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domingo, 18 de maio de 2014

A VOLTA DO IMPÉRIO DO MEIO

buscado no Gilson Sampaio 

 

por Mauro Santayana

(Hoje em Dia) - Técnicos do Banco Mundial anunciaram, em estudo divulgado na semana passada, que a China acaba de ultrapassar os EUA em poder paritário de compra, como a maior economia do mundo.
Os chineses costumam dizer que “não interessa a que velocidade você caminha, mas sim, para onde está andando”.
Para o Brasil, quinto maior país e sétima economia do mundo, a inevitável ascensão chinesa, agora voltada para ultrapassar os EUA em PIB nominal, e, um dia, alcançá-lo em tecnologia, defesa, e, com menor desigualdade, em renda, traz inúmeras lições.
A mais importante delas é até onde se pode chegar com um projeto de país baseado no nacionalismo – e não no proverbial entreguismo vigente em nosso país nos últimos 20 anos.
O Estado chinês não financia capitais externos, a não ser que a eles se associe majoritariamente. Ciente da importância de seu mercado interno - convenientemente fechado por muitos anos - ele não empresta dinheiro público para que marcas de automóveis estrangeiras se instalem no país. No lugar disso, compra participação em suas matrizes. E faz isso em todos os setores da atividade econômica.
Seu bem sucedido projeto de desenvolvimento está baseado na presença – serena e incontestável - do estado como proprietário de meios de produção e elemento indutor na economia, em parceria com capitais locais e o capital estrangeiro, que tem que se contentar com um papel secundário no processo, a não ser que queira ficar de fora de um dos maiores mercados do mundo.
Os chineses sabem que de nada adianta industrializar o país e modernizar a economia, se os lucros voarem, todos os anos, para o exterior, como as andorinhas. Afinal, países não são poderosos apenas pelo que produzem, mas também pelo que consomem. Ao ultrapassar os Estados Unidos como o maior mercado do mundo, embora ainda não seja o maior importador, a China dá gigantesco passo rumo ao futuro.
Nos últimos quatro mil anos, a maior parte do tempo, os chineses estiveram à frente da maior economia. A diferença é que - fechados dentro de si mesmos - seus dirigentes encaravam o resto do planeta como bárbaros e sem o refinamento e a educação de sua cultura. Coo nações  interessadas em invadir e destruir seu império, como o “ocidente” fez tão logo pôde, implacável e solerte, em defesa, entre outras causas edificantes, do tráfico de drogas pela Coroa Britânica, que deu origem às Guerras do Ópio.
A diferença entre o Império do Meio de antes e o Império do Meio de hoje, é que a Revolução Maoísta abriu a porta para transformar os camponeses em operários, e, até mesmo, em milionários e empreendedores. Além de que o espaço natural para seus produtos e negociantes, estava, antes, quase sempre, cercado pelas sinuosas curvas da Grande Muralha, enquanto, agora, os limites da influência da Nova China avançam para se transformar, cada vez mais, nos próprios limites do mundo.


sexta-feira, 16 de maio de 2014

O Brasil e os mercenários da Blackwater

buscado no Gilson Sampaio 

 

Via Jornal do Brasil

Mauro Santayana
A Folha de S.Paulo revelou, ontem, que 22 agentes e policiais militares estiveram, por vários dias, em treinamento, para atividades “antiterroristas”. O curso foi ministrado pela Blackwater, hoje Academi, uma organização “terceirizada” de mercenários, que é conhecida, justamente, por ter auxiliado os Estados Unidos, em vários países do mundo, em atividades de terrorismo de Estado.
Ora, nossos agentes e soldados não têm absolutamente nada a aprender com os EUA a propósito da “luta contra o terror”. Primeiro, porque não possuímos — como eles, que a criaram, interessadamente — uma doutrina “antiterrorista”, e também  porque não temos por que adotar uma no futuro. Nem consideramos como terroristas os povos e grupos que os norte-americanos acusam de terrorismo, como os iranianos ou os palestinos.
O Brasil democrático — é duro ter que lembrar isso todo o tempo — não invade nem rouba territórios alheios, não apoia golpes em terceiros países, nem possui inimigos no mundo. A não ser, claro, aqueles — como é o caso justamente dos EUA — que querem voltar aos velhos tempos em que tinham quase que total domínio sobre o nosso destino. E que para isso ficam inventando histórias da carochinha para enganar o bando — sempre disponível — de néscios embasbacados, ao longo de anos, pelos seminários de “segurança” estilo Escola das Américas; tapinhas, nas costas, dos adidos militares “ocidentais”; e pelas séries policiais de TV e os filmes de espionagem norte-americanos.
É incompreensível, para não dizer inaceitável — mesmo considerando-se toda a pressão advinda da oposição e da própria administração pública — que um governo que se diz nacionalista e de “ centro-esquerda” aceite “ajuda”, em treinamento, de uma potência hegemônica estrangeira.
E, menos ainda, que forças brasileiras de segurança sejam “adestradas” por uma quadrilha de mercenários, pertencentes a uma “empresa” conhecida pela prática do assassinato e da tortura em países como o Iraque, em conflito, no qual, o Brasil esteve, desde o início, radicalmente contra a posição norte-americana.
Afinal — mesmo que justificável fosse esse tipo de “treinamento” — a Blackwater é mais conhecida por sua estupidez e trapalhadas do que por sua eventual competência em uma área em que se costuma valorizar mais a inteligência que a brutalidade e o gatilho. Ela é apenas uma unidade de “seguranças”, e não uma tropa de elite.  

O Brasil  não invade nem rouba terras alheias, não apoia golpes em terceiros países, nem possui inimigos

Não se conhece uma única operação em que a Blackwater tenha detido algum importante “terrorista”, como são chamados os que se insurgem, normalmente em seu próprio solo, contra a Otan e os Estados Unidos.Mas seus homens são sobejamente conhecidos por atirar em pessoas inocentes e por outras situações que não exigem nenhum tipo de coragem pessoal. Entre elas, ficou famosa uma simples missão de proteção de um comboio que levava pessoal do Departamento de Estado para uma reunião com funcionários da Agência de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos, no Iraque, no dia 16 de setembro de 2007.
A incompetência dos homens da Blackwater Personal Security Detail transformou uma simples missão de escolta em um tiroteio descontrolado, e não justificado, contra uma multidão desarmada de civis iraquianos, que deixou um saldo de 17 mortos e dezenas de feridos, na Praça Nisour, em Bagdá.
Entre outras falhas de segurança e de autocontrole e disciplina, um dos assassinos da empresa continuou atirando nos civis mesmo depois de o fogo ter sido suspenso, e só deixou de disparar quando um “colega” se aproximou e, apontando a arma para sua cabeça, ameaçou abatê-lo, se continuasse a fazê-lo.
O massacre indignou o governo e a população iraquiana, e o episódio foi determinante para a posterior saída das tropas norte-americanas, e da própria Blackwater, do país.
Pressionado, o Departamento de Estado foi obrigado — só então — a baixar uma lei colocando sob a jurisdição dos tribunais norte-americanos crimes passíveis de punição cometidos por mercenários de empresas “terceirizadas”, em território estrangeiro; uma investigação da Câmara dos Deputados dos EUA determinou que os homens da Blackwater estavam envolvidos em vários episódios de “uso excessivo de força”, com mortes, no Iraque, e que em 80% dos casos disparavam sem ter sido previamente atacados.
O deputado norte-americano Henry Waxman declarou, após pesquisa, que a controvérsia sobre a Blackwater era uma infeliz demonstração dos “perigos do relaxamento excessivo”, na contratação de seguranças privados pelo sistema de defesa dos Estados Unidos.
No mesmo ano, a ONU divulgou um estudo, declarando que a contratação de empresas privadas como a Blackwater não passa de nova forma de encobrir “atividades mercenárias”, o que é claramente  ilegal sob as leis internacionais.
Os EUA — que se apresentam como os paladinos da defesa da Lei e da Ordem — não são signatários da Convenção das Nações Unidas de 1989, que proíbe o uso de mercenários. Também não aderiram ao protocolo adicional de 1977 à Convenção de Genebra, que classifica os mercenários como civis “que participam diretamente de combates, com o intuito de ganhos privados”.
Para o governo brasileiro, o episódio do treinamento de forças de segurança nacionais por uma empresa ilegal, aos olhos da legislação internacional, sediada nos Estados Unidos, é uma vergonha.
Primeiro, porque, se o governo tinha conhecimento disso no mais alto escalão, sabia do papelão que estava fazendo junto a parte da opinião pública, e a parceiros do Brics e da América do Sul. Em segundo lugar, porque se a decisão foi tomada de forma independente pela “Secretaria de Segurança para Grandes Eventos” é preciso reforçar, por lei, o conceito, de que a aceitação de “ajuda” de terceiros países para treinamento de policiais brasileiros de qualquer escalão ou organização, é assunto de segurança nacional e deve ser de  exclusiva atribuição da Presidência da República, ouvida a Comissão de Relações Externas, no Congresso.
Não é preciso ser expert para saber que sob o manto desses programas de “cooperação”, os Estados Unidos não buscam nada mais do que cooptar — como fizeram no passado — técnica e ideologicamente nossos agentes e oficiais, para a defesa de seus interesses e de sua visão de mundo. Com a esperança, até, de obter apoio ou facilitação, eventualmente, para futuras ações de espionagem, em território brasileiro.
Para efeito de comparação, o que não estaria ocorrendo, se, por decisão de uma comissão qualquer — sem eventual conhecimento do Itamaraty e da Presidência da República — no lugar de ir para Moyock, na Carolina do Norte, esse pessoal tivesse viajado para um centro de treinamento em Cuba, ou na Rússia?


quinta-feira, 15 de maio de 2014

A credibilidade dos EUA, da OTAN e da UE depende do desfecho político da Ucrânia e da Líbia


buscado no Correio da Cidadania



por Achille Lollo, de Roma para o Correio da Cidadania    
Os principais cientistas políticos “independentes” admitem que no último semestre os fenômenos de crises políticas voltaram com extrema intensidade em alguns países do Oriente Médio (Afeganistão, Iraque, Palestina, Egito e Líbia), enquanto os processos de subversão política promovidos pela CIA na Síria e, mais recentemente, na Ucrânia, sofreram “o efeito bumerangue”. Cenários geoestratégicos onde os EUA envolveram a OTAN e a União Europeia em uma série de operações militares e subversivas, que, na realidade, provocaram mais instabilidade política, mais crises econômicas, mais conflitualidade étnica e mais insegurança em muitas regiões do planeta.
Agora, após o massacre dos 44 russófilos em Odessa e diante da explosão da crise em quase todas as regiões do Leste da Ucrânia, em função do referendo separatista que Obama e a Merkel dizem ser ilegítimo, por não atender aos requisitos legais do governo de Kiev, muitos analistas e cientistas políticos criticam a estratégia da Casa Branca, por ter aberto muitas frentes sem ter conseguido consolidar nenhuma delas em termos institucionais, políticos e, sobretudo, econômicos.

A democracia do “Não-Estado” na Líbia
O que está acontecendo na Ucrânia reabre o debate sobre a “libertação” da Líbia, que foi realizada com a força das armas por parte dos EUA e de outros países da OTAN. Uma complexa operação militar que provocou a destruição das principais infraestruturas, a implosão institucional e a paralisia econômica da Líbia. De fato, a introdução, por parte dos EUA, de um modelo institucional parlamentar ocidentalizado exigiu a imediata criação de uma ”República Parlamentarista”, que Mustafá Mohamed Abdul Al Jeleil, Mahmud Ibril e Ali Zeidan logo legitimaram no Conselho Nacional de Transição, inclusive para assinar os decretos leis com os quais, em 5 de maio de 2011, era privatizada em tempo recorde a empresa petrolífera estatal NOC, além de reformular em favor das transnacionais estadunidenses, francesas e britânicas a metodologia dos contratos para a exploração do petróleo e do gás.
Isso tudo aconteceu porque os referidos “líderes” conseguiram se apoderar da direção da oposição, em função da massiva difusão realizada na Líbia pelas TVs árabes Al Jazeera (de propriedade do emir do Qatar, inimigo histórico de Kadafi) e Al Arabya (cujos principais acionistas são a MBC libanesa e um príncipe saudita) e, sobretudo, em função da projeção política que as TVs ocidentais (CNN e BBC) veicularam apresentando os três como “...os líderes da Revolução líbia, fundadores Conselho Nacional de Transição, legitimados para negociar com o Ocidente o fim do regime de Kadafi...”.
Na realidade, esses “três líderes” eram os porta-vozes “em off” dos governos estrangeiros que queriam tirar proveito da passividade da Liga Árabe em função das revoltas populares na Tunísia e no Egito para promover algo semelhante na Líbia e, assim, acabar com Kadafi. De fato, o primeiro ainda é o representante “em off” do príncipe saudita Bandar bin Sultan, chefe dos serviços secretos da Arábia Saudita. O segundo, ainda é o “homem da Casa Branca” que foi assessorado pelo embaixador estadunidense, Chris Stevens, até 11 de setembro de 2012, altura em que foi morto por um grupo armado de Ansar Al-Sharia – o principal grupo salafista-jihadista líbio, financiado pelos agentes do emir do Qatar, Tamim bin Hamad Al Thani -, que atacou o consulado dos EUA em Benghazi. O terceiro, antes de fugir para a Suíça, era o homem de confiança do o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy.
Personagens que em 20 de fevereiro de 2011, logo após as primeiras manifestações em Túnis, jogaram um papel fundamental em Benghazi para mobilizar os grupos salafitas, a Irmandade Muçulmana e, sobretudo, os chefes tribais separatistas da Cirenaica, sentimentalmente ligados ao falecido Rei Idris, para realizar as primeiras manifestações em Benghazi pedindo a saída de Kadafi. Por isso, em 27 de fevereiro, a TV Al Jazeera anunciava que ”... Ali Zeidan, o representante na Europa do recém-formado Conselho Nacional de Transição, estava pedindo à União Europeia o impedimento dos massacres de civis por parte dos mercenários de Kadafi...”.
Enquanto a TV Al Jazeera e a CNN manipulavam as imagens das manifestações na Síria e no Egito com as da Líbia, os três, por baixo do pano, negociavam com os emissários dos EUA, da Grã Bretanha e da França a criação em Trípoli e em Benghazi de um cenário político devastador, necessário para convencer os membros do Conselho de Segurança da ONU em votar em regime de urgência, em 17 de março de 2011, a Resolução 1973, com a qual era autorizada a criação de uma zona de exclusão aérea (No Fly Zone) no norte da Líbia.
Na realidade, a rapidez com que se chegou a essa resolução serviu para enganar a Rússia e a China e, consequentemente, surpreender a Força Aérea e o sistema de radares do exército de Kadafi, que foram logo atacados já no dia 19 de março. Nessa data, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, autorizou o bombardeio aéreo da capital Trípoli, enquanto Barack Obama ordenava ao comandante da 6ª Frota realizar massivos bombardeios navais e aéreos, complementados com o lançamento de centenas de mísseis cruzeiro Tomahawk.
A seguir, diante da indefinição da comunidade internacional, o Secretário Geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, criou um corpo de armada para dar continuidade aos planos de invasão dos EUA e da França, utilizando, durante 86 dias, aviões, pilotos e as unidades especiais da Grã Bretanha, do Canadá, da Alemanha, da Itália e da Dinamarca. Oficialmente, a “guerra humanitária” da OTAN na Líbia acabou somente em 23 de novembro de 2011, após o fuzilamento de Kadafi em Sirte.
É preciso dizer que a República parlamentarista da Líbia, mesmo com a eleição de Ali Zeidan no cargo de primeiro-ministro, em 14 de outubro de 2012, nunca conseguiu ser um Estado. Pelo contrário, se tornou um “Não-Estado” fragmentado e dividido à causa dos conflitos que começaram, logo após a “libertação”, entre as diferentes personalidades do CNT e as correntes do mundo islâmico líbio.
Em segundo lugar, o Conselho Nacional de Transição perdeu logo credibilidade, por dedicar todas as energias da “Revolução” na destruição de tudo aquilo que lembrava a ordem institucional criada por Kadafi. Por exemplo, na primeira intervenção de Mahmud Ibril no Conselho Nacional de Transição, foi aprovada a lei que revogava as limitações à poligamia, reintroduzindo a legislação do Rei Idris, pela qual “...a mulher era um objeto de livre negociação...”.
A seguir, o CNT, no lugar de desmilitarizar as milícias – em sua maioria, infiltradas por elementos jihadistas, salafitas e, sobretudo, da Irmandade Muçulmana –, lhes  entregou a tarefa de garantir a ordem pública e, consequentemente, de realizar a “limpeza política” na administração pública e nas empresas estatais, expulsando ou prendendo quem havia apoiado Kadafi.
Uma tarefa que, a partir de 2012, com a introdução no ordenamento jurídico nacional da Sharia (lei islâmica), permitiu aos 487 chefes de grupos armados espalharem o terror em todo o país, exacerbando um clima de violência incomparável e sem fim, do momento que as milícias, em função do intenso tráfego de armas, dos financiamentos ocultos por parte de países estrangeiros e transnacionais, começaram a travar um combate sem tréguas pelo controle dos distritos onde havia instalações petrolíferas, as cidades portuárias, aldeias ou até bairros.
Uma situação política e militar que Barack Obama e o secretário-geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, evitam comentar, visto que a Líbia virou uma bomba-relógio, pronta a explodir, por causa do risco da bancarrota, das pressões étnicas, das exigências tribais que se fundiram à perfeição com as reivindicações separatistas da Cirenaica e de Fezzan.
Um contexto que, em abril de 2013, Hugues Mingarelli descreveu no Parlamento Europeu quando apresentou o “Relatório da Comissão AFET sobre a situação na Líbia” e que sintetizou afirmando: “...em 2011, os estrategistas do Pentágono, da CIA e da OTAN cometeram um erro ao querer, simplesmente, desconsiderar o cenário político que se havia formado na Líbia com a queda de Kadafi. Depois, esse erro, em 2012, se transformou em uma monstruosidade política de grandes e múltiplas proporções que dificilmente poderá ser consertado do momento em que, em 2013, as milícias movimentam mais de 130.000 homens perfeitamente armados, enquanto a produção petrolífera de 1.500.000 barris diários baixou para 100.000/250.000, com um prejuízo de cerca 10 bilhões de dólares por dia!”.
Um erro que a diplomacia estadunidense e a responsável pelas relações exteriores da União Europeia, Lady Ashton, conseguiram esconder desviando as atenções dos participantes na Conferência Internacional sobre a Líbia, realizada em Roma em 6 de março de 2014. Mesmo assim, a ministra das relações exteriores italiana, Federica Mogherini, apesar da puxada de orelha de Obama ao primeiro-ministro italiano Matteo Renzi, não conseguiu esquivar-se de dizer: “A Líbia, ainda, não é um Estado. Por isso qualquer problema é, sobretudo, político antes de ser técnico. Por isso, nenhuma ajuda, por mais eficaz que seja, poderá substituir o processo de transição política que deve ser concluído para permitir a construção do Estado. Porém, cabe aos líbios criar as necessárias condições políticas para que isso tudo se realize...”.
Uma situação que, no atual contexto geoestratégico regional, pode concorrer para desestruturar as frágeis relações políticas e institucionais que foram recriadas no Marrocos, no Egito, na Tunísia, no Níger, na Argélia, na Mauritânia e no Mali. Isto é, uma macrorregião que fornece aos países da União Europeia 40% do petróleo e 60% do gás, sem esquecer a produção de urânio e de fosfatos.

Iraque: a primeira grande derrota
Ao analisar as diferentes frentes militares, onde os pelotões de “marines” (fuzileiros) ainda patrulham as estradas em permanente estado de alerta, resulta que a paz, a democracia, a estabilidade, a segurança e o desenvolvimento são meros predicados da retórica de Barack Obama, Joe Biden e John Kerry.
Uma retórica que é verbalizada todas as vezes em que o Pentágono deve alcançar um objetivo geoestratégico e aliciar a participação de um ou demais aliados europeus. De fato, a invasão militar do Iraque demorou 10 anos. Mesmo assim, 35.000 soldados do exército dos EUA ainda permanecem no Iraque para “ajudar o exército iraquiano a combater o terrorismo”, enquanto mais de 50.000 civis, entre assessores, conselheiros, dirigentes de transnacionais e funcionários de ONGs,  foram mobilizados para “organizar a transição e a formação de um regime democrático” que, hoje, oscila entre o fantasmagórico e o ilusório.
Uma conclusão que se fundamenta avaliando a intensidade dos atentados terroristas realizados recentemente na capital Bagdá, a explosão da violência urbana, a existência de perversa corrupção, a ausência de infraestruturas socioeconômicas e, principalmente, a miséria que atinge grande parte da população urbana, em particular a da capital Bagdá.
Um país onde o governo do primeiro-ministro Nuri al-Maliki simboliza apenas as regras fixadas durante os anos da invasão e a incapacidade de acabar com a conflitualidade étnica e a intolerância religiosa, tanto que no norte os curdos pretendem transformar o Curdistão iraquiano em um Estado independente. No sul, os xiitas desejam a unificação com o Irã, enquanto, no centro do país, os grupos fundamentalistas sunitas, os jihadistas e as células da Al-Qaeda combatem para a instauração do chamado “Califado do Grande Oriente”. Um novo Estado que deveria se estender do centro do Iraque até o norte do Líbano, ocupando grande parte da Síria.
Portanto, os dois trilhões de dólares gastos em operações militares por George Bush e depois por Obama, para exportar a “democracia parlamentar ocidental no Iraque”, podiam ser utilizados em projetos mais úteis, como, por exemplo, a erradicação da fome no mundo ou a realização dos projetos contra a desertificação.
Afeganistão: outra guerra perdida
Para evitar a volta dos Taleban em Cabul, em 2001, foi criada a Força Internacional de Assistência para Segurança (ISAF), que com 110.000 soldados (67.000 dos EUA e 37.000 de Reino Unido, Canadá, Itália, França, Turquia, Alemanha e Polônia) invadiu o Afeganistão para instalar um “regime democrático”.
A invasão se transformou em ocupação permanente e ficou mais segura somente após o acordo com “os Senhores do Norte”, isto é, os donos das regiões onde é cultivada a papoula, cuja pasta opiácea é vendida aos narcotraficantes de heroína do mundo inteiro, ao longo das fronteiras, em virtude da cumplicidade do ISI (Serviço Secreto Militar) do Paquistão.
Segundo uma pesquisa da ONU realizada em 2013, os EUA teriam gasto em despesas militares no Afeganistão cerca de três trilhões de dólares. Mesmo assim, os Taleban permanecem em 65% do território afegão. Por isso, Barack Obama admitiu que, após a conclusão da missão do ISAF, em dezembro de 2014, haverá também a retirada dos soldados estadunidenses, excluindo os 15.000 homens das “tropas especiais”, que permanecerão no Afeganistão para monitorar o novo exército afegão (316.000 homens) “no combate aos terroristas”.
Todos sabem que as operações do ISAF e os projetos socioeconômicos realizados pela ONU não pacificaram o país. Por isso, a saída do contingente militar do ISAF deixará um importante vácuo político na estrutura étnico-tribal criada pelos conselheiros estadunidenses para manter na presidência Hamid Karzai. Nesse contexto, para o novo presidente que será escolhido com o voto do segundo turno em 7 de novembro, será muito difícil criar uma frente nacional capaz de dar continuidade ao modelo institucional imposto pelo exército dos EUA e, ao mesmo tempo, enfrentar militarmente os Taleban no interior do país, sem a cobertura militar dos 110.000 soldados do ISAF.
Nesse contexto, a decisão de Obama de deixar Hamid Karzai, Abdullah Abadani e Ashraf Ghani ao próprio destino é um evidente sinal de que os quase quinze anos de guerra não mudaram o cenário estratégico do Afeganistão, onde o problema central, tal como em 1996, é, por um lado, a presença dos Taleban nas regiões centrais e meridionais; e, por outro, o cultivo da papoula e a produção da pasta de ópio no norte do Afeganistão, além da impossibilidade das transnacionais de explorar os depósitos muito extensos de petróleo e gás, que, em 2007, foram avaliados entre 900 bilhões e três trilhões de dólares.

A guerra subversiva na Síria
O que está se passando na Síria ainda permite a Casa Branca dizer nos fóruns internacionais que os EUA não estão envolvidos na guerra civil síria, mas que se limitam a dar apoio aos “combatentes da liberdade contra o regime de Bashar Al-Assad”. De fato, o vice-almirante Bruce Clingan, comandante em chefe da 6ª Frota, ainda não recebeu a ordem para atacar os navios da marinha militar síria ou fustigar com foguetes os quartéis do exército de Bashar al-Assad.
Neste contexto, segundo os cientistas políticos, “na Síria o conflito ainda está na fase de guerra subversiva. Isto é, uma guerra civil primária, onde os serviços secretos das grandes potências atuam em incógnito, norteando a evolução dos combates, além de garantirem o reabastecimento das armas, administrarem a logística e gerenciarem o fluxo dos financiamentos ocultos. Uma guerra que aumenta ou diminui de intensidade conforme o nível de tensão nas relações diplomáticas e a necessidade de polarizar o cenário geoestratégico...”.
Uma guerra civil que, apesar das ameaças de Hillary Clinton em 2012 e depois de Barack Obama em 2013, não extrapolou a ponto de provocar a intervenção militar dos EUA ou dos exércitos da OTAN ou de Israel. É, sim, uma guerra civil, planejada para provocar, antes de tudo, a destruição econômica da Síria e a desestruturação do seu exército regular. Condições essenciais para impor na mesa de negociação da Conferência de Genebra-2 uma nova fórmula institucional, que visa afastar do poder os grupos políticos ligados a Bashar Al-Assad.
Porém, não obstante o apoio financeiro oferecido por Arábia Saudita, Qatar, Emirados Unidos e Omã, e apesar da cobertura logística garantida pela Turquia e a Jordânia, a guerra subversiva planejada pela CIA não logrou seu objetivo estratégico: desarticular o exército de Bashar Al-Assad que, após dois anos de combates, não se desintegrou. Pelo contrário, os últimos informes indicam que conseguiu reverter o contexto operativo e passar ao contra-ataque, ao ponto de reconquistar a cidade de Homs, considerada pelos rebeldes a “verdadeira capital da Síria”.

O efeito bumerangue na Ucrânia
Depois da dissolução da URSS e da desastrosa gestão política e econômica de Boris Yeltsin, na Federação Russa, em 1999, começou um novo ciclo político sob a liderança de Vladimir Putin e de Dimitri Medvedev, que previa salvaguardar as relações econômicas e geoestratégicas com os 11 países da CEI (Comunidade dos Estados Independentes). Uma decisão que visava impedir a expansão da OTAN no Leste europeu, realizada com as propostas de adesão à União Europeia.
Por isso todos os governos dos EUA – sejam eles republicanos ou democratas – autorizaram a CIA realizar campanhas de intoxicação midiática associadas a verdadeiras operações subversivas em tais países, conseguindo que, em 2005, primeiro o Turcomenistão e depois a Geórgia, em 2008, deixassem a CEI, rompendo assim com a Rússia.
Na Bielorrússia, mas sobretudo na Ucrânia já a partir de 1988, os EUA promoveram um processo de subversão pacífica através da formação do movimento não-violento “Pora” (Está na Hora), cujos líderes foram financiados e treinados por uma coalizão de peritos em sondagem de opinião ocidentais e consultores profissionais, financiados por uma união de agências governamentais e não-governamentais, que segundo o jornal britânico “The Guardian” juntavam o Departamento de Estado, a USAID, o Instituto Democrático Nacional, o Instituto Republicano Internacional, a Freedom House (Casa da Liberdade) e a Fundação Doação para a Democracia.
O primeiro resultado desse processo de “subversão não violenta” se deu em 2004, com a conhecida “Revolução Laranja” de Viktor Yanukovich e Yulia Timoshenko contra o presidente Leonid Kuchma.
Porém, depois da derrota que a CIA e os conselheiros militares da Casa Branca sofreram na Geórgia, em 2008, com a guerra na Ossétia do Sul, e o reconhecimento da independência da República Autônoma da Abecásia, a Casa Branca decidiu aprofundar o processo de desestabilização da Ucrânia sob a supervisão da embaixadora dos EUA na OTAN, Victoria Nuland. A mesma que depois, em 2013, apesar de ser ligada ao Partido Republicano, foi nomeada por Obama Vice-Secretária de Estado norte-americana para os Assuntos Europeus e enviada a Kiev com a função de monitorar o golpe “EuroMaidan”, contra o presidente pró-russo, Viktor Yanukovich.
Um cargo de máxima confiança do momento que, após o sucesso do presidente Putin na Conferência de Genebra sobre a Síria e nas negociações com o Irã, era de vital importância inviabilizar a consolidação da geoestratégica do governo russo na Europa do Leste, favorecendo a saída da Ucrânia da CEI e a consequente admissão na União Europeia. Algo que teria permitido à OTAN se apoderar da base naval de Sebastopol, na Criméia, além de passar a controlar os três grandes gasodutos a partir dos quais a Rússia exporta o gás para a Europa e “dulcis in fundo” a produção das 130 unidades da indústria militar Ukroboronprom, da Motor Stich, da Zorya Mashproekt e da Antonov Airlines. Estabelecimentos que asseguram o fornecimento de peças para 400 indústrias militares russas, além de garantirem a manutenção dos mísseis balísticos intercontinentais do tipo RS-20 e a construção do famoso Antonov An-225 Mriya.
Nesse contexto, os EUA e a OTAN sofreram as consequências do “efeito bumerangue” logo após o repentino sucesso do golpe “EuroMaidan” em Kiev, quando o presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, legitimou a realização do referendo separatista na Criméia, onde 96% da população daquela região manifestou o desejo de oficializar a união com a Rússia.
Na realidade, o golpe “EuroMaidan” monitorado pela Vice-Secretária de Estado norte-americana para os Assuntos Europeus, Victória Nuland, revelou a fragilidade do governo-interino de Arseniy Yatsenyuk, do momento em que sua legitimidade institucional e sua representatividade política foram, praticamente, rejeitadas em todas as regiões do leste e do sudeste da Ucrânia. Regiões que, além de serem as mais industrializadas, são povoadas por populações russófilas que almejam manter uma estreita ligação com a Federação Russa.
Por outro lado, o massacre de 48 militantes russófilos, queimados vivos em Odessa no Palácio dos Sindicatos, alimentou, ainda mais, os sentimentos separatistas em 90% das regiões do leste e sudeste ucranianos, que decidiram realizar o referendo separatista em 11 de maio, onde 83% da população foram às urnas e 95% dos votantes se expressaram em favor da separação. Um referendo realizado apesar de as tropas do governo de Kiev ameaçarem invadir as principais cidades da Ucrânia do leste, para reprimir as “manifestações dos terroristas no leste do país”.
Outro elemento que fez merecer ao presidente-interino Oleksandr Turchynov o adjetivo de “marionete da Casa Branca” foi a falsa denúncia de que o presidente Putin havia planejado a invasão do leste da Ucrânia. Declarações alarmistas que durante todo o mês de abril ocuparam muito espaço na “Grande Mídia”, permitindo ao Pentágono montar um posto de observação com 600 soldados na Estônia, enquanto a USAF fazia aterrissar 12 caças-bombardeiros F-16 na base aérea polonesa de Lask e o Comando da OTAN destinava nos países bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia) 15 caças-bombardeiros, fornecidos pela Força Aérea do Reino Unido (Eurofighter), da Dinamarca (F-16) e França (Mirage 2000).
É evidente que a presença de caças-bombardeiros dos EUA e da OTAN na região báltica visa acalmar os governos daquela região com a realização de um ostensivo patrulhamento aéreo ao longo das fronteiras com a Rússia. Porém, é também verdade que as patrulhas dos F-16 ou dos Mirages 2000 nunca entrarão em combate contra os SU-27 Flanker russos que, em número de 30, aterrissaram nos aeroportos militares da Bielorrússia.
Para aplacar a tensão política, o Ministério da Defesa russo, em 23 de abril, havia comunicado aos seus homólogos europeus e estadunidenses que seu exército havia concluído as manobras militares, realizadas durante um mês ao longo das regiões fronteiriças com a Ucrânia. Além disso, o ministro da Defesa russo informava pessoalmente as autoridades militares dos EUA e da OTAN que todo o contingente mobilizado nessas manobras (100.000 soldados, 25.000 tanques e cerca de 100 caças bombardeiros) já havia regressado aos seus quartéis, que se encontram há mais de 70 ou 100 quilômetros da fronteira. Mesmo assim, Barack Obama e o britânico Nick Cameron voltaram a declarar que a retirada era uma farsa e que Putin queria invadir a Ucrânia. Por isso eles queriam que a União Europeia aplicasse novas sanções, começando a dispensar a compra do gás russo, substituindo-o com o gás que os EUA produzem com a exploração dos xistos betuminosos.
Não há dúvidas de que o “efeito bumerangue” atingiu em cheio os estrategistas da CIA, visto que a maior parte dos países europeus não concorda em substituir o gás russo pelo estadunidense, sobretudo por causa do preço mais alto e das dificuldades de distribuição dos portos franceses, espanhóis e holandeses.
Em segundo lugar, Barack Obama e John Kerry contavam com a “neutralidade” do governo chinês que, contrariando as previsões dos sinólogos da Casa Branca, interveio defendendo abertamente a Rússia. De fato, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Qin Gang, advertia que o governo chinês “condenava o uso de ameaças e de sanções nas relações internacionais...”, salientando que “o governo da China acredita que as sanções não contribuem para solucionar os problemas. Pelo contrário, produzem ainda mais tensões”.



Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália, editor do programa TV “Quadrante Informativo” e colunista do "Correio da Cidadania".

quarta-feira, 7 de maio de 2014

James Petras: “Refazer o Médio Oriente”- o super-guantánamo- americano


buscado no Gilson Sampaio 
 
Via O Diário.info

James Petras
A expansão do império americano através do norte de África e Médio Oriente foi montada com o armamento e financiamento de estados-vassalos para servirem de postos avançados. O arco de bases militares imperiais americanas que se estende do Egipto, através de Israel, da Turquia, da Jordânia, do Iémen, do Iraque, do Bahrain e da Arábia Saudita, está protegido por uma série de campos prisionais contendo dezenas de milhares de prisioneiros políticos.

Introdução
Durante o início do seu primeiro mandato, o presidente Obama prometeu “refazer o Médio Oriente numa região de prosperidade e liberdade”. Seis anos depois, a realidade é totalmente contrária: o Médio Oriente é governado por regimes despóticos cujas prisões transbordam de presos políticos. A grande maioria dos activistas pró-democracia que foram presos foram submetidos a duras torturas e cumprem longas penas de prisão. Os governantes não têm legitimidade, uma vez que tomaram o poder e o mantiveram através de um estado policial centralizado e da repressão militar. Decisivas para a construção da série de prisões desde o norte de África até aos estados do Golfo são a intervenção directa de militares americanos e da CIA, os fornecimentos maciços de armas, as bases militares, as missões de treino e as Forças Especiais.
Prosseguiremos documentando a escala e o alcance da repressão política em cada estado policial apoiado pelos EUA. Descrevemos depois a escala e alcance da ajuda militar americana de apoio a esse “refazer do Médio Oriente” numa série de prisões políticas conduzidas pelo e para o império dos EUA.
Os países e regimes incluem o Egipto, Israel, Arábia Saudita, Bahrain, Iraque, Iémen, Jordânia e Turquia, todos eles promotores e defensores dos interesses imperiais dos EUA contra a maioria pró-democracia representada pelos seus movimentos sociopolíticos independentes.

Egipto: Estado vassalo estratégico
Desde há muito estado vassalo e o maior país árabe do Médio Oriente, a actual ditadura militar do Egipto que resultou de um golpe em Julho de 2013 lançou uma onda de repressão selvagem a seguir à tomada do poder. De acordo com o Centro Egípcio dos Direitos Sociais e Económicos, foram presos entre Julho e Dezembro de 2013 21.317 manifestantes pró-democracia. Em Abril de 2014, foram encarcerados mais de 16.000 presos políticos. Os julgamentos sumários por tribunais ad-hoc resultaram em penas de morte para centenas e longas penas de prisão para a maior parte. O regime de Obama recusou chamar golpe ao derrube militar do governo Morsi democraticamente eleito, para poder continuar a fornecer ajuda militar à junta. Em troca, a ditadura militar continua a apoiar o bloqueio israelita a Gaza e a apoiar as operações militares dos EUA no Médio Oriente.

Israel: o maior carcereiro da região
Israel, cujos apoiantes nos EUA designam a “única democracia no Médio Oriente”, é de facto o maior carcereiro na região.
De acordo com o grupo israelita de direitos humanos B’Tselm, entre 1967 e Dezembro de 2012, foram feitos prisioneiros 800.000 palestinianos, 20% da população. Mais de 100.000 foram mantidos em “detenção administrativa” sem acusação ou julgamento. Quase todos foram torturados e brutalizados. Israel tem actualmente 4.881 prisioneiros políticos nas cadeias. O que faz do estado judeu escolhido por Deus o primeiro carcereiro, contudo, é a manutenção de 1,82 milhões de palestinianos que vivem em Gaza numa virtual prisão a céu aberto. Israel condiciona viagens, comércio, construção, produção e culturas através de bloqueios e policiamentos aéreo, marítimo e terrestre. Além disso, 2,7 milhões de palestinianos dos Territórios Ocupados (Margem Ocidental) estão cercados por muros como os das prisões, sujeitos a incursões militares diárias, detenções arbitrárias e assaltos violentos pelas forças armadas israelitas e pelos colonos israelitas vigilantes empenhados no perpétuo despojar dos habitantes palestinianos.

Arábia Saudita: monarquia absolutista
De acordo com o “refazer do Médio Oriente” do presidente Obama, a Arábia Saudita figura como o “aliado mais fiel no mundo árabe”. Como estado vassalo leal, as suas prisões transbordam de dissidentes pró-democracia encarcerados por procurarem eleições livres, liberdades civis e o fim de políticas misóginas. De acordo com a Comissão de Direitos Humanos Islâmicos, os sauditas detêm 30.000 presos políticos, a maior parte arbitrariamente detidos sem acusação ou julgamento.
A ditadura saudita desempenha um papel principal no financiamento dos regimes de estados policiais na região. Despejaram 15 mil milhões de dólares nos cofres da junta do Egipto a seguir ao golpe militar, como recompensa pela purga sangrenta em massa dos eleitos e seus apoiantes pró-democracia. A Arábia Saudita desempenha um importante papel no apoio ao domínio de Washington, financiando e armando “regimes carcereiros” no Paquistão, Iémen, Bahrain, Jordânia e Egipto.

Bahrain: pequeno país – muitas prisões
De acordo com o respeitado Centro de Direitos Humanos local, o Bahrain possui a duvidosa distinção de ser o primeiro país globalmente em número de presos políticos per capita. Segundo o Economist (4/2/14), o Bahrain tem 4.000 presos políticos para uma população de 750.000. De acordo com o Pentágono, a ditadura absolutista do Bahrain desempenha um papel vital no proporcionar aos EUA bases aéreas e marítimas para o ataque ao Iraque, ao Irão e ao Afeganistão. A maioria dos dissidentes pró-democracia estão presos por procurarem acabar com a vassalagem, a autocracia e o servilismo perante os interesses imperiais dos EUA e da ditadura saudita.

Iraque: Abu Ghraib com caracteres árabes
Tendo começado na invasão e ocupação americanas do Iraque em 2003 e prosseguido com o seu vassalo primeiro-ministro Nouri Al-Maliki, dezenas de milhares de cidadãos iraquianos foram torturados, encarcerados e assassinados. A junta iraquiana no poder continuou a apoiar-se nas tropas e forças especiais dos EUA e a envolver-se no mesmo tipo de “varredelas” militares e policiais que aniquilam qualquer pretensão democrática. Al-Maliki apoia-se em ramos especiais da sua polícia secreta, a notória Brigada 56, para assaltar comunidades da oposição e baluartes dissidentes. Quer o regime xiita, quer a oposição sunita se envolvem em contínuas lutas terroristas. Ambos serviram de colaboradores próximos de Washington em momentos diferentes.
A lista diária de mortos é da ordem das centenas. O regime de Al- Maliki assenhoreou-se dos centros de tortura (incluindo Abu Ghraib) e das técnicas e prisões antes chefiadas e conduzidas pelos EUA e retiveram os conselheiros americanos das “Forças Especiais” para a supervisão das batidas policiais aos críticos dos direitos humanos, sindicalistas e dissidentes democratas.

Iémen: satélite do grupo EUA-Arábia Saudita
O Iémen foi governado durante décadas por ditadores clientes dos EUA e Arábia Saudita. O governo autocrático de Ali Abdullah Saleh foi acompanhado da prisão e tortura de milhares de activistas pró-democracia, tanto seculares como religiosos, do mesmo modo que serviu de centro clandestino de tortura para dissidentes políticos raptados e transportados pela CIA no seu chamado programa de “rendição”. Em 2011, apesar da prolongada e violenta repressão pelo regime de Saleh apoiado pelos EUA, explodiu uma rebelião de massas ameaçando a existência do Estado e as ligações aos regimes americano e saudita. Para preservarem o seu domínio e as ligações aos militares, Washington e a Arábia Saudita orquestraram um “rearranjo” do regime: fizeram-se eleições manipuladas e tomou o poder um tal Abdo Rabbo Mansour Hadi, leal amigo de Saleh e criado de Washington. Hadi continuou onde Saleh tinha ficado: raptos, tortura e assassínio de contestantes pró-democracia. Washington optou por chamar ao regime de Hadi “uma transição para a democracia”. De acordo com o Yemen Times (4/5/14), mais de 3.000 presos políticos enchem as prisões do Iémen. “Democracia de cárcere” serve para consolidar a presença militar americana na península da Arábia. 

Jordânia: um Estado policial cliente de longa duração
Durante mais de meio século, três gerações de monarcas absolutistas no trono da Jordânia estiveram na lista de pagamentos da CIA e serviram os interesses dos EUA no Médio Oriente. Os governantes vassalos da Jordânia brutalizam os nacionalistas árabes e os movimentos de resistência palestinianos e assinaram um chamado “acordo de paz” com Israel para reprimirem qualquer apoio através da fronteira da Palestina e proporcionam bases militares de apoio ao treino, armamento e financiamento dos mercenários que invadem a Síria pelos EUA, Arábia Saudita e UE.
A corrupta monarquia e a sua íntima oligarquia controlam uma economia perpetuamente dependente de subsídios estrangeiros para se manter à tona: desemprego acima dos 25% e metade da população subsistindo na pobreza. O regime encarcerou milhares de opositores pacíficos. De acordo com um recente relatório da Amnistia Internacional (Jordan 2013), a ditadura do rei Abdullah “prendeu milhares sem acusação”. A monarquia de cárcere desempenha um papel central fortalecendo a construção do império americano no Médio Oriente e facilitando a apropriação de terra por Israel na Palestina.

Turquia: bastião da NATO e democracia de cárcere
No reinado do auto-intitulado “Partido Justiça e Desenvolvimento” liderado por Tayyip Erdoğan, a Turquia transformou-se numa importante base operacional militar para a invasão da Síria apoiada pela NATO. Erdoğan tem tido as suas diferenças com os EUA, especialmente o esfriar de relações da Turquia com Israel sobre a apreensão pela última de um navio turco em águas internacionais e o assassínio de nove activistas humanitários turcos desarmados. Mas, à medida que a Turquia se tornou mais dependente dos fluxos internacionais de capital e da integração em guerras internacionais da NATO, Erdoğan tornou-se mais autoritário. Enfrentando desafios populares em larga escala à sua privatização arbitrária de espaços públicos e a despejos em bairros da classe trabalhadora, Erdoğan lançou uma purga da sociedade civil, dos movimentos de classe e das instituições do Estado. Em face das manifestações pró-democracia de grande dimensão no verão de 2013, Erdoğan desencadeou um assalto selvagem aos dissidentes. De acordo com os grupos de direitos humanos, mais de 5.000 pessoas foram presas e 8.000 feridos durante os protestos no Parque Gezi. Antes, Erdoğan estabeleceu “Tribunais Autorizados Especiais” que organizaram julgamentos políticos de fachada baseados em provas falsificadas que facilitavam a detenção e prisão de centenas de oficiais militares, activistas partidários, sindicalistas, advogados de direitos humanos e jornalistas, em particular os críticos do seu apoio à guerra contra a Síria. Apesar da retórica conciliatória, as prisões de Erdogan encerram vários milhares de dissidentes curdos, incluindo ativistas eleitorais e juristas (Global Views 10/17/12).
Enquanto Erdoğan serviu como âncora islamita leal e capaz contra os movimentos populares democráticos e nacionalistas no Médio Oriente, a sua procura de maior influência turca na região levou os EUA a aprofundar os laços políticos com o movimento Gulenista mais submisso, pró- Washington e pró- Israel, infiltrado no aparelho de Estado, no comércio e no ensino. Este movimento adoptou uma estratégia permeacionista: sanear os adversários na sua marcha tranquila para o poder por dentro do Estado. Os EUA apoiam-se ainda na “democracia de cárcere” de Erdoğan para reprimir movimentos anti-imperialistas na Turquia, para servir de âncora militar para a guerra contra a Síria, para apoiar sanções contra o Irão e para apoiar o regime pró-NATO de Maliki no Iraque.

O super-guantánamo* do Médio Oriente e a ajuda militar americana
Os regimes de Estado policial e a cultura política autoritária de longo prazo no mundo árabe são um produto do apoio militar de longo prazo dos EUA aos governos despóticos. A ausência de democracia é uma condição necessária para a expansão e o avanço da presença militar imperial dos EUA na região.
Um pequeno exército de universitários, “peritos”, jornalistas e pânditas islamofóbicos dos media americanos ignoram totalmente o papel dos EUA na promoção, apoio e reforço de ditadores reinantes e na repressão de movimentos de massas profundamente democráticos que têm surgido ao longo de um grande período de tempo. Tendo como pontas de lança escribas e académicos desde sempre pró-Israel de universidades da Ivy League no Médio Oriente, estes propagandistas clamam que as ditaduras árabes são um produto da “cultura islâmica” ou da “personalidade autoritária dos árabes” em busca de um “homem forte” que os guie e governe. Ignorando ou distorcendo a história das lutas da classe trabalhadora e os protestos e posições pró-democracia em todos os principais países árabes, estes intelectuais justificam as ligações americanas às ditaduras como “política realista” dadas as “opções disponíveis”. Onde quer que a real democracia comece a emergir e onde os direitos políticos comecem a ser exercidos, Washington promove golpes e intervém para apoiar o aparelho repressivo estatal (Bahrain 2011-14, Iémen 2011 a 2014, Egipto 2013, Jordânia 2012, entre muitos outros casos). Enquanto a maioria dos “peritos” sobre o Médio Oriente responsabilizam os cidadãos árabes pelos regimes autoritários, ignoram completamente e encobrem a maioria racista de Israel que apoia solidamente o encarceramento e tortura de centenas de milhares de palestinianos pró-democracia.
Perceber o super-guantánamo* do Médio Oriente requer uma discussão da “política de ajuda” que é central para a sustentação dos “regimes carcereiros”.

A ajuda dos EUA ao Egipto: milhares de milhões para ditadores
O Estado policial egípcio é uma âncora do “arco imperial” dos EUA desde o norte de África até ao Médio Oriente. O Egipto esteve activamente empenhado na desestabilização da Líbia, do Sudão, do Líbano, da Síria e colaborou com o desalojamento dos palestinianos por Israel. A ditadura de Mubarak recebeu de Washington 2 mil milhões de dólares por ano – cerca de 65 mil milhões para os seus serviços imperiais. A ajuda dos EUA reforçou a sua capacidade para encarcerar e torturar ativistas pró-democracia e sindicalistas. Washington prosseguiu o apoio militar ao regime ditatorial depois do golpe militar contra o primeiro governo democraticamente eleito do Egipto na ordem de 1,55 mil milhões de dólares para 2014. Apesar dos “sinais de preocupação” pelo assassínio de milhares de manifestantes pró-democracia pelo novo homem forte militar, general Abdul Fattah al-Sisi, não houve qualquer corte no financiamento para o chamado “contra-terrorismo” e “segurança”. Para continuar a financiar a ditadura sob legislação do Congresso dos EUA, Washington recusou caracterizar a tomada violenta do poder como golpe, referindo-se a ela como uma “transição para a democracia”. O papel chave do Egipto na política externa dos EUA é a protecção do flanco ocidental de Israel. A ajuda dos EUA ao Egipto é produto da pressão e influência da configuração de poder sionista no Congresso e na Casa Branca. A ajuda dos EUA está dependente do “policiamento” da fronteira de Gaza pelo Egipto, garantindo que o bloqueio por Israel é efectivo. A Casa Branca apoia a repressão pelo Cairo da maioria nacionalista e anticolonial dos egípcios contrária ao desalojamento dos palestinianos. Uma vez que são os interesses israelitas a definir a política externa dos EUA no Médio Oriente, o financiamento por Washington da ditadura carcereira do Egipto está de acordo com a estratégia sionista de Washington.

Israel: o pivot americano no Médio Oriente
A maior parte dos especialistas independentes e conhecedores concordam que a política dos EUA no Médio Oriente é largamente ditada por uma multidão de fiéis sionistas que ocupam posições-chave de tomada de decisão no Tesouro, no Departamento de Estado, no Pentágono e no Comércio, assim como pelo domínio do Congresso pelos presidentes das 52 maiores organizações americano-judaicas e respectivos 171.000 ativistas pagos a tempo inteiro. Enquanto existe alguma verdade no que alguns críticos citam como divergência entre o “real interesse nacional” dos EUA e as ambições coloniais de Israel, o facto é que os dirigentes dos EUA em Washington entendem haver convergência entre o domínio imperial e o militarismo israelita. Na verdade, um Egipto submisso serve os interesses imperiais mais vastos dos EUA e os interesses coloniais de Israel. A guerra de Israel no Líbano contra o movimento anti-imperialista Hezbollah serviu tanto os esforços dos EUA para instalarem um cliente dócil, como os esforços de Israel para destruírem um partidário da autodeterminação palestiniana. A divergência de Washington com Israel sobre o despojamento de todos os palestinianos por Israel vai contra o interesse de Washington num mini-estado palestiniano governado por funcionários árabes neocoloniais. Em resultado da influência sionista, Israel é o maior beneficiário per capita de ajuda americana no mundo, apesar de possuir um nível de vida mais elevado do que 60% dos cidadãos americanos. Entre 1985-2014, Israel recebeu mais de 100 mil milhões de dólares, dos quais 70% para fins militares, incluindo a mais avançada alta tecnologia sobre armas. Israel, que é o país com o record mundial de presos políticos e ataques militares contra países vizinhos nos últimos quarenta anos, tem também o record de ajuda militar americana. Israel, como primeira “democracia carcereira” é um elo chave no super-guantánamo* que se estende do norte de África até aos estados do Golfo.

Arábia Saudita
A Arábia Saudita compete com Israel como centro de encarceramento de dissidentes pró-democracia. Os sauditas reciclam centenas de milhares de milhões de petro-rendas através da Wall Street, enriquecendo déspotas sauditas locais e banqueiros de investimento pró-israelitas no estrangeiro. A convergência saudis-EUA-Israel é mais do que circunstancial. Partilham interesses militares na guerra contra os movimentos árabes pró-independência e pró-democracia através do Médio Oriente. A Arábia Saudita alberga a maior base militar dos EUA e as maiores operações de espionagem no Golfo. Apoiou a invasão do Iraque. Financia milhares de mercenários islâmicos na guerra por procuração dos EUA-NATO contra a Síria. Invadiu o Bahrain para esmagar o movimento pró-democracia. Intervém com Washington em apoio ao estado policial do Iémen. É o maior e mais lucrativo mercado para o complexo militar-industrial dos EUA. As vendas militares dos EUA entre 1951-2006 totalizaram 80 mil milhões de dólares. Em Outubro de 2010, assinou a compra de 60,5 mil milhões de armas e serviços aos EUA. 

Bahrain: um porta-aviões dos EUA com nome de país
O Bahrain serve de base naval da 5ª Frota dos EUA e é uma base operacional para atacar o Irão. Tem estado ao serviço da ocupação do Afeganistão e do controle americano das rotas de transporte marítimo do petróleo. A ditadura de Al-Khalifa está extremamente isolada, é altamente impopular e enfrenta constante pressão da maioria pró-democracia. Para amparar os governantes seus vassalos, Washington aumentou as vendas militares ao pequeno estado de 400 milhões entre 1993-2000 para 1400 milhões de dólares na década seguinte. Washington aumentou as vendas e o programa de treino militar na proporção directa do aumento do descontentamento democrático, resultando no aumento geométrico do número de presos políticos.

Iraque: guerra, ocupação e os campos da morte de uma democracia de cárcere
A invasão americana e ocupação do Iraque levaram à matança de cerca de 1,5 milhões de iraquianos (a maior parte civis, não combatentes) com um custo de 1,5 biliões (milhões de milhões) de dólares e 4.801 mortos militares americanos. Em 2006, as “eleições” preparadas pelos EUA levaram à instalação do regime de Maliki, suportado pelas armas, por mercenários, por conselheiros e pelas bases americanas. De acordo com um estudo recente para o Gabinete de Investigação do Congresso (Fevereiro de 2014) por Kenneth Kilzman, há 16.000 militares e “empreiteiros” americanos actualmente no Iraque. Mais de 3500 empreiteiros militares americanos no Gabinete de Cooperação de Segurança dão apoio ao estado policial corrupto de Maliki. A democracia de cárcere foi abastecida com mísseis e drones americanos e mais de 10 mil milhões de dólares de assistência militar, o que inclui 2,5 mil milhões de ajuda e 7,9 mil milhões de vendas entre 2005-2013. Para 2014-2015, Malaki pediu 15 mil milhões de dólares em armas, incluindo 36 aviões de combate americanos F-16 e grande número de helicópteros de ataque Apache. Em 2013, o regime de Malaki registou 8.000 mortes políticas resultantes da guerra interna.
O Iraque é um centro crucial para o controle americano do petróleo e do Golfo e como plataforma de lançamento para atacar o Irão. Enquanto Maliki faz “gestos” para o Irão, o seu papel como ligação avançada no gulag imperial dos EUA define a sua “função” real na região do Golfo.

Iémen: o posto avançado militar do deserto para o super-guantánamo* americano
O Iémen é um dispendioso posto avançado militar para o despotismo saudita e para o poder americano na península das Arábia. Segundo o estudo “Iémen: Bases e Relações com os EUA” de Jeremy Sharp para o Serviço de Investigação do Congresso (2014), os EUA forneceram 1,3 mil milhões de dólares de ajuda militar ao Iémen entre 2009-2014. A Arábia Saudita doou 3,2 mil milhões de dólares em 2012 para apoiar a ditadura de Saleh perante um levantamento anti-ditatorial popular de massas. Washington maquinou uma transferência de poder de Saleh para o “Presidente” Hadi e assegurou a sua continuidade duplicando a ajuda militar para manter as prisões cheias e a resistência em cheque. De acordo com o New York Times (31/6/2013), Hadi era um “continuador do ditador Saleh”. A continuidade da democracia de cárcere no Iémen é uma ligação crucial entre o eixo Egipto-Israel-Jordânia e o super-guantánamo* imperial Bahrain-Arábia Saudita.

Jordânia: eterno vassalo e monarquia mendicante
A monarquia despótica da Jordânia tem estado na lista de pagamentos dos EUA há mais de meio século. Serviu recentemente como centro de tortura de vítimas raptadas e capturadas pelas Forças Especiais dos EUA envolvidas no programa “rendição”. A Jordânia colaborou com Israel no assalto e prisão de palestinianos envolvidos na luta pela liberdade. Actualmente, a Jordânia com a Turquia servem para treino e depósito de armas para os terroristas mercenários que invadem a Síria apoiados pela NATO. Graças à sua colaboração com Israel, Washington e a NATO, a corrupta monarquia de cárcere recebe ajuda militar e económica de larga escala e a longo termo. A monarquia e a sua extensa rede de patifes, carcereiros e família, rapam dezenas de milhões de dólares de ajuda externa, lavados em contas estrangeiras em Londres, na Suíça, no Dubai e em Nova Iorque. Segundo o relatório do Serviço de Investigação do Congresso (27 Janeiro 20114), a ajuda americana à ditadura real jordana atinge 660 milhões de dólares por ano. Uma ajuda militar adicional de 150 milhões foi canalizada para o regime com o desencadear da intervenção da NATO na Síria. O fundo foi destinado a aumentar a infra-estrutura à volta da fronteira Jordânia-Síria. Além disso, a Jordânia serve de principal conduta de armas para os terroristas que atacam a Síria: 340 milhões de dólares para “contingências no estrangeiro” são provavelmente encaminhados através de Amman para armar os terroristas que invadem a Síria. Em Outubro de 2012, a Jordânia assinou acordos com os EUA permitindo que um grande contingente de Forças Especiais estabelecesse campos de aviação e bases para fornecimento e armamento dos terroristas.

Turquia: Estado vassalo leal com ambições regionais
Como baluarte militar da NATO a sul, na fronteira da Rússia, a Turquia tem estado na lista de pagamentos dos EUA há mais de 66 anos. De acordo com o estudo recente de James Zanotti “Cooperação Turquia-EUA na Defesa: Perspectivas e Desafios” (Serviço de Investigação do Congresso, 8 Abril 2011), em troca do apoio ao poder militar da “democracia de cárcere” da Turquia, os EUA asseguraram uma presença militar importante, incluindo uma grande base aérea em Incirlik, um grande centro operacional abrigando 1800 militares americanos. A Turquia colaborou com a invasão e ocupação americanas do Afeganistão e apoiou o bombardeamento da Líbia pela NATO. Hoje, a Turquia é o centro militar operacional mais importante para os terroristas jihadistas que invadem a Síria. Apesar das periódicas e demagógicas pretensões nacionalistas do presidente Erdoğan, os construtores do império dos EUA continuam a ter acesso às bases turcas e a corredores de transporte para as suas guerras, ocupações e intervenções no Médio Oriente e na Ásia central e do sul. Em troca, os EUA instalaram sistemas de mísseis defensivos e aumentaram largamente as vendas de armas pela chamada “assistência de segurança”. Entre 2006-2009, as vendas militares dos EUA ultrapassaram 22 mil milhões de dólares. Em 2013-14, as tensões entre a Turquia e os EUA aumentaram quando Erdoğan começou a sanear o Estado de gulenistas, uma quinta-coluna apoiada pelos EUA que infiltrava o estado turco e usava as suas posições para apoiar uma colaboração mais próxima com os interesses militares de Israel e dos EUA. 

Conclusão
A expansão do império americano através do norte de África e Médio Oriente foi montada com o armamento e financiamento de estados-vassalos para servirem de postos avançados do império. Estes regimes vassalos, governados por monarquias ditatoriais e governantes autoritários civis e militares, apoiam-se na força e na violência para sustentar o seu mando. Os EUA forneceram armas, conselheiros e financiamento que lhes permitiu dominarem. O arco de bases militares imperiais americanas que se estende do Egipto, através de Israel, da Turquia, da Jordânia, do Iémen, do Iraque, do Bahrain e da Arábia Saudita, está protegido por uma série de campos prisionais contendo dezenas de milhares de prisioneiros políticos.
O empenhamento americano e a sua penetração e presença na região são acompanhados por uma série de democracias carcereiras e ditaduras. Ao contrário dos pânditas políticos liberais e conservadores e dos académicos, a política americana durante mais de 50 anos procurou activamente, instalou e protegeu tiranos sanguinários que pilharam o tesouro público, concentraram riqueza, entregaram a soberania e subdesenvolveram as suas economias.
Os académicos pró-Israel em prestigiadas universidades americanas têm sistematicamente distorcido as bases estruturais da violência, do autoritarismo e da corrupção no mundo islâmico, responsabilizando as vítimas, os povos turco e árabe, e ignorando o papel dos construtores do império americano no financiamento e no armamento de governos autoritários civis e militares e de monarquias absolutistas e respectivos militares, funcionários judiciais e policiais corruptos.
Ao contrário dos enganadores volumes publicados pelas prestigiosas imprensas universitárias e escritos por altamente respeitados propagandistas políticos pró-Israel, o refazer do Médio Oriente depende da força das correntes democráticas na sociedade islâmica. Elas encontram-se nos movimentos estudantis, entre os sindicalistas e os desempregados, nos intelectuais nacionalistas e nas forças seculares e islâmicas que se opõem ao Império dos EUA por razões muito práticas e óbvias. Junto com Israel, os EUA são os principais organizadores da vasta cadeia de campos prisionais políticos que destroem as mais criativas e dinâmicas forças na região. Mais vassalagem árabe provoca a explosão periódica da vibrante cultura e movimento democráticos, embora infelizmente também resulte em maior ajuda militar e presença dos EUA. O verdadeiro choque de civilizações é entre as aspirações democráticas das classes populares orientais e o profundamente imbuído autoritarismo do imperialismo euro-americano.

*Nota do tradutor: O Autor usa de forma infeliz o termo “gulag” para designar o carácter concentracionário da região, palco de ditaduras sanguinárias protegidas pelos EUA e suas aliadas, onde a luta pela democracia é barbaramente reprimida, não obstante toda a retórica da propaganda “democrateira” que acompanha as intervenções imperialistas na região. Símbolo por símbolo, e na convicção de que é respeitado o sentido que o autor imprime à sua análise, em alternativa e com maior propriedade “gulag” foi substituído por “super-guantánamo”. JV

Tradução: Jorge Vasconcelos


quinta-feira, 24 de abril de 2014

A Farsa da “Governança da Internet” e a sua ilusão “Multi-Setorial”



 

buscado no Passa Palavra




Já existe uma estrutura para a gestão coletiva da Internet: nós, cidadãos, somos todos co-proprietários da Internet.  

Por Jérémie Zimmermann


protestos-netmundial2 
Por quase 15 anos, reuniões de “Governança da Internet” [1] têm chamado a atenção e dirigido nossos imaginários rumo à crença de que regras consensuais para a Internet poderiam surgir de discussões globais “multi-setoriais”. Alguns dias antes do fórum “NETmundial”, em São Paulo, se tornou óbvio que a “Governança da Internet” é uma maneira farsesca de nos manter ocupados e esconder uma triste realidade: nada de concreto, nem uma única ação, surgiu dessas reuniões entre “multi-setoriais” nesses 15 anos, enquanto ao mesmo tempo a tecnologia como um todo tem sido dirigida contra os seus usuários, como uma ferramenta de vigilância, controle e opressão.

Os cidadãos do mundo devem pensar nos importantes desafios à nossa frente: acabar com a vigilância de massa, proteger as liberdades online sem concessões, garantir a neutralidade da Rede, criar condições de acesso universal à Internet Livre… Nenhum deles pode ser discutido nessas discussões “multi-setoriais” estéreis com lista de participantes manipuladas [2], mas só em contextos políticos apropriados, baseados em redes descentralizadas de cidadãos, organizadas através de uma Internet Livre.

Através do site alternativo http://netmundial.net e de muitos outros modos descentralizados de organização, cidadãos do mundo estão exigindo de seus governos outra coisa que não a farsa da “Governança da Internet”.

Por que deveríamos esperar que essas hiper-estruturas de “multi-setoriais” funcionem de maneira apropriada, se é que isso algum dia ocorrerá, antes de fazermos alguma coisa [3]? Já existe uma estrutura para a gestão coletiva da Internet: nós, cidadãos, somos todos co-proprietários da Internet, se a considerarmos como a soma de sua infraestrutura, suas tecnologias e, o mais importante, a soma de atividades, dados e conteúdo que nós, todos nós, contribuímos para fazer com que ela exista.

Nesse sentido, a Internet pode e deve ser considerada um bem comum.

É precisamente isso que devemos exigir dos governos agora, das cinzas ainda quentes da morte do modelo “multi-setorial”, esmagado sob a bota das decisões unilaterais da NSA, Google, Facebook, China, Apple, Rússia e todos os outros atores que não esperaram por um consenso para tomar passos radicais no sentido de alterar a forma da tecnologia e voltá-la contra os cidadãos.

Os governos devem considerar a Internet como nosso bem comum e protegê-lo como tal, sem concessões. Como a mais preciosa das reservas naturais ou das fontes de água potável. A partir daí devemos entrar em um debate profundo sobre a natureza da confiança que colocamos nos atores privados ou públicos (“curadores”) que irão gerir esse recurso. Quais são as condições de transparência e que maneiras de responsabilização (tais como a utilização de software livre e a habilidade do público de verificar esses softwares) deveremos exigir, em uma sociedade democrática, daqueles que são responsáveis pelas nossas liberdades fundamentais, por meio do controle deles de parte da nossa infraestrutura comum?

Essa é a natureza do debate que nós queríamos que tivesse surgido da NETmundial, sob o impulso corajoso da presidente Dilma Rousseff. Infelizmente, parece que ela preferiu se dobrar frente à pressão dos EUA [4], da União Europeia [5] e dos interesses industriais. Será que uma mensagem dos cidadãos do mundo inteiro conseguirá mudar o nosso status quo? Seja como for, precisamos tentar!

Por favor se junte a nós assinando a mensagem no site http://netmundial.net, espalhando essa mensagem por aí e participando ativamente no desmantelamento da ilusão da “Governança multi-setorial da Internet”.


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Notas


[1] Desde o Encontro de Cúpula Mundial da Sociedade da Informação até os mais recentes Fórums de Governança da Internet.

[2] Mais de 90% dos membros da “comunidade técnica” na NETmundial, como no Fórum de Governança da Internet, ou são parte do governo ou das corporações http://netmundial.br/blog/2014/04/20/netmundial-announces-list-of-registered-participants/
  [3] Como esses estudiosos observam na conclusão de seu estudo sobre o “multi-setorialismo” http://ssrn.com/abstract=2354377: “Além disso, o fato de que os atores majoritários na governança da Internet apoiam diversas visões de legitimidade procedimental ajuda a explicar a tensão crescente nessa área de questões e também sugere que os atores deveriam tentar forjar um modus vivendi procedimental antes de tentar resolver as questões substantivas”.

[4] Não menciona a NSA, a vigilância de massa e a participação ativa de empresas do Vale do Silício na última versão dos “princípios da governança da internet”.

[5] Menção à “neutralidade da rede” removida dos “princípios” por influência da comissária da União Europeia Neelie Kroes: http://ec.europa.eu/commission_2010-2014/kroes/en/content/my-thoughts-netmundial-and-future-internet-governance

Tradução do Passa Palavra a partir daqui.