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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

"O empregado tem carro e anda de avião. Estudei pra quê?"

 

 

buscado no Vermelho


O condômino é, antes de tudo, um especialista no tempo. Quando se encontra com seus pares, desanda a falar do calor, da seca, da chuva, do ano que passou voando e da semana que parece não ter fim.

 

Por Matheus Pichonelli*, na Carta Capital


À primeira vista, é um sujeito civilizado e cordato em sua batalha contra os segundos insuportáveis de uma viagem sem assunto no elevador. Mas tente levantar qualquer questão que não seja a temperatura e você entende o que moveu todas as guerras de todas as sociedades em todos os períodos históricos. Experimente. Reúna dois ou mais condôminos diante de uma mesma questão e faça o teste. Pode ser sobre um vazamento. Uma goteira. Uma reforma inesperada. Uma festa. E sua reunião de condomínio será a prova de que a humanidade não deu certo.

Dia desses, um amigo voltou desolado de uma reunião do gênero e resolveu desabafar no Facebook: “Ontem, na assembleia de condomínio, tinha gente 'revoltada' porque a lavadeira comprou um carro. ‘Ganha muito’ e ‘pra quê eu fiz faculdade’ foram alguns dos comentários. Um dos condôminos queria proibir que ela estacionasse o carro dentro do prédio, mesmo informado que a funcionária paga aluguel da vaga a um dos proprietários”.

A cena parecia saída do filme O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, no qual a demissão de um veterano porteiro é discutido em uma espécie de "paredão" organizado por condôminos pouco afeitos à sensibilidade. No caso do prédio do meu amigo, a moça havia se transformado na peça central de um esforço fiscal. Seu carro-ostentação era a prova de que havia margem para cortar custos pela folha de pagamento, a começar por seu emprego. A ideia era baratear a taxa de condomínio em 20 reais por apartamento.

Sem que se perceba, reuniões como esta dizem mais sobre nossa tragédia humana do que se imagina. A do Brasil é enraizada, incolor e ofuscada por um senso comum segundo o qual tudo o que acontece de ruim no mundo está em Brasília, em seus políticos, em seus acordos e seus arranjos. Sentados neste discurso, de que a fonte do mal é sempre a figura distante, quase desmaterializada, reproduzimos uma indigência humana e moral da qual fazemos parte e nem nos damos conta.

Dias atrás, outro amigo, nascido na Colômbia, me contava um fato que lhe chamava a atenção ao chegar ao Brasil. Aqui, dizia ele, as pessoas fazem festa pelo fato de entrarem em uma faculdade. O que seria o começo da caminhada, em condições normais de pressão e temperatura, é tratado muitas vezes como fim da linha pela cultura local da distinção. O ritual de passagem, da festa dos bixos aos carros presenteados como prêmios aos filhos campeões, há uma mensagem quase cifrada: “você conseguiu: venceu a corrida principal, o funil social chamado vestibular, e não tem mais nada a provar para ninguém. Pode morrer em paz”.

Não importa se, muitas e tantas vezes, o curso é ruim. Se o professor é picareta. Se não há critério pedagógico. Se não é preciso ler duas linhas de texto para passar na prova. Ou se a prova é mera formalidade.

O sujeito tem motivos para comemorar quando entra em uma faculdade no Brasil porque, com um diploma debaixo do braço, passará automaticamente a pertencer a uma casta superior. Uma casta com privilégios inclusive se for preso. Por isso comemora, mesmo que saia do curso com a mesma bagagem que entrou e com a mesma condição que nasceu, a de indigente intelectual, insensível socialmente, sem uma visão minimamente crítica ou sofisticada sobre a sua realidade e seus conflitos. É por isso que existe tanto babeta com ensino superior e especialização. Tanto médico que não sabe operar. Tanto advogado que não sabe escrever. Tanto psicólogo que não conhece Freud. Tanto jornalista que não lê jornal.

Função social? Vocação? Autoconhecimento? Extensão? Responsabilidade sobre o meio? Conta outra. Com raras e honrosas exceções, o ensino superior no Brasil cumpre uma função social invisível: garantir um selo de distinção.

Por isso comemora-se também à saída da faculdade. Já vi, por exemplo, coordenador de curso gritar, em dia de formatura, como líder de torcida em dia de jogo: “vocês, formandos, são privilegiados. Venceram na vida. Fazem parte de uma parcela minoritária e privilegiada da população”; em tempo: a formatura de um curso de odontologia, e ninguém ali sequer levantou a possibilidade de que a batalha só seria vencida quando deixássemos de ser um país em que ter dente é, por si, um privilégio.

Por trás desse discurso está uma lógica perversa de dominação. Uma lógica que permite colocar os trabalhadores braçais em seu devido lugar. Por aqui, não nos satisfazemos em contratar serviços que não queremos fazer, como lavar, passar, enxugar o chão, lavar a privada, pintar as unhas ou trocar a fralda e dar banho em nossos filhos: aproveitamos até a última ponta o gosto de dizer “estou te pagando e enquanto estou pagando eu mando e você obedece”. Para que chamar a atenção do garçom com discrição se eu posso fazer um escarcéu se pedi batata-fria e ele me entregou mandioca? Ao lembrá-lo de que é ele quem serve, me lembro, e lembro a todos, que estudei e trabalhei para sentar em uma mesa de restaurante e, portanto, MEREÇO ser servido. Não é só uma prestação de serviço: é um teatro sobre posições de domínio. Pobre o país cujo diploma serve, na maioria dos casos, para corroborar estas posições.

Por isso o discurso ouvido por meu amigo em seu condomínio é ainda uma praga: a praga da ignorância instruída. Por isso as pessoas se incomodam quando a lavadeira, ou o porteiro, ou o garçom, “invade” espaços antes cativos. Como uma vaga na garagem de prédio. Ou a universidade. Ou os aeroportos.

Neste caldo cultural, nada pode ser mais sintomático da nossa falência do que o episódio da professora que postou fotos de um “popular” no saguão do aeroporto e lançou no Facebook: “Viramos uma rodoviária? Cadê o glamour?”. (Sim, porque voar, no Brasil, também é, ou era, mais do que se deslocar ao ar de um local a outro: é lembrar os que rastejam por rodovias quem pode e quem não pode pagar para andar de avião).

Esses exemplos mostram que, por aqui, pobre pode até ocupar espaços cativos da elite (não sem nossos protestos), mas nosso diploma e nosso senso de distinção nos autorizam a galhofa: “lembre-se, você não é um de nós”. Triste que este discurso tenha sido absorvido por quem deveria ter como missão a detonação, pela base e pela educação, dos resquícios de uma tragédia histórica construída com o caldo da ignorância, do privilégio e da exclusão.


*Matheus Pichonelli é formado em jornalismo e ciências sociais, é editor-assistente do site de CartaCapital


segunda-feira, 4 de março de 2013

A patrulha nunca termina


 
 
 
por Matheus Pichonelli
Não sei se era só naquele tempo ou naquela cidade. Mas, na minha adolescência, havia duas frases distintas, embora similares, usadas por meninos e meninas quando alguém passava arrancando suspiros. Quando era “a” menina dos sonhos, os meninos diziam: “com ela eu casava”. Quando era “o” menino, as meninas diziam: “para ele eu ‘dava’”. Era como se a conquista exigisse uma concessão a princípio indesejada: o “enlace”, para uns, e a “entrega”, para outros. Como uma ordem ancestral reproduzida, imaginava que o casamento era bom negócio apenas para a mulher e o sexo, apenas para meninos.

No Brasil de 2013, ainda há quem não aceite ver uma mulher falando abertamento sobre relacionamento
No Brasil de 2013, ainda há quem não aceite ver uma mulher falando abertamento sobre relacionamento

Naquele tempo (não faz muito) e naquele lugar (nem perto nem longe demais das capitais), as pessoas cresciam sob conotações e nomenclaturas distintas para esconder vocações semelhantes. Só meninas, por exemplo, ouviam que era necessário se dar o valor para ser respeitada. Ou que ir longe demais num primeiro encontro era uma fratura exposta de um caráter desvirtuado. Era a forma de legitimar, de forma direta ou não, direitos e deveres distintos conforme o gênero. Nenhum menino da turma se ofendia ao ser chamado de Don Juan, enquanto o similar feminino não só era ofensivo como não tinha paralelo na literatura. Os destinos de Madame Bovary, Anna Karenina e Luísa Mendonça funcionavam mais ou menos como o pôster de um corpo estendido ao chão com os dizeres “Seja Herói”.
Lembrando de tudo, tudo parece distante: um tempo em que a revolução sexual ainda não havia fincado bandeiras definitivas. Pura miragem. No Brasil de 2013 é possível sentir que a inércia conservadora paira feito um cadáver insepulto sobre qualquer tentativa de mudança em direção a um mundo menos paranoico, menos policialesco, menos misógino, menos intolerante, menos reprimido, menos autoritário. Sobretudo com menos privilégios.
Exemplos não faltam. Na quarta-feira 16 a repórter Tory Oliveira publicou, neste site, uma entrevista com a jornalista e escritora Nádia Lapa, de 33 anos (leia clicando AQUI). Ela acaba de lançar um livro chamado Cem Homens em Um Ano em que relata suas experiências sexuais, originalmente narradas em seu blog – hoje reformulado e focado em questões de comportamento. Como uma criminosa comum, Nádia foi alvo de todo tipo de ataque e justiçamento. O crime da escritora foi simplesmente relatar – e pagar com a experiência própria – o quanto ainda é difícil, para uma mulher, assumir que suas vontades muitas vezes passam longe de um padrão pré-moldado de comportamento. Para os defensores deste padrão, é aceitável que os homens joguem no ventilador seu protagonismo em pirotecnias eróticas enquanto as mulheres trocam receitas de bolo e vinagrete para agradar os filhos e o marido. Foi assim durante anos e é bom que, de vez em quando, alguém levante o dedo e lembre que as coisas mudaram.
Nádia não tem desejos nem vocações diferentes de ninguém. A diferença é que aceita falar sobre o assunto. Não sem punição argumentativa.
“Mas o que me interessa saber suas aventuras pessoais?”, perguntam alguns leitores. A vontade é responder: há quem escreva sobre automóveis, sobre armas de guerra, sobre viagens, sobre vinhos, sobre babás, sobre coleção de maços de cigarro. E há quem escreva sobre relacionamentos. Ponto. Se nenhum destes assuntos é útil para você, você tem a opção de não ler. Se for, você tem a opção de ler. Lendo, você pode criar identificação, empatia, trocar impressões, segredos e a sensação de ver dissipadas dúvidas pessoais correntes que até hoje não teve coragem de expressar.
Assim é o princípio da comunicação.
Não há mal algum em não ver identificação e fechar a página. Mas é estranha a campanha para que blog e autora simplesmente deixem de existir, como demonstra a reação dos leitores com estilingues e tridentes a lamentar o “vazio” e “falta de objetivos na vida” da autora ao se dispor a falar de relações efêmeras em detrimento do “verdadeiro amor?” – foi o lamento de uma leitora mais romântica.
É como se houvesse uma pane na cabeça das pessoas criadas a andar em linha reta. Como se virtudes estivessem todas de um lado e as transgressões, de outro. Neste modelo, não há espaço para dúvidas, incoerências, contradições. A ofensa de Nádia, formada em direito e jornalismo (portanto, ocupada com outros planos) foi simplesmente dizer que uma coisa não elimina a outra. Mas as pessoas, a maioria delas, não querem debater. Não estão dispostas a aceitar que temos inclinações diversas para momentos diversos da vida (quanto menos num mesmo dia). Elas precisam acreditar em escolhas sem riscos. Em modelos sem contradições. Precisam acreditar em salvação. Em final feliz. Em príncipes e princesas. Em estabilidade, enfim. Para isso é necessário eliminar quem aponta em outra direção, como se fosse possível eliminar o risco de serem sozinhas, inconstantes, contraditórias e infelizes – ainda que sejam tudo isso fazendo tudo o que se espera delas.
É como sintetizou, em entrevista recente à Folha de S.Paulo, o filósofo Simon May, professor do King’s College e crítico da “supervalorização” do amor nos tempos atuais: “Nada humano é verdadeiramente incondicional, eterno e completamente bom. Essa é uma forma de amor que só Deus pode ter. Esse entendimento gera expectativas altas, que relacionamentos cotidianos não são capazes de suprir”.
Nádia corre o risco de ter entendido isso alguns séculos antes da massa uniformizada de seus contemporâneos que hoje a ataca. Contemporâneos dispostos a passar o resto da vida com olhos, bocas e ouvidos tampados para não deixar passar (e se fixar) um pensamento incômodo: somos (ou queremos ser) todos assim.  Mas, em nome da coerência (e dos bons modos), é melhor evitar novas Nádias e se abraçar a velhas convicções sobre o mundo ideal. Ainda que este mundo ideal esteja fincado em séculos de repressão, violência e privilégios.

PS: O título deste post é inspirado no texto, publicado em seu blog, em que Nádia conta o que ouviu quando decidiu fazer uma tatuagem.