudo bem eles são segurados e ricos mais isso não os impede de serem tatuados pela natureza.
Até quando vão humilhar esse poder existente no idoso, até quando vão resistir a sua força politica, na verdade o poder morre de medo dos idosos, eles possuem a sabedoria e determinação. Até parece que somente familiares e abrigos maltratam os idosos, ninguém mais, a não ser os que realmente morrem de medo de sua força politica e determinação.
Nos acontecimentos políticos em quase todo mundo pouco se fala sobre o idoso e quando ele se destaca em vida são ignorados ou taxados como loucos pela mídia ou qualquer outro meio, tornam-se anônimos. O aproveitamento daqueles que são considerados anônimos pela sociedade pode transformar a sociedade.
Leiam o texto. 







Um bom exemplo da valorização e importancia dos anônimos.

sábado, 11 de junho de 2011

Homenagemm a las Madres de Plaza de Mayo

Homenagear as mães e avós da Praça de maio é bastante significativo no dia Mundial contra à Violencia à pessoa idosa, elas sofreram agressões e torturas mas não desistiram de sua luta, esta heroica manifestação prova a força politica existente nos idosos, por isso são combatidos e oprimidos.



Esta indicação foi dada pela Neusah no grupo Documento Ditadura
APROVEITO PARA HOMENAGEAR AS MÃES BRASILEIRAS QUE MORRERAM SEM RECUPERAR OS RESTOS MORTAIS DE SEUS FILHOS! E AS QUE AINDA ESTÃO VIVAS DE TEIMOSAS (COMO DISSE UMA DE 92 ANOS, MÃE DE DOIS DESAPARECIDOS)

Clique em seu nome e conheça sua história
VOU CONTAR UMA HISTÓRIA PESSOAL:

Veja aqui seu depoimento na novela Amor e Revolução

Vida e solidão na velhice