domingo, 29 de junho de 2014

A Copa como metáfora e a metáfora da Copa: pela rebelião do valor de uso


buscado no Odiario.inf


por  Mauro Iasi*


 
A mercantilização do futebol ocorre não apenas pela venda do espetáculo desportivo em si mesmo, mas em várias dimensões: no “mercado de jogadores”, na venda dos direitos de imagem, como veículo de propaganda, como empreendimento milionário de empreiteiras, bancos e tantos outros. A velha arte de esfolar várias vezes o mesmo boi. O futebol mercadoria e o seu evento maior – o Campeonato do Mundo – é montado para a realização do lucro das grandes corporações. Se vai haver jogo ou não é um detalhe.

O capital se apropria de tudo, não seria diferente no caso do futebol. O destino daquilo que é mercantilizado é ver seu ser transformado em veículo de valor de troca, forma de expressão do valor, que passa a ser primordial, relativizando seu valor de uso original.
Como coisa de valor, sua vida passa a fluir no sentido da realização do valor e no caso da produção capitalista de mercadorias, de mais valor. Quando era um valor de uso, a realização se dava na fruição, no consumo daquilo que se buscava para realizar o desejo do corpo ou do espírito. No ato de se apropriar das propriedades da coisa para saciar nossa fome ou sede, ao ouvir a melodia que nos acalma a alma ou desperta o corpo. Como mercadoria, a realização se dá no ato da troca, na transformação da coisa em equivalente geral monetário, enquanto o valor de uso subsumido fica ali, relativizado, quando não esquecido.

É por isso que a propaganda seduz para o ato da compra, sem que necessariamente o consumo corresponda ao desejo ou a necessidade. Um comercial de refrigerante transpira gotinhas de coisas geladas, paisagens refrescantes, gente feliz em dias quentes, mas a coisa em si, pode ser um xarope adocicado que vai de dar mais sede e te levar a consumir outra vez o produto… que vai te dar mais sede ainda.
No caso particular do futebol, a mercantilização ocorre não apenas pela venda do espetáculo esportivo em si mesmo, mas em várias dimensões: no “mercado de jogadores”, na venda dos direitos de imagem, como veículo de propaganda, como empreendimento milionário de empreiteiras, bancos e tantos outros. A velha arte de esfolar várias vezes o mesmo boi.
O valor de uso originário fica soterrado sob montanhas de formas mercantis que sobre ele buscam seu quinhão da valorização, muitas vezes fictícia e parasitária. É por isso que muitas vezes depois de realizada a farra do valor de troca, nossos estômagos e espíritos futebolísticos permanecem famintos e sedentos.
No entanto, age sobre a forma mercadoria a maldição do valor de uso. Isto é, mesmo relativizado e subsumido, o valor de uso é incontornável. Não é possível que haja uma mercadoria sem valor de uso – ainda que sob a luz de uma certa racionalidade esquecida ele seja uma “utilidade inútil”. Ninguém vai à padaria comprar cigarro almejando um câncer de traquéia. Mas, só quem já fumou sabe o valor de uso de uma boa baforada.
O valor de uso subsumido (mas incontornável) resiste ali onde não devia, mesmo que na subversiva sensação de ausência: na sede e fome não saciadas, na pobreza persistente no país que dizia tê-la abolida no marketing político, na desigualdade da sociedade da igualdade, na falta do sinal na sociedade do acesso total à comunicação 4G… em noventa minutos de… nada.
O futebol mercadoria e seu evento maior – a Copa – é montado para a realização do lucro das grandes corporações. Esta Copa já aconteceu e a FIFA S/A, a maior das corporações, já abocanhou seus lucros, assim como as empreiteiras, os bancos, as empresas publicitárias, os empresários que escalam jogadores no lugar de técnicos, já contabilizam seus lucros. Se vai ter jogo ou não é um detalhe.
Mas esta montanha de valor de troca tem que encontrar um valor de uso sob o qual se agarrar. Assim como a abstração do espírito precisa do corpo, o exu precisa do cavalo. Onze pessoas de cada lado e um apito do árbitro, desperta o esporte e os garotos propaganda se esquecem, ou deveriam esquecer, de seus contratos, das bugigangas que vendem, e a adrenalina comanda os corpos no busca da bola, evitar o adversários, encontrar o caminho da meta.
Cérebro, nervos, músculos… uma coisa chamada ser humano, que já foi um sonho, que já foi sacrifício, que foi entrega e dor, que quer ser conquista, emerge dali de onde foi soterrado pela mercadoria. Um ser composto, uma equipe, um time, se funde com milhares de pessoas que se desviam da bola, tencionam seu músculo antes do chute no exato instante que o jogador vai chutar a bola e em uníssono gritam, abraçam estranhos, choram…
Marx em sua monumental obra se refere a uma ciência que se chamaria “merceologia”, que teria a tarefa de listar todas as formas possíveis de mercadoria. Não sei se existe essa que descrevemos, não sei que valor de uso é esse que consiste o ser do futebol. Posso apenas falar como viciado desta substância. Ela leva um menino de seis ou sete anos a colecionar botões com times de futebol para imitar o jogo sobre uma mesa. Em estágios mais sérios de contágio, o moço passa a organizar campeonatos e a registrá-los em livros. Grita, sozinho ou com amigos, em certames disputadíssimos. Chega até a guardar os times de botão – inclusive as caixas de fósforos encapadas com fita isolante, que serviam de goleiros –, e os registros de anos de campeonato para tentar infectar seus filhos.
Quanto mais amo o futebol, mais odeio o capitalismo.
A Copa deles já ocorreu. Foi contra nós e eles venceram. Alguns desavisados ou mal intencionados festejam. Mas está em curso uma vingança, uma rebelião. Talvez várias. Uma nas ruas, onde exercemos o sagrado direito de não sermos tratados como imbecis (alguns, é verdade, se orgulham em ser imbecis e não foram às ruas – é um direito deles). Ela continua e espero que um dia possamos vencer. Mas existe outra rebelião. Neste tempo em que muita coisa anda despertando, acredito que podemos estar vendo o despertar de um velho e tão maltratado conhecido: o futebol.
Você pode até tentar produzir futebol em série, futebol fordista, ou como disse em seu maravilhoso texto, nosso querido Pasolini, o “futebol prosa”. Mas o “futebol poesia”, resiste, surpreende, desperta. Monarquias futebolísticas (e infelizmente algumas reais) eliminadas e zebras pastando alegremente.
Enquanto alguns correm para abraçar o valor de troca, a forma fetichizada e desumana, prefiro beijar a face do valor de uso que renasce. É a rebelião do valor de uso… preparem-se, pode não ser só no futebol.

*Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comité Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio.
Fonte: http://blogdaboitempo.com.br/2014/06/25/a-copa-como-metafora-e-a-metafora-da-copa-pela-rebeliao-do-valor-de-uso/


sábado, 28 de junho de 2014

O que faz a Icann?


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ICANN-domains
No coração da internet, corporação responsável para liberar solicitações de novos endereços, necessita de autorização do Departamento de Comércio norte-americano para trabalhar


Por Thiago Domenici
A Icann tem muitas funções e coordena componentes técnicos da internet. É seu papel controlar o uso de nomes de domínios – as terminações finais no endereço de um site, como o “.com” –, além de estabelecer os parâmetros técnicos que permitem que um computador converse com outro em qualquer lugar do planeta. Ou seja, o acesso de qualquer máquina a qualquer página se deve à existência de um sistema central que compreende o endereço da página como algo único. Sem essa centralização, a internet seria caótica, com mais de uma página tendo endereço idêntico. Por isso, atribuir e conceder os chamados top-leveldomain (TLD, domínios de topo da internet, que também podem aparecer como gTLD) é uma das atribuições da Icann, que ainda centraliza as informações de todos os “servidores-raiz” da rede.
Um domínio de topo é identificável pelo que vem após o “ponto” nos endereços. Por exemplo: “www.google.com” está no domínio de topo “.com”. O que vem antes do ponto seria equivalente, num endereço físico, ao número de uma casa, e o que vem após, à rua em que ela se localiza. Para atribuir os endereços referentes aos casos “.com”, “.net”, “.name”, “.tv” e “.cc”, a Icann tem um contrato com a empresa americana de segurança de redes VeriSign, atualmente a responsável por essas terminações.
Cada país possui um gTLD específico, chamado de ccTLD — “cc” corresponde ao “código de país”. É o caso, por exemplo, do “.br” brasileiro. Assim como os gTLD comuns, os ccTLDs respondem a diferentes entidades que facilitam a localização dos endereços cadastrados. O “.br”, por exemplo, é de responsabilidade do “registro.br”, um departamento do NIC.br.
Há também alguns gTLDs mantidos por instituições privadas ou não, que não são geridos pela Icann, como o “.edu” – controlado pelo instituto Educause – e o “.gov” – controlado pelo governo dos EUA. No ano passado, a Icann fez uma expansão dos gTLDs, elevando os 22 gTLD habituais para 1,4 mil possibilidades, alguns curiosos, como “.pink”, “.luxury”, “.guitars”, “.tatoo” e “.sexy”.
A corporação possui ainda solicitações pendentes, como “.google”, “.android” e “.youtube”. Outras companhias de tecnologia também fizeram pedidos, mas ainda não foram atendidas. A Apple quer “.apple”, e a Microsoft, “.microsoft”, “.skype” e “.bing”. A Amazon queria registrar o endereço “.amazon”, mas o conselho da Icann se manifestou contra a empresa de comércio eletrônico, porque a expressão representa uma área geográfica, a Amazônia. Governos de países da região amazônica, como Brasil e Peru, fizeram pressão para que a autorização não saísse.

No mês passado foi divulgado que as Organizações Globo são a primeira entidade brasileira a obter um dos novos gTLDs, cuja extensão será “.globo”. O custo de uma terminação personalizada não sai barato. O Icann cobra, em média, 185 mil dólares só para analisar um pedido, mas os custos totais, incluindo exigências técnicas e jurídicas, chegam a 700 mil dólares. A manutenção do domínio pode chegar a 150 mil dólares anuais.
A Icann também coordena o Sistema de nomes de Domínio (DNS, na sigla em inglês). Para acessar, por exemplo, www.retratodobrasil.com.br, existe uma central que identifica esse domínio e o traduz para o endereço IP correto – uma sequência de números única, que mostra aos computadores o local exato em que eles devem buscar os dados para a navegação. Cada servidor possui um endereço de IP único. Logo, cada domínio leva a um IP específico. Nesse trato, a Icann basicamente faz o gerenciamento dessas traduções – dos nomes para os endereços numéricos. Por isso, os sites precisam estar armazenados em servidores registrados nas entidades que administram os gTLDs, para que seus domínios sejam compreendidos pelo Icann.
Em relação aos “servidores-raiz” do sistema, que funcionam como um índice principal dos livros de endereço da internet, das 13 máquinas principais existentes em todo o mundo, dez estão nos EUA – grande parte controlada por agências governamentais americanas –, duas na Europa e outra no Japão. No entanto, existem centenas de “máquinas-espelho” em outros países, inclusive no Brasil, que armazenam a mesma informação das principais e podem substituí-las a qualquer momento, o que facilita a comunicação e a operacionalidade. Como disse um dos pioneiros da internet, Jon Postel, “os servidores-raiz sabem que procuramos algo pelo nome e o traduzem para um endereço de IP”. Pelo contrato do governo americano com a Icann, mudanças nas listas da raiz só podem ser feitas com autorização do Departamento de Comércio.