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sábado, 21 de junho de 2014

Presente dos 70 Anos

 

buscado no Blog do Zé Celso

 

 

Chico Buarque no ensaio de Roda Viva 1968
Chico Buarque no ensaio de Roda Viva 1968

Amado Poeta Cantor ,desde 68 ,a única vez q nos encontramos ,foi por acaso , você vindo do Leblon ,eu indo da praia de Ipanema pra onde você caminhava.Era REVEILLON na tradução pro brazyleiro “Vamos acordar crianças, o novo ano está nascendo! “ Não me lembro de que ano, mas tenho gravado vivo na matéria de meu ser emotivo , o abraço q nos demos,sem dizer uma palavra sequer.Foi um “passe” carinhoso como Pixinguinha ,vindo de nossos dois corpos criadores emocionados .Prosseguimos em direções opostas diante do mar , eu arrepiado por aquela elétrica topada tão inesperada!Nuca mais fui o mesmo .
Só trabalhamos duas vezes juntos: na 1ª , você compôs e gravou num com um cello e outras cordas, um tema embriagador de tanta beleza, pros “Os Inimigos “de Gorki. Depois você me convidou pra fazer sua 1ª Obra Prima pro Teatro :“Roda Viva” .Numa generosidade rara ,bancou a Produção magnífica da peça . Havia a previsão de um CORO pra 4 artistas cantora(e)s .
No chamado pro Teste ,uma Multidão de Estudantes Artistas, já forjados no Teato das Ruas do Mundo de 68 penetrou e ocupou com seus Corpos o Teatrinho Princesa Isabel. Traziam em si todas as revoluções q hoje se separaram, mas talvez tendam á se reunir novamente como Rimbaud escreveu : num Corpo.Foi uma Ocupação com uma Nova Arte , não um mero Occupy .E sua Produção Chico, acolheu á Todos novos Artistas.Esperado á milênios ,desde do Teatro Grego , sua peça trouxe o Retorno ao Teatro do CORO PAGÃO CANTOR ATUADOR DANÇARINO, tão Protagonista quanto os Protagonistas.Um CORO como um Time de Craques de um outro Futebol.Era tão forte a energia q emanava q abrimos os Ensaios pros nossos amigos artistas de cinema, musica, teatro, artes plásticas.Era Verão e o Rio descobriu uma nova Praia: os ensaios de “Roda Viva” . Lembro d’uma tarde em vieram : o Artista Gráfico Rogério Duarte, lindo ,vestido com um terninho branco com listas vermelhas por todo tecído, Mick Jagger acompanhado de Miriam Makeba…. O CORO tocava nas pessoas que iam festejar , como no Programa do Chacrinha, no Carnaval, no Candomblé. Era uma Festa intensamente Pagã , ignorando Palco e Platéia . Flavio Império com sua luxuosa direção de Arte , fez do Palco um Monitor de TV e cercou as paredes da “platéia” de Projeções. O CORO ocupava todo espaço. Obvio q a Estréia fói um Choque ,mas talvez , em nenhuma noite ou matinée , os Teatros por onde passou “Roda Viva”, deixaram de estar completamente lotados .
Todos sabem dos ataques do Comando de Caça aos Comunistas em São Paulo   e depois o de Porto Alegre feito pelo próprio 3º Exército q proibiu a peça em todo território nacional.Veio o AÍ-5 –q muitos o atribuem pra nos condenar , á “Roda Viva”.Claro que estes fatos fizeram uma sombra imensa sobre a importância Estética Revolucionária q esta peça teve e tem na Cultura do Teatro Brazyleiro e Mundial .
Chico nesta época apesar de muitos amigos teus , acusarem a mim de ser responsável por uma arte q chamavam de “agressão” , você combateu heroicamente os 2 atentados ,assim como Cacilda Becker q na época fez a celebre declaração defendendo “Roda Viva”: “Todos os Teatros são meus Teatros “
Amado Chico hoje você proíbe a encenação da peça , declarando q sua 1ª peça é fraca.Aquele menino lindo de olhos verdes , Astro explodido de repente na   Maquina do Show Businees , imediatamente produziu vindo desta experiência concreta de seu Corpo ,uma Obra de Arte de Forma – Conteúdo originalíssima, sobre á crueldade desta Engrenagem .E não como uma peça panfletária. Você criou uma dramaturgia Alegorica sofisticada e Pop ,mimetizando 4 fases do ShowBusiness dos anos 60 . -A do Rei São Roberto Carlos da “Jovem Guarda” que iniciou com brilho o processo de marketização .
-A da MBP ,penetrando criticamente em si mesmo, com muita corajem, Chico .
-A da “Disparada” Nordestina de Geraldo Vandré
-A da “Tropicália” .
Todas bem enredadas num Roteiro nada naturalista como era moda na época.
A linguagem dos seus diálogos dialóga de igual pra igual com o melhor Nelson Rodrigues.A Musica desde seu pouco conhecido mas delicioso Ieieié passa pelo maravilhoso prelúdio “Sem Fantasia” q tenho orgulho de dizer que fui eu q pedi á você q fizesse a 2ª canção do contraponto ,até as que finalizam sua a peça onde você retorna ao teatro musical de Noel Rosa, na “Opereta TragyCômica “ e na “Revista”.Você brilha nelas tanto nela quanto o gênio de Vila Isabel.
Quando fiz 70 anos ,aconteceu um fenômeno incrível em minha vida. Eu tinha vergonha de minhas primeiras peças que foram tachadas no Seminário de Dramaturgia do Teatro de Arena de “pequeno burguesas”, “alienadas”,“psicológicas”, e pelo critico Decio de Almeida Prado como “simbolistas demais”.Quando escrevi com Marcelo Drummond a “Odisséía das Cacildas” em 1990 ,fui em busca de todo repertório da atriz no melhor arquivo de textos de Teatro de 1900 á 1968: “O Arquivo da Policia de Diversões” pelo qual todas as peças tinham q passar.Minhas “pecinhas” estavam perdidas, nem eu as tinha guardado, tal desprezo e vergonha sentia por elas.Encontrei duas .
Danilo Miranda presenteou meus 70 anos, com a produção de minha 1ª Peça” Vento Forte pra um Papagio Subir”.Ele me convenceu á aceitar,dirigí a atuei na peça. Em 1958, comecei compondo a musica ,cantando no violão ,daí fui pra maquina de datilografia e em 40 minutos escrevi a 1ª coisa finalizada em minha vida.Foi somente aos 70 anos q retornei á obra de meus 21 anos, e descobri q era um Poeta , q a peça era simplesmente Poesia Teat(r)al.Minha vida de Artista mudou completamente.
Hoje dos meus 77 anos contemplo os teus 70 e te pergunto : temos ou não q adotar todos filhos q parímos ? Tenho curiosidade em saber como você escreveu a peça. Esta tua 1ª Obra q tanto entusiasmo despertou na   Multidão do Mundo de 68 q não se acovardou com os ataques do CCC q no dia seguinte ao ataque fez as filas aumentarem ao infinito .Esses Grandes Artistas como Samuka , Corifeu do Coro de “Roda Viva” ,não puderam mais depois do AÍ 5 atuar com a liberdade e invenção que traziam pro Teat(r)o no Brasil.Trouxe todo o CORO pro Oficina mas não podiam em “Galileu Galilei” sequer olhar para o Público. Os q mais talentosamente criaram a Arte da Atuação ao Vivo com o Publico Atuador ,também foram sacrificados.Não suportaram o Recuo do Teatro Brazyleiro aos Palcos Italianos.
Esta tão aclamada e tão massacrada 1ª filha tua, quer o reconhecimento de seu Criador .Claro q você deve ter sofrido muito com ela, como eu, como todos, mas sinto que é o momento de você reler sem preconceito sua Grande Obra de artista quando jovem e libertá-la pra Eternidade Humana, a partir dete teu consagrado aniversário .Este é o maior presente te posso dar como Danilo Miranda me deu aos 70: não censurar nada q nasceu de teu esperma de Gênio .Eisntein diz q os gênios engolem o Universo em seu Corpo e em sua Obra.É o teu caso ,portanto essa filha de 44 anos podia muito bem ser reconhecida.

Ah!Chegar até você/ foi lindo de morrer /mas foi tanto penar/ não vou me arrepender.. .

16 de Junho de 2014 Blooming Day


sábado, 1 de fevereiro de 2014

O Teatro sob a ditadura


buscado no Gilson Sampaio  


Via   Nos Porões da Ditadura, uma Flor

Em 11/02/68 Os teatros cariocas e paulistas suspendem a apresentação de espetáculos por 3 dias, em protesto contra a censura. Artistas fazem vigília nos teatros municipais do Rio e de São Paulo.
Foto: Em 11/02/68 Os teatros cariocas e paulistas suspendem a apresentação de espetáculos por 3 dias, em protesto contra a censura. Artistas fazem vigília nos teatros municipais do Rio e de São Paulo.



Em 1968 com AI-5, O governo encerra as atividades do Congresso Nacional, jornais são invadidos, fechados, censurados, teatros são bombardeados, inicia-se uma caçada as "bruxas" intelectuais. Artistas, estudantes, políticos de esquerda enchem as prisões enquanto o "milagre brasileiro" mostra uma economia excitante para a elite que está calada. Mas vai ter muito herói nesse história, as guerrilhas serão travadas pela classe artística em cada centímetro de palco brasileiro. Dramaturgos perguntavam-se " o que se pode dizer além do que não se pode dizer?" É a censura que os angústia. Se uma turma segue a margem do conflito com um teatro chamado digestivo, alguns resistiam apelando para metáforas que burlavam seus censores. Verdade que também burlavam muitos de seus espectadores, mas o que fazer- a vida intelectual do Brasil da época estava longe de ser perfeita. 



Esse é o caso da peça Botequim escrita por Guarnieri em 1973. 

Sob forte tempestade um grupo de pessoas fica presa num bar, sem ter como sair e sem notícias porque o rádio está mudo. A metáfora é perfeita, mas nem todo mundo entendeu. Isso não impediu Guarnieri de se manter na vanguarda da resistência.



Além de Arena conta Zumbi com Boal e Edu Lobo, montaram Arena conta Tiradentes uma análise daquele momento do momento a partir do mártir da inconfidência Mineira. O Arena seguiu com clásiico internacionais adaptados, e inúmeros autores como Chico Buarque, Millôr Fernandes, Dias Gomes, Vianninha, Boal entre outros se embatiam com os censores. E a luta era dura. Muitas vezes, se deixou morrer a palavra e se fez uso do corpo para expressar a resistência. Nasce o teatro sensorial, e o teatro da agressão (pelos palavrões, "imagens e ações físicas sobre" os espectadores). Conquistar o público passa a ser uma batalha emocional. tinha sexo, drogas e rock and roll. Antonin Artaud autor e poeta francês de textos delirantes torna-se ídolo, e devagar vem chegando o tropicalismo. Mas era muito palavrão, muito sexo e confusão, a sociedade ia chiar.E a censura não só proíbe argumentos políticos, mas tudo o que considera "maus costumes". 



Em 1974 a policia invadiu o Teatro Oficina, fechou suas portas e prendeu Zé Celso e Boal ( que depois de libertado se exilou na França).Em 1976 Sarte proíbia suas peças de serem encenadas no Brasil até que se estabelecesse "a ordem e as liberdades demoráticas".Uma das maiores forças da arte durante a Ditadura estava no teatro amador. E grupos se multiplicam pelo país de jovem frustrados. A dramaturgia que surge dai é regional, voltada para a tentativa de gerar consciência ou debate para os problemas de sobrevivência locais e por isso a margem dos censores preocupados com o que acontecia no eixo Rio-São Paulo. Ai as grandes batalhas estão sendo travadas. A tática dos censores é genial. Liberam textos quase na estréia, depois cancelam, suspendem peças em cartaz e quebram a estrutura financeira dos teatros. Prendem autores e diretores, fecham grupos, ameaçam. Não proíbem nem liberam-" congelam textos" e os cortam arbitrariamente, fazem ataques terroristas aos teatros. 



Mas nos anos de 1970, o brasil contou com o apoio do teatro internacional que visitava o país com suas peças. Estiveram aqui o Living Theatre, o Open Theatre, Ionesco, Genet, Grotowski, Lavelli, Robert Wilson, alguns trazidos pelos festivais organizados por Ruth Escobar. E essa época épica, forjou um teatro brasileiro de imensa qualidade. Nasceu o CPT de Antunes Filho que causou imenso impacto na cena nacional e internacional.



Em 1978 o AI-5 foi suspenso, mas os censores continuaram, agora como "força atenuante" e como compensação o governo começava inesperadamente a oferecer recursos ao setor cultural. Um verdadeiro morde e assopra. No entanto esse foi o período mais prolífico da dramaturgia brasileira e também dessa sopa de criatividade nasceram os maiores nomes do nosso teatro. Diretores espetaculares que absorveram a força de expressão de um arte e atores com características muito especiais que são um orgulho que poucas nações podem comemorar.



Algumas peças importantes encenadas sob a ditadura



O show Opinião- Vianninha, Paulo Pontes e Armando Costa

Liberdade, Liberdade - Millôr Fernandes e Flavio Rangel

Arena conta Zumbi

Arena conta Tiradentes

O Homem do principio ao fim - Millôr Fernandes

O assalto - José Vicente

Fala baixo senão eu grito - Leilah Assumpção

`A flor da pele -Consuelo de Castro

Um grito parado no ar -Guarnieri

O Botequim- Guarnieri

Apareceu a margarida - Roberto Athayde

Gota D'agua - Chico Buarque e Paulo Pontes

A Ópera do Malandro - Chico Buarque

A resistência - Maria Adelaide Amaral

Murro em ponta de faca - Boal

Rasga coração - Vianninha

Caminho de volta - Consuelo Castro

O Último Carro - João das Neves

A fábrica de chocolates - Mario Prata

Campeões do mundo - Dias gomes

Patética - João Ribeiro

Navalha na carne - Plínio Marques



Algumas peças proíbidas



A Invasão - Dias Gomes

Tio Patinhas e a pílula - Augusto Boal

Arena conta Tiradentes - Augusto Boal e Gian Francesco Guarnieri

Mateus e Mateusa - Qorpo-Santo

Entre quatro paredes - Sartre

A passagem da rainha - Bivar

Basta - Guarnieri

Revolução na America do Sul - Boal

O aprendiz e o feiticeiro (infantil) - Maria Clara Machado

O rei morreu, viva o rei - César Vieira

Milagre na cela - Jorge Andrade

Caixa de cimento - Carlos Henrique Escobar

Feira Brasileira - Opinião (autoria do grupo)

Trivial simples - Nelson Xavier

Rasga Coração - Vianninha

A massagem - Mauro rasi

Os fuzis da senhora Carrar - Brecht

O comportamento sexual do homem - Boal

As hienas - Bráulio Pedroso

Abajur lilás - Plínio Marcos

Delito Carnal - Eid Ribeiro



FONTE: Teatro Brasileiro, panorama do século XX
Em 1968 com AI-5, O governo encerra as atividades do Congresso Nacional, jornais são invadidos, fechados, censurados, teatros são bombardeados, inicia-se uma caçada as "bruxas" intelectuais. Artistas, estudantes, políticos de esquerda enchem as prisões enquanto o "milagre brasileiro" mostra uma economia excitante para a elite que está calada. Mas vai ter muito herói nesse história, as guerrilhas serão travadas pela classe artística em cada centímetro de palco brasileiro. Dramaturgos perguntavam-se " o que se pode dizer além do que não se pode dizer?" É a censura que os angústia. Se uma turma segue a margem do conflito com um teatro chamado digestivo, alguns resistiam apelando para metáforas que burlavam seus censores. Verdade que também burlavam muitos de seus espectadores, mas o que fazer- a vida intelectual do Brasil da época estava longe de ser perfeita.
Esse é o caso da peça Botequim escrita por Guarnieri em 1973.
Sob forte tempestade um grupo de pessoas fica presa num bar, sem ter como sair e sem notícias porque o rádio está mudo. A metáfora é perfeita, mas nem todo mundo entendeu. Isso não impediu Guarnieri de se manter na vanguarda da resistência.
Além de Arena conta Zumbi com Boal e Edu Lobo, montaram Arena conta Tiradentes uma análise daquele momento do momento a partir do mártir da inconfidência Mineira. O Arena seguiu com clásiico internacionais adaptados, e inúmeros autores como Chico Buarque, Millôr Fernandes, Dias Gomes, Vianninha, Boal entre outros se embatiam com os censores. E a luta era dura. Muitas vezes, se deixou morrer a palavra e se fez uso do corpo para expressar a resistência. Nasce o teatro sensorial, e o teatro da agressão (pelos palavrões, "imagens e ações físicas sobre" os espectadores). Conquistar o público passa a ser uma batalha emocional. tinha sexo, drogas e rock and roll. Antonin Artaud autor e poeta francês de textos delirantes torna-se ídolo, e devagar vem chegando o tropicalismo. Mas era muito palavrão, muito sexo e confusão, a sociedade ia chiar.E a censura não só proíbe argumentos políticos, mas tudo o que considera "maus costumes".
Em 1974 a policia invadiu o Teatro Oficina, fechou suas portas e prendeu Zé Celso e Boal ( que depois de libertado se exilou na França).Em 1976 Sarte proíbia suas peças de serem encenadas no Brasil até que se estabelecesse "a ordem e as liberdades demoráticas".Uma das maiores forças da arte durante a Ditadura estava no teatro amador. E grupos se multiplicam pelo país de jovem frustrados. A dramaturgia que surge dai é regional, voltada para a tentativa de gerar consciência ou debate para os problemas de sobrevivência locais e por isso a margem dos censores preocupados com o que acontecia no eixo Rio-São Paulo. Ai as grandes batalhas estão sendo travadas. A tática dos censores é genial. Liberam textos quase na estréia, depois cancelam, suspendem peças em cartaz e quebram a estrutura financeira dos teatros. Prendem autores e diretores, fecham grupos, ameaçam. Não proíbem nem liberam-" congelam textos" e os cortam arbitrariamente, fazem ataques terroristas aos teatros.
Mas nos anos de 1970, o brasil contou com o apoio do teatro internacional que visitava o país com suas peças. Estiveram aqui o Living Theatre, o Open Theatre, Ionesco, Genet, Grotowski, Lavelli, Robert Wilson, alguns trazidos pelos festivais organizados por Ruth Escobar. E essa época épica, forjou um teatro brasileiro de imensa qualidade. Nasceu o CPT de Antunes Filho que causou imenso impacto na cena nacional e internacional.
Em 1978 o AI-5 foi suspenso, mas os censores continuaram, agora como "força atenuante" e como compensação o governo começava inesperadamente a oferecer recursos ao setor cultural. Um verdadeiro morde e assopra. No entanto esse foi o período mais prolífico da dramaturgia brasileira e também dessa sopa de criatividade nasceram os maiores nomes do nosso teatro. Diretores espetaculares que absorveram a força de expressão de um arte e atores com características muito especiais que são um orgulho que poucas nações podem comemorar.

Algumas peças importantes encenadas sob a ditadura
O show Opinião- Vianninha, Paulo Pontes e Armando Costa
Liberdade, Liberdade - Millôr Fernandes e Flavio Rangel
Arena conta Zumbi
Arena conta Tiradentes
O Homem do principio ao fim - Millôr Fernandes
O assalto - José Vicente
Fala baixo senão eu grito - Leilah Assumpção
A flor da pele -Consuelo de Castro
Um grito parado no ar -Guarnieri
O Botequim- Guarnieri
Apareceu a margarida - Roberto Athayde
Gota D'agua - Chico Buarque e Paulo Pontes
A Ópera do Malandro - Chico Buarque
A resistência - Maria Adelaide Amaral
Murro em ponta de faca - Boal
Rasga coração - Vianninha
Caminho de volta - Consuelo Castro
O Último Carro - João das Neves
A fábrica de chocolates - Mario Prata
Campeões do mundo - Dias gomes
Patética - João Ribeiro
Navalha na carne - Plínio Marques

Algumas peças proíbidas
A Invasão - Dias Gomes
Tio Patinhas e a pílula - Augusto Boal
Arena conta Tiradentes - Augusto Boal e Gian Francesco Guarnieri
Mateus e Mateusa - Qorpo-Santo
Entre quatro paredes - Sartre
A passagem da rainha - Bivar
Basta - Guarnieri
Revolução na America do Sul - Boal
O aprendiz e o feiticeiro (infantil) - Maria Clara Machado
O rei morreu, viva o rei - César Vieira
Milagre na cela - Jorge Andrade
Caixa de cimento - Carlos Henrique Escobar
Feira Brasileira - Opinião (autoria do grupo)
Trivial simples - Nelson Xavier
Rasga Coração - Vianninha
A massagem - Mauro rasi
Os fuzis da senhora Carrar - Brecht
O comportamento sexual do homem - Boal
As hienas - Bráulio Pedroso
Abajur lilás - Plínio Marcos
Delito Carnal - Eid Ribeiro

FONTE: Teatro Brasileiro, panorama do século XX


sábado, 20 de julho de 2013

“Fuenteovejuna”, de Lope de Vega



Livro da semana


Por Rogerio Galindo


Lope de Vega; “monstro da natureza”.

Fuenteovejuna é antes de tudo uma peça sobre política. Tem a ver com o período de Absolutismo do tempo de Lope de Vega, seu autor. Mas tem igualmente a ver com nossos tempos, e com qualquer época em que os seres humanos continuem abusando do poder para tirar proveito dos mais fracos. Esse, afinal, é o tema da peça.
Para criar sua trama, Lope de Vega, o homem que Cervantes chamou de “monstro da natureza”, por escrever centenas de obras, uma depois da outra, foi resgatar um fato histórico ocorrido mais de um século antes, em 1476. A peça é já do início do século 17, provavelmente de 1614.
No fim do século 15, a Espanha acabava de ser unificada pelo casamento dos “reis católicos”, Isabel e Fernando. E o país, em sua formação nacional, enfrentava guerras. Foi numa dessas disputas que um militar chamado Fernán Gómez de Guzmán passou pelo vilarejo de Fuenteovejuna (“fonte das ovelhas”, em português).
A peça narra como ele maltratou os camponeses e os moradores da cidade. Principalmente, queria forçar as moças a fazer sexo com ele. Já no começo de sua participação, insinua que duas das personagens deveriam ir com ele. Elas se recusam. Mais tarde, tenta ficar com a noiva de um camponês, que o ameaça e faz Guzmán desistir do plano.
A coisa vai ficando mais séria e ocorre um estupro. A vítima, uma moradora simples do local, se revolta porque os homens do povoado não fizeram nada o incita o assassinato do militar. É o que eles fazem. Tramam e executam a morte de Guzmán.
O ponto alto da peça ocorre quando as autoridades, incluindo o rei e a rainha, exigem satisfação sobre o que ocorreu. Num lance genial, todo o povoado se recusa a dar nomes de quem executou ou bolou o plano. Quando se faz a pergunta: “Quem matou o comandante?”, todos respondem em uníssono: “Fuenteovejuna”.
Não foi um ou outro, nem um grupo e sim todo o vilarejo que, revoltado com os malfeitos do tirano, decidiu matá-lo. Os reis, ao saber do que o militar havia feito, entendem e perdoam a população. E esse era o ponto final da história: quando é vítima da opressão, o povo tem o direito de reagir, inclusive com a morte do opressor.
Parece incrível que em pleno período de reis absolutos, como o que a Espanha ainda vivia (faltavam quase dois séculos para a Revolução Francesa), Lope de Vega pudesse escrever isso e sair impune. Era, afinal, uma limitação para o poder dos governantes. Mas, por essa época, essa discussão já ia adiantada.
O tema do tiranicídio (o assassinato do tirano) era comum nos tempo de formação do Estado Nacional. E a conclusão normalmente era de que o rei podia ser considerado um tirano em duas situações: se tomasse o poder por meios ilícitos; ou se, chegando ao poder por bons modos, passasse a agir em desacordo com o bom governo, desrespeitando normas mínimas de civilidade.
Pensando bem, é quase o tema do Hamlet, escrito pouco antes, não? O rei matou o irmão, se tornou um tirano por chegar assim ao poder, e deve ser punido. Ainda falando em Shakespeare, é também o tema de Macbeth (só que dessa vez contado ao contrário, tendo o tirano, não o vingador, no centro da cena).
A peça espanhola é mais curta e menos pretensiosa do que as de Shakespeare. São apenas três atos simples, levando direto ao clímax e à moral da história. Mas tudo contado com graça e jeito. Ou com engenho e arte, como se costumava dizer então.

Serviço: O livro pode ser encontrado em toda boa biblioteca. Com sorte, em um sebo. E, na internet, está de graça, em espanhol, aqui.

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Puxadinho do Jader

Veja em espanhol no Youtube



 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Teatro Kabuki



buscado na  Margarida Pino

 
O encanto do Kabuki num belo video.
Io Echo: Eye Father on Nowness.com.

Io Echo: Eye      Father on Nowness.com.


buscado na  Wikipédia

Elementos do kabuki

Hanamichi (lit. "caminho florido") é uma seção extra usada no palco do kabuki. Consiste numa plataforma comprida e elevada, à esquerda do centro, que leva do fundo do teatro, pelo meio da platéia, até o palco principal. Geralmente é usada para entrada e saída de personagens, embora possa também servir para solilóquios e cenas paralelas à ação principal. O hanamichi foi usado pela primeira vez em 1668 no Kawarazakiza, na forma de um palanque de madeira simples, que não era usado na encenação mas que permitia que os atores fossem até a platéia para receber flores. O estilo moderno de hanamichi, às vezes chamado honhanamichi (“caminho das flores principal”), tem dimensões padronizadas e foi concebido originalmente em 1740. Alguns teatros começaram a fazer uso de um hanamichi secundário, no lado direito da platéia, com metade da largura do honhanamichi à esquerda. Embora seja raramente usado para as ações principais de uma peça, muitos dos mais dramáticos ou famosos momentos dos personagens ocorrem durante as entradas ou saídas pelo hanamichi, e uma vez que atravessa a platéia, isso proporciona ao espetador uma experiência mais íntima do que a que normalmente ocorre em outras formas de teatro tradicional. Os palcos e teatros de kabuki tornaram-se mais tecnologicamente sofisticados. Inovações como palco giratório e cortinas, introduzidas no século XVIII, incrementaram bastante a cenografia dos espetáculos de kabuki.
No kabuki, como em alguns outros gêneros de artes cênicas japonesas, as trocas de cenário são feitas no meio da cena, com os atores no palco e as cortinas abertas. Contra-regras correm pelo palco colocando e tirando as peças de cenário; esses contra-regras, conhecidos como kuroko, vestem-se sempre de preto e são tradicionalmente considerados “invisíveis”.
Há três categorias principais de peças kabuki: jidai-mono (peças “históricas” ou anteriores ao período Sengoku) , sewa-mono (“domésticas” ou pós-Sengoku) e shosagoto (peças de dança). São características importantes do kabuki: Os mie e a maquiagem. Os mie são poses pitorescas que o ator sustenta para compor seu personagem. Mie significa "aparência" ou "visível", em japonês. É um momento em que o ator pára congelado numa pose. O propósito é expressar o auge das emoções de um personagem. Os olhos do ator se abrem o máximo possível; se o personagem tiver que parecer agitado ou nervoso o ator chega a ficar zarolho. A maquiagem (ou keshô) é um elemento do estilo facilmente reconhecível, mesmo por quem não está familiarizado com esta forma de arte. O pó-de-arroz é usado para criar a base branca oshiroi. O kumadori acentua ou exagera as linhas faciais para produzir as máscaras dramáticas usadas pelos atores, de expressões sobrenaturais ou animalescas.

LEIA MAIS  NA Wikipédia



sexta-feira, 13 de julho de 2012

MELHORES FRASES SOBRE O TEATRO

buscado na Raquel Crusoé

 



“O prazer é a mais nobre função da atividade teatral.” (Bertolt Brecht)


  "Representar verdadeiramente, significa estar certo, ser lógico, corrente, pensar, lutar, sentir e agir em uníssono com o papel." (Constantin Stanislávski)

"Ir ao teatro é como ir à vida sem nos comprometer." (Carlos Drummond de Andrade)


  "O teatro é um meio muito eficaz de educar o público; mas quem faz teatro educativo encontra-se sempre sem público para poder educar. (Enrique Jardiel Poncela) 
 
 "A arte dramática é a arte educativa por excelência.” (João Caetano - 1º ator brasileiro)
 
  "O teatro, que nada pode para corrigir os costumes, muito pode para mudá-los." (Jean-Jacques Rousseau)
 
  "O teatro não se repete, apesar de ser sempre o mesmo. Cada representação é como estar diante de um novo personagem." (Beatriz Segall)

“A arte dramática é a capacidade de representar a vida do espírito humano, em público e em forma artística.” (Constantin Stanislavski)


 "Nosso ofício, falo de teatro, não nos deixa provas. A posteridade não nos conhecerá. Quando um ator pára o ato teatral, nada fica. A não ser a memória de quem o viu. E mesmo essa memória tem vida curta." (Fernanda Montenegro)
 
 "Existem empresários que enriquecem com o teatro - dizem. Não fizeram teatro, fizeram negócio. Quem faz teatro, seja empresa, seja governo, estará sempre perdendo dinheiro. Mas asseguro-lhe que quem faz teatro não se importa muito com isso." (Cacilda Becker)
 
 "No teatro descobri que existem duas realidades, mas a do palco é muito mais real." (Arthur Miller )
 
 "O teatro não pode desaparecer porque é a única arte em que a humanidade enfrenta à si mesma." (Arthur Miller)
 
 "Aprendam a amar a arte em vocês mesmos, e não vocês mesmos na arte." (Constantin Stanislávski)

"O teatro é o primeiro soro que o homem inventou para se proteger da doença da angústia." (Jean Barrault)


 "A arte, quando boa, é sempre entretenimento." (Bertold Brecht)
 
 "O trabalho de teatro é um trabalho em equipe." (Eugenio Kusnet)
 
 "Não ir ao teatro é como fazer a toilette sem espelho." (Arthur Schopenhauer)

domingo, 24 de junho de 2012

Heleny Guariba

buscado no MST


Quando o golpe de 1964 instaurou a ditadura militar no Brasil, mulheres e homens amargaram nas prisões de delegacias e aparelhos clandestinos de repressão, sofrendo as mais desumanas torturas físicas e psicológicas. Com o poder nas mãos dos militares, muitas destas pessoas foram exiladas e deixaram o país. Outras ficaram, para lutar das mais variadas formas para reconquistar a liberdade e a democracia do Brasil. O ideal era o mesmo, mas as formas de luta variavam: alguns decidiram pegar em armas, através das guerrilhas, outros escolheram a arte. Dentre aqueles que optaram por este instrumento está a diretora teatral Heleny Guariba, que junto com outros nomes desconhecidos pela maioria dos brasileiros, contribuiu para semear o ideal de liberdade e de justiça em um período crítico da história nacional.
Heleny Ferreira Telles Guariba nasceu em Bebedouro, interior de São Paulo, em 1941 e se criou numa família essencialmente feminina. Orfã de pai, aos 2 anos de idade, foi criada pela mãe, pela avó e por uma tia. Filha única e centro das atenções de sua família, a pequena Heleny encantava a todos com seu jeito gentil e falante. Ainda adolescente, começou a dar aulas para crianças e jovens na Escola Dominical da Igreja Metodista Central , em São Paulo, cidade para onde sua família seguiu depois da morte de seu pai. Nesta escola, desenvolveu uma de suas características mais marcantes: saber ensinar e ouvir com interesse e respeito a consideração do outro.
Estudos no exterior
Em 1965, um ano depois de se formar na Faculdade de Filosofia da USP, Heleny parte para a Europa para estudar teatro, política e artes. Na Alemanha, frequentou o teatro do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, o Berlinder Ensemble. Já na França, a diretora fez seu doutorado, além de estágios em diversos teatros do país, como o Theatre de la Cité, de Roger Planchon, também discípulo do teatro idealizado por Brecht.
Na volta ao Brasil, Heleny queria colocar em prárica tudo aquilo que tinha aprendido, visto e sentido na sua temporada no exterior. Para colocar seus ideais revolucionários de transformação política e de resgate da liberdade de expressão em prática, ela usou o teatro como instrumento. Passou a dar aulas na Escola de Artes Dramáticas da USP, onde seu objetivo de popularizá-lo ganhou força entre seus alunos. Assim como Brecht, Heleny queria fazer um teatro operário, que pudesse agir como ferramenta de conscientização política. Assim, foi em Santo André, no ABC paulista, que ela encontrou o campo favorável para isso. Na década de 60, a instalação de diversas fábricas faziam com que a cidade tivesse uma forte concentração de trabalhadoras e trabalhadores, além de uma grande representatividade estudantil, o que tornava o contexto perfeito para o trabalho de Heleny.
Foi então que em 1968, a diretora fundou o grupo Teatro da Cidade, formado em sua grande maioria por operários. A primeira montagem do grupo, Jorge Dandin, o Marido Traído, do dramaturgo francês Moliére, foi vista por mais de 7 mil pessoas. Em 1969, o grupo montou A Ópera dos Três Vintens, de Bertolt Brecht, um dos autores preferidos de Heleny, por causa de sua intensa veia social.
O grupo tinha a alma de Helleny, que através de seu teatro popular buscava a intensificação do envolvimento político dos trabalhadores no contexto social pelo qual o Brasil passava. Mas sua história com o teatro ultrapassou as fronteiras de Santo André. Além das aulas na EAD, Heleny trabalhou com Augusto Boal, dando aulas no seminário de dramaturgia do Teatro de Arena, criado pelo diretor, A diretora também escreveu diversos artigos, publicados em jornais dos anos 60.
Censura dos militares cala a voz de Heleny
Tanto envolvimento político provocou a ira dos militares da ditadura que não toleravam nenhuma iniciativa de transformação no pensamento dos brasileiros. Em março de 1971, Heleny foi presa pelo Dops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social), sendo torturada por dois meses. Foi solta, mas detida novamente em julho do mesmo ano e enviada ao Destacamento de Operações de Informações, no Rio de Janeiro. Testemunhas afirmam que ela sofreu torturas por três dias e que foi assassinada na ''casa da morte'', em Petrópolis, um dos aparelhos clandestinos de repressão da ditadura. Depois disso, Heleny ingressou na extensa lista dos desaparecidos políticos da ditadura militar. A artista deixou dois filhos: João Vicente e Francisco.
Todos que conviveram com ela têm como lembrança a imagem de uma pessoa companheira e sempre pronta para enfrentar situações difíceis. ''De jeito alegre e cativante, pequena, arisca e bonita - beleza que a gente percebe que vem de dentro pra fora, enraizada no espírito ágil que lhe conservava, no corpo, o jeito de menina'', disse Frei Betto sobre Heleny. Uma brava guerreira, que apesar de permanecer no quase anonimato para a grande maioria dos brasileiros deixou sua marca na história recente do Brasil, como um exemplo de fibra, coragem e perseverança. Heleny provou que não importa de que maneira, o importante é lutar por mudanças.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Parabéns a Ariano Suassuna e seus 84 anos

buscado no Bule Voador


Dia 16 de junho, foi o aniversário de Ariano Suassuna, nosso querido dramaturgo, que hoje viaja o Brasil apresentando a riqueza da cultura brasileira com suas Aulas-Espetáculo. O video acima é sua apresentação no Sesc São Paulo em abril de 2011. Abaixo vai um texto que explora as influências de uma de suas peças mais famosas e aproveita pra falar de sua irreverência e autenticidade.

Tradição Popular e Recriação no Auto da Compadecida

 


 
Autor:
Braulio Tavarez

 Reza a lenda que certa vez um crítico teatral abordou Ariano Suassuna e o inquiriu a respeito de alguns episódios do Auto da Compadecida. Disse ele: “Como foi que o senhor teve aquela ideia do gato que defeca dinheiro?” Ariano respondeu: “Eu achei num folheto de cordel”. O crítico: “E a história da bexiga de sangue e da musiquinha que ressuscita a pessoa?” Ariano: “Tirei de outro folheto”. O outro: “E o cachorro que morre e deixa dinheiro para fazer o enterro?” Ariano: “Aquilo é do folheto também”. O sujeito impacientou-se e disse: “Agora danou-se mesmo! Então o que foi que o Senhor escreveu?” E Ariano: “Oxente! Escrevi foi a peça!”
O episódio certamente não aconteceu dessa forma, mas não importa; que sirva este exemplo como ilustração dos comentários que se seguem. A verdade de um episódio assim (que o próprio Ariano nunca conta duas vezes do mesmo modo) não necessita de um registro taquigráfico do diálogo acontecido. É um simples pingue-pongue de idéias que pode ser fielmente reproduzido, sem perda, de dezenas de maneiras diferente.
De fato, alguns episódios do Auto da Compadecida baseiam-se em textos anônimos da tradição popular nordestina. No primeiro ato, veem-se trechos do folheto O dinheiro, de Leandro Gomes de Barros (1865-1918), onde se conta o episódio do cachorro morto cujo dono destina uma some em dinheiro para que seu enterro seja feito em latim, o que dá origem a uma série de quiproquós eclesiásticos. No segundo ato, o episódio do gato que “descome” moedas e o da falsa ressurreição ao som do instrumento mágico são inspirados no romance popular anônimo História do cavalo que defecava dinheiro. E no terceiro ato, o julgamento dos personagens no Céu e a intercessão piedosa de Nossa Senhora, a “Compadecida”, correspondem a outro auto popular anônimo, O castigo da Soberba. Estes trÊs textos-fonte, aliás, são reproduzidos no livro de Leonardo Mota, Violeiros do Norte, cuja primeira edição é de 1925; a versão de O castigo da Soberba foi colhida por Mota junto ao cantador Anselmo Vieira de Sousa (1867-1926).

 

A reação de estranheza do crítico (supondo-se que o episódio de fato ocorreu) deve-se certamente à frustração de uma expectativa, a de que o Autor de um texto teatral deva tirar esse texto inteiro de sua própria cabeça, de sua própria imaginação. Um Autor que se apropria de cenas concebidas por outra pessoa pode parecer, por um tal critério, um sujeito meio desonesto. E se confessa abertamente tê-lo feito, parece, ainda por cima, cínico. Este modo de pensar do crítico não é de todo injustificado, porque se olharmos em torno de nós e virmos a pirataria e a picaretagem que campeiam no mundo das artes e da cultura-de-massas, pensaremos de imediato que é preciso vigiar muito de perto qualquer indivíduo que admita ter-se apossado da criação alheia. Não é isto, entretanto, que ocorre no presente caso.
A Auto da Compadecida, como as demais comédias teatrais de Ariano Suassuna, procura recuperar e reproduzir mecanismos narrativos da comédia medieval e renascentista da Europa e da comédia popular do Nordeste. Um aspecto importantíssimo desse tipo de teatro é o seu caráter tradicional e coletivo, no qual a fidelidade a uma tradição é tão importante quanto a originalidade individual, – ou mais até – e onde o autor não julga que escreve por si só, mas com a colaboração implícita de uma comunidade inteira.
Note-se que Suassuna não pediu emprestadas cenas de outra peça de teatro, mas sim episódios narrados em verso nos romances populares. O episódio é transposto do verso para a prosa, e da narrativa indireta para a encenação direta. O “cavalo que defeca dinheiro” transforma-se num “gato que descome dinheiro”, a rabequinha mágica do romance popular é substituída na peça por uma gaita. O autor da peça apropria-se de episódios já existentes mas não tem com eles a atitude reverente ou respeitosa de autores eruditos que recorrem às “fontes populares” Ele muda o que lhe convém, mantém intacto o que lhe interessa, e parece sentir-se totalmente à vontade com isto.
Ao usar episódios tradicionais, Suassuna adota a mesma atitude apropriativa dos artistas medievais ou nordestinos. A Tradição é um imenso caldeirão de ideias, histórias, imagens, falas, temas e motivos. Todos bebem desse caldo, todos recorrem a ele. Todos trazem a contribuição de seu talento individual, mas cada um vê a si próprio com apenas um a mais na linhagem de pessoas que contam e recontam as mesmas histórias, pintam e repintam as mesmas cenas, cantam e recantam os mesmos versos. Histórias, cenas e versos são sempre os mesmos, por força da Tradição, mas são sempre outros, por força da visão pessoal de cada artista.
Um folheto de cordel e uma peça de teatro têm, além disso, um elemento em comum: são obras de Literatura Oral Que só se transformam em livro por questões de ordem prática: preservação e transporte do texto. Mas um folheto de cordel é feito para ser recitado em voz alta: uma peça é feita para ser encenada por atores. Shakespeare ou José Pacheco podem ser lidos no silêncio de uma sala e dar ao leitor uma experiência recompensadora. Mas não é para este tipo de leitura que tais obras foram escritas, e sim para a transmissão oral, viva, em carne e osso, “som e fúria”.
O gesto de Ariano Suassuna ao teatralizar um texto em verso equivale ao gesto de cordelista ao versar uma história em prosa. O verbo versar é de uso corrente entre os autores de cordel. Trata-se de pegar uma história já existente, seja um livro ou uma narrativa oral (lenda popular, conto de fadas, etc.) e recontá-la em forma de sextilhas. Quando um cordelista versa o Romeu e Julieta de Shakespeare, assina-a como obra sua, assim como Shakespeare assinou como obra sua a própria peça, cujo argumento original – a propósito – não é do bardo inglês. Suassuna cita com frequência em suas aulas-espetáculo o caso desse folheto, em que o poeta popular narra a história como ela se passou, mas nos versos finais faz uma ressalva, dizendo que contou a história daquele jeito para ser fiel a ela, mas que não concorda com o final.
O cordelista, ao versar uma história alheia, faz uma distinção intuitiva entre as peripécias que são narradas e as palavras escolhidas para a narração. Recontar uma história alheia, para o poeta e o dramaturgo popular, é torná-la sua, porque parece existir na cultura popular a noção de que a história, uma vez contada, torna-se patrimônio universal e transfere-se para o domínio público. Autoral, apenas, é a forma textual dada à história por cada um que a reescreveu e reescreverá.
Se isto ocorre com uma narrativa inteira, muito mais frequente é a reutilização de pequenos quadros, de cenas curtas, que podem ser recortadas inteiras de uma obra e coladas em outra sem que o seu sentido se perca. Uma tal sem-cerimônia pode ser vista com restrições na mentalidade autoral que vigora na literatura erudita, na qual a imitação é um defeito, e o plágio, um delito. Mas é um processo de uso generalizado nas artes populares: o circo, o teatro de rua, o cordel, o Romanceiro das línguas latinas, as Baladas de língua inglesa. Fatias inteiras de uma obra são transpostas para outra e isto é considerado um recurso moralmente legítimo e esteticamente enriquecedor.
Os dramaturgos populares têm mentalidade coletiva; gostam de recorrer a um repertório de motivos que compartilham com seu público. Os lazzi (cenas curtas, completas em si mesmas) da Commedia dell’Arte e as routines dos cômicos do teatro de vaudeville ou do cinema mudo norte-americano têm o mesmo DNA dramatúrgico dos episódios da gaitinha mágica, do testamento do cachorro e das moedas escondidas no fiofó do gato. São pequenos blocos de engenhosidade narrativa, capazes de serem encaixados em diferentes contextos – um filme, uma peça, um conto em prosa, um folheto em verso, um esquete de palco, uma história em quadrinhos – sem que nada se parca da eficácia de sua construção ou da universalidade de seu entendimento.
Os peisódios usados por Ariano têm uma mecânica narrativa simples e divertida, prestam-se à sátira social e lidam com imagens fortes, de impacto imediato. Falsa morte e falsa ressurreição; o dinheiro igualado ao excremento; o ambicioso que engole uma história absurda porque a ambição o cega; os “efeitos especiais” tipicamente de palco (a bexiga com o falso sangue); o cachorro que deixa herança igualado ao gato que descome dinheiro; as sentenças de um juiz severo sendo imediatamente diluídas pelo perdão de um juiz benevolente – são temas e motivos recorrentes no fabulário popular. Sua linguagem é ideogrâmica, visual, palpável e exprime-se mais por imagens concretas (como os “rébus”, ou enigmas figurados, das publicações charadísticas) do que por conceitos abstratos.
Incrustados numa estrutura teatral mais ampla e mais encorpada do que a das peças populares, porque se beneficia da identificação do autor com o teatro clássico europeu do Século de Ouro, esses pequenos episódios são como figuras que ilustram um texto, ou como canções já prontas que surgem a certa altura em um musical. Mantêm sua unidade original, mas são revistas noutro contexto, enriquecendo-o e sendo renovadas por ele.
O mesmo processo de apropriação e renovação ocorro com o uso do personagem João Grilo. Ariano já afirmou que ao dar o nome de João Grilo ao protagonista do Auto da Comparecida pensava estar fazendo uma ponte entre o seu teatro e o cordel nordestino, numa homenagem ao herói do romance de cordel de João Martins de Athayde (1877-1959), intitulado As proezas de João Grilo, e “a um vendedor de jornal astucioso que conheci na década de 1950 e que tinha este apelido”. Descobriu depois, através do português José Cardoso Marques, que em Portugal também existia um herói picaresco com este nome.
João Grilo é claramente uma nova encarnação de Pedro Malazarte, talvez o nosso herói espertalhão mais conhecido, e que na Península Ibérica tinha o nome de Pedro Urdemalas. Outro antepassado ilustre seu é Lazarillo de Tormes, o guia de cego que luta para sobreviver no meio da miséria e da violência, sendo forçado a tornar-se sagaz, trapaceiro e por vezes cruel. Também se relaciona com personagens da Commedia dell’Arte europeia, como o Arlequim: espertalhão, cheio de espírito lúdico.
Todos são típicos heróis pregadores-de-peças, e suas vítimas tanto podem ser os ladrões e bandidos como os burgueses ricos e as autoridades. Foram os modelos em que se inspiraram os demais heróis picarescos do cordel: o “Canção de Fogo”, dos folhetos de Leandro Gomes de Barros (1905-1992),e outros. Cada um deles é uma espécie de reencarnação dos anteriores, mas ao dar-lhe um novo norme o autor meio que se apropria dessas características universais e sente-se à vontade para modificar o personagem de acordo com a sua conveniência.
A interferência mais eficaz feita por Ariano no personagem João Grilo foi dar-lhe um companheiro: Chicó, o mentiroso inofensivo. Inspirado numa figura real que Ariano conhecera em Taperoá, Chicó veio trazer para esse personagem ibérico e cordelesco uma terceira pátria literária: o Circo. Juntos, João Grilo e Chicó reproduzem a tradição circense de mostrar um palhaço espertalhão, cheio de recursos, que gosta de se meter em situações arriscadas, e outro palhaço ingênuo, meio covarde, que se deixa influenciar pelo outro e às vezes acaba atrapalhando-o. Os dois tipos, observa Suassuna, são exemplarmente batizados pelo povo com as denominações de O Palhaço e o Besta.
O modo como Ariano Suassuna utiliza nesta peça episódios e personagens de uma tradição antiga, com séculos de existência, dá-nos um bom exemplo de como recorrer a estas fontes. Copiar, mas transformando. Reutilizar, mas dando sangue novo. Na medida do possível, tentar escrever algo tão novo e tão vivo quanto o original; procurar fazer da cópia uma obra que o autor do original pudesse apreciar com prazer e aplaudir com orgulho.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

OS 90 ANOS DE BIBI FERREIRA

buscado no Boilerdo

BIBI DIVA AOS 90

 
  

Em Gota d'água

por ELEONORA DE LUCENA, do Rio


atriz, diretora, cantora e figura histórica do teatro brasileiro, ela fala do prazer de comer um pão com manteiga e diz que o amor é para os jovens


Ela chega de mansinho. Toda de preto e com os indefectíveis óculos escuros. Escolhe a cadeira de linhas retas. Dá uma bebericada no refrigerante servido na taça. Está muito gelado, reclama. O Pão de Açúcar está tão perto que parece invadir as janelas da sala cheia de flores. Um arco-íris rasga a baía de Guanabara.

É fim de tarde, e Bibi

Ferreira não presta atenção nesse cenário que conhece bem. Na próxima sexta, ela completa 90 anos, mas não vai dar festa. “Sabe aquele negócio da madrinha da Bela Adormecida? Pode acontecer de eu ficar cem anos deitada porque não convidei a pessoa certa! Não quero festa.”

Grande dama do teatro brasileiro, ela começa falando bem baixinho, para cuidar dos músculos da garganta. “Minha vida é simples. Acordo e tomo qualquer coisa. Faço o que tenho que fazer e descanso. Por isso, engordo com facilidade. Só como aquilo que engorda. Meu grande problema é o corpo. É uma tragédia shakespeariana.”

Fã de literatura inglesa e de cinema, ela adora o filme “Capote”, de 2005. “Toda a
semana toco a ver. A interpretação de Philip Seymour Hoffman é uma das melhores que já vi, pois usa toda a possibilidade física: é a forma de andar, de olhar, principalmente de falar. É um trabalho  primoroso. Fico olhando esse homem representando e fico estudando, aprendendo.”
RETRAÍDA
Aprendendo aos 90 anos. Foi com 24 dias de vida que Abigail Izquierdo Ferreira subiu ao palco pela primeira vez. Tomava o lugar de uma boneca que se perdera na coxia do espetáculo “Manhãs de Sol”, de Oduvaldo Vianna. Seu pai, o lendário Procópio Ferreira, iniciava a carreira de ator.

Com a mãe, a corista Aida Izquierdo, estreou em Santiago num teatro de revista. Tinha três anos. Aos 14, dançava em óperas no corpo de baile do Theatro Municipal do Rio e compunha música clássica.

Atriz, bailarina, cantora, compositora, diretora. Carismática e talentosa, não parou mais. “Sempre fui retraída. Só não sou assim no palco. Lá, perco a inibição. Nunca fui encaminhada para fazer carreira. Era uma moça como qualquer outra daquela geração. Todas estudavam piano, francês e dança. Minha mãe trabalhava muito para pagar os meus professores, e eu estudava o que fosse possível para a minha mãe ficar feliz.”

E o que é importante para ser um ator? “A primeira coisa é saber se ele tem voz. O microfone colocado hoje nos atores fica muito ruim porque eles perdem o brilho. Nunca trabalhei com microfone. Não tenho necessidade. Deus me deu uma voz muito forte, muito boa. Mas tem também a técnica, a respiração, força no diafragma”, explica.

Sobre exercícios, Bibi conta que faz todos os dias o roteiro da Força Aérea Canadense. O método foi lançado em 1958 no livro “Mantenha-se Fisicamente em Forma”, que vendeu mais de 23 milhões de exemplares no mundo. Nele, o cientista e atleta Bill Orban propunha uma pequena série de exercícios diários, sem equipamentos.

“Aquilo é maravilhoso. Em dez minutinhos, resolve todos os problemas, envolve todos os músculos”, diz Bibi.
CENSURA
A noite vai chegando e a voz da diva está mais forte. Os carros  que chispam no aterro do Flamengo não conseguem abafá-la. Como ela se prepara para entrar em cena? Usa o método Stanislavski?

Bibi não complica. “Tenho uma rotina obrigatória. Gosto de chegar com calma ao teatro para ter mais concentração. Preciso ter uma paz de duas horas dentro do camarim. Eu fico muito triste e nervosa quando estou atrasada.”

No palco, sua personagem mais forte foi a Joana de “Gota d’Água”, peça de 1975, de Chico Buarque e Paulo Pontes –então marido de Bibi. “É o texto mais importante da dramaturgia brasileira. A censura cortou tanto que ficou uma coisa leite com água. Depois, o Paulinho conseguiu trazer de volta determinados cortes.”

Na ditadura, Bibi foi ao general Médici pedir a regulamentação da profissão de artista e um desafogo na censura. “No militarismo, eles não entendiam nada. Como ninguém nunca entende de teatro, a não ser quem pisa no palco”, diz.

Bibi sente falta daquela “fase muito rica da dramaturgia brasileira, com Vianinha, Plínio Marcos, Paulo Pontes. Não tem aparecido uma safra fértil”, reclama.

Musicais da Broadway, comédias, textos clássicos –quase tudo já foi alvo do trabalho de Bibi, que dirigiu e atuou com os monstros do teatro e da música. “De teatro de protesto eu não gostei muito.
Porque o protesto muda de mãos. Hoje, você está a favor do comunismo, amanhã, não. O público é um só. Você tem que agradar”, defende.

Ela conta que aprendeu essa filosofia com o pai. “Ele me dizia que há coisas em que você não pode tocar no teatro: futebol, política e religião.”

Autora de “Bibi Ferreira: a Trajetória Solitária de uma Atriz por Seis Décadas do Teatro Brasileiro”, a jornalista Deolinda Vilhena avalia que “falta ousadia” à atriz. “É a maior atriz que eu já vi em cena.
Diante do seu talento, não consigo entender a opção por um repertório comercial e de divertimento”, declara Deolinda à Serafina.

O texto, tese de mestrado de 2001 na USP, causou a ruptura entre a atriz e a jornalista, que foi assessora de Bibi por 17 anos e é atualmente professora de teatro da Universidade Federal da Bahia.

Segundo Deolinda, o motivo da discórdia foi a citação de críticas desfavoráveis ao pai e à filha da atriz. Hoje há paz entre elas. “Ela é como uma mãe para mim”, diz.
SUPERdoméstica
Intérprete de mulheres fortes, como Edith Piaf e a Joana de “Gota d’Água”, Bibi não quer saber de feminismo. “Acho que a mulher nunca é feliz sem ter uma hora para ficar esperando pelo marido em casa. Sou superdoméstica.”

“A mulher que quer muita liberdade acaba se perdendo. É feito o Noel [Rosa].” E cantarola “Feitio de Oração”: “Quem acha vive se perdendo”.

Bibi fala dos seus cinco casamentos e diz que foram todos muito bons. E, hoje, tem vontade de namorar? “Não! Seria ridículo na minha idade. Tenho minhas vaidades. Depois de uma certa idade, eu não poderia mais inspirar isso num homem. De jeito nenhum. Embora eu tenha todos os dentes, seja desbarrigada. O homem só gosta é da juventude. O amor é para gente jovem. ‘Love is young’. Fora isso, há amizade, compreensão.”

Qual é o seu maior prazer hoje? “Pão francês, se possível com manteiguinha com sal. É a única coisa de que eu gosto para valer. Quase sempre falta aqui em casa e eu dou grandes broncas, fico uma fera.”

A noite já caiu e Bibi concorda que a vista é linda. “Isso aqui é uma dádiva de Deus. É porque eu mereço.” Ficou rica com o teatro? “Não. O que me deu uma base na vida foi a televisão em São Paulo. Ganhava-se bem e tínhamos um percentual dos patrocínios. Foi assim que eu comprei a minha primeira casa, que virou essa.”

Nos anos 1960 e 1970, Bibi atuou na então TV Excelsior em São Paulo. Depois, passou por várias emissoras. É um raro caso de atriz de sucesso que nunca participou de novelas. Recusou todos os convites: “Não dá tempo para mim”. Telespectadora e noveleira, ela sente falta da música na TV. “Antigamente, as TVs tinham as suas orquestras. Dava muita categoria.”

“O teatro pode dar muito dinheiro, a mim nunca deu. Não tenho rendas, tenho que trabalhar. Mas eu gosto de trabalhar. Tenho saúde e amor para isso. Gosto de entrar no palco.”

“Não sou cantora. Sou uma atriz que afina e canta”, diz. Ali mesmo, no cantinho da sala, ela canta trechinhos de “Nossos Momentos”, de Luiz Reis e Haroldo Barbosa, e de “La Vie en Rose”, de Edith Piaf, figura que encarna há décadas.

A sua vida é cor de rosa? “É”, responde.

Planos? “Não tenho planos. Tenho agenda de trabalho. Vou fazer o espetáculo [‘Bibi – Histórias e Canções’, em cartaz no Rio] e talvez gravar um disco para crianças no Natal.”
Opiniões de Bibi
A atriz fala da presidente, de prazeres e de teatro
DILMA E ANA DE HOLlANDA (foto)
“Vieram para nos direcionar, dar bons exemplos. São duas grandes senhoras.”
LITERATURA
“Adoro P.D. James  Não é só um best-seller de suspense, é um clássico. Estou lendo ‘The Private Patient’.”
maior prazer
“Pão francês, se possível com manteiguinha com sal. É a única coisa de que eu gosto para valer.”
bebida
“Tomo um vinho uma vez ou outra, quando vou a algum lugar. E tenho obrigação de ir.”
MUSICAL
“Gostei do ‘Tim Maia’  Deixa de ser bom para ser estupendo.”
R.Serafina
27/05/2012

quarta-feira, 18 de abril de 2012

BALADA DE UM PALHAÇO

buscado no Prezado Cara Pálida


OBSERVAÇÃO


O Ator
 
Por mais que as cruentas e inglórias batalhas do cotidiano tornem um homem duro ou cínico o bastante para fazê-lo indiferente às desgraças e alegrias coletivas, sempre haverá no seu coração, por minúsculo que seja, um recanto suave no qual ele guarda ecos dos sons de algum momento de amor que viveu em sua vida.

Bendito seja quem souber dirigir-se a esse homem que se deixou endurecer, de forma a atingi-lo no pequeno núcleo macio de sua sensibilidade, e por aí despertá-lo, tirá-lo da apatia, essa grotesca forma de autodestruição a que, por desencanto ou medo, se sujeita, e por aí inquietá-lo e comovê-lo para as lutas comuns da libertação.


Os atores têm esse dom. Eles têm o talento de atingir as pessoas nos pontos nos quais não existem defesas. Os atores, eles, e não os diretores e os autores, têm esse dom. Por isso o artista do teatro é o ator.


O público vai ao teatro por causa dos atores. O autor de teatro é bom na medida em que escreve peças que dão margem a grandes interpretações dos atores. Mas, o ator tem que se conscientizar de que é um cristo da humanidade e que seu talento é muito mais uma condenação do que uma dádiva. O ator tem que saber que, para ser um ator de verdade, vai ter que fazer mil e uma renúncias, mil e um sacrifícios. É preciso que o ator tenha muita coragem, muita humildade, e sobretudo um transbordamento de amor fraterno para abdicar da própria personalidade em favor da personalidade de seus personagens, com a única finalidade de fazer a sociedade entender que o ser humano não tem instintos e sensibilidade padronizados, como os hipócritas com seus códigos de ética pretendem.


Eu amo os atores nas suas alucinantes variações de humor, nas suas crises de euforia ou depressão. Amo o ator no desespero de sua insegurança, quando ele, como viajor solitário, sem a bússola da fé ou da ideologia, é obrigado a vagar pelos labirintos de sua mente, procurando no seu mais secreto íntimo afinidades com as distorções de caráter que seu personagem tem. E amo muito mais o ator quando, depois de tantos martírios, surge no palco com segurança, emprestando seu corpo, sua voz, sua alma, sua sensibilidade para expor sem nenhuma reserva toda a fragilidade do ser humano reprimido, violentado. Eu amo o ator que se empresta inteiro para expor para a platéia os aleijões da alma humana, com a única finalidade de que seu público se compreenda, se fortaleça e caminhe no rumo de um mundo melhor, que tem que ser construído pela harmonia e pelo amor. Eu amo os atores que sabem que a única recompensa que podem ter – não é o dinheiro, não são os aplausos - é a esperança de poder rir todos os risos e chorar todos os prantos. Eu amo os atores que sabem que no palco cada palavra e cada gesto são efêmeros e que nada registra nem documenta sua grandeza. Amo os atores e por eles amo o teatro e sei que é por eles que o teatro é eterno e que jamais será superado por qualquer arte que tenha que se valer da técnica mecânica.
(1986)

Fonte: http://www.pliniomarcos.com/