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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A síndrome “cansei” da feminista branca: uma resposta a Nancy Fraser.

 

 

buscado na Rede Universidade Nomade


Por Brenna Bhandar e Denise Ferreira da Silva, no Critical Legal Thinking, em 21/10/13 | Trad. UniNômade BrasilEsta é uma resposta ao artigo de Nancy Fraser publicado no The Guardian, em 2/10/13, e republicado pela UniNômade: Como o feminismo se tornou a empregada do capitalismo; e como resgatá-lo“.

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No recente texto “Como o feminismo se tornou a empregada do capitalismo, e como resgatá-lo”, Nancy Fraser usa seu próprio trabalho em teoria política para argumentar que o feminismo, na melhor das hipóteses, foi cooptado pelo neoliberalismo e, na pior, se tornou um empreendimento do projeto neoliberal. O que à primeira vista parece uma autorreflexão razoável, uma que assume o ônus e a responsabilidade pelas alianças do passado e pelas celebrações de manobras estratégicas em nome da melhoria da vida das mulheres; num segundo momento, acaba revelando a miopia inata e repetitiva do feminismo branco em levar em conta, conversar e pensar junto com as feministas negras e terceiromundistas.
Escrevendo desde o começo da década de 1970, essas acadêmicas e ativistas têm sistematicamente desenvolvido uma crítica feminista não somente sobre o capitalismo de estado, como também do capitalismo globalizado que se apoia no legado colonial. Esses feminismos não priorizaram o “sexismo cultural” em detrimento da redistribuição econômica. A literatura é vasta, com uma miríade de exemplos. De modo que é bastante cansativo quando feministas brancas falam da “segunda geração do feminismo” como se fosse o único “feminismo”, e usam o pronome “nós” para chorar o fracasso de suas lutas. Deixe-nos apenas dizer que não existe algo como o “feminismo”, que seja sujeito de qualquer sentença para designar uma posição única na crítica do patriarcado. Tal posição está fraturada desde pelo menos quando a ativista negra Sojourner Truth disse: “Não sou uma mulher também?” Existe, no entanto, uma posição-sujeito feminista, aquela que Fraser está lamentando, que se sentou muito confortavelmente na cadeira do sujeito emancipado, autodeterminado. Mas isso não surpreende, pois tanto o feminismo dela e o neoliberalismo compartilham o mesmo núcleo liberal, que feministas negras e terceiromundistas identificaram e expuseram desde muito cedo na trajetória dos feminismos.
O trabalho de A.Y. Davis, Audre Lorde, Himani Bannerji, Avtar Brah, Selma James, Maria Mies, Chandra Talpade Mohanty, Silvia Federici, Dorothy Roberts e um monte de outras destroçaram a natureza excludente e limitada dos esquemas conceituais desenvolvidos pelas feministas brancas do mundo anglófono. Essas acadêmicas e ativistas criaram esquemas de análise que, simultaneamente, encararam o desafio de fazer uma dramática correção tanto da teoria anticolonial e marxismo negro [Black Marxism], que falharam fundamentalmente em teorizar gênero e sexualidade, quanto do pensamento feminista socialista e marxista, que continua a falhar, de muitas maneiras, em dar conta da raça, das histórias da colonização e das iniquidades estruturais entre os estados-nações ditos desenvolvidos e aqueles em desenvolvimento. E sim, embora Mies, Federici e James sejam brancas, as feministas marxistas terceiromundistas aspiram por uma solidariedade política além da linha de cor.
As acadêmicas de que falamos desenvolveram críticas consistentes de formas capitalistas de propriedade, troca, trabalho pago e não-pago, junto de formas culturalmente impregnadas e estruturais da violência patriarcal. Peguemos o exemplo do estupro e da violência contra a mulher. No seminal Women Race and Class [Raça e Classe das Mulheres], A.Y. Davis argumentou energicamente que muitas das mais urgentes e contemporâneas lutas políticas das mulheres negras estão debruçadas sobre tipos de opressão sofridos na escravidão. O estupro e a violência sexual são problemas de mulheres de todas as classes, raças e sexualidades, como Davis apontou, mas assumem uma valência diferente para negras e negros. O mito do estuprador negro e do macho negro hipersexual violento causou montes de linchamentos durante o período anteguerra nos EUA. Esse persistente mito racista confere valor explicativo à super-representação de homens negros em prisões condenados por estupro, e levou à relutância de parte das mulheres afro-americanas em se envolver no começo do ativismo feminista, mais concentrado na aplicação da lei e no sistema penal (Davis, 1984). A expropriação do trabalho negro radicada na lógica da escravidão se repete na expropriação do trabalho dos presos na era pós-escravidão e, hoje, na endemia de trabalho prisional (Davis, 2005).
A violência sexual é, assim, entendida como derivada da escravidão e da colonização, afetando tanto mulheres quanto homens. A história dos corpos negros femininos como mercadorias à disposição do prazer dos homens brancos permanece como um traço racial, social e psíquico da sociedade afro-americana contemporânea. No tocante às indígenas americanas, os estereótipos da era colonial, a squaw [algo como "indiazinha", pejorativo para mulher indígena sexualmente disponível], continuam nos imaginários racializados contemporâneos da sociedade americana, retratando mulheres indígenas como vulneráveis a formas de violência sexual que sempre foram raciais, recordando padrões de violência presentes quando do desapossamento de suas terras e, sim, suas práticas culturais (ver P. Monture-Angus, Kim Anderson, Sherene Razack).
Sugestões recentes que as feministas deveriam se concentrar no trabalho não-pago, implicado nos trabalhos relacionados com o cuidado, foram analisadas por Patricia Hill Collins, em Black Feminist Thought: knowledge, power and consciousness [Pensamento feminista negro: conhecimento, poder e consciência]. Ela enfatiza que, para as mulheres afro-americanas, o trabalho em casa em prol do bem estar das famílias pode ser entendido por elas como uma forma de resistência a forças econômicas e sociais que entram em conluio para prejudicar as crianças e famílias afro-americanas. Feministas negras também conduziram a campanha por salários ao trabalho doméstico, desafiando as normas burguesas da economia burguesa. Seguindo A.Y. Davis, notamos que as feministas brancas precisam reconhecer quando elas se envolvem em estratégias políticas que as feministas negras e terceiromundistas já têm teorizado e praticado há muito tempo.
Encerrar a opressão, a violência contra a mulher, a violência contra o homem, particularmente na versão liberal, significa abraçar o pensamento histórico, materialista, antirracista das feministas marxistas negras e terceiromundistas. Seriam as feministas brancas que insistem em acrescer a palavra “raça” e “racismo”, em suas abordagens ao feminismo típicas da esquerda liberal, deliberadamente cegas e surdas? Seriam elas incapazes de ceder terreno ao feminismo negro porque significaria a renúncia de certo privilégio racial? A invocação persistente do universalismo, que é o núcleo do feminismo branco, invisibiliza as experiências, os pensamentos e o trabalho das feministas negras e terceiromundistas, de novo e de novo. Acabou o tempo!

Tradutor: Bruno Cava.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Uma ecologia da imanência de onde?

 
 
 
por Bruno Cava
Não tenho como compartilhar o sentimento de que o planeta deva ser salvo. Essa angústia nunca me afetou. Já costumo torcer o nariz quando ouço apelos por salvação, tão rapidamente condutor a escatologias várias e suas indigestões características, mas nesse caso me parece mais grave. Quem é o planeta, essa entidade quase mística? E quem disse que o Planeta quer ser salvo? E quem disse que estaria condenado, em primeiro lugar? Expressões consternadas e declarações sentenciosas, com o que se apresentam os juízes dessa corte, apenas me convencem de uma moral deprimida pelo terror e a paralisia. Teríamos de parar tudo e nos concentrarmos na “big picture”, no grande quadro do fim termodinâmico. Impõem com o selo da mais alta ciência para que deixemos de nos envolver com assuntos menores e os sigamos, como primeira prioridade. Manejam a culpa, e a distribuem em função do quão distante estaríamos, nós negacionistas em distintos graus, em relação à verdade por eles encontrada, revelada e promovida.
A Terra contudo não me assusta, nem seus ciclos, intempéries, ou eras do gelo. Não me assusta como não me assustam as manchas solares, os buracos negros, nem qualquer asteróide que, um dia, à semelhança do que acontecera com os dinossauros, a alta ciência possa concluir com razões matemáticas irá chocar-se por aqui. Não me comove esse pálido ponto azul na escuridão de espaços infinitos… em clima de romantismo siderado. Como tampouco tenho carinho especial pela Terra. Vivo aqui porque outros antes de mim escavaram este nicho onde pude fincar a existência e me alimentar do mundo. Num esforço inglório de lutas, desejos e revoltas, transfiguraram-se as comunidades e civilizações, com todos os seus problemas, até eu aqui poder usufruir de alguma forma de viver a liberdade. Sei que, tirando alguns mitologemas fundadores do ocidente, ninguém veio de algum paraíso, e nada aqui foi conquistado por benção. Não há razão para decadentismo, quando jamais houve idade de ouro. Não nascemos da pureza e da candidez de Gaia, outro nome para um renovado paraíso de tons mais pagãos. O problema é mais embaixo. É mais terreno, mais terra do que Terra. As pessoas é que estão ferradas. Os pobres, os sem-terra, os precários, os sem-renda, os discriminados por N motivos, em N condições de luta e resistência. Todos esses contingentes de deserdados pelo mundo afora, eles é que estão ferrados. Se reconheço uma urgência realmente inapelável, que me atinge graças à mínima sensibilidade com a qual fui dotado, ela reside na urgência de suas lutas. Persegue-me o fato bruto e incontornável de que, para muitos, o amanhã já é tarde.
O prazer gera o conhecimento, mas também a dor. Daí que essa experiência e essa sensibilidade sejam riquíssimas, porque imediatamente apaixonadas, uma inquieta paixão pelo real, um desejo de implicação e de engendramento coletivo de luta. Clamores para salvar o planeta, verdismos de neopagãos, ou indies decalcados de agenda política, estetizados ou terapeutizados, nostalgias da “essência perdida”: tudo isso não faz sentido para quem a pauta já está encarnada. Não admira causar em quem luta a mais rochosa indiferença. Pouco importa profetizar a destruição do futuro a quem mal se equilibra no presente, soluça para dar o próximo passo, para quem qualquer ideia de perspectiva universal excede o desafio cotidiano de se virar e seguir adiante, na lei da sobrevivência. Vivem na pele o mundo, não como alta ciência, mas como superfície.
Minha cumplicidade prefere estar com estes, meus desejados conterrâneos, a render o tempo à hipótese descansada de Gaia. Afinal, Gaia pode ser mais um nome para a Alma do Mundo, outra transcendência nascida quer do misticismo mais vulgar, quer de torneios especulativos filosofantes. É filosofia de laboratório, ideia sem força, sem passione. Gaia não acolhe. O planeta não provê. A “natureza selvagem” nunca foi mãe de ninguém. Dizer-se seu filho é de uma imensa ingratidão. Gaia, a Natureza, o Verde, o Planeta Terra costumam ser invocados apenas por quem os experimentam como turismo, atrás de alguma vibração na vidinha ‘clean’ e confortavelmente monótona. Apartado da alegria da construção coletiva das alternativas e lutas, chega um momento quando precisa depositar as expectativas para sair de uma existência banal e sem sentido. Mas sempre com riscos controlados, a emoção calculada, sem deixar de manter-se limpíssimo (moral e fisicamente), com plena consciência e autossatisfação de uma vivência reconfortadora. Incorre muitas vezes em nostalgia de “bom selvagem”.
Como ensina a melhor antropologia no Brasil, os índios das Américas não experimentam a “natureza selvagem”, alguma comunhão esplêndida antes da Queda, mas a sociedade na floresta (e a selva d/na sociedade). Superabundante de relações e pontos de vista constituintes, numa riqueza amazônica onde são bons e maus, perigosos e aventureiros. Saturadíssima de relações sociais com todos os entes que existam, nenhum dos quais além de sua própria existência, nenhuma Terra, nenhum planeta da humanidade unificando-os. E, talvez, eles não vivam o fim do mundo, mas o mundo como findo. Experimentam já o pós-holocausto: são os judeus da terra, como os palestinos o são, os presidiários, os negros americanos, a mulher que apanha do marido alcoólatra, o gay espancado na Avenida Paulista, o despedido que deve tudo e mal tem coragem de voltar para casa, o pobre homem humilhado cotidianamente pelo patrão, a menina estuprada pelo pai, a adúltera queimada com ácido, clitóris extirpado, qualquer criança largada na rua de uma cidade, a barriga com vermes e sem escola, numa cidade ou terra brutalizada pelo mercado mundial, como tantas. Eu posso compreender quando dizem que o mundo já acabou. Jamais deveríamos transcender a condição vívida de todas essas pessoas, implicadas numa “consciência” que é imediatamente enfrentamento, recriação e, apesar de tudo, mais vida. Pessoas que não se suicidam e seguem em frente. Seguiram em frente, até construir o pouco de liberdade e poderes de existir que hoje exercemos. Somos feitos dessa carne, dessas dores e cansaços acumulados e sobrepujados pela vontade maior de reexistir. Foi assim, insurgindo-se, construindo uma ciência de baixo a cima, que escavaram o terreno improvável de nossos direitos.
É preciso existir nesta terra sem nenhuma entidade superior à experiência, nenhum Grande Plano promovido por sacerdotes; andar sobre ela, cavá-la, a terra em que pisamos e onde somos defrontados com o sofrimento, a degradação e a morte, e onde também amamos, temos amigos, amantes, filhos, cantamos, criamos mais vida muitas vezes das coisas menores, de um besouro que caminhe pela parede. Não precisamos do planeta. Siderar-se no além-mundo, caçar desesperadamente elos perdidos e essências fugitivas, não é uma opção para todos. Não vamos salvar-nos no final, mas e daí, faz diferença? Só sei que podemos continuar lutando pelo mundo a que temos direito, e morrer tentando. É preciso cantar e dançar sobre essa terra. A única ecologia que importa começa na experiência dos pobres, deserdados e sem-terra, com a riqueza vívida desses mundos conflagrados. Daí, sim, se podem fiar a nossa revolta e o nosso amor.