terça-feira, 12 de março de 2013

A história de uma morte sem explicação. Há 35 anos, Alexandre Vannucchi Leme morria em uma cela da repressão



buscado no IHU

 

Alguém telefonou para a família Vannucchi, faz 35 anos, e disse: "O Lê tá preso em São Paulo." A reportagem é de Fausto Macedo e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 16-03-2008.
Cinco dias depois, uma sexta-feira, 23 de março de 1973, os jornais chegaram às bancas com a informação, apenas uma nota, sobre audacioso terrorista que morreu atropelado por um caminhão quando tentava escapar de um cerco policial no Brás.
Alexandre Vannucchi Leme, que tinha 22 anos e hoje teria 57, foi alvo de célebre farsa da repressão, que chocou a Igreja e desencadeou reação dos estudantes contra o regime dos generais.
Ele fazia o quarto ano de Geologia da Universidade de São Paulo (USP) quando os encapuzados da Operação Bandeirante (Oban) - organização paramilitar que ganhou as ruas a partir de 1969 - o capturaram, na tarde do dia 16 de março daquele ano, sob suspeita de integrar a cúpula armada da Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella.
Morreu em 17 de março, surrado até perder o fôlego e os sentidos, sangrando profusamente no chão, relataram sobreviventes que com ele dividiram os porões do DOI-Codi, e por isso a Justiça e a União reconheceram o crime e mandaram indenizar a família.
A reparação veio em dinheiro, muito depois, em 1997 (governo Fernando Henrique Cardoso), mas os Vannucchi até hoje não receberam explicação para o encarceramento e a morte do filho.
José de Oliveira Leme, de 86 anos, e Egle Maria Vannucchi Leme, 82, pais de Alexandre, são professores aposentados. Ele tinha 51 anos e ela 47 quando perderam o filho e a paz.
Ainda o chamam de Lê e moram na mesma casa em que Alexandre e os cinco irmãos, mais novos, foram criados, à Rua Amazonas, Sorocaba, a 100 quilômetros de São Paulo.
É uma casa simples e antiga, mas espaçosa e agradável, construída quando a rua era de terra batida e a família tinha uma DKW Vemaguete à porta.
No quarto que foi de Lê, e também no sótão, seus pais preservam objetos, fotografias em preto e branco e outras lembranças dele - a cama e o guarda-roupas de um marrom escuro, o casaco de lã xadrez pendurado no cabide e protegido em plástico, a mesinha de canto envernizada onde fazia as lições, caixotes com pedras minerais que trazia de suas incursões à siderúrgica Ipanema, e o disco de Ravi Shankar, o músico indiano que admirava.
Em 1969, na Semana da Pátria do AI-5, ele tomou a decisão de estudar em São Paulo. Fez três meses do cursinho Equipe e passou em primeiro lugar no vestibular da Geologia, que começou a fazer ano seguinte. Míope, por isso os óculos de aro preto, era ávido leitor. "Lia compulsivamente, ele tinha um desejo maluco de aprender", conta o pai.

MINHOCA
Morou com o tio Luís Leme em um apartamento na Teodoro Sampaio, em Pinheiros, depois acomodou-se em uma república ali perto com outros quatro universitários que o chamavam de Minhoca - por gostar muito de mexer com terra e ser magrinho.
Vivia da mesada dos pais e de uns honorários como professor particular - em Sorocaba, onde nasceu, fez o curso normal, que o habilitou para o magistério.
Jamais participou à família, nem mesmo aos amigos mais próximos, sobre o engajamento na luta armada que os militares imputaram a ele e por isso o rotularam de subversivo, quadro de alto escalão do braço estudantil da ALN.
A cada duas semanas visitava a casa de Sorocaba, que era para ele um retiro, e ali nunca disse nada sobre a vida clandestina, nem nunca lhe perguntaram, até porque os pais o tinham na conta do estudante aplicado porque tinha sido assim desde sempre.
Chegava sábado, ia no domingo. Gostava de pingue-pongue, que jogava em uma mesa tosca no piso inferior da casa. "Era o ambiente do Lê", lembra o pai.
Nas tardes de bom tempo, descia duas quadras com os colegas da Vila Santa Terezinha e no campinho sem grama batia bola até o sol se pôr.
O futebol era uma paixão sua, o Corinthians o time do coração. Aquele campinho hoje é a Praça Alexandre Vannucchi Leme, de quatro árvores pequenas e uma placa de bronze em sua homenagem.

AVISO
Então, naquela segunda-feira, 19 de março, às 10h30, o telefone tocou. José Augusto, irmão mais novo, ouviu o recado de alguém que não disse quem era e avisou sobre a prisão de Alexandre, que já estava morto havia dois dias.
A família foi averiguar. O pai de Alexandre não dirigia na estrada, por isso tomou um ônibus da Viação Cometa até São Paulo e deu início a uma sofrida jornada nos endereços da repressão.
Foi ao Dops e ao DOI-Codi, o Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna do Exército. Negaram a ele que o rapaz estivesse por lá.
Na quinta à noite, 22, o pai retornou a Sorocaba sem uma única informação sobre o filho.
Planejava retomar as buscas no dia seguinte. Egle até preparou a mala com alguns pertences para o filho, a escova de dentes, uma muda de roupa, o pijama. "A gente tinha esperança de encontrar o menino com vida em alguma prisão", ela relembra, agarrada a uma grande gravura - o rosto do filho desenhado em crayon pelo engenheiro e amigo Mário Mattos.
Na agência da Cometa havia uma banca de jornais e revistas. Antes do embarque, manhã de 23, José leu a notícia. "Alexandre Vannucchi Leme, estudante, preso dia 16 por ser membro ativo da ALN, ao ser levado para um encontro com outro subversivo tentou fugir e foi atropelado."
O pai do jovem Alexandre voltou ao Dops, aquela construção centenária de tijolos vermelhos no bairro da Luz.
No segundo andar, em uma sala de janelões altos e de fundos, recebeu-o o homem encorpado, de olhos verdes e mal encarado, que a história colocou no banco dos réus como o senhor dos porões. Era o delegado Sérgio Fernandes Paranhos Fleury, mas o pai aflito não se intimidou.
"Por que vocês mataram o meu filho?", questionou.
"Aqui matamos bandido, não temos nada com esse caso do seu filho", respondeu Fleury, segundo o relato de José.
"Não acredito em nada do que o senhor está falando", retrucou o professor, que partiu para uma segunda busca, a do cadáver do filho.
Alexandre jazia em cova rasa do Cemitério de Perus, destino dos indigentes e dos sem-identidade. O jovem não era indigente e tinha identidade, mas os militares depositaram seu corpo ali, enrolado em saco preto emborrachado. 

segunda-feira, 11 de março de 2013

EUA - A nefasta ingerência americana na América Latina

 

buscado no Blog De Um Sem Mídia






Carlos Frederico Alverga

Escrevo esse comentário sob o impacto de ter visto o documentário do cineasta australiano John Pilger, “A guerra na democracia”. O filme denuncia a imensa e nefasta lista de intervenções dos Estados Unidos na política da maior parte dos países latino americanos.


Os exemplos são incontáveis: Guatemala 54; Brasil 64; Chile 73; Nicarágua 78/79; El Salvador no Governo Reagan (primeiro mandato), entre 80 e 84 etc. Mas o interessante é que Pilger baseia o filme nas relativamente recentes reações políticas ocorridas em países latino- americanos contra as políticas econômicas ditadas pelo FMI, pelo Banco Mundial(este, repartição do Governo americano), pelo Consenso de Washington e pelos Estados Unidos, todas orientadas pelo neoliberalismo e pelo dogma de que o Estado não deve regular a economia capitalista e que deve sempre prevalecer o livre mercado.

O diretor australiano destaca os exemplos da reação popular na Venezuela, em 2002, quando houve o golpe contra Chávez, com participação direta da CIA, e na Bolívia, quando, reagindo contra um massacre de camponeses, o povo indígena depôs o presidente pró EUA e depois elegeu Evo Morales. (Um outro excelente filme sobre o povo depondo Presidentes é o “Memórias do Saqueio”, do diretor e deputado argentino Fernando “Pino” Solanas).

O aspecto que achei interessante no documentário foi o enfoque dado pelo diretor australiano no sentido de que esses movimentos não foram eventos isolados, mas consistiram numa reação quase que deliberada contra os efeitos deletérios do neoliberalismo na América Latina. Nesse movimento, pode-se incluir as duas eleições de Lula no Brasil e as eleições de Rafael Correa no Equador e de Olanta Humala no Peru.

AS MISSIONES DE CHÁVEZ

No caso da Venezuela, apesar do déficit democrático decorrente de um predomínio do Poder Executivo sobre o Legislativo e, principalmente, o Judiciário, houve fatos positivos e ganhos efetivos para a população de baixa renda da Venezuela, o que foi causado pelo fato meritório e louvável de Chávez ter usado o dinheiro arrecadado com a exportação do petróleo pela empresa estatal PDVSA para financiar políticas sociais, principalmente as denominadas Missiones, que reverteram em benefícios inegáveis para a população pobre venezuelana.

O documentário representa o “basta” que os latinos-americanos deram ao receituário econômico neoliberal de privatização indiscriminada, desregulamentação financeira (que redundou na crise financeira depois econômica global de 2008) e trabalhista, elegendo governos de esquerda no Brasil, na Argentina, na Bolívia, no Uruguai, no Equador, no Peru, na Nicarágua, o que representa um movimento generalizado de reação contra os malefícios econômicos provocados nesses países pelo neoliberalismo econômico.
O filme também aborda com destaque a ditadura militar de Pinochet no Chile, que a mídia amestrada considera o modelo econômico a ser seguido, no qual a Previdência Social foi privatizada, salientando as enormes desigualdades e iniquidades sociais que caracterizam o panorama social e econômico chileno.