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domingo, 29 de junho de 2014

A Copa como metáfora e a metáfora da Copa: pela rebelião do valor de uso


buscado no Odiario.inf


por  Mauro Iasi*


 
A mercantilização do futebol ocorre não apenas pela venda do espetáculo desportivo em si mesmo, mas em várias dimensões: no “mercado de jogadores”, na venda dos direitos de imagem, como veículo de propaganda, como empreendimento milionário de empreiteiras, bancos e tantos outros. A velha arte de esfolar várias vezes o mesmo boi. O futebol mercadoria e o seu evento maior – o Campeonato do Mundo – é montado para a realização do lucro das grandes corporações. Se vai haver jogo ou não é um detalhe.

O capital se apropria de tudo, não seria diferente no caso do futebol. O destino daquilo que é mercantilizado é ver seu ser transformado em veículo de valor de troca, forma de expressão do valor, que passa a ser primordial, relativizando seu valor de uso original.
Como coisa de valor, sua vida passa a fluir no sentido da realização do valor e no caso da produção capitalista de mercadorias, de mais valor. Quando era um valor de uso, a realização se dava na fruição, no consumo daquilo que se buscava para realizar o desejo do corpo ou do espírito. No ato de se apropriar das propriedades da coisa para saciar nossa fome ou sede, ao ouvir a melodia que nos acalma a alma ou desperta o corpo. Como mercadoria, a realização se dá no ato da troca, na transformação da coisa em equivalente geral monetário, enquanto o valor de uso subsumido fica ali, relativizado, quando não esquecido.

É por isso que a propaganda seduz para o ato da compra, sem que necessariamente o consumo corresponda ao desejo ou a necessidade. Um comercial de refrigerante transpira gotinhas de coisas geladas, paisagens refrescantes, gente feliz em dias quentes, mas a coisa em si, pode ser um xarope adocicado que vai de dar mais sede e te levar a consumir outra vez o produto… que vai te dar mais sede ainda.
No caso particular do futebol, a mercantilização ocorre não apenas pela venda do espetáculo esportivo em si mesmo, mas em várias dimensões: no “mercado de jogadores”, na venda dos direitos de imagem, como veículo de propaganda, como empreendimento milionário de empreiteiras, bancos e tantos outros. A velha arte de esfolar várias vezes o mesmo boi.
O valor de uso originário fica soterrado sob montanhas de formas mercantis que sobre ele buscam seu quinhão da valorização, muitas vezes fictícia e parasitária. É por isso que muitas vezes depois de realizada a farra do valor de troca, nossos estômagos e espíritos futebolísticos permanecem famintos e sedentos.
No entanto, age sobre a forma mercadoria a maldição do valor de uso. Isto é, mesmo relativizado e subsumido, o valor de uso é incontornável. Não é possível que haja uma mercadoria sem valor de uso – ainda que sob a luz de uma certa racionalidade esquecida ele seja uma “utilidade inútil”. Ninguém vai à padaria comprar cigarro almejando um câncer de traquéia. Mas, só quem já fumou sabe o valor de uso de uma boa baforada.
O valor de uso subsumido (mas incontornável) resiste ali onde não devia, mesmo que na subversiva sensação de ausência: na sede e fome não saciadas, na pobreza persistente no país que dizia tê-la abolida no marketing político, na desigualdade da sociedade da igualdade, na falta do sinal na sociedade do acesso total à comunicação 4G… em noventa minutos de… nada.
O futebol mercadoria e seu evento maior – a Copa – é montado para a realização do lucro das grandes corporações. Esta Copa já aconteceu e a FIFA S/A, a maior das corporações, já abocanhou seus lucros, assim como as empreiteiras, os bancos, as empresas publicitárias, os empresários que escalam jogadores no lugar de técnicos, já contabilizam seus lucros. Se vai ter jogo ou não é um detalhe.
Mas esta montanha de valor de troca tem que encontrar um valor de uso sob o qual se agarrar. Assim como a abstração do espírito precisa do corpo, o exu precisa do cavalo. Onze pessoas de cada lado e um apito do árbitro, desperta o esporte e os garotos propaganda se esquecem, ou deveriam esquecer, de seus contratos, das bugigangas que vendem, e a adrenalina comanda os corpos no busca da bola, evitar o adversários, encontrar o caminho da meta.
Cérebro, nervos, músculos… uma coisa chamada ser humano, que já foi um sonho, que já foi sacrifício, que foi entrega e dor, que quer ser conquista, emerge dali de onde foi soterrado pela mercadoria. Um ser composto, uma equipe, um time, se funde com milhares de pessoas que se desviam da bola, tencionam seu músculo antes do chute no exato instante que o jogador vai chutar a bola e em uníssono gritam, abraçam estranhos, choram…
Marx em sua monumental obra se refere a uma ciência que se chamaria “merceologia”, que teria a tarefa de listar todas as formas possíveis de mercadoria. Não sei se existe essa que descrevemos, não sei que valor de uso é esse que consiste o ser do futebol. Posso apenas falar como viciado desta substância. Ela leva um menino de seis ou sete anos a colecionar botões com times de futebol para imitar o jogo sobre uma mesa. Em estágios mais sérios de contágio, o moço passa a organizar campeonatos e a registrá-los em livros. Grita, sozinho ou com amigos, em certames disputadíssimos. Chega até a guardar os times de botão – inclusive as caixas de fósforos encapadas com fita isolante, que serviam de goleiros –, e os registros de anos de campeonato para tentar infectar seus filhos.
Quanto mais amo o futebol, mais odeio o capitalismo.
A Copa deles já ocorreu. Foi contra nós e eles venceram. Alguns desavisados ou mal intencionados festejam. Mas está em curso uma vingança, uma rebelião. Talvez várias. Uma nas ruas, onde exercemos o sagrado direito de não sermos tratados como imbecis (alguns, é verdade, se orgulham em ser imbecis e não foram às ruas – é um direito deles). Ela continua e espero que um dia possamos vencer. Mas existe outra rebelião. Neste tempo em que muita coisa anda despertando, acredito que podemos estar vendo o despertar de um velho e tão maltratado conhecido: o futebol.
Você pode até tentar produzir futebol em série, futebol fordista, ou como disse em seu maravilhoso texto, nosso querido Pasolini, o “futebol prosa”. Mas o “futebol poesia”, resiste, surpreende, desperta. Monarquias futebolísticas (e infelizmente algumas reais) eliminadas e zebras pastando alegremente.
Enquanto alguns correm para abraçar o valor de troca, a forma fetichizada e desumana, prefiro beijar a face do valor de uso que renasce. É a rebelião do valor de uso… preparem-se, pode não ser só no futebol.

*Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comité Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio.
Fonte: http://blogdaboitempo.com.br/2014/06/25/a-copa-como-metafora-e-a-metafora-da-copa-pela-rebeliao-do-valor-de-uso/


sábado, 31 de maio de 2014

Monsanto, a semente do diabo

 

 

buscado no Altamiro Borges 

 

Por Esther Vivas, no jornal Brasil de Fato:

“A semente do diabo”. Foi assim que o popular apresentador do canal estadunidense HBO, Bill Maher, em um de seus programas e em referência ao debate sobre os Organismos Geneticamente Modificados, batizou a multinacional Monsanto. Por quê? Trata-se de uma afirmação exagerada? O que esconde esta grande empresa da indústria das sementes? No último domingo, justamente, foi o dia mundial de luta contra a Monsanto. Milhares de pessoas em todo o planeta se manifestaram contra as políticas da companhia.
A Monsanto é uma das maiores empresas do mundo e a número um em sementes transgênicas. No mundo, 90% dos cultivos modificados geneticamente contam com seus traços biotecnológicos. Um poder total e absoluto. AMonsanto está na liderança da comercialização de sementes e controla 26% do mercado. Mais longe, vem a DuPont Pioneer, com 18%, e Syngenta, com 9%. Somente estas três empresas dominam mais da metade do mercado, com 53% das sementes que são compradas e vendidas em escala mundial. As dez maiores controlam 75% do mercado, segundo dados do Grupo ETC. O que lhes proporciona um poder enorme na hora de impor o que se cultiva e, consequentemente, o que se come. Uma concentração empresarial que aumentou nos últimos anos e que corrói a segurança alimentar.
A ganância destas empresas não tem limites e seu objetivo é acabar com variedades de sementes locais e antigas, ainda hoje com um peso muito significativo, especialmente nas comunidades rurais dos países do Sul. Algumas sementes nativas representam uma ameaça para as híbridas e transgênicas das multinacionais, que privatizam a vida e impedem ao campesinato de obter suas próprias sementes, convertendo-os em “escravos” das companhias privadas, sem contar o seu negativo impacto ambiental, com a contaminação de outras plantações, e na saúde das pessoas.
A Monsanto não poupou recursos para acabar com as sementes camponesas: ações legais contra agricultores que tentam conservá-las, patentes de monopólio, desenvolvimento de tecnologia de esterilização genética de sementes, etc. Trata-se de controlar a essência dos alimentos e, assim, aumentar sua cota de mercado.
A introdução nos países do Sul, em especial naqueles com vastas comunidades camponesas ainda capazes de contar com suas próprias sementes, é uma prioridade para estas companhias. Deste modo, as multinacionais da semente intensificaram as aquisições e alianças com empresas do setor, principalmente na África e na Índia. Apostaram em cultivos destinados aos mercados do Sul Global e promoveram políticas para desestimular a reserva de sementes. A Monsanto, como reconhece sua principal rival DuPont Pioneer, é a “guardiã única” do mercado de sementes, controlando, por exemplo, 98% da comercialização de soja transgênica tolerante a herbicidas e 79% do milho, como retrata o relatório “Quem controla os insumos agrícolas?”. Isso lhe dá suficiente poder para determinar o preço das sementes, independente de seus competidores.

Das sementes aos agrotóxicos
No entanto, como a Monsanto não tem condições suficientes para controlar as sementes, para fechar o círculo, também procura dominar o que se aplica em seu cultivo: os agrotóxicos. A Monsanto é a quinta empresa agroquímica mundial e controla 7% do mercado de inseticidas, herbicidas, fungicidas, etc., atrás de outras empresas, por sua vez, líderes no mercado das sementes, como Syngenta, que domina 23% do negócio dos agrotóxicos, Bayer, 17%, BASF, 12%, e Dow Agrosciences, quase 10%. Assim, cinco empresas controlam 69% dos pesticidas químicos sintéticos que são aplicados nas plantações em escala mundial. Os mesmos que vendem ao campesinato as sementes híbridas e transgênicas, também fornecem os pesticidas para aplicar. Negócio redondo.
O impacto ambiental e na saúde das pessoas é dramático. Apesar das empresas destacarem o caráter “amigável” destes produtos com a natureza, a realidade é totalmente o contrário. No momento atual, após anos de fornecimento do herbicida da Monsanto, Roundup Ready, a base de glifosato, que já em 1976 foi o herbicida mais vendido do mundo, segundo dados da própria companhia, e que se aplica às sementes da Monsanto modificadas geneticamente para tolerar dito herbicida, sabe-se que ao mesmo tempo em que este acaba com a erva daninha, várias outras tem desenvolvido resistências. Estima-se que somente nos Estados Unidos já surgiram cerca de 130 ervas daninhas resistentes a herbicidas, em 4,45 milhões de hectares de plantações, de acordo com dados do Grupo ETC. Isso levou a um aumento do uso de agrotóxicos, com aplicações mais frequentes e doses mais elevadas para combatê-las, com a conseguinte contaminação ambiental do entorno.
As denúncias de camponeses e comunidades afetadas pelo uso sistemático de pesticidas químicos sintéticos é uma constante. Na França, inclusive, o Parkinson é considerado uma enfermidade do trabalho agrícola, causado pelo uso de agrotóxicos, depois que o camponês Paul François venceu a batalha judicial contra a Monsanto, no Tribunal de última instância de Lyon, em 2012, e conseguiu demonstrar que seu herbicida Lasso era o responsável por intoxicá-lo e deixá-lo inválido. Uma sentença histórica, que permitiu um avanço na jurisprudência.

O caso das Mães de Ituzaingó, um bairro das redondezas da cidade argentina de Córdoba, rodeada de campos de soja, em luta contra as fumigações é outro exemplo. Após dez anos de denúncia, e depois de observar como o número de enfermos de câncer e crianças com malformações no bairro não parava, mas, sim, aumentava - de cinco mil habitantes, duas centenas tinham câncer -, conseguiram demonstrar a ligação entre estas enfermidades e os agroquímicos aplicados nas plantações de soja em seus arredores (endosulfan de DuPont e glifosato de Roundup Ready da Monsanto). A Justiça proibiu, graças à mobilização, a fumigação com agrotóxicos perto de áreas urbanas. Estes são apenas dois casos dos muitos que podemos encontrar em todo o planeta.
Agora, os países do Sul são o novo objetivo das empresas de agroquímicos. Enquanto as vendas globais de pesticidas caíram nos anos 2009 e 2010, seu uso nos países da periferia aumentou. Em Bangladesh, por exemplo, a aplicação de pesticidas cresceu 328% nos anos 2000, com o consecutivo impacto na saúde dos camponeses. Entre 2004 e 2009, a África e o Oriente Médio tiveram o maior consumo de pesticidas. E na América Central e do Sul se espera um aumento do consumo nos próximos anos. Na China, a produção de agroquímicos alcançou, em 2009, dois milhões de toneladas, mais do que o dobro de 2005, segundo informa o relatório “Quem controlará a economia verde?”. Business as usual.

Uma história de terror
Porém, de onde surge esta empresa? A Monsanto foi fundada em 1901 pelo químico John Francis Queeny, proveniente da indústria farmacêutica. Sua história é a história da sacarina e o aspartame, do PBC, do agente laranja, dos transgênicos. Todos fabricados, ao longo dos anos, por esta empresa. Uma história de terror.
A Monsanto se constituiu como uma empresa química e, em suas origens, seu produto estrela era a sacarina, que distribuía para a indústria alimentar, em especial, para a Coca-Cola, que foi uma de seus principais provedores. Com os anos, expandiu seu negócio à química industrial, tornando-se, nos anos 1920, um dos maiores fabricantes de ácido sulfúrico. Em 1935, absorveu a empresa que comercializava policloreto de bifenila (PCB), utilizado nos transformadores da indústria elétrica. Nos anos 1940, a Monsanto centrou sua produção nos plásticos e nas fibras sintéticas e, em 1944, começou a produzir químicos agrícolas como o pesticida DDT.
Nos anos 1960, junto com outras empresas do setor, como Dow Chemical, foi contratada pelo governo dos Estados Unidos para produzir o herbicida agente laranja, que foi utilizado na guerra do Vietnã. Neste período, juntou-se, também, com a empresa Searla, que descobriu o adoçante não calórico aspartame. A Monsanto também foi produtora do hormônio sintético de crescimento bovino somatotropina bovina. Nos anos 1980 e 1990, a Monsantoapostou na indústria agroquímica e transgênica, até chegar a se tornar a número um indiscutível das sementes modificadas geneticamente.
Atualmente, muitos dos produtos made by Monsanto foram proibidos, como o PBC, o agente laranja ou o DDT, acusados de provocar graves danos à saúde humana e ao meio ambiente. O agente laranja, na guerra do Vietnã, foi responsável por dezenas de milhares de mortos e mutilados, assim como pelo nascimento de crianças com malformações. A somatotropina bovina também está vetada no Canadá, União Europeia, Japão, Austrália e Nova Zelândia, apesar de ser permitida nos Estados Unidos. O mesmo ocorre com o cultivo de transgênicos, onipresente na América do Norte, mas proibido na maioria dos países europeus, exceto, por exemplo, pelo Estado espanhol.
A Monsanto se movimenta como peixe na água no cenário de poder. Isso ficou claro por Wikileaks, quando filtrou mais de 900 mensagens que mostravam como a administração dos Estados Unidos gastou grandiosos recursos públicos para promover a Monsanto e os transgênicos em muitíssimos países, por meio de suas embaixadas, seu Departamento de Agricultura e sua agência de desenvolvimento USAID. A estratégia consistia em conferências “técnicas”, desinformando jornalistas, funcionários e formadores de opinião, bem como pressões bilaterais para adotar legislações favoráveis e abrir mercado às empresas do setor, etc. Na Europa, o governo espanhol é o principal aliado dos Estados Unidos nesta matéria.

Enfrentamento
Diante de todo este despropósito, muitos não calam e enfrentam. Milhares são as resistências contra a Monsanto em todo o mundo. A data de 25 de maio foi declarada o dia mundial contra esta companhia e centenas de manifestações e ações de protesto foram realizados, neste dia, ao redor do globo. Em 2013, realizou-se a primeira convocação, milhares de pessoas saíram às ruas em várias cidades de 52 diferentes países, desde Hungria até Chile, passando por Holanda, pelo Estado espanhol, Bélgica, França, África do Sul, Estados Unidos, entre outros, para mostrar a profunda rejeição às políticas da multinacional. No domingo passado, dia 25, a segunda convocação, menos concorrida, contou com ações em 49 países.
A América Latina é, neste momento, uma dos principais frentes de luta contra a companhia. No Chile, a mobilização conseguiu, em março de 2014, a retirada da conhecida Lei Monsanto, que pretendia facilitar a privatização das sementes locais e deixá-las nas mãos da indústria. Outra grande vitória foi na Colômbia, um ano antes, quando a massiva paralisação agrária, em agosto de 2013, conseguiu a suspensão da Resolução 970, que obrigava os camponeses a usar exclusivamente sementes privadas, compradas de empresas do agronegócio, e impedia que guardassem suas próprias sementes. Na Argentina, os movimentos sociais também estão em pé contra outra Lei Monsanto, que se pretende aprovar no país e subordinar a política nacional de sementes às exigências das empresas transnacionais. Mais de 100.000 argentinos já assinaram contra esta lei, no marco da campanha “Não à Privatização das Sementes”.
Na Europa, a Monsanto agora quer aproveitar a fenda que se abre nas negociações do Tratado de Livre Comércio União Europeia - Estados Unidos (TTIP), para pressionar em função de seus interesses particulares e poder legislar acima da vontade dos países membros, a maioria contrária à indústria transgênica. Esperamos que não demorem as resistências na Europa contra o TTIP.


A Monsanto é a semente do diabo, sem sombra de dúvidas.

* Publicado no jornal espanhol Público. Tradução do Cepat
 
 

domingo, 6 de abril de 2014

10 factos chocantes sobre os EUA*


buscado no ODiario.inf



Os EUA são hoje a potência imperialista hegemónica. E quanto melhor os povos de todo o mundo conheçam a potência que, queiram ou não e estejam onde estiverem, afecta de algum modo as suas vidas, melhores condições terão para lhe fazer frente. E não pode existir luta progressista que não seja firmemente anti-imperialista.


1. Os Estados Unidos têm a maior população prisional do mundo, compondo menos de 5% da humanidade e mais de 25% da humanidade presa. Em cada 100 americanos um está preso. A subir em flecha desde os anos 80, a surreal taxa de encarceramento dos EUA é um negócio e um instrumento de controlo social: à medida que o negócio das prisões privadas alastra, uma nova categoria de milionários consolida o seu poder político. Os donos destes cárceres são também donos dos escravos que trabalham em fábricas dentro da prisão por salários inferiores a 50 cêntimos por hora. Uma mão-de-obra tão competitiva que muitos municípios hoje sobrevivem financeiramente das suas prisões camarárias e graças a leis que vulgarizam sentenças até 15 anos de prisão por crimes como roubar pastilha elástica. Os alvos destas leis são invariavelmente os mais pobres, mas sobretudo os negros, que representando apenas 13% da população americana, compõem 40% da população prisional do país. 

2. 22% das crianças americanas vivem abaixo do limiar da pobreza. Calcula-se que cerca de 16 milhões de crianças americanas vivam sem «segurança alimentar», ou seja, em famílias sem capacidade económica para satisfazer os requisitos nutricionais mínimos de uma dieta saudável. As estatísticas provam que estas crianças têm piores resultados escolares, aceitam piores empregos, não frequentam a universidade e têm uma maior probabilidade de, quando adultos, serem presos.

3. Entre 1890 e 2014 os EUA invadiram ou bombardearam 151 países.
São mais os países do mundo em que os EUA já intervieram militarmente do que aqueles em que ainda não o fizeram. Números conservadores apontam para mais de oito milhões de mortes causadas pelas guerras imperiais dos EUA só no século XX. E por detrás desta lista escondem-se centenas de outras operações secretas, golpes de estado e patrocínios a ditadores e grupos terroristas. Segundo Obama, laureado do Nobel da Paz, os EUA têm neste momento mais de 70 operações militares secretas a decorrer em vários países do mundo. O mesmo presidente criou o maior orçamento militar de qualquer país do mundo desde a Segunda Guerra Mundial, batendo de longe George W. Bush.

4. Os EUA são o único país da OCDE sem direito a qualquer tipo de subsídio de maternidade.
Embora estes números variem de acordo com o Estado e dependam dos contratos redigidos pela empresa, é prática corrente que as mulheres americanas não tenham direito a nenhum dia pago antes nem depois de dar à luz. Em muitos casos, não existe sequer a possibilidade de tirar baixa sem vencimento. Quase todos os países do mundo contemplam entre 12 e 50 semanas pagas em licença de maternidade. Os Estados Unidos fazem companhia à Papua Nova Guiné e à Suazilândia com zero semanas.

5. 125 americanos morrem todos os dias por não poderem pagar o acesso à saúde.
Quem não tiver seguro de saúde (como 50 milhões de americanos não têm) tem boas razões para recear mais a ambulância do que o inocente ataque cardíaco. Com viagens de ambulância a custarem em média 500 euros, a estadia num hospital público mais de 200 euros por noite e a maioria das operações cirúrgicas situadas nas dezenas de milhares, é bom que se possa pagar um seguro de saúde privado.

6. Os EUA foram fundados sobre o genocídio de 10 milhões de nativos. Só entre 1940 e 1980, 40% de todas as mulheres em reservas índias foram esterilizadas contra sua vontade pelo governo.
Esqueça a história do Dia de Acção de Graças, com índios e colonos a partilhar pacatamente um peru. A história dos EUA começa no programa de erradicação dos índios: durante dois séculos, os nativos foram perseguidos e assassinados, despojados de tudo e empurrados para minúsculas reservas de terras inférteis, em lixeiras nucleares e sobre solos contaminados. Em pleno século XX, os EUA puseram em marcha um plano de esterilização forçada das mulheres nativas, pedindo-lhes para assinarem formulários escritos num língua que não compreendiam, ameaçando-as com o corte de subsídios ou, simplesmente, cortando-lhes o acesso à saúde. 

7. Todos os imigrantes são obrigados a jurar não serem comunistas para poderem viver nos EUA.
Para além de ter que jurar que não é um agente secreto nem um criminoso de guerra nazi, vão-lhe perguntar se é ou alguma vez foi membro do «Partido Comunista», ou se defende intelectualmente alguma organização considerada «terrorista». Se responder que sim a qualquer destas perguntas, pode ser-lhe negado o direito de viver e trabalhar nos EUA por «prova de fraco carácter moral».

8. O preço médio de uma licenciatura numa universidade pública é 80 000 dólares.
O Ensino Superior é uma autêntica mina de ouro para os banqueiros. Virtualmente todos os estudantes têm dívidas astronómicas que, acrescidas de juros, levarão em média 15 anos a pagar. Durante esse período, os alunos tornam-se servos dos bancos e das suas dívidas, sendo amiúde forçados a contrair novos empréstimos para pagar os antigos. Entre 1999 e 2014, a dívida total dos estudantes estado-unidenses ascendeu a 1.5 triliões de dólares, subindo uns assustadores 500%.

9. Os EUA são o país do mundo com mais armas: para cada 10 americanos, há nove armas de fogo.
Não é de espantar que os EUA levem o primeiro lugar na lista dos países com a maior colecção de armas. O que surpreende é a comparação com o resto do mundo: no resto do planeta há uma arma para cada 10 pessoas. Nos Estados Unidos, nove para cada 10. Nos EUA podemos encontrar 5% de toda a humanidade e 30% de todas as armas, qualquer coisa como 275 milhões.

10. São mais os americanos que acreditam no Diabo do que aqueles que acreditam em Darwin.
A maioria dos americanos é céptica, pelo menos no que toca à teoria da evolução, em que apenas 40% da população acredita. Já a existência de Satanás e do inferno soa perfeitamente plausível a mais de 60% dos americanos. Esta radicalidade religiosa explica as «conversas diárias» do ex-presidente Bush com Deus e mesmo as inesgotáveis diatribes sobre a natureza teológica da fé de Obama.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2105, 3.04.2014

quarta-feira, 12 de março de 2014

O Estado burguês e os mitos da democracia capitalista cristã



buscado no Blog do Itárcio


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 Leviatã

por Itárcio Ferreira

Antes do advento da internet, nossas “armas” contra a grande imprensa corporativa burguesa, jornais e revistas, eram as cartas da seção “cartas dos leitores”, podem rir. Nunca consegui que uma única carta minha fosse publicada.

Os jornais e revistas impressos estão com seus dias contados; em breve, quiçá, também as TVs abertas sigam os mesmos caminhos.

Não que o mundo da web seja um bloco único progressista; mas lá, podemos não ser a maioria, mas nossas vozes incomodam, e muito, e isto é bom. E fez-se o terceiro parágrafo...

Com mais informações disponíveis, a clareza da manipulação e farsa da democracia capitalista cristã, vai ficando cada vez mais clara; a partir daí, os próximos passos são a destruição desta farsa, ou, por opção, continuarmos na barbárie mundial em que vivemos, como já havia profetizado Rosa de Luxemburgo.

Dentre os vários mitos desta democracia, teceremos alguns comentários sobre três deles, claro, lógico e evidente, sem a intenção de “fechar” o assunto, mas, ao contrário, de servir de base para reflexões mais profundas.

Seria, talvez, desnecessário alertar para o não “fechamento”, ou esgotamento, de qualquer assunto, o que caracterizaria, com certeza, um autoritarismo intelectual, que não tenho, nunca tive e nunca terei; mas, vale a penar pecar por excesso, mais ainda quando se trata de bebidas e sexo.

Brincadeiras a parte, destaquemos três desses mitos, de forma levemente teórica e embasada em fatos atuais acontecidos em nosso país.

A justiça imparcial

A justiça no Estado burguês sempre foi apresentada como imparcial, principalmente quando confrontada com a justiça, como instituição, nos países não alinhados com o grande capital.

Na verdade, basta uma leve pesquisa sobre os dados prisionais no Brasil, por exemplo, via OAB, para verificarmos que, hoje e sempre, a grande maioria dos presos são negros e pardos, pobres, cujos crimes são cometidos, comumente, por estes estratos.

Os chamados “crimes de colarinhos brancos”, em regra, não são punidos a tempo, nem a contento, além do que, têm penas menores que os crimes pequenos, pois os seus realizadores – “elementos”? – pertencem aos estratos mais privilegiados da nossa sociedade. Podendo, desta forma, contratar bons advogados, bem como, em último caso – não por uma questão ética, mas pragmática, de economia – corromper funcionários públicos, cujas atribuições estatais são justamente fazer a justiça funcionar.

Exemplo típico configura a impunidade de Daniel Dantas.

Outro exemplo, o espetáculo do chamado “mensalão”, onde o Ministro Joaquim Barbosa age como um Imperador, sem respeito aos outros poderes da república, ao poder que representa e a sociedade civil; e sem que existam mecanismos jurídicos ou controles sociais, efetivos, que possam impedi-lo de assim agir.

A justiça, além de não ser justa com os ricos, é injusta com os pobres, sendo, pois, classista; e não tem controle efetivo, de espécie alguma, que possa “colocá-la” nos trilhos da democracia capitalista cristã.

O Estado laico

É uma enganação a questão da efetividade do secularismo no Estado burguês; simples e diretamente, a ninguém, medianamente informado, esta mentira engana. Temos, claramente, a imposição dos ideários cristãos, não exclusivamente aos seus membros e igrejas, mas a toda uma sociedade que, formada não só por cristãos, mas de diversas outras crenças – destaque para as religiões de matizes africanas que são perseguidas, não apenas de forma difamatória, mas fisicamente, com a invasão de seus espaços físicos, etc. – mas também de não crentes, mormente de agnósticos, ateus a não religiosos.

Nos períodos eleitorais, com o financiamento massivamente privado das campanhas: um câncer, que destrói qualquer possibilidade de democracia, em direção a todos os polos políticos, que tenham alguma condição de “vencer” os pleitos, é quando se notam, mais claramente, a força e a influencia destas igrejas, hoje e sempre, transformadas em lucrativos negócios – para desespero de Lutero e palmas de Calvino, teoricamente, claro – bem como se exacerbam os exemplos de subserviência de políticos para não desagradá-las, do contrário, correm o perigo de perdas substanciais de votos.

Os fenômenos, Marcos Feliciano e os padres “xuxas”, a exemplo de Marcelo Rossi, são as pontas dos icebergs a indicar a influência destes segmentos religiosos no Estado burguês, a mercê da balela do Estado laico.

A liberdade de imprensa

Esta é file. A grande imprensa sempre se filiou ao que de mais retrógrado existe na sociedade, pois, seus proprietários, sempre pertenceram as elites financeiras do país, ou a elas se filiaram.

A despeito do grande diferencial entre os governos da elite financeira, representados aqui no Brasil, atualmente, principalmente pelo PSDB, e os governos trabalhistas, a favor destes últimos, e mesmo sob a única ótica dos resultados requeridos pelo capitalismo, a grande mídia mente e destorce fatos, criando não matérias, mas boatos; assassinando reputações; planejando golpes aos eleitos via votos, apenas em nome de uma linhagem branca, rica e fascista. Apenas em nome do ódio de classe.

Um verdadeiro atentada a chamada liberdade de imprensa aconteceu, e está acontecendo, com a prisão do jornalista Marco Aurélio Flores Carone, dono do Novo Jornal. No entanto, a imprensa televisa, falada, escrita e o diabo a quatro, não “consegue” se indignar com o fato.

Nem mesmo as diligentes ONGs de plantão, principalmente as estrangeiras, tão a disposição a defender tudo e algo mais, colocaram a boca no trombone para denunciar os arbítrios da justiça mineira. Fosse um governo petista...



segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A síndrome “cansei” da feminista branca: uma resposta a Nancy Fraser.

 

 

buscado na Rede Universidade Nomade


Por Brenna Bhandar e Denise Ferreira da Silva, no Critical Legal Thinking, em 21/10/13 | Trad. UniNômade BrasilEsta é uma resposta ao artigo de Nancy Fraser publicado no The Guardian, em 2/10/13, e republicado pela UniNômade: Como o feminismo se tornou a empregada do capitalismo; e como resgatá-lo“.

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No recente texto “Como o feminismo se tornou a empregada do capitalismo, e como resgatá-lo”, Nancy Fraser usa seu próprio trabalho em teoria política para argumentar que o feminismo, na melhor das hipóteses, foi cooptado pelo neoliberalismo e, na pior, se tornou um empreendimento do projeto neoliberal. O que à primeira vista parece uma autorreflexão razoável, uma que assume o ônus e a responsabilidade pelas alianças do passado e pelas celebrações de manobras estratégicas em nome da melhoria da vida das mulheres; num segundo momento, acaba revelando a miopia inata e repetitiva do feminismo branco em levar em conta, conversar e pensar junto com as feministas negras e terceiromundistas.
Escrevendo desde o começo da década de 1970, essas acadêmicas e ativistas têm sistematicamente desenvolvido uma crítica feminista não somente sobre o capitalismo de estado, como também do capitalismo globalizado que se apoia no legado colonial. Esses feminismos não priorizaram o “sexismo cultural” em detrimento da redistribuição econômica. A literatura é vasta, com uma miríade de exemplos. De modo que é bastante cansativo quando feministas brancas falam da “segunda geração do feminismo” como se fosse o único “feminismo”, e usam o pronome “nós” para chorar o fracasso de suas lutas. Deixe-nos apenas dizer que não existe algo como o “feminismo”, que seja sujeito de qualquer sentença para designar uma posição única na crítica do patriarcado. Tal posição está fraturada desde pelo menos quando a ativista negra Sojourner Truth disse: “Não sou uma mulher também?” Existe, no entanto, uma posição-sujeito feminista, aquela que Fraser está lamentando, que se sentou muito confortavelmente na cadeira do sujeito emancipado, autodeterminado. Mas isso não surpreende, pois tanto o feminismo dela e o neoliberalismo compartilham o mesmo núcleo liberal, que feministas negras e terceiromundistas identificaram e expuseram desde muito cedo na trajetória dos feminismos.
O trabalho de A.Y. Davis, Audre Lorde, Himani Bannerji, Avtar Brah, Selma James, Maria Mies, Chandra Talpade Mohanty, Silvia Federici, Dorothy Roberts e um monte de outras destroçaram a natureza excludente e limitada dos esquemas conceituais desenvolvidos pelas feministas brancas do mundo anglófono. Essas acadêmicas e ativistas criaram esquemas de análise que, simultaneamente, encararam o desafio de fazer uma dramática correção tanto da teoria anticolonial e marxismo negro [Black Marxism], que falharam fundamentalmente em teorizar gênero e sexualidade, quanto do pensamento feminista socialista e marxista, que continua a falhar, de muitas maneiras, em dar conta da raça, das histórias da colonização e das iniquidades estruturais entre os estados-nações ditos desenvolvidos e aqueles em desenvolvimento. E sim, embora Mies, Federici e James sejam brancas, as feministas marxistas terceiromundistas aspiram por uma solidariedade política além da linha de cor.
As acadêmicas de que falamos desenvolveram críticas consistentes de formas capitalistas de propriedade, troca, trabalho pago e não-pago, junto de formas culturalmente impregnadas e estruturais da violência patriarcal. Peguemos o exemplo do estupro e da violência contra a mulher. No seminal Women Race and Class [Raça e Classe das Mulheres], A.Y. Davis argumentou energicamente que muitas das mais urgentes e contemporâneas lutas políticas das mulheres negras estão debruçadas sobre tipos de opressão sofridos na escravidão. O estupro e a violência sexual são problemas de mulheres de todas as classes, raças e sexualidades, como Davis apontou, mas assumem uma valência diferente para negras e negros. O mito do estuprador negro e do macho negro hipersexual violento causou montes de linchamentos durante o período anteguerra nos EUA. Esse persistente mito racista confere valor explicativo à super-representação de homens negros em prisões condenados por estupro, e levou à relutância de parte das mulheres afro-americanas em se envolver no começo do ativismo feminista, mais concentrado na aplicação da lei e no sistema penal (Davis, 1984). A expropriação do trabalho negro radicada na lógica da escravidão se repete na expropriação do trabalho dos presos na era pós-escravidão e, hoje, na endemia de trabalho prisional (Davis, 2005).
A violência sexual é, assim, entendida como derivada da escravidão e da colonização, afetando tanto mulheres quanto homens. A história dos corpos negros femininos como mercadorias à disposição do prazer dos homens brancos permanece como um traço racial, social e psíquico da sociedade afro-americana contemporânea. No tocante às indígenas americanas, os estereótipos da era colonial, a squaw [algo como "indiazinha", pejorativo para mulher indígena sexualmente disponível], continuam nos imaginários racializados contemporâneos da sociedade americana, retratando mulheres indígenas como vulneráveis a formas de violência sexual que sempre foram raciais, recordando padrões de violência presentes quando do desapossamento de suas terras e, sim, suas práticas culturais (ver P. Monture-Angus, Kim Anderson, Sherene Razack).
Sugestões recentes que as feministas deveriam se concentrar no trabalho não-pago, implicado nos trabalhos relacionados com o cuidado, foram analisadas por Patricia Hill Collins, em Black Feminist Thought: knowledge, power and consciousness [Pensamento feminista negro: conhecimento, poder e consciência]. Ela enfatiza que, para as mulheres afro-americanas, o trabalho em casa em prol do bem estar das famílias pode ser entendido por elas como uma forma de resistência a forças econômicas e sociais que entram em conluio para prejudicar as crianças e famílias afro-americanas. Feministas negras também conduziram a campanha por salários ao trabalho doméstico, desafiando as normas burguesas da economia burguesa. Seguindo A.Y. Davis, notamos que as feministas brancas precisam reconhecer quando elas se envolvem em estratégias políticas que as feministas negras e terceiromundistas já têm teorizado e praticado há muito tempo.
Encerrar a opressão, a violência contra a mulher, a violência contra o homem, particularmente na versão liberal, significa abraçar o pensamento histórico, materialista, antirracista das feministas marxistas negras e terceiromundistas. Seriam as feministas brancas que insistem em acrescer a palavra “raça” e “racismo”, em suas abordagens ao feminismo típicas da esquerda liberal, deliberadamente cegas e surdas? Seriam elas incapazes de ceder terreno ao feminismo negro porque significaria a renúncia de certo privilégio racial? A invocação persistente do universalismo, que é o núcleo do feminismo branco, invisibiliza as experiências, os pensamentos e o trabalho das feministas negras e terceiromundistas, de novo e de novo. Acabou o tempo!

Tradutor: Bruno Cava.

sábado, 13 de julho de 2013

O verdadeiro terrorista

buscado no Bourdoukan 





Amigo, não se engane!
O verdadeiro terrorista é o sistema capitalista.
Não pode haver honestidade enquanto houver patrão e empregado.
Não pode haver felicidade enquanto uns comem, outros não.
Não pode haver civilização enquanto houver fronteiras.

Sangue e violência são o combustível do capitalismo.  O capitalismo é perverso, seja qual for sua coloração.

O capitalismo é racista!  Veja o que acontece em Israel.  Muros são erguidos para segregar semitas palestinos.  E para você que crê, o capitalismo é inimigo de Deus!  Se a César o que é de César, o que Deus faz na moeda que rege o mundo?

O capitalismo é tão cruel que criou o Operário Padrão, exemplo de serviçal que depois de mastigado é escarrado para longe.

O capitalismo é aquele que ensina a pescar onde não há peixes.

O capitalismo representa todas as misérias que os humanos têm a baixeza de ambicionar.

No capitalismo a miséria entra pela porta, a virtude sai pela janela.

Amigo, não perca a esperança! 
O capitalismo está agonizante! 
Ele é como o fogo que devora a si próprio quando nada mais encontra para devorar..

Amigo! 
Você nada tem a temer, a não ser o estado letárgico em que se encontra. 
Lembre-se: a águia de bico atômico tem asas de barro!

Agora é com você!
 
 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Israel, Joe Biden e os médicos cubanos

 

via Gilson Sampaio  

 

Sanguessugado do Bourdoukan


Israel ataca o Líbano.

Israel ataca a Síria.

Israel continua matando palestinos.

O Papa continua rezando.

Deus continua fazendo-se de surdo.

E o Diabo continua sem assessor de imprensa.

Chegamos ao último dia de maio e o planeta resiste.

Hoje, Joe Biden, o vice-presidente dos EUA vai visitar a presidente Dilma Rousseff.

Pressionar seria o termo correto.

Governantes estadunidenses quando vêem ao Brasil , seja de que escalão, vêm para mandar e serem obedecidos.

É a síndrome da plantation.

Sempre com apoio da mídia vira-lata.

Essa sim, não consegue se livrar da subserviência. 

Joe Biden confidenciou que não está conseguindo demover os militares nacionalistas que insistem na bomba atômica.

E o seu encontro com Dilma é para ser o contraponto desses nacionalistas que não abrem mão da soberania.

Conseguirá esse seu intento?

No máximo, em dois ou três dias ficaremos sabendo.

E, sim, não esqueci dos médicos cubanos.

O Brasil possui mais de 450 municípios sem qualquer médico.

Que venham pois os cubanos.

E assim o mês das noivas chega ao fim.


terça-feira, 28 de maio de 2013

ECONOMIA - Meditações fragmentárias de uma crise.



buscado no BLOG DE UM SEM MÍDIA


“A banca é o centro do universo. Pessoas? Que se danem! Há uma crise do capitalismo desregulado que pode ser suicida”


por Emanuel Medeiros Vieira

Quase 30 dias na Europa, rodando milhares de quilômetros, uma temporada de quase 15 dias por Portugal: o que dizer?
Não, não é um relato poético sobre uma bela viagem.
É a constatação in loco de uma crise profunda.
(Lembro que me avisaram nos idos de 1975, que a ditadura – Sylvio Frota querendo dar um golpe dentro do golpe contra o governo Geisel – pretendia me prender de novo, e precisei sair do país. Não conseguia passaporte. Registrava antecedentes. A nova geração não deve saber: na época, para obter passaporte exigia-se atestado de bons antecedentes políticos, obtido no Dops. Eu não conseguia: registrava antecedente.)
Obtive um específico com “registro de antecedentes”. Viajei. Passou. Passou? (Escuto Lupícinio Rodrigues e Elis Regina.)
Uma crise profunda abate a Europa. Eu sei: nada disse de novo. Uma iluminada amiga no Porto, em Portugal, crê que a Terceira Guerra já começou. Não com baionetas, tiros: com tecladas eletrônicas – o financismo. O reino da banca. Há uma nova ocupação alemã na Acrópole?
Em Portugal, em crise brava, ouvi relatos sobre suicídios, pavores, desesperos, aumento do uso de remédios controlados. Também escutei sobre isso na Espanha.
Alguém escreveu no El País que, se Montesquieu escrevesse sobre mundo moderno, diria que aos três poderes da teoria clássica haveria que acrescentar um quarto: “o poder especulativo”, o das finanças.
É o estrangulamento total. A obra-prima do Estado é a felicidade, o indivíduo.O poder dos bancos não quer saber disso.
Como observou Clovis Rossi, há um grito forte de “privatiza, privatiza” sempre que se fala de ativos públicos mal administrados. Mas ninguém fala para dizer “estatiza, estatiza” quando um banco fracassa. O Estado socializou o prejuízo, mas manteve o lucro nas mãos privadas.
A banca é o centro do universo. Pessoas? Que se danem! Há uma crise do capitalismo desregulado que pode ser suicida para a nossa civilização. São economistas que dizem.
Lembro que na primeira visita a Londres, visitei o tumulo de Marx. Agora, não. Mas sinto que ele manda lembranças.
Sem buscar acumular dignidade humana, como queria Hannah Arendt, estaremos parindo zumbis e sofredores. Até quando? Estão mercantilizando penetra até nos corações. Como viver sem a dimensão do sonho?
Começou a Terceira Guerra?

 
* Professor, jornalista e escritor, também já atuou como crítico de cinema e editor. Autor de 17 livros publicados, é detentor de vários prêmios literários nacionais.


 

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Goldman Sachs - O Banco que dirige o mundo



 Buscado no Kafe Kultura




"O Banco de investimento criado em Nova Iorque em 1868 conseguiu o seu sucesso e a sua reputação à base do silêncio a toda a prova. Goldman Sachs foi a instituição bancária que correu mundo a trabalhar em segredo. Mas hoje Goldman Sachs é acusada de ter ajudado os países como a Grécia a encobrir o seu deficit.

Um documentário que nos leva de Nova Iorque a Atenas, com paragens em Londres, Paris e Bruxelas."

Os presidentes norte-americanso passam, o Goldman Sachs continua








É raro pedir a motoristas pé de chumbo que reformem o código de trânsito. A débâcle da bolsa em 2008, porém, conduziu os gigantes das finanças para o posto de administradores de uma crise que eles mesmos provocaram. É o caso do banco Goldman Sachs, que há muito murmura nas orelhas do poder



por Ibrahim Warde




Ilustração: Emilio Damiani
 
No mesmo momento em que incitava seus clientes a se aventurarem no mercado imobiliário, o banco de investimentos Goldman Sachs desenvolvia um produto financeiro, “Abacus”, que lhe permitia especular na queda do setor. Acusado de fraude, ele conseguiu, em 15 de julho de 2010, livrar sua equipe dirigente por meio do pagamento de uma indenização de US$ 550 milhões: o equivalente a duas semanas de seus lucros, ou a 3% do total de bônus que distribuiu em 2009.

Essa aptidão de jogar com o poder – ou brincar com ele – não é surpreendente. Desde o começo dos anos 1990, uma carreira política de primeiro plano vem logicamente coroar o percurso de todos os chefes do Goldman Sachs (ver box). A consanguinidade com o mundo político explica a implicação do banco nas grandes manobras financeiras: ocupou um lugar tão central quanto ambíguo na crise dos subprimese do salvamento dos bancos fragilizados pela crise financeira de 2008; ajudou a Grécia a maquiar suas contas, precipitando a crise do euro; teria também, ao especular sobre as matérias-primas, provocado uma alta artificial no preço do petróleo.

De outro lado, o banco soube extrair, ano bom, ano ruim, lucros consideráveis, incluindo o ano depois do estouro das bolhas que ele contribuiu largamente para inflar. As receitas polpudas dos anos de expansão não surpreendem. Mas, depois do colapso do castelo de cartas e da expiação que se seguiu, as receitas dos anos magros acabaram por chocar a opinião pública, que se interrogou: a desgraça de (muitas e muitas) vítimas do estouro da bolha faria a sorte do Goldman Sachs?

Fundada em 1869 por Marcus Goldman, um imigrante judeu bávaro, logo acompanhado por seu genro Samuel Goldman, a empresa, especializada no começo em corretagem de “documentos comerciais” (empréstimos de curto prazo emitidos por empresas), ficaria por muito tempo fora das altas finanças, quase inteiramente Wasp (white, anglo-saxon, protestant [branco, anglo-saxão, protestante]). Duramente afetada pela crise de 1929, só conheceria seu verdadeiro desenvolvimento depois da Segunda Guerra Mundial.

Em 1956, o banco de investimentos intervém de maneira decisiva quando da introdução na bolsa do fabricante de automóveis Ford. O banco adquire progressivamente, tanto por seu profissionalismo quanto por sua capacidade de trabalho, uma equipe invejável, muito unida e impregnada de uma forte cultura corporativa. Dominada por financistas à moda antiga, como Sidney Weinberg ou Gus Levy, ela se impõe, pouco a pouco, frente ao establishmenttradicional, até derretê-lo.

O Goldman Sachs permanece, no entanto, diferente de seus concorrentes. O banco é conhecido como metódico e prudente, e por nunca participar de operações de tomada de juros “hostis”. Um de seus lemas – “apressar-se lentamente” – lhe valeu o apelido de “tartaruga”.

Contrariamente a alguns de seus rivais, evita os gastos suntuosos. Para mostrar bem que o dinheiro não deveria ser o único motor de suas tropas, seus funcionários tinham salários menores que os da concorrência, resultando em uma relativa “frugalidade”. Outro de seus lemas, long-term greedy (ganancioso de longo prazo), lhe impõe uma abordagem de paciência para o investimento e implica consentir sacrifícios financeiros, dado que estes lhe asseguram a fidelidade absoluta de seus clientes. A cultura da casa se exprime nos célebres “quatorze mandamentos”. O sétimo afirma justamente: “Não há lugar aqui para aqueles que colocam seus interesses antes dos da empresa e dos clientes”. No clube bem fechado de bancos de investimentos, os códigos deontológicos e o respeito à palavra dada ainda contavam.1

A tartaruga se transforma em polvo

Todos esses belos princípios foram pouco a pouco minados com a desregulamentação financeira dos anos 1980. O critério supremo se torna o da rentabilidade, que só se pode obter ao preço de métodos duvidosos: alavancagem financeira (compra especulativa financiada por endividamento) perigosamente elevada; desvio de qualquer regra que subsista; inovações em ritmo vertiginoso.2 É desse período que data a consanguinidade com o poder (mesmo se o discurso oficial continua a celebrar o mercado total), a internacionalização e a louca corrida por lucros.

Lenta mas certamente, a “tartaruga” se transforma em “polvo” que tenta reescrever em seu favor as regras das finanças – as quais vão praticamente permitir tudo. No exterior, conselheiros da elite político-financeira são recrutados a peso de ouro para ajudar a tirar lucros da onda de desregulamentação e privatizações. Na França, por exemplo, é Jacques Mayoux, inspetor das finanças e anteriormente presidente do banco Société Général, diretor-geral da Caixa Nacional do Crédit Agricole [outro banco francês] e presidente do Sacilor, que se liga ao Goldman Sachs. Charles de Croisset, inspetor de finanças, ex-presidente do Crédit Commercial de France (CCF) e administrador de Bouygues, Renault, LVMH e Thales, o sucedeu.

Outra grande reviravolta aconteceu em 1999. O Goldman Sachs passa ao status de empresa cotada na bolsa.3 Ontem, sociedade de pessoas, de capital fechado – no qual o capital e os beneficiários pertencem a associações que se responsabilizam, com seus próprios bens, pelos riscos tomados pela empresa, na qual eles estavam obrigados a reinvestir o essencial de seus benefícios –, “a Firma” se transforma em sociedade anônima (cujo valor “estabelecido pelo mercado” é de US$ 3,6 bilhões). Seus 221 parceiros, detentores de 48% do capital do Goldman Sachs, embolsam em média US$ 63 milhões cada um.4 Isso leva ao fim da disciplina financeira e da “ganância de longo prazo”. No momento da financeirização, o sucesso se mede em número de dólares gerados, balanço após balanço. O Goldman Sachs lidera os bancos de Wall Street em rentabilidade (US$ 13,4 bilhões de resultado líquido em 2009) e expõe em plena luz do dia os bônus de seus empregados.

No cassino financeiro, o banco atua em vários papéis: o de croupier, que embolsa uma comissão sobre todas as transações; o de conselheiro, que elabora estratégias e fornece a seus clientes informações confidenciais para aplicações financeiras – governos, investidores institucionais ou apostadores inveterados como os hedge funds (fundos especulativos). Suas análises e seus economistas estão entre os mais ouvidos do planeta, e suas declarações influem com frequência sobre o desenvolvimento das coisas. Mas, sobre o tapete verde, o Goldman Sachs aparece, sobretudo, como o jogador que conhece as cartas de todos os outros e que decide as apostas.


Jogo duplo

O grosso dos benefícios da empresa provém, de fato, da comercialização usando recursos próprios. O banco coloca seu próprio capital sobre todos os mercados financeiros, no setor imobiliário e em grupos de investimento em empresas de grande potencial. Além disso, desde a aquisição da J. Aron & Company em 1981, se torna um peso pesado no mercado de matérias-primas e influencia, intencionalmente ou não, a saúde econômica tanto dos produtores como dos consumidores do mundo todo. Nem os assuntos ligados ao mercado de petróleo nem aqueles que concernem ao aquecimento climático (com a mina de ouro dos “créditos de carbono”) lhe escapam.

Os conflitos de interesse são inerentes a esse supermercado das finanças que oferece toda uma gama de serviços e busca permanentemente maximizar a sua rentabilidade. O caso Abacus, provocado por e-mails indiscretos do trader francês Fabrice Tourre (ler mais na página 17), é um exemplo disso.

O Goldman Sachs se viu acusado pela Securities and Exchange Commission (SEC, a instância de controle das bolsas norte-americanas) de ter enganado seus clientes lhes vendendo, em 2007, collateralized debt obligations(CDO), produtos derivativos complexos endossados por créditos imobiliários de risco (subprimes), sem os informar que o banco apostava em sua queda. De uma parte, o banco tinha, ele próprio, liquidado seu portfólio de subprimes, o que estava no direito de fazer. Mas, sobretudo, ele tinha escondido de seus clientes que o banco tinha recebido do fundo especulativo Paulson, US$ 15 milhões para realizar essa montagem. Ou melhor (ou pior), Henri Paulson, o próprio especulador, teria participado ao lado de especialistas do banco da seleção dos créditos mais suscetíveis de se degradar.

Dito de outra forma, o Goldman Sachs, consciente da iminência de uma crise dos subprimes, continuava a incitar seus clientes a apostar em uma alta do mercado imobiliário enquanto, em associação com um fundo especulativo, apostava em uma baixa, o que teve por efeito precipitar a queda desses títulos. Os investidores, que não desconfiaram de seu jogo duplo, teriam perdido mais de US$ 1 bilhão na aventura.

Antes de reconhecer seus “erros”, o banco negou, qualificando a queixa de “sem fundamento”. O caso da Grécia fornece outro exemplo: o estabelecimento nova-iorquino foi remunerado pelo governo desse país como banco consultor, ao mesmo tempo que especulava sobre a sua dívida.

A diferença entre o ilegal e o imoral

De um ponto de vista legal, no entanto, o Goldman Sachs talvez tivesse razão: o que é imoral não necessariamente é ilegal. Há menos de vinte anos, quando do escândalo das poupanças nos Estados Unidos, cerca de 1.500 banqueiros haviam cumprido pena de prisão com base em leis ditas anti-racketeering, antes postas em prática para combater a máfia e o crime organizado. Doravante, os banqueiros desfrutam de outro estatuto: um novo marco legal e ideológico prevalece. Várias práticas (como o seguro de dívidas conhecidas como credit default swap, ou CDS) escapam de toda regulamentação. O princípio do caveat emptor(comprador, desconfie) prevalece. E o Goldman Sachs repete que apenas responde à demanda de seus clientes, os quais se tratam, aliás, de investidores sofisticados, forçados a exercer uma verificação sistemática (due diligence). Tanto que todos os documentos legais continham alertas e reserva de uso.

No mundo das altas finanças, a opacidade resulta do relaxamento de um excesso de transparência. Cada produto é acompanhado de uma documentação de várias centenas de páginas, porque certos investidores confiam nas notas das agências de classificação de risco, as quais se enganam frequentemente. Como constata Rama Cont, diretor do Centro de Engenharia Financeira da Universidade Columbia, evocando os riscos de títulos emitidos pelo Goldman Sachs e classificados como AAA (a melhor nota), “a informação é disponível, mas cada título subprimeé redigido em cinquenta ou sessenta páginas, e com frequência de modo diferente, de acordo com os juristas. Teria sido necessário mobilizar um pessoal adequado para triar as 5.700 páginas dos derivativos da dívida Abacus...”.5

Depois de ter por muito tempo suscitado admiração, o grupo sofre agora um problema de imagem. Em plena crise econômica mundial, o banco, junto com outros gigantes de Wall Street, em grande medida funcionou bem, e concedeu bônus considerados “obscenos”. Outros escândalos surgiram, o que levou a perguntar se a travessia relativamente fortuita da turbulência financeira não era devida à onipresença de seus ex-funcionários. Dali em diante tornou-se de bom tom, inclusive entre os que se beneficiaram de sua generosidade, criticá-lo. Barack Obama e Angela Merkel tiveram palavras bastante duras para uma empresa que poderia um dia lhes enviar uma oferta de trabalho.

O caso Goldman Sachs terá, no entanto, tornado possível a reforma do sistema financeiro dos Estados Unidos. A lei Dodd-Frank, chamada de “a mais vasta reforma do setor financeiro desde a Grande Depressão”, foi votada pelo Senado norte-americano em 15 de julho de 2010. Certamente clara em seus grandes princípios, ela visa impedir o colapso das grandes instituições financeiras e seu salvamento por parte dos contribuintes, minimizar a especulação dos bancos e de seus fundos próprios, impor mais transparência ao mercado de derivativos comercializados livremente; e, por fim, proteger os consumidores contra as práticas predadoras e usurárias.

Por outro lado, suas 2.300 páginas parecem menos satisfatórias em se tratando da aplicação concreta de tal programa. Mesmo se as cifras da Câmara de Comércio dos Estados Unidos são, sem dúvida, intencionalmente exageradas, a lei
Dodd-Frank implicaria na redação, por dez agências governamentais diferentes, de 533 novas regulamentações, 60 investigações e 94 relatórios, em um prazo de três meses a quatro anos.

O lobby bancário vai lutar em todos os terrenos. Ele aposta no fim progressivo do rancor público contra as instituições financeiras para encontrar toda a liberdade do passado. Aqui, de novo, o Goldman Sachs saberá jogar sua partida.

BOX:

Uma seleta rede de amigos em altos postos

Ex-diretor do Goldman Sachs, Robert Rubin dirigiu o Conselho Econômico Nacional criado por Bill Clinton (1993-1995) antes de se tornar seu ministro das Finanças (1995-1999). Rubin contribuiu para “tranquilizar” a comunidade financeira, sobretudo por ser um fervoroso apóstolo da desregulamentação.
Sob a presidência de George W. Bush, dois outros ex-proprietários do banco de investimentos tiveram papel político importante em diferentes áreas do governo e, por razões pragmáticas, dentro dos dois principais partidos. Henry Paulson foi, de 2006 a 2009, ministro das Finanças (e principal arquiteto do resgate do sistema bancário), enquanto Jon Corzine foi eleito senador (democrata) por Nova Jersey em 2000 – depois de gastar US$ 62 milhões do próprio bolso na mais cara campanha para o Senado da história norte-americana – e governador daquele estado, entre 2006 e 2010.
Outros altos funcionários do Goldman Sachs, menos notórios, exerceram influência política não menos significativa, especialmente durante o recente colapso financeiro. Neel Kashkari era protegido de Paulson no Goldman Sachs antes de acompanhá-lo em sua ida para o Tesouro, onde se tornou, aos 35 anos, o principal gestor do TARP (Troubled Asset Relief Program), o que lhe permitiu distribuir US$ 700 milhões às instituições financeiras em busca de recapitalização. Quanto a Stephen Friedman, antigo CEO do banco, estava usando três chapéus no momento da crise financeira: administrador do Goldman Sachs, presidente da Comissão Presidencial de Informações e presidente do Federal Reserve Bank de Nova York, órgão que tutela o Goldman Sachs.
Diante dessa rede de influências, os meios de comunicação muitas vezes se referiam ao banco de investimento como “A Firma” ou “Governo Sachs”. Entretanto, não foi só nos Estados Unidos que a empresa se instalou na antessala do poder. Os italianos Romano Prodi (ex-primeiro-ministro italiano) e Mario Draghi (presidente do Banco da Itália, o Banco Central italiano, e nomeado para dirigir o Banco Central Europeu, sucedendo a Jean-Claude Trichet a partir de novembro de 2011) já tinham sido, respectivamente, conselheiro e vice-presidente do Goldman Sachs para a Europa.
Ex-CEO do banco em Londres, o presidente nigeriano, Olusegun Aganga, é agora o “czar econômico” do seu país. Às vezes, belas carreiras políticas são beneficiadas por uma “dança das cadeiras”. Esse é o caso de Peter Sutherland: ministro da Justiça da Irlanda, depois comissário europeu para a concorrência e gerente geral do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT), atualmente preside o Goldman Sachs International, em Londres. (I.W.)

Ibrahim Warde é professor associado na Universidade Tufts (Medford, Massachusetts, EUA). Autor de Propagande impériale & guerre financière contre le terrorisme, Marselha-Paris, Agone - Le Monde Diplomatique, 2007. 


Ilustração: Emilio Damiani
 

1 Charles D. Ellis, The Partnership: The Making of Goldman Sachs [A parceria: a construção do Goldman Sachs], Penguin Books, Nova York, 2009.

2 Suzanne McGee, “Chasing Goldman Sachs: How the Masters of the Universe Melted Wall Street Down... And Why They’ll Take Us to the Brink Again” [Perseguição ao Goldman Sachs: como os mestres do universo derreteram Wall Street… e por que eles nos levarão até a beira do precipício novamente], Crown Business, Nova York, 2010.

3 Lisa Endlich, Goldman Sachs: The culture of success [A cultura do sucesso], Simon and Schuster–Touchstone, Nova York, 2000.

4 Nomi Prins, It takes a pillage: behind the bailouts, bonuses and backroom deals from Washington to Wall Street [É preciso uma pilhagem: por trás dos resgates, dos bônus e das negociações de bastidores de Washington a Wall Street], Wiley, Hoboken, 2009.


5 Sylvain Cypel, “Les conflits d’intérêts d’Abacus” [Os conflitos de interesse do Abacus], 
Le Monde, 4 maio 2010.