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sexta-feira, 13 de junho de 2014

Pepe Escobar: − Somos o “Teorema” de Pasolini vivo



buscado no Redecastorphoto

 

17/1/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online
 
 
 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
 

Pier Paolo Pasolini
BOLONHA – Nas primeiras horas da manhã de 2/11/1975, em Idroscalo, numa favela imunda e miserável em Ostia, nos arredores de Roma, foi encontrado o corpo de Pier Paolo Pasolini, 53 anos, uma usina intelectual e um dos maiores cineastas dos anos 1960s e 1970s; fora severamente espancado e duas vezes esmagado pelas rodas do seu próprio Alfa Romeo.

Difícil conceber mais dolorosa, aterradora, mistura moderna de tragédia grega e iconografia renascentista; em cenário que parecia copiado de filme de Pasolini, o autor foi imolado como seu principal personagem em Mamma Roma (1962) jazendo na prisão à maneira do Cristo Morto, também conhecido como “A lamentação do corpo de Cristo”, de Andrea Mantegna.


A lamentação do corpo de Cristo
Provavelmente, um encontro gay que deu terrivelmente errado; um jovem marginal de 17 anos foi acusado pelo assassinato, mas ele também tinha ligações com neofascistas italianos. A verdadeira história jamais foi divulgada. O que emergiu é que “a nova Itália” – os pós-efeitos de uma nova revolução capitalista – matou Pasolini.


Pasolini só poderia ter saído à caça de estrelas, ao sair graduado em literatura da Universidade de Bolonha – a mais antiga do mundo –, em 1943. Hoje, um Pasolini é absolutamente impensável. Seria alguma espécie de OIVNI (Objeto Intelectual Voador Não Identificado). O intelectual total – poeta, dramaturgo, pintor, músico, autor de ficção, teórico da literatura, cineasta e analista político.

Para italianos cultos, foi essencialmente poeta (o que, há algumas décadas, era imenso elogio...) Em sua obra-prima Ceneri di Gramsci (1952) [Cinzas de Gramsci], [1] Pasolini traça notável paralelo, em termos de ânsia por um ideal heroico, entre Gramsci e Shelley – que estão enterrados no mesmo cemitério em Roma. Justiça poética. [2]

Então saltou sem dificuldade, da palavra à imagem. O jovem Martin Scorsese ficou embasbacado quando assistiu pela primeira vez a Accattone (1961); para nem falar do jovem Bernardo Bertolucci, que aprendia ao vivo, como cameraman de Pasolini. No mínimo, não haveria Scorsese, Bertolucci, ou, para não parar por aí, Fassbinder, Abel Ferrara e incontáveis outros, sem Pasolini.

E especialmente hoje, quando flanamos 24 horas/dia, sete dias por semana, em nossa medíocre Feira da Vaidade, é impossível não simpatizar com o método de Pasolini – que muda de direção, de crítica ácida (sulfúrica) da burguesia (como em Teorema e Porcile [Pocilga]), para buscar refúgio nos clássicos (sua fase das tragédias gregas) e nos medievais, fascinantes, da “Trilogia da Vida” – adaptações do Decameron (1971), Contos de Canterbury (1972) e As Mil e Uma Noites (1974).

Teorema
Também não é surpresa que Pasolini decida sair da Itália decadente, corrupta, para filmar no Terceiro Mundo – na Cappadocia, Turquia, para Medea; e no Iêmem para As Mil e Uma Noites. Bertolucci adiante faria o mesmo, filmando no Marrocos (O céu que nos protege), no Nepal (seu épico Buda) e na China (O último imperador), seu formidável triunfo holliwoodiano.

E então veio o inclassificável Salo, ou Os 120 Dias de Sodoma, último filme de Pasolini, torturado, devastador, distribuído apenas uns poucos meses depois do assassinato, proibido durante anos em vários países e impiedoso, ao extrapolar para muito além o flerte da Itália (e da cultura ocidental) com o fascismo.

Entre 1973 e 1975, Pasolini escreveu várias colunas para o Corriere della Sera, jornal de Milão, publicados como Scritti Corsari em 1975 e depois como Lettere luterane, postumamente, em 1976. [3] O tema que engloba tudo é a “mutação antropológica” da Itália moderna, que também pode ser lido como um microcosmo para todo o ocidente.

Sou de uma geração em que muitos eram enlouquecidamente apaixonados por Pasolini na tela e no papel. À época, era claro que aquelas colunas eram os RPGs [Role Playing Games] de um intelectual extremamente arguto – mas supremamente solitário. Relidas hoje, soam nada menos que proféticas.

Porcile (Pocilga)
Examinando a dicotomia entre rapazes burgueses e rapazes proletários – como Itália do Norte vs Itália do Sul – Pasolini descobre nada menos que uma nova categoria, “difícil de descrever (porque ninguém descreveu antes)” e para a qual ele não tinha “precedentes linguísticos e terminológicos”. E há os “destinados à morte”. Um desses, pode ter vindo a ser seu assassino em Idroscalo.

Como Pasolini argumentou, os novos espécimes eram aqueles que, até meados dos 1950s teriam sido vítimas da mortalidade infantil. A ciência interveio e salvou-os da morte física. São portanto sobreviventes “e na vida deles há algo de contra natura”. Portanto, Pasolini argumentava, filhos nascidos hoje não não, a priori, “abençoados”; os que nascem “em excesso” são definitivamente “não abençoados”.

Em resumo, era Pasolini presa de um sentimento de não ser realmente bem-vindo, e, mesmo, até, de ser culpado; a nova geração era “infinitamente mais frágil, embrutecida, triste, pálida e doentia que todas as gerações precedentes”. São depressivos ou agressivos. E “nada pode cancelar a sombra que uma anormalidade desconhecida projeta sobre a vida deles”. Hoje, essa interpretação pode facilmente explicar o jovem islamista, alienado, nascido em fronteiras que ninguém vê, e que cruza aquelas fronteiras para unir-se a qualquer jihad, em desespero.

Salo ou 120 dias de Sodoma
Ao mesmo tempo, segundo Pasolini, esse sentimento inconsciente de ser fundamentalmente descartável alimenta “os destinados à morte” em sua ânsia por normalidade, pela “total adesão, sem reservas, à horda, o desejo de não parecer distinto ou diverso.” E eles “mostram como viver agressivamente o conformismo”. Ensinam “a renunciar”, uma “tendência para a infelicidade”, a “retórica da feiúra” e a brutalidade. E os feios e brutos tornam-se expoentes, campeões da moda e do comportamento (como se Pasolini já antevisse os punks ingleses, em 1976).

O autodescrito “velho burguês racionalista, idealista” foi muito além dessas reflexões sobre a geração “não há futuro para vocês”. Pasolini anteviu, dentre outros desastres, a destruição urbana da Itália, a responsabilidade pela “degradação antropológica” dos italianos, a condição terrível dos hospitais, escolas e da infraestrutura pública, a selvagem explosão da cultura de massa e da imprensa de massa, a “estupidez delinquente” da televisão, a “carga imoral” dos que governaram a Itália de 1945 a 1975 – isto é, a Democracia Cristã apoiada pelos EUA.

Guy Debord
Ele flagrou com destreza o “cinismo da nova revolução capitalista – a primeira real revolução de direita”. Essa revolução, disse ele, “de um ponto de vista antropológico – em termos da fundação de uma nova “cultura” – implica homens sem vínculo com o passado, vivendo em “imponderabilidade”. Assim, a única expectativa existencial possível é consumir e satisfazer seus impulsos hedonistas”. Aqui, é a crítica feroz de Guy Debord à “sociedade do espetáculo” expandida para o horizonte cultural de “o sonho acabou” dos anos 1970s.

No momento em que foi escrito, tudo isso era pensamento radiativo. Pasolini não carregava prisioneiros; se o consumo arrancara a Itália da miséria, “para gratificá-la com algum bem-estar” e alguma cultura não popular, o resultado humilhante foi alcançado “com mimar a pequena burguesia, com escola obrigatória e com televisão delinquente”. Pasolini costumava zombar da burguesia italiana, “a mais ignorante de toda a Europa” (nisso, se enganou: a burguesia espanhola é imbatível).

Assim brotou um novo modo de produção de cultura – construída sobre “o genocídio das culturas precedentes” – e uma nova espécie de burguês. Ah, se Pasolini tivesse sobrevivido para vê-lo em cena em uniforme completo, como Homo Berlusconis!

A Grande Beleza já era!  

Agora, o coração consumista das trevas – “o horror, o horror” – profetizado e detalhado por Pasolini já em meados dos anos 1970s acaba de aparecer exposto em toda sua miserável purpurina por um cineasta italiano de Nápoles, Paolo Sorrentino, nascido quando Pasolini, para nem falar de Fellini, já estavam no auge da potência. La Grande Bellezza (A Grande Beleza) – que acaba de vencer o Golden Globes como Melhor Filme Estrangeiro e provavelmente também ficará com um Óscar – seria inconcebível sem La Dolce Vita de Fellini (do qual é coda não assumida) e a crítica de Pasolini à “nova Itália”.

Pasolini e Fellini, aliás, ambos são ramos brotados numa fabulosa tradição intelectual na Emilia-Romagna (Pasolini, de Bolonha; Fellini, de Rimini; Bertolucci, de Parma). No início dos anos 1960s, Fellini dizia ao amigo e ainda aprendiz Pasolini, que ele, Fellini, não era equipado para o criticismo. Fellini era sempre emoção pura; Pasolini – e Bertolucci – eram emoção modulada pelo intelecto.


Cena de "A Grande Beleza" de Paolo Sorrentino
O surpreendente filme de Sorrentino – corrida vertiginosa sobre os galhos da Itália de Berlusconi – é La Dolce Vita que acabou horrivelmente azeda. Impossível não sentir empatia com ‘'Marcello'’ (Mastroianni), chegando aos 65 anos (representado pelo agradável Toni Servillo), padecendo de bloqueio de escritor, ao mesmo tempo em que surfa a própria reputação de rei da vida noturna em Roma. Como o grande Ezra Pound – que amava profundamente a Itália – também profetizou – uma torpeza barata de liquidação acabou por durar até nossos dias, convertida em insipidismo berlusconiano no qual – segundo um personagem – todos “esqueceram tudo sobre cultura e arte” e o ex-ápice da civilização terminou conhecido só por “moda e pizza".

Pasolini nos falava exatamente sobre isso há quase 40 anos – antes que uma fantasmagórica, macabra manifestação dessa mesma mediocridade o tivesse silenciado. Sua morte demonstrou afinal – avant la lettre – o seu teorema; sempre esteve, desgraçadamente, mortalmente certo.



Notas dos tradutores

[1] PASOLINI , Pier Paolo. Le ceneri di Gramsci. Milano: Garzanti, 1957. 249 p.. Há traduções de alguns poemas em Le ceneri di Gramsci, Poemas I e Le ceneri di Gramsci IV - Porto: Assírio & Alvin, 2005. Trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo no blog Canal da Poesia.

[2] De fato, estiveram bem separados nos cemitérios, por muito tempo. Gramsci foi enterrado, primeiro, no Cemitério Campo Verano, antes de suas cinzas serem trazidas para o Cemitério de Não Católicos de Roma, onde estão hoje, como Shelley e Keats. Foi a cunhada de Gramsci (Tatiana Schucht, cidadã russa e não católica, e quem cuidou de Gramcsi durante os anos de cárcere em Roma) quem fez a transferência das cinzas para onde estão hoje. Caso talvez mais de amor, que de justiça, poética ou qualquer outra. A história está contada em detalhes em:  “Gramsci’s grave and Pasolini”, onde também aprendemos que no túmulo de Gramsci há a inscrição “Cinera Antonii Gramscii”, “cinzas de Antonio Gramsci”, que Pasolini usaria para título de seu poema. A internet é totalmente O MÁXIMO.

[3] PASOLINI, Pier Paolo, “Escritos Corsários e Cartas Luteranas”, Porto: Assírio & Alvim,2006, 174 pp.
___________________

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política do blog Tom Dispatch e correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
- Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.


segunda-feira, 28 de abril de 2014

Hollywood: Instrumento para a desumanização de um povo

 

buscado no Burgos




Texto de  josespa1· no You Tube

 Neste documentário (Reel Bad Arabs: How Hollywood vilifies a people) podemos constatar muitos exemplos cinematográficos da divulgação dos preconceitos raciais eurocêntricos muito bem estudados pelo saudoso e brilhante intelectual Edward Said em seu consagrado livro Orientalismo (Orientalism).

Podemos ver como, através de inúmeras cenas e situações premeditadas por cineastas de Hollywood, os árabes de maneira geral, e os palestinos em particular, são retratados como um povo perverso, ganancioso, inescrupuloso e, ainda por cima, idiota.

Este intenso trabalho ideológico de demonização racial está presente em todos os tipos de filmes produzidos em Hollywood, dos dramas de guerra às comédias, e até mesmo nos supostamente "inocentes" desenhos animados de Walt Disney.

Essa constante martelação de estereótipos racistas contra os árabes se intensificou enormemente a partir do surgimento do conflito Israel x Povo Palestino, devido à ocupação do território milenar do povo palestino e sua consequente expulsão e espoliação por parte dos colonos sionistas europeus. Nesta questão, Hollywood tomou decididamente partido a favor do sionismo israelense e se tornou um baluarte na campanha de difamação a nível mundial do povo palestino.

Vale a pena prestar muita atenção aos vários fragmentos de filmes que o autor analisa neste documentário. Foram todos extraídos de obras que tiveram grande divulgação por toda parte e, consequentemente, responsáveis em boa medida pela sedimentação da visão racista antiárabe presente em milhões e milhões de pessoas em nosso planeta./


sábado, 6 de abril de 2013

Reflexões sobre a CRUZ a partir de SPARTACUS, de Stanley KUBRICK (1960)











S P A R T A C U S
 de STANLEY KUBRICK (1960)







Um dos méritos maiores de Spartacus, a história de um homem que lutou pelo fim da escravidão 2.000 anos antes dela ser abolida de fato, está na capacidade do filme de imergir o espectador em um período histórico anterior ao surgimento do Cristianismo, dando-nos vislumbres dos horrores vigentes na realidade sócio-política desta época. 



No século que antecedeu o nascimento de um certo profeta hebreu de Nazaré, o Império Romano possuía na crucificação seu principal instrumento de pena capital: Jesus, longe de ser uma exceção, padeceu na cruz um destino semelhante ao de milhares de pessoas assassinadas através deste método horrendo pelas elites romanas. Donde a perplexidade que muitos manifestam diante da idolatria católica da cruz, que vista sob uma perspectiva histórica, sem adornos mitológicos, não passa de um instrumento sinistro de tortura e assassinato. 



É o que Richard Dawkins nota ao sugerir uma comparação insólita: ostentar um crucifixo equivale a andar por aí com uma cadeira-elétrica em miniatura dependurada no corpo. Símbolo sinistro de uma religião fundada no martírio de seu profera, e que não cessou de idolatrar, história afora, um instrumento do suplício, como se convidasse os devotos a imitarem a tortura crística, pregando-se em vida numa cruz ou trotando pela Terra com um fardo auto-imposto sobre o lombo - como aqueles camelos sobrecarregados e miseráveis de que fala Zaratustra...



Na época que o filme de Kubrick retrata, onde ainda não havia sido inventado o calendário que rachou a História em um antes e um depois de Cristo, testemunhamos uma luta de classes das mais encarniçadas: de um lado, a aristocracia imperial romana, que tem como divertimento predileto a sanguinolência dos espetáculos de gladiadores, onde dois escravos são obrigados a lutar até que um deles assassine o outro; de outro, uma massa imensa de despossuídos e explorados, coagidos pela força militar e policial do Império ao trabalho extenuante, e alguns deles obrigados a servir de bonecos-de-carne nas grotescas cerimônias digladiantes. 



Quando Walter Benjamin afirma que "todo monumento da civilização é um monumento da barbárie", provavelmente se refere a esta vergonhosa realidade do mundo greco-romano: todas as elevadíssimas e grandiosas conquistas culturais, todas as estátuas lindamente esculpidas e edifícios belamente arquitetados, tinham como base um sistema econômico escravista, defendido desavergonhadamente pelas elites, inclusive pelos filósofos, poetas e literatos da gloriosa Grécia. O próprio Platão era dono de escravos e Aristóteles, preceptor de Alexandre, já inicia seu livro dedicado à Política em um tom escravocrata (e machista) explícito capaz de enojar o leitor contemporâneo...



"Alguns seres, ao nascer, se veem destinados a obedecer; outros, a mandar. (...) O macho é mais perfeito e governa; a fêmea o é menos, e obedece. (...) Há na espécie humana indivíduos tão inferiores a outros como o corpo o é em relação à alma, ou a fera ao homem; são os homens no qual o emprego da força física é o melhor que deles se obtém. Partindo dos nossos princípios, tais indivíduos são destinados, por natureza, à escravidão; porque, para eles, nada é mais fácil do que obedecer. (...) A utilidade dos escravos é mais ou menos a mesma dos animais domésticos: ajudam-nos com sua força física em nossas necessidades cotidianas. (...) O escravo é completamente privado da faculdade de querer; a mulher a tem, mas fraca; a do filho é incompleta..." (ARISTÓTELES, Política, Trad. Nestor Silveira Chaves. Ed. Saraiva de Bolso, Livro I, Capítulo 2 e 4, pgs. 26, 27 e 42).



Esta defesa aristotélica da escravidão, que soa tão nauseante a nossos ouvidos, só torna ainda mais significativa a atitude de Spartacus - ele que, se pudesse, decerto cuspiria no rosto do filósofo e lançaria seus livros ao fogo. O levante de escravos, liderado por Spartacus, é uma tentativa desesperada de romper radicalmente com estes grilhões da servidão imposta de cima pela força bruta dos senhores. Após uma rebelião penitenciária, Spartacus e seus asseclas libertam-se da escola de gladiadores onde haviam sido encerrados e partem pelo território italiano, libertando pelo caminho todos os escravos que encontram e pilhando as riquezas dos senhores. Tudo o que querem é atravessar o território da Itália até o mar e fugir para longe da degradante e tenebrosa condição de escravidão. 



Em uma das cenas mais belas do filme, Spartacus e sua amada Varínia saboreiam com deleite as sensações, para eles frescas e inéditas, da liberdade. Celebram o fato de que agora não estão acorrentados e que ninguém pode comprá-los ou vendê-los. Spartacus estoura numa gargalhada gostosa ao ouvir o relato da fuga de Varínia, que saiu correndo de seu senhor ao notar que ele era pançudinho demais para poder alcançá-la...



Deitados na relva, à luz do luar, discutem seus desejos para o futuro, e Spartacus, homem capaz de se enternecer com a poesia e de declarar seus amores com arroubos sentimentais, revela seu intenso desejo de conhecimento. Pois a escravidão é algo que segrega o sujeito de tudo, de todos os direitos, inclusive o privando de acesso ao mundo da cultura, fazendo da possibilidade de educar-se um privilégio das elites. Spartacus, analfabeto cheio de uma sabedoria que não se aprende nos livros, inculto mas sequioso de sapiência, manifesta seu desprezo pela sina de lutador e diz desejar "saber tudo":

"Who wants to fight? And animal can learn to fight! But to sing beautiful things, and make people believe them.... Hmmm! I'm free. But what do I know? I don't even know how to read. I know nothing. Nothing! I wanna know. I wanna know everything. Why a star falls and a bird doesn't. Where the Sun goes at night. Why the Moon changes shape. I wanna know where the wind comes from..."


Mas o filme de Kubrick, baseado no livro de Howard Fast e fiel aos fatos históricos, está longe de ser otimista. A força militar das legiões a serviço do Império Romano é brutalmente superior ao exército improvisado que Spartacus lidera. Roma reina pela força, não pelo direito. Roma não conhece o diálogo democrático, a negociação diplomática. Roma não cede em sua posição de senhora absoluta sobre as vidas daqueles que ela se dá o direito de tratar como coisas. O preço que irão pagar aqueles que se insurgiram contra a águia imperial será altíssimo - e o espectador que testemunha a carnificina sai do filme levando uma memória indelével de uma pilha de cadáveres que preenche o campo de batalha...



Em sua instigante análise na Genealogia da Moral, Nietzsche avança a tese de que o cristianismo representa um "levante de escravos na moral". Parece-me bem interessante refletir sobre isso à luz do destino de Spartacus e seus asseclas. Estes, longe de tentarem um levante restrito ao domínio da moralidade, insurgem-se de modo muito mais literal e concreto: querem romper as grades de ferro que os encerram como animais na jaula. Que um elemento de indignação moral se mescle a este intento inssurrecional, não duvido: Spartacus e seus companheiros sentem na pele o quão indigno é a sina que lhes é imposta, o quão horrível é ser tratado como mercadoria, o quão insuportável é trabalhar debaixo do chicote, em jornadas estafantes, para gerar riquezas que serão gozadas pelos outros. 



O filme de Kubrick é notavelmente materialista, sem nenhuma intervenção divina ou interpretação mitológica: estamos diante de uma luta de classes e as questões de moralidade estão necessariamente conectadas com a realidade econômica e política desta sociedade escravocrata. O cristianismo, na leitura nietzschiana, não é um levante de escravos deste tipo spartacusiano, mas sim um momento na história em que "o ressentimento torna-se criador de valores". Em outras palavras: as populações que estavam sendo pisoteadas e oprimidas pelo poderio do Império Romano, em sua impotência para reagir e revolucionar a realidade concreta, inverteram a valoração característica da nobreza romana. Esta transvaloração dos valores realizada pela moral judaico-cristã equivale a uma consolação que se oferece aos fracos e oprimidos.



Mas notem bem: o cristianismo, ao contrário de Spartacus, não prega que os escravos peguem em armas e se levantem para guerrear contra seus senhores; o cristianismo é uma doutrina que fabrica a noção de Reino dos Céus e promete para um futuro post-mortem uma inversão da hierarquia terrestre.  Aqueles que são hoje pisoteados, explorados, feridos, mutilados, depois de morrerem serão recompensados por uma divindade benfazeja. Spartacus, ao invés de se inebriar com a esperança de ser salvo por potências superiores em um futuro distante, toma o seu destino nas próprias mãos no presente - seu levante é concreto. O cristianismo, ao contrário, religião da fé e da esperança, prega a resignação e o fatalismo - carregar a cruz rezando pais-nossos e aves-marias - e adia o dia da redenção para uma suposta transcendência. Ora, para Nietzsche, e decerto que também para Marx, esta transcendência é um embuste, esta recompensa post-mortem uma ilusão e esta fé apenas um ópio. 



É o que torna o cristianismo uma religião escrava do Imaginário e incapaz de revolucionar a realidade terráquea. Ao invés de quebrar todas as correntes que aprisionam o homem, o cristianismo permite que o homem permaneça acorrentado, ao mesmo tempo que promete para depois a libertação. É o que torna o cristianismo uma religião que idolatra a morte e o que explica seu caráter tão fúnebre e soturno:  aqueles que enxergam na morte uma porta que se abre para uma existência venturosa acabam se apaixonando por Tânatos. O desejo passa a se exilar da realidade terrestre e voejar pelos domínios imaginários do "Paraíso", do "Juízo Final", da "Redenção", conceitos que Nietzsche afirma no Anticristo "não terem nenhum ponto de contato com a realidade". 



 
Spartacus explicita que a cruz, na história, é instrumento de tortura e assassinato: por que idolatrar este horror? Se os cristãos puderam transformar este tenebroso instrumento de supliciamento em objeto de culto, talvez isto se deva somente à fé que têm na Ressurreição de Jesus. Eis uma religião que diz a todos os crucificados que, um dia, no além-túmulo, serão recompensados por seus sofrimentos. 



O que vale a pena questionar, como vêm fazendo por milênios um número infindável de ateus, agnósticos, céticos e livres-pensadores, é se esta dimensão transcendente, este além-túmulo redentor, é de fato uma realidade ou não passa de uma ilusão. É possível que a morte seja uma porta que se fecha, e não um portal que se abre para a glória celeste. É possível que não haja nenhum "fantasminha" imortal chamado "alma" que vá voejar para fora do cadáver que apodrece e subir aos céus. É possível que o cristianismo inteiro esteja construído sobre uma esperança falsa e que, como diz Nietzsche, que "o próprio Deus se revele como a nossa mais longa mentira." (A Gaia Ciência) 



O cristianismo, aliás, como sabemos, não soube, não quis ou não pôde abolir a escravidão. Nós, latino-americanos, o sabemos muito bem! Depois de 1.500 anos de cristianismo, nosso continente foi invadido pelos conquistadores da Espanha e de Portugal, monarquias católicas que não tiveram pudores em escravizar milhões de índios e negros, com a desculpa de que não eram gente mas bestas-sem-alma. Em As Veias Abertas da América Latina, Eduardo Galeano relembra-nos no que se transformou a cruz nesta época:



"O ano de 1492 não foi apenas o do descobrimento da América, o novo mundo nascido daquele equívoco de grandiosas consequências (Colombo morreu convencido de que havia alcançado a Ásia pelas costas). Foi também o ano da recuperação de Granada, o último reduto da religião muçulmana em solo espanhol. Esta era uma guerra santa, a guerra cristã contra o Islã, e não é casual, de resto, que no mesmo ano de 1492, 150 mil judeus declarados tenham sido expulsos do país. A Espanha adquiria realidade como nação erguendo espadas cujas empunhaduras traziam o signo da cruz. 

A rainha Isabel fez-se madrinha da Santa Inquisição. A façanha do descobrimento da América não poderia se explicar sem a tradição militar da guerra das cruzadas que imperava na Castela medieval, e a Igreja não se fez de rogada para atribuir caráter sagrado à conquista de terras incógnitas do outro lado do mar. O papa Alexandre VI converteu a rainha Isabel em dona e senhora do Novo Mundo. A expansão do reino de Castela ampliava o reino de Deus sobre a Terra. Três anos após o descobrimento, Colombo, pessoalmente, comandou uma campanha militar contra os indígenas da Dominicana. Os espanhóis dizimaram os índios. Mais de 500 deles, enviados para a Espanha, foram vendidos como escravos…" (Pg. 30-31)

A cruz, que antes de Cristo matou milhares e milhares de pessoas como um instrumento do Império Romano para a pena capital, depois de Cristo vai parar nas empunhaduras das espadas que lutaram nas  carnificinas das Cruzadas e que subjugaram o continente que os conquistadores batizariam - em homenagem a um europeu! - de "América". Encontrando por aqui nativos que nada sabiam sobre o cristianismo, que jamais haviam lido a Bíblia e nunca tinham ouvido falar em Jesus Cristo, os católicos europeus, a partir de 1492, se auto-proclamaram aqueles que estavam destinados por missão divina a livrar estas terras do paganismo e da idolatria, ilustrando os "selvagens" na "verdadeira fé". Galeano, novamente: 

"A América era uma vasto império do Diabo, de redenção impossível ou duvidosa, mas a fanática missão contra a heresia dos nativos se confundia com a febre que, nas hostes da conquista, era causada pelo brilho dos tesouros do Novo Mundo. (...) Entre 1503 e 1660, desembarcaram no porto de Sevilha 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata. A prata levada para a Espanha em pouco mais de um século e meio excedia três vezes o total das reservas europeias. E essas cifras não incluem o contrabando. Com base em dados fornecidos por Alexander von Humboldt, estimou-se em 5 bilhões de dólares atuais a magnitude do excedente econômico evadido do México entre 1760 e 1809, apenas meio século, através das exportações de prata e ouro. Os metais arrebatados aos novos domínios coloniais estimularam o desenvolvimento europeu e até se pode dizer que o tornaram possível… formidável contribuição da América para o progresso alheio. No primeiro tomo de O Capital, Karl Marx escreve: ‘o descobrimento das jazidas de ouro e prata da América, a cruzada de extermínio, a conversão do continente africano em campo de caça aos escravos negros: são todos fatos que assinalam a alvorada da era da produção capitalista.’ O saque foi o meio mais importante de acumulação primitiva de capitais. (…) Essa gigantesca massa de capitais deu um grande impulso à revolução industrial…” (pg. 51)



 
Logo nas primeiras cenas de Spartacus, o narrador nos informa que este escravo rebelde sonhou com o fim da escravidão 2.000 anos antes dela acabar de fato. Seu fracasso não faz com que seu exemplo seja menos comovente, mas sublinha o quão cruel e tenebrosa pode ser a História humana. O cristianismo, surgido no Oriente Médio sob jugo romano algumas décadas depois da crucificação em massa dos escravos spartacusianos em levante, não revolucionou a realidade, mas somente disseminou esperanças de uma transcendência onde os sofrimentos seriam recompensados e onde os cruéis senhores arderiam no Inferno. 



Esta solução meramente imaginária mostrou toda a sua ineficácia: a escravidão sobreviveu até o século XIX e XX, e muitas vezes praticada pelos próprios cristãos! O que justifica este sentimento visceral de náusea e desgosto que sinto diante de toda e qualquer idolatria da cruz, esta horrenda máquina da morte que, através da História, não foi senão instrumento de genocídio e opressão. Nós, latino-americanos, que por milênios tivemos a sorte de não conhecermos a Cruz e seus idólatras, enfim tivemos a infelicidade de, a partir de 1492, sermos invadidos por estes vândalos europeus, loucos por ouro e famintos por conversões, e que foram capazes de alguns dos crimes mais imensos de que se tem notícia em todo o desenrolar da aventura humana:


"A violenta maré de cobiça, horror e bravura não se abateu sobre essas comarcas senão ao preço do genocídio nativo: atribui-se ao México pré-colombiano uma população entre 25 e 30 milhões, e se calcula que havia uma número parecido de índios na região andina; na América Central e nas Antilhas, entre 10 e 13 milhões de habitantes. Os índios das Américas somavam não menos do que 70 milhões, ou talvez mais, quando os conquistadores estrangeiros apareceram no horizonte; um século e meio depois, estavam reduzidos tão só a 3,5 milhões.” 
(GALEANO: pg. 64)





quinta-feira, 7 de março de 2013


buscado no Cappacete 

selton-melo-filme-palhaco
Cadê o cinema brasileiro? 

Num cenário global marcado por novo avanço dos blockbusters norte-americanos, bilheteria de filmes nacionais patina e desperta debate sobre formas mais inteligentes de incentivo

Por Maria do Rosário Caetano, no Brasil de Fato

Só 10% dos 146 milhões de ingressos vendidos nas 2.500 salas de cinema do país, ao longo de 2012, foram destina­dos a filmes nacionais. Já o cinema vin­do dos EUA vendeu, aqui, 120 milhões de ingressos. O restante coube a filmes de outras nacionalidades (europeus, asi­áticos e latino-americanos).
O dado é alarmante. No primeiro ano da Era Lula, marcado pela esperança em um novo tempo para o audiovisual brasi­leiro, 22% dos ingressos vendidos no país destinaram-se a filmes nacionais. Um de­les, que alcançou grande êxito, foi Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. Houve quem, em clima de otimismo, acreditas­se que o cinema brasileiro deixaria de ser um estranho em seu próprio mercado. E sonhou-se, até, com desempenho similar ao dos anos de 1970, quando mais de um terço dos ingressos vendidos no país des­tinavam-se a filmes nacionais.
Houve outro ano (2011) em que a taxa de ocupação não foi desanimadora: 19%. Este desempenho se deu quando Tropa de Elite 2 vendeu mais de 11 milhões de ingressos e tornou-se a “maior bilheteria do cinema nacional” (desbancando Do­na Flor e Seus Dois Maridos, que ven­dera 10,9 millhões de tíquetes em 1976). Não é saudável que um único título res­ponda pelo bom desempenho das bilhe­terias de um país. Quanto mais diversifi­cada for a carteira de um centro de pro­dução audiovisual, melhor.
Fora os anos de 2003 e 2011, os demais foram preocupantes, pois variaram – como mostra o Boletim Filme B – entre 8% (2002) e 14,2%(2009). Com o aumento das salas de cinema e o crescimento do público cinematográfico (maior a cada novo ano), as estatísticas mostram que  o cinema estadunidense, como de cos­tume, continua concentrando lucros ca­da vez maiores. Fora a Índia (que de­tém mais de 80% do mercado interno) e a França, que chega a empatar com os EUA em número de ingressos (45% para os filmes franceses, incluindo os da Áfri­ca francófona; 45% para os oriundos dos EUA; e os 10% restantes para o cinema asiático e latino-americano). Até a Chi­na, que controla a entrada de títulos es­tadunidenses (20 por ano) está perden­do terreno. Os blockbusters made in USA estão atraindo mais espectadores que a prolífica produção made in China.
O Brasil lançou, ano passado, 83 lon­gas-metragens. Destes, apenas cinco ultrapassaram a barreira do milhão de in­gressos. Quatro são as comédias: Até que a Sorte nos Separe, E Aí…Comeu?, Os Penetras e De Pernas pro Ar 2 (este alcançou ótima arrancada com 1 milhão de ingressos nos dez últimos dias do ano passado, mas a maior parte de seu público será computada neste primeiro tri­mestre de 2013). Só um drama – Gonza­ga, de pai pra filho – conseguiu romper a difícil barreira do milhão (1,5 milhão de tíquetes).
Que brasileiro gosta de comédia, não há dúvida. O sucesso das chanchadas nos anos 1940/50, o êxito das comé­dias caipiras de Mazzaropi (nos anos de 1960/70) e o triunfo arrebatador das co­médias infanto-juvenis dos Trapalhões são provas mais que suficientes. Mas ne­nhuma cinematografia vai bem se culti­va um só gênero.
A hegemonia dos EUA, que é planetá­ria, se deve à capacidade do país em pro­duzir filmes de todos os gêneros (sem descuidar do público infantojuvenil), em escala industrial, com altíssimos in­vestimentos em propaganda, escala­ção de atores e diretores conhecidos no mundo inteiro e contando, ainda, com a mais poderosa máquina de distribuição já montada pela centenária indústria do audiovisual.

Apoio do Estado
Todo país tem direito a gerar suas pró­prias imagens. Seja o pequenino Uruguai (com pouco mais de 3 milhões de habitantes), seja a Índia ou a China (ambos países com mais de um bilhão de pessoas cada um). O Brasil, um país de quase 200 milhões de habitantes, tem lutado, há mais de um século, pelo fortalecimento de sua indústria audiovisual. Mas as dificuldades parecem não ter fim.
O cinema brasileiro – tanto o de empe­nho artístico-cultural, quanto o “comer­cial” – vive de subsídios governamen­tais. Ou seja, de leis do mecenato. Como aqui o empresariado não tem hábito de incentivar a produção de bens culturais (quando o faz, quer – além de altos des­contos de impostos – farta publicidade em forma de merchandising ou difusão de sua logomarca), quem acaba bancan­do o grosso da produção são empresas ou bancos estatais (Petrobras, Eletrobrás, Banco do Brasil, CEF, Chesf, BN­DES, Banco do Nordeste, etc). Em troca de apoio financeiro, as estatais e as em­presas privadas (quando estas investem nos filmes) exigem que suas marcas apa­reçam com destaque nos letreiros, fato que se tornou motivo, em festivais internacionais, de chacota. Tantas são as lo­gomarcas que cansativamente antece­dem o início da narrativa.

Luta desigual
No final dos 1990, Walter Salles, que viu o drama Central do Brasil vender mais 1,5 milhão de ingressos (depois de ganhar o Urso de Ouro, no Festival de Berlim, e concorrer a dois Oscar), espe­rava que chegássemos ao século 21 com pelo menos 25% do mercado interno. E que este número crescesse a cada ano. O cineasta até sugeriu que nossos legisla­dores estudassem a taxação do filme es­trangeiro lançado com mais de 500 có­pias (hoje, há blockbuster estadunidense lançado, aqui, com 1.200 cópias). Os recursos auferidos com a taxação se­riam reinvestidos na produção audiovi­sual brasileira. A ideia não foi adiante no parlamento, nem encontrou defensores no governo FHC, nem no governo Lula, nem no governo Dilma.
Para abrandar a difícil relação da TV com o cinema brasileiro, o Congres­so Nacional aprovou a Lei do Cabo (Lei 12.485, em vigor há quatro meses), que exige a exibição de 2 horas e 20 minutos semanais de produção brasileira em ho­rário nobre. Isto nos canais por assina­tura e num primeiro momento. Depois deste período de adaptação, o tempo su­birá para quase três horas e 30 minu­tos semanais. O que, convenhamos, não é muito, se levarmos em conta que ca­da canal emite mais de 160 horas de pro­gramação por semana. Na maioria abso­luta das telinhas, 95% dos filmes e programas exibidos têm os EUA como ori­gem.



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Como fazer fortuna roubando dos outros: os piratas de Hollywood

buscado no baixa cultura 

 


Olhe bem pra essa foto p&b com esses senhores sisudos e bem vestidos. São integrantes da Motion Picture Patents Company, o primeiro grande truste de estúdios de cinema dos Estados Unidos. Entre as nobres figuras está Thomas Edison, empresário/inventor de mais de 2 mil patentes. Data: 1908.

Um ano antes, Thomas Edison – que mais do que inventor, foi um patenteador – tinha ganho na corte dos EUA o  monopólio de exploração de uma novidade tecnológica: o cinetógrafo, na época a primeira câmera de cinema bem-sucedida. Esse monopólio significava que qualquer câmera de cinema igual ao cinetógrafo que estivesse rodando nos Estados Unidos tinha que ter permissão do senhor Edison para funcionar.
Até então, o assédio de Edison sobre os fabricantes ou distribuidores “não autorizados” de sua máquina eram bem conhecidos. O apoio jurídico foi o que ele esperava para criar a MPPC, um cartel de patentes composto das principais empresas da película e fornecedores da época, principalmente de Nova York, a meca do cinema do cinema mudo do início do século.

Patente do cinetógrafo, por Edison

Como se esse tipo de controle não fosse suficiente, a MPPC fundou outra companhia, chamada “General Film Company“, cujo objetivo era adquirir todo o estoque de filmes do país e bloquear a importação de filmes estrangeiros. Em 1911, a General Film adquiriu 68 “sacos” de distribuição de filmes e negou a licença para outras 11, segundo informa este livro.
Foi o que bastou para uma das empresas afetadas se rebelar. A ”Greater New York Film Rental Company” optou por não vender nem aceitar o preço de Edison. O proprietário era um empresário de origem húngara que tinha começado no negócio em 1904, com a compra de uma empresa no Brooklyn por 1 600 dólares – e que, anos depois, seria dono de um império de 400 milhões de doletas. Seu nome era William Fox.

Adolph Zukor (Paramount), William Fox (Twenty Century Fox), Carl Laemmle (Universal), Samuel Goldwyn (MGM), William Wadsworth Hodkinson (Paramount)

Eufemismos

Desafiando Edison e seus amigos da MPPC, um grupo de donos de sala de cinema e produtores decidiu ignorar o monopólio e a lei. Ainda que a MPPC produzisse filmes num ritmo alucinante de um por semana em seus estúdios, Fox e seus comparsas achava que havia um mercado muito maior, para qual essa oferta não era suficiente.
Muitos desses empreendedores do cinema se chamavam de “independentes” para se diferenciar da turma de Edison. Mas estes claramente poderiam ser chamados de “ilegais”, ou “piratas”, ou “ladrões de propriedade intelectual”, segundo os parâmetros da época, porque não pagavam royalties pelas patentes nem pediam permissão para usar o invento dos outros. Ainda fabricavam equipamentos “ilegalmente” e mantinham uma rede de distribuição de filmes clandestina. Por conta da perseguição que sofriam, resolveram fugir de Nova York e da sanha gananciosa da turma de Edison.

Nasce Hollywood

Os exibidores, produtores e diretores “independentes” tinham por objetivo fugir da Big Apple e se estabelecer a uma distância razoável da cobrança de royalties dos advogados da MPPC. O lugar encontrado foi do outro lado do país, um subúrbio de 5000 habitantes chamado Hollywood, a 4500 km de NY – convenientemente próximo da fronteira com o México, caso precisassem fugir de novo.
O resto é conhecido. Longe da sanha patenteadora de Edison e da MPPC, o grupo de “independentes” fundou os principais estúdios de cinema dos Estados Unidos – Fox, Warner Brothers, Universal, Paramount, MGM. E os que se mantiveram sob a guarda da tecnologia de Edison morreram esquecidos com seus estúdios – “Biograph Studios”, “Essanay Film Manufacturing Company”, “Kalem Company”.
Este mesmo grupo de independentes que criou Hollywood está atualmente na linha de frente de outro grupo que você conhece muito bem, a Motion Picture Association of America (MPAA). Um século atrás eles fugiram para evitar pagar royalties para o “dono da propriedade intelectual” de câmera de cinema, inovação técnica que tinha permitido todo o seu negócio. Hoje, caçam “piratas” que ousam distribuir e usufruir de seus produtos sem autorização pela internet.
E a história se repete: novos empreendedores, agora do ciberespaço, fogem dos advogados de Hollywood para não pagar pelo conteúdo dos estúdios/gravadoras, ou distribuir estes mesmos produtos via P2P. Mas, depois de um século de globalização, parece que não há mais distância suficientemente segura, pelo menos não dentro da terra.


Paralelismos

Em 1920, quando a polícia dos EUA chegou ao Oeste para investigar as empresas instaladas em Hollywood, as patentes de Edison estavam por expirar. Isso porquê, naquela época, as patentes duravam 17 anos. Isso mesmo: 17 anos. O copyright do início do século passado (tanto nos EUA quanto em outros países) lidava com um período bem mais razoável do que os de agora: 14 anos desde a data de publicação. Hoje são absurdos 70 anos após a morte do autor para a obra entrar em domínio público. E pode ser mais, se o governo dos EUA ceder de novo a armadilha Disney.
Durante os anos de vigência das patentes de Edison, Hollywood ganhou fortunas “com o trabalho intelectual de outros” sem pagar um centavo de royalties. Um século depois, casos como o do Megaupload – em que Kim Dotcom ganha fortunas com publicidade em arquivos digitais –  servem também para dizer pra Hollywood o quanto eles estão perdendo dinheiro em caçar estes “piratas”, e não roubar seus modelos de negócio.
Outro paralelo entre os dois casos é a conclusão de “é fora do monopólio que se incentiva a inovação“. Assim como as start-ups inovadoras de hoje, que não raro exploram o mercado do cinema na rede desafiando o monopólio de Hollywood, a constatação dos “independentes” que fugiram de NY não foi só tecnológica, mas de mercado: encontraram formas de criar audiências para filmes mais sofisticados e longa-metragens, convertendo assim o cinema em algo massivo e rentável. Coisa que Edson e a MPPC não conseguiram fazer em Nova York.


O esquema produtivo de Hollywood

W. W. Hodkinson é conhecido como “o homem que inventou Hollywood“. Foi ele que organizou uma forma de comercialização vertical entre estúdios, produtores e exibidores que permitiu a produção de longa-metragens e a distribuição em larga escala. Potencializou também o marketing no cinema e implementou o sistema de promoção conhecido nos meios teatrais, o “star system”, em que um reduzido grupo de estrelas garantiam o êxito dos filmes.
Como outros, Hodkinson esteve com Edison na MPPC, mas teve resistência em aplicar suas ideias. Em 1912, estabeleceu contato com os “independentes”, em especial com Adolph Zukor, com quem fundaria em 1914 a Paramount Pictures.



Na clandestinidade

Carl Laemmle (na foto acima) foi outro dos personagens desta saga de renegados. Laemmle começou com um “nickelodeon“, como se chamavam os pequenos cinemas de bairro no início do século, mas logo cresceu e comprou uma distribuidora de filmes. Passou então a querer comercializar filmes estrangeiros, e aí a fúria do truste de Edison o impediu.
O caminho foi a clandestinidade: fundou a “Independent Moving Pictures”, que reuniu vários estúdios descontentes de Nova York, e teve em seu primeiro filme, ““Hiawatha” , de 1914,  um sucesso considerável na época.
Em um artigo do New York Times de 1912, Laemmle relatou alguns dos percalços para conseguir filmar “fora da lei”. A MPPC leu o texto e, em represália, entrou com uma representação contra o empresário, alegando que a máquina que usava para fazer filmes (acima) infringia as patentes da época. Foi o que bastou para Laemmle seguir para Hollywood e fundar a hoje poderosa Universal Pictures.

 
Mudanças de nome

Schmuel Gelbfisz é o último personagem dos “independentes” que destacamos aqui. De origem polonesa, Gelbfisz primeiramente emigrou para a Inglaterra e lá passou a se chamar “Samuel Goldfish”. Em 1898 chegou a Nova York e em 1913, junto com seu cunhado Jesse Lask (futuro co-fundador da Paramount), ingressou na produção de filmes. Assim como os outros, fugiu para Hollywood, onde esteve vinculado a Paramount durante alguns anos, até trocar de nome outra vez e, com ele, criar sua própria companhia: Samuel Goldwyn Pictures, que seria comprada pela Metro Pictures Corporation e passaria a se chamar “Metro-Goldwyn-Mayer” – a famosa MGM do leão que ruge.

Notas:1] Desnecessário dizer que “os independentes” em alguns anos se tornaram os grandes estúdios e um novo monopólio foi criado, que teve de ser desafiado na década de 1940 por gente como Orson Welles, Walt Disney ou Charles Chaplin, que formariam a United Artist… mas isso é outra história.
2] Texto traduzido/adaptado/remixado do Taringa. As fotos são de lá também, exceto Hollywood,  MGM, KIm Dotcom,