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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Um baiano, Luiz Gama, herói da abolição da escravatura em São Paulo, nas palavras de Afonso Schmidt.


buscado no    Espaço Literário Marcel Proust
 

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O texto sobre Luiz Gama esta na parte III
 
Luiz Gama, um herói da luta abolicionista
Luiz Gama, um herói da luta abolicionista

Luiz Gama nasceu em Salvador, filho um fidalgote português e de Luísa Maheu, africana liberta da nação Nagô, em 1830. Sua mãe, da qual Gama sempre se orgulhava, teve toda a vida envolvida em insurreições de escravos, como a Revolta dos Maleses, em 1835. Em 1837, acusada de participação na Sabinada, ela foi deportada para o Rio de Janeiro e desapareceu.
“Quando Gama ficou crescidinho, o pai tentou vendê-lo ilegalmente como escravo a um comboieiro, dos que andavam pelo Norte, comprando carne humana”. Mas o menino era muito esperto e fugiu. Seu pai, então, levou-o a visitar um navio que estava no porto e enquanto o moleque percorria os porões e conveses, “o português aproveitou e fugiu, apertando no bolso o dinheiro da transação.”.
O navio pertencia a um comboieiro que tinha partes com a polícia e Gama foi transportado como escravo pelo navio até a cidade de Santos, e de lá até a Praça de Campinas, onde foi anunciado no mercado humano um lote de carnes, do qual ele fazia parte, com as palavras de sempre: “rapaziada moça e sadia, de virar e romper”.
A mercadoria ficou exposta, conta-nos Schmidt, na porta da igreja Matriz, num domingo à hora da missa. Os fazendeiros foram chegando, com botas enlameadas, chapéu do Chile e chicote na mão e passavam em revista a “negrada”: faziam avançar os que pareciam melhores, examinavam os dentes como aos cavalos e depois iam discutir com o comboieiro o preço da peça.
“Quando o melhor da leva havia sido comprado, o mercador de negros fez o leilão do refugo. Mas Luiz Gama nem assim foi vendido”. Quando um pretenso arrematador, Francisco Egídio, soube tratar-se de um baiano, persignou-se e disse: “Da Bahia só quero coco e pimenta, terra de negro revoltado, Deus que me livre”! Luiz Gama, então, foi trazido para São Paulo e exposto durante uma manhã inteira na Rua da Imperatriz. Aí o acaso acudiu-o. Um fazendeiro liberal vindo de Minas que procurava não um escravo, mas uma companhia para seu filho, matriculado na Faculdade de Direito, comprou-o.
O sinhozinho gostou de Luiz Gama, alfabetizou-o e dentro em breve eram os dois a estudar Direito. Apesar de não ser admitido na Academia, começou a participar das rodas estudantis, onde brilhou e conquistou grandes amizades. Fizeram-se seus amigos os Conselheiros Carrão e Crispiniano, José Bonifácio, José Maria de Andrade, jurisconsultos que muitas vezes ouviam sua opinião em questões de Direito.
Um dia, Conselheiro Furtado deu-lhe o emprego de amanuense na Polícia. Trabalhou no fórum com Lins de Vasconcelos e Américo de Campos. Foi quando ganhou demandas de centenas de contos de réis, mas nunca guardou um tostão para si, pois empregava todo o dinheiro que lhe pagavam na propaganda abolicionista, quando não comprava diretamente a alforria de negros escravos.
De Luís Gama, disse Raul Pompéia: “… não sei que grandeza admirava naquele advogado, a receber constantemente em casa um mundo de gente faminta de liberdade, uns escravos humildes, esfarrapados, implorando libertação, como quem pede esmola; outros mostrando as mãos inflamadas e sangrentas das pancadas que lhes dera um bárbaro senhor… E Luís Gama os recebia a todos com a sua aspereza afável e atraente e toda essa clientela miserável saía satisfeita, levando este uma consolação, aquele uma promessa, outro a liberdade, alguns um conselho fortificante. E Luís Gama fazia tudo: libertava, consolava, dava conselhos, demandava, sacrificava-se, lutava, exauria-se no próprio ardor, como uma candeia iluminando à custa da própria vida as trevas do desespero daquele povo de infelizes, sem auferir uma sobra de lucro… E, por essa filosofia, empenhava-se de corpo e alma, fazia-se matar pelo bom… Pobre, muito pobre, deixava para os outros tudo o que lhe vinha das mãos de clientes mais abastados.”.
O filho do mineiro Francisco Egídio, aquele que se negara a arrematá-lo no leilão, agora marquês, tornou-se seu amigo inseparável e orgulhava-se da coragem e da dedicação de Luiz Gama. Esteve com o amigo presente, ao lado de Américo de Campos e de outros republicanos, na fundação da loja maçônica “América”, em cujo salão azul e enfeitado com estrelinhas de prata, nasceria de verdade, a campanha abolicionista da Província de São Paulo.
Na década de 1860, Luiz Gama deixou o funcionalismo público e tornou-se jornalista e poeta de renome, ligado aos círculos do Partido Liberal. Fundou, em 1869, o jornal Radical Paulistano, juntamente com Rui Barbosa. Participou da criação do Club Radical e, mais tarde, da criação do Partido Republicano Paulista (1873), ao qual se manteve ligado até à sua morte, em 1882. Por volta de 1880, foi líder da Mocidade Abolicionista e Republicana.
Em determinado momento de sua vida abolicionista Luiz Gama foi acusado de açoitar um escravo fugido. Levado como réu aos tribunais, Gama dispensou defensor e, desconhecendo a acusação forjada da qual era acusado declarou que “os senhores de escravos deveriam TODOS responder por pelo menos um crime: o de roubo! Roubo da liberdade de seu semelhante.” E nesse momento lançou a frase que daria um novo aspecto jurídico à campanha abolicionista: “ Para o coração não há códigos: e, se a piedade humana, a caridade cristã se devem enclausurar no peito de cada um, sem se manifestarem por atos concretos, em verdade vos digo aqui, que afrontando a lei, que todo escravo que assassina o seu senhor pratica um ato de legítima defesa.
O réu foi absolvido por unanimidade. Os circunstantes aclamaram-no e o conduziram em triunfo pelas ruas da capital. À passagem da multidão, negras velhas ajoelhavam-se nas ruas e estendiam os braços para Luiz Gama aos gritos de: liberdade, liberdade!

sábado, 7 de abril de 2012

LUIZ GAMA - O TERROR DOS FAZENDEIROS

buscado no Arretadinho


Luiz Gama: ex-escravo, autodidata, advogado, poeta, maçom, republicano e abolicionista radical.

Carlos Augusto Sant’Anna Guimarães
Pesquisador e coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab/Fundaj)
Raphael Souza Lima
Estagiário do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab/Fundaj)


Meu filho,luiz-gama-276x300.jpg
Dize a tua mãe que a ela cabe o rigoroso dever de conservar-se honesta e honrada; que não se atemorize da extrema pobreza que lego-lhe, porque a miséria é o mais brilhante apanágio da virtude.
Tu evitas a amizade e as relações dos grandes homens; porque eles são como o oceano que aproxima-se das costas para corroer os penedos.
Sê republicano, como o foi o Homem-Cristo. Faze-te artista; crê, porém, que o estudo é o melhor entretenimento, e o livro o melhor amigo.
Faze-te apóstolo do ensino, desde já. Combate com ardor o trono, a indigência e a ignorância. Trabalha por ti e com esforço inquebrantável para que este país em que nascemos, sem rei e sem escravos, se chame Estados Unidos do Brasil.
Sê cristão e filósofo; crê unicamente na autoridade da razão, e não te alies jamais a seita alguma religiosa. Deus revela-se tão somente na razão do homem, não existe em Igreja alguma do mundo.
Há dois livros cuja leitura recomendo-te: a Bíblia Sagrada e a Vida de Jesus por Ernesto Renan.
Trabalha e sê perseverante.
Lembra-te que escrevi estas linhas em momento supremo, sob a ameaça de assassinato. Tem compaixão de teus inimigos, como eu compadeço-me da sorte dos meus.
Teu pai, Luiz Gama. (trechos da Carta de Luiz Gama ao filho Benedito Graccho, 1870).
Em 23 de setembro de 1870, 12 anos antes de sua morte, em São Paulo, Luiz Gama legava como herança para o seu único filho, Benedito Graco Pinto da Gama, conselhos e exemplos de vida de um homem que fez de sua existência na terra uma luta constante e incansável pela abolição da escravidão e pelo fim da monarquia no Brasil. No século XIX, ser negro não era necessariamente sinônimo de ser escravo. Havia africanos livres que vieram para terras brasileiras por conta do comércio transatlântico e aqui viviam, alguns aqui nasciam e permaneciam livres e outros tantos que conseguiram comprar a própria liberdade e até mesmo provar na Justiça que eram livres. Luiz Gama, paradoxalmente, viveu essas duas realidades.

Luiz Gonzaga Pinto da Gama nasceu em Salvador, Bahia, em 21 de julho de 1830, filho de uma negra livre, Luíza Mahin, e de um fidalgo branco de origem portuguesa (cujo nome jamais citou). Gama veio ao mundo na condição de negro livre. Sua mãe, segundo ele mesmo conta, participou da Revolta dos Malês, em 1835, a maior rebelião de escravos do Brasil, e da Sabinada, em 1837, que proclamou a República Bahiense, era uma verdadeira revolucionária. Devido à participação nessas revoltas, Luiza teve que fugir para o Rio de Janeiro, deixando Gama aos cuidados do pai e sem qualquer informação posterior sobre ela. Por um ano, Luiz Gama viveu sob os cuidados do pai, que o vendeu quando contava dez anos de idade, na condição de escravo, segundo consta, para pagar dívidas de jogo. Foi assim que, da noite para o dia, um ser humano livre e dono de si, tornou-se uma “peça”, um escravo. Daí iniciou a trajetória de superação que faria de Luiz Gama um exemplo para negros e brancos na sua luta obstinada pelo fim da escravidão.

Na condição de escravo, Gama fora contrabandeado para o Rio de Janeiro onde foi vendido ao negociante, contrabandista e alferes, Antônio Pereira Cardoso e levado para ser revendido em São Paulo. O fato de ser baiano fazia de Gama um escravo indesejado onde quer que fosse colocado à venda. A história de revoltas de escravos na Bahia dava aos negros vindos de lá o título de revoltosos e insubordinados. Foi assim que, não conseguindo vender a criança e outro escravo também baiano a nenhum fazendeiro no estado de São Paulo, restou a Antônio Cardoso levá-los para a sua própria fazenda. O jovem Luiz aprendeu a trabalhar como copeiro e sapateiro, a lavar e consertar roupas.

Aos dezoito anos de idade, Luiz Gama aprendeu a ler e escrever com a ajuda do jovem Antônio Rodrigues do Prado Júnior, que se hospedava na casa de seu senhor. Nessa idade, Gama conseguiu “secretamente”, segundo ele, as provas de sua liberdade. Foge da casa do seu dono e ingressa na Marinha de Guerra, na qual serviu por 6 anos, alcançando a patente de cabo-de-esquadra. Após ato de insubordinação a um oficial, nas suas palavras, insolente, Gama ficou 39 dias preso, sendo expulso em seguida daquela força. Em 1856, torna-se amanuense  da Secretaria de Polícia da Província de São Paulo. Gama frequentou, por algum tempo, como ouvinte, a Faculdade de Direito de São Paulo, onde sofreu preconceito e repulsa de professores e estudantes, à época todos brancos e quase sempre de origem aristocrática. Sem diploma de bacharel em Direito, torna-se um rábula  e liberta, pela via judicial, mais de 500 escravos do cativeiro. Um feito sem igual na história mundial da advocacia Quando não conseguia libertar um escravo nos tribunais, comprava a alforria com dinheiro arrecadado por ele mesmo através de esmolas, às vezes com a ajuda dos irmãos da Maçonaria ou dos membros do Círculo Operário Italiano.

Poeta, Luiz Gama lança, em 1859, o livro Primeiras Trovas Burlescas, conjunto de poemas líricos e de crítica social e política. A partir da década de 1860, passou a contribuir ativamente em vários jornais da imprensa paulista, entre eles o Diabo coxo(1864-1865) e Cabrião (1866-1865), primeiros periódicos ilustrados de São Paulo, os quais ele ajudou a fundar. Durante sua vida, sempre utilizou da imprensa em prol da causa abolicionista e republicana.

O prestígio de Gama, amealhado por conta das suas sucessivas vitórias nos tribunais na libertação de cativos, muitos escravizados ilegalmente, ultrapassou as fronteiras de São Paulo atraindo escravos de outras províncias. Nesse período, ele ganhou o epíteto “O terror dos fazendeiros”. Junto ao título de libertador vieram as ameaças de morte por parte daqueles que se sentiam incomodados com a ação de Gama. Foram essas ameaças que o levaram a escrever a carta- herança a seu filho em 1870.

Na esfera política, a luta de Gama caracterizou-se pela defesa de uma república brasileira, os “Estados Unidos do Brasil”. Fez parte da Convenção de Itú em que fora criado o Partido Republicano Paulista (PRP). Consciente de que naquele espaço dominado por fazendeiros e senhores de escravos suas ideias abolicionistas não encontrariam apoio, passou a denunciá-los e condená-los de todas as formas. Apesar das decepções com o PRP, Gama continuou fiel às ideias republicanas.

Com o passar dos anos, o vigor mental do revolucionário abolicionista permanecia irretocável, todavia o seu corpo não mais respondia com tanta vontade. Em 1882, o diabetes já dificultava sua locomoção. Na manhã de 24 de agosto daquele mesmo ano, Gama perdeu a fala e, mesmo diante dos esforços de mais de vinte médicos, faleceu naquela mesma tarde, aos 52 anos de idade.

Nunca antes tinha se visto tamanha quantidade de pessoas em um cortejo fúnebre na cidade de São Paulo. As ruas foram enfeitadas como nas mais importantes datas festivas do ano e o comércio cerrou as portas em sinal de luto. Brancos, negros, pobres e ricos, anônimos e figuras ilustres, muitos foram aqueles que acompanharam o féretro de Luiz Gama. Entre paradas e discursos, o povo conduziu o corpo do herói abolicionista por mais de três horas, de sua casa, onde esteve sendo velado, até o Cemitério da Consolação. Sobre o seu caixão, juraram todos manter viva a luta em favor da abolição da escravidão e pelo fim da monarquia.

Luiz Gama legou à causa antiescravagista o Centro Abolicionista, com forte participação de seu amigo Antônio Bento, que tinha como presidente Alcides Lima. Alguns dias antes de sua morte, foi publicado o primeiro jornal do Centro, o Ça Ira, em 19 de agosto de 1882. No jornal, um artigo de Raul Pompéia tinha como subtítulo a frase de Gama: Perante o Direito, é justificável o crime de homicídio perpetrado pelo escravo na pessoa do senhor.

Sob a inspiração e influência de Luiz Gama, seu amigo, o advogado e maçom Antonio Bento de Souza e Castro organizou os Caifazes, movimento radical de libertação de escravos, que organizava fugas coletivas de escravos das fazendas e os encaminhava para o quilombo do Jabaquara, nas cercanias da cidade de Santos.

Luiz Gama, poeta, jornalista e advogado, defensor dos oprimidos, pobre por opção, é o patrono da cadeira nº 15 da Academia Paulista de Letras.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Quais mulheres negras são heroínas e símbolos das lutas anti-racista e anti-racialista do MNS?

*Almir da Silva Lima 

Esta indagação nos ocorreu durante a III Reunião Nacional do Movimento Negro Socialista (MNS) realizado em S.Paulo no dia 10 de maio último quando deparamos com uma grande faixa exaltando cinco heróis negros. Dois brasileiros: Zumbi, o líder máximo da República Livre e Popular de Palmares e o marinheiro João Cândido, o almirante-líder da Revolta das Chibatas. Dois estadunidenses: os reverendos Martim Luther King Junior e Malcolm X, líderes dos direitos civis nos EUA.  E o quinto sul-africano, o líder sindical-socialista Steve Bantu Biko. Este, por sinal o autor da célebre frase 
“Racismo e Capitalismo são duas faces da mesma moeda” 
que é o slogan do MNS.
Uma vez que os cursos de pós-graduação e ou extensão universitária para a capacitação dos professores de 1º e 2º graus encontram-se monopolizados por graduados professores que são defensores do racialismo (a equivocada ideologia da crença em raças humanas). E, em função da reivindicação do MNS de que haja pluralidade didático-pedagógica na aplicação da Lei 10.639/2003 (obrigatoriedade de inclusão nos currículos escolares públicos e privados de 1º e 2º graus da disciplina História, Culturas e Lutas dos negros no continente africano e países da diáspora como o Brasil). Do dicionário biográfico ”Mulheres do Brasil, de 1.500 até a atualidade” publicado no ano 2000 pela Zahar Editora, extraímos a história de três mulheres (heroínas) negras, com tal propósito. 
A 1ª menção é à Escrava Anastácia. Heroína negra e figura mítica que viveu no século XVIII, sua existência real embora controvertida, não deixa dúvida disso. Uma versão conta que ela foi uma escrava-lutadora, líder entre escravos-irmão que pelo fato de ser mineiros e garimpeiros como ela, era obrigado a usar máscaras de ferro para não engolirem e esconderem pepitas no estômago. Outra versão conta que Escrava Anastácia por ter sido muito linda e ter se recusado a se prostituir com um herdeiro da nobreza foi perseguida, torturada e obrigada a usar máscara de flandres, tendo morrido na senzala como mártir.
Injustiçada historicamente, a Escrava Anastácia só foi ser redescoberta já no século XX (1968) quando a igreja do Rosário localizada no centro da cidade do Rio de Janeiro realizou uma exposição alusiva aos 90 anos da chamada Abolição cujo evento contou com um quadro em desenho de Escrava Anastácia, obra do pintor francês Jacques Étienne Victor Arago (1790-1855). A partir desse evento a Escrava Anastácia passou a ser considerada milagreira, contando atualmente com cerca de 28 milhões de fiéis. Para se ter uma idéia da dimensão do mito em que se transformou a heroína negra Escrava Anastácia, o historiador e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o cônego Guilherme Schubert faz questão de negar a existência dela.
A despeito disso, há na avenida Vicente de Carvalho nº 33 no bairro suburbano Vaz Lobo, no município do Rio de Janeiro, o Santuário Escrava Anastácia. Haja vista, nos eventos louvados pelos fiéis são distribuídos santinhos dela com a famosa imagem com a máscara de metal. 
A 2ª menção a uma heroína negra da História do Brasil é à Luísa Mahin, líder da denominada Revolta dos Malês, conforme ficou conhecida a maior rebelião de escravos, entre tantas que ocorreram no estado da Bahia, no século XIX. Há controvérsia sobre naturalidade de Luísa Mahin, isto é, se teria nascido em algum país do continente africano e trazida escravizada para o Brasil. Ou se teria nascido em Salvador (BA), mas sabe-se que ela tornou-se livre por volta de 1912.   
A casa de Luísa Mahin foi, nas 1ªs décadas do século XIX, o quartel-general dos levantes que abalaram a Bahia. Por exemplo, em 1830 mesmo grávida de Luis Gama – filho com um português que se tornou grande poeta e abolicionista - ela articulou a Revolta dos Malês. Este levante ocorreu na noite de 24 para 25 de janeiro de 1835, liderado por escravos africanos de religião muçulmana. Caso o levante fosse vitorioso, Luísa Mahin seria empossada Rainha da Bahia Rebelde. Porém, como ocorreu delação-traidora entre os revoltosos, as forças da repressão perseguiram e castigaram brutalmente os líderes do movimento. Porém, Luísa Mahin conseguiu escapar para o Rio de Janeiro onde na luta pela liberdade de seu povo, teria sido presa e deportada para a África.     
Sobre sua mãe, o grande poeta e abolicionista Luis Gama escreveu “Sou filho natural de negra africana, livre, da nação nagô, de nome Luísa Mahin, pagã, pois, recusou o batismo e a doutrina cristã. Minha mãe era baixa, magra, bonita, tinha a cor preta retinta, sem lustro, dentes alvíssimos como a neve. Altiva, generosa, sofrida e vingativa. Era quitandeira e laboriosa”. Por iniciativa do Coletivo de Mulheres Negras de São Paulo em 09/03/1985 uma das praças do bairro paulistano Cruz das Almas passou a denominar-se Luísa Mahin. 
A 3ª heroína negra é a professora universitária, militante feminista e anti-racista Lélia González (01/02/1935-10/07/1994). A conhecemos em 1974 no Centro de Estudos Afro-asiáticos da Universidade Cândido Mendes, em Ipanema, Rio (RJ).
A saudosa professora universitária Lélia González já iniciou a militância feminista e anti-racista como a chamada intelectual-negra por ser doutora em Antropologia Social, formada em uma universidade de São Paulo. Ela tinha também graduação em História e Filosofia e em Comunicação Social, ambas realizadas no Rio de Janeiro. Com a fundação do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN) em 1975, a convivência de militantes negros e anti-racistas dela com este escrevinhador foi intensa, fraternal e de unidade anti-racista. Em 1982 a nosso convite ela veio à Macaé (RJ) onde proferiu palestra na histórica e abolicionista Sociedade Musical Beneficente Lira dos Conspiradores.
No IPCN enquanto fundadores e militantes anti-racistas participamos das articulações para a realização do I Encontro Nacional de Entidades do Movimento Negro, evento que ocorreu em 1978 na sede-própria daquela entidade carioca. Na oportunidade foi fundado o então MNUCDR-Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial, o atual Movimento Negro Unificado (MNU) do qual ela e nós somos fundadores. Em 1980 participamos da campanha de fundação no Rio de Janeiro do Partido dos Trabalhadores (PT) pelo qual Lélia González concorreu e conquistou a vaga de 1ª suplente de deputado federal, em 1982. Em 1986 ela migrou para o PDT pelo qual, no mesmo ano concorreu a uma cadeira na Assembléia Legislativa, ficando novamente na suplência.
Profícua pesquisadora sobre gênero e conceito étnico-racial, Lélia González fez bem sucedida carreira acadêmico-profissional, conquistando o cargo de diretora do Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio.  Em co-autoria com Carlos Hasenbalg, ela produziu o livro “Festa Populares no Brasil, lugar de negro”, além de duas teses de pós-graduação e diversos artigos para revistas científicas e obras coletivas. Trajando sempre roupas de modelo com cores e estilos africanos, ela que ajudou a fundar o Coletivo de Mulheres Negras N´Zinga e GRANES Quilombo ambos no RJ e o grupo Olodum em Salvador (BA), por falecer prematuramente no dia 10/07/1994 acabou não concluindo uma pesquisa sobre “negros da diáspora”, cunhando o conceito de “amerifricanidade”.  

* Almir da Silva Lima (almirptmacae@yahoo.com.br
jornalista – é membro da coordenação nacional do MNS e militante da corrente intra PT

(Esquerda Marxista).

Buscado no JornalRebate

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Lançada biografia de Luiz Gama, grande líder negro brasileiro




Todo estudante brasileiro tem obrigação de saber quem foi Luiz Gama, grande líder abolicionista. De todos os projetos abolicionistas apresentados no Brasil no século XIX, foi justamente o mais racista e excludente o adotado pelo Estado brasileiro. Luiz Gama lutou pela libertação e inclusão do povo negro em nossa sociedade, caso suas propostas tivessem sido adotadas, hoje em dia certamente teríamos um Brasil diferente, mais humano. O Blog do Cappacete recomenda a leitura da biografia de Luiz Gama, escrita por Luiz Carlos Santos, militante do movimento negro brasileiro.


Luiz Gama, o radical

Luiz Gama não foi apenas abolicionista, foi o mais importante deles. Radical, acusado pela elite de subversivo e até de agente da internacional socialista, dizia, por exemplo, ser ato de legítima defesa um escravo matar o senhor. Este é o retrato traçado pelo jornalista Luiz Carlos dos Santos, no livro "Luiz Gama".
Segundo o jornalista, que também é professor, mestre em Sociologia pela USP e militante do Movimento Negro “o nome de Luiz Gama e a ação política desenvolvida por ele no século XIX são fundamentais para o entendimento da ação negra durante o período escravocrata". "Foi dos primeiros a trabalhar com o conceito de negritude”, acrescenta.

Uma das evidências disso, segundo ele, está no fato da mulher negra ocupar a posição de musa na sua produção poética, o que não é pouca coisa, considerando o fato de que a escravidão negava ao negro a dimensão humana. “Ele nunca teve nenhuma dúvida do lugar pelo qual optou. O de ser negro”, afirma o jornalista.

Líder político

Advogado, jornalista, poeta, membro da Maçonaria e fundador do PRP, Gama morreu em 1.882 tendo libertado por meio de sua ação nos tribunais 500 negros. “Trata-se de uma biografia singular que articula luta com inteligência”, afirma Luiz Carlos.

Na biografia, o pesquisador mostra o menino negro que nasceu livre em Salvador, na Bahia, filho de Luiza Mahin, com um comerciante português, como, após vendido aos 10 anos pelo próprio pai, aprendeu a ler na juventude por conta própria e a trajetória de advogado brilhante até tornar-se símbolo da luta abolicionista e republicana. Resgata também nas 120 páginas, “o agitador incansável das causas negras, perseguido muitas vezes e ameaçado de morte”. “Sua vida é uma forte referência para a nossa história e permite uma releitura da história do Brasil”, acrescenta.

Radical e consequente

Para Luiz Carlos uma das facetas mais importantes da vida de Luiz Gama foi a sua radicalidade, o que hoje poderia ser comparado no século XX com a atitude política assumida por Malcolm X no Movimento de Direitos Civis americanos, ou mesmo a linguagem dura e cortante dos rappers brasileiros, quando falam do genocídio da juventude negra, nos dias de hoje.

Ele trabalhou com as leis vigentes sob o Império para fazer a defesa da liberdade dos negros, sustentando o princípio de que “um negro que mata o seu senhor, o faz em legítima defesa. “Isso no século XIX era altamente subversivo. A elite da época o tinha como subversivo e até agente da internacional socialista”, afirma.

Como advogado (sem formação acadêmica), ele utilizou os conhecimentos da Lei e do Direito para a libertação de cerca de 500 negros.

Reação da elite

A elite escravocrata do Império reagiu com muita veemência e Gama foi muito perseguido e ameaçado. Além de radical, subversivo, agente da internacional socialista”, era chamado pejorativamente de “O Bode”.

Segundo o jornalista, o termo pejorativo poderia estar associado à condição de maçom (chegou a vice-presidente da Loja Maçônica América, hoje Luiz Gama), ou ao fato de que usava um vistoso cavanhaque. “Entretanto, também pode ter relação com a idéia de que negros fedem como bodes, cheiram mal, presente no pensamento racista da época”, afirma.

Um outro dado que ele destaca é que Luiz Gama não ficou numa visão economicista ou radialista da questão negra. Para se contrapor aos ataques, republicano convicto, tornou-se um dos fundadores do Partido Republicano Paulista (PRP) e adquiriu representatividade política, através de artigos nos jornais e na atuação como rábula (advogado sem formação acadêmica). "Ele não separou o social do racial e combateu tanto a escravidão quanto a monarquia", frisa o autor.

Estatuto

Luiz Carlos acredita que se ainda estivesse vivo, pela perspectiva da militância que sempre exerceu, Luiz Gama estaria ao lado dos que não aceitam o acordo SEPPIR/DEM para aprovar no Senado o Estatuto da Igualdade Racial.

“Eu acredito por tudo o que vi da personalidade dele, que estaria próximo dos negros militantes do movimento negro de não aceitar a adesão institucional para esvaziar a presença e a participação negra no país, por meio de políticos escolhidos a dedo para fazer esse papel”, afirma.

Para Luiz Carlos, “no caso do Estatuto, o tempo que levou na tramitação foi estrategicamente pensado para esvaziar o seu conteúdo. Foi apropriado por setores personalistas e individualistas” “Um negro como Luiz Gama dificilmente aceitaria essa situação como estamos aceitando por conta da nossa dispersão e desmobilização", acrescenta.

Ele não tem meias palavras para classificar o processo de votação do Estatuto, recentemente pelo Senado da República. “É uma monstruosidade histórica, uma provocação à população negra brasileira, promovida por pessoas sem qualquer comprometimento com o negro brasileiro. Não está desvinculada das intenções maiores de proprietários que se apropriaram das terras de remanescentes de quilombos. E atende aos interesses dos setores da sociedade brancos, anti-cotas anti-ações afirmativas, como Demétrio Magnolli e Yvone Maggie, porta-vozes dessas posições. A questão racial no Brasil é muito séria é muito profunda, e o que pretendem esses setores é acabar com a presença negra”,

Selo Negro

O livro faz parte da Coleção Retratos do Brasil Negro, coordenado por Vera Lúcia Benedito, mestre e doutora em Sociologia/Estudos Urbanos pela Michigan State University (EUA) e pesquisadora dos movimentos sociais e da diáspora africana no Brasil e no mundo.

Luiz Carlos é também autor do livro O Negro em versos - Antologia da poesia negra brasileira, e fez parte da direção da Sociedade de Intercâmbio Brasil África (Sinba) e foi coordenador do Núcleo de Consciência Negra da USP. Atualmente é consultor de História do Museu Afro Brasil e docente em cursos de formação de professores, nos quais ministra palestras sobre as Leis 10.639 e 11.645 que estabeleceram as disciplinas História da África e da Cultura Afro-Brasileira e Indígena no currículo das escolas brasileiras.



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