domingo, 3 de fevereiro de 2013

A SEMANA - SANTA MARIA, PINTA, NINA E RENAN


buscado no Gilson Sampaio 

 

Via Juntos Somos Mais Fortes



Laerte Braga

Formar um grupo com todos vestidos de camisa branca e ir para o estádio do Grêmio, Porto Alegre, não significa necessariamente solidariedade às vítimas do incêndio numa boate em Santa Maria. É explicitar o caráter hipócrita e espetaculoso da nossa sociedade gerida sob as bênçãos do capitalismo, dentre outras coisas, alvarás vencidos.
Na hora do gol a dor e a solidariedade vão para o espaço. É diferente do minuto de silêncio observado antes do início do jogo. São quinze segundos de glória ao aparecer na televisão, só isso.
Abu Oman foi sequestrado no centro da cidade de Milão, Itália e levado para o Egito. Seus sequestradores eram agentes da CIA (serviço secreto dos EUA) e cumpriam ordens diretas do diretor da agência naquele país. Um Tribunal de Milão condenou o chefe do escritório da CIA a nove anos de prisão, dois agentes a seis anos  e outros 22 agentes, além de um piloto da força aérea norte-americana foram condenados a seis anos de prisão.
São os verdadeiros terroristas . Todos fugiram para os EUA, nenhum está preso, mas se pisarem em território europeu terão que cumprir as penas. Agentes da MOSSAD, serviço secreto do Estado terrorista de Israel sequestram e matam em todo o mundo, inclusive no Brasil e os governos fecham os olhos. O Brasil inclusive. O Brasil inclusive, Lula em seu governo acendeu uma vela a Deus, ao dizer que apoiava a luta palestina e outra ao diabo ao assinar um tratado de livre comércio com Israel. Já são donos de boa parte dos negócios estratégicos do Brasil, inclusive o setor da indústria de armas.
O JORNAL NACIONAL perdeu sete pontos de audiência no mês de janeiro deste ano, em comparação com janeiro do ano passado. Aos poucos as pessoas vão percebendo o engodo do noticiário da GLOBO. Vale para toda a mídia de mercado.
É um dos porta-vozes da hipocrisia e da mentira no processo de transformação do ser humano em telespectador do BBB. Um dos temas mais debatidos na mídia de mercado nesta semana foi se determinada sister tinha pego ou não o pênis de um brother sob o edredon. O brother negou, a sister não disse nada e a dúvida faz parte do esquema de busca de audiência. Um profundo debate sobre o assunto foi travado entre “especialistas”. Pegou, ou não pegou that is the question.
Cristóvão Colombo chegou à América em três naus. Santa Maria, Pinta e Nina. Renan Calheiros, ex-ministro da Justiça do governo FHC, ex-ministro de Lula, ex-presidente do Senado. Renunciou por estar envolvido em várias irregularidades. foi de novo reconduzido à presidência da Câmara Alta e fala em força do poder Legislativo. Deve ser da impunidade.
Sarney, ao sair, deixar o cargo, falou em “Senado melhor”. Se for igual ao Maranhão está pior do que imaginávamos.
E foi defendido por Fernando Collor de Mello.
Acredito, piamente, que se reconhecido o crime organizado como um dos grandes negócios do País, concorrente sério de bancos, grandes empresas e latifúndios, modalidades de crimes legalizadas, assegurado um número de cadeiras através de acordo para PCC, Comando Vermelho, Terceiro Comando, etc, o tráfico de drogas deve sofrer sensível queda, ficar restrito a traficantes menores, pois todas as drogas estariam Câmara Alta.
Exemplo de dignidade e coragem veio da jornalista Hildegard Angel num ato contra o julgamento do “mentirão – expressão da jornalista -, na quarta-feira, na sede da ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Um pronunciamento pungente, forte, real, a exibir um Judiciário manipulador e fraco. Uma espécie de fala que não só tirou a venda do símbolo da justiça, mas deixou-a desnuda, inteiramente desnuda e com cara de Joaquim Barbosa.
Hildegard é um dos exemplos mais vivos de coragem e determinação no jornalismo brasileiro.
Um sinal que existe reação a Renan, a Joaquim Barbosa, a Gilmar Mendes, aos principais executivos dos donos do poder real no Brasil.
Aécio Neves, como sempre, no afã de ser presidente a qualquer custo e envolvido em maracutaias as mais variadas, fez questão de se manifestar contra o apoio de seu partido à candidatura de Renan Calheiros. Juntou dois ou três sicários do seu grupo e anunciou sua atitude de “bravura”. Não teve a mesma diante do bafômetro e nem com os mineiros. O estado de Minas é hoje massa falida depois de oito anos de seu desgoverno que Antônio Anastasia tenta consertar – sem êxito – a todo custo. E tanto é assim que a única empresa a reagir á decisão de diminuir os custos das tarifas de energia elétrica foi a CEMIG do governo de Minas.
Outro exemplo vem da Venezuela. Trabalhadores, estudantes, a imensa maioria dos venezuelanos reagem às tentativas de golpe de estado enquanto o presidente Hugo Chávez completa seu processo de recuperação de um câncer em Cuba. Os venezuelanos não aceitam a volta das quadrilhas que governaram o país até a primeira eleição de Chávez.
E como futebol no Brasil, cartolas, é um trem sério. Ricardo Teixeira volta a cena com a revelação de escândalos na escolha da sede da Copa do Mundo em 2018. Ele e uma turma grande, dentre os quais Michel Platini e o ex-presidente da França Nicolás Sarkozy foram propinados para dar o voto e o apoio ao Catar.
Na febre de fiscalizações de boates e clubes norturnos no Brasil inteiro depois da tragédia de Santa Maria – a tranca depois da casa arrombada – autoridades exibem ares de seriedade e tomam providências que são dever elementar, uma casa noturna em Juiz de Fora, MG, noticia que está em dia com toda a papelada, garante segurança e ainda tem música sertaneja. Azar deles e de quem gosta. E o tal do marketing em cima da dor, o capitalismo voraz nas suas várias dimensões, seja o aumento de lucros do BRADESCO, a casa noturna de Juiz de Fora, ou as casas noturnas de todo o País.
Cristóvão Colombo não tem nada a ver com isso. Nem o fato de uma de suas naus se chamar Santa Maria.



sábado, 2 de fevereiro de 2013

MINHA FALA NO ATO NA ABI PELA ANULAÇÃO DO JULGAMENTO DO MENSALÃO

 

 

buscado no blog  Hildegard Angel


Venho, como cidadã, como jornalista, que há mais de 40 anos milita na imprensa de meu país, e como vítima direta do Estado Brasileiro em seu último período de exceção, quando me roubou três familiares, manifestar publicamente minha indignação e sobretudo minha decepção, meu constrangimento, meu desconforto, minha tristeza, perante o lamentável espetáculo que nosso Supremo Tribunal Federal ofereceu ao país e ao mundo, durante o julgamento da Ação Penal 470, apelidada de Mensalão, que eu pessoalmente chamo de Mentirão.
Mentirão porque é mentirosa desde sua origem, já que ficou provada ser fantasiosa a acusação do delator Roberto Jefferson de que havia um pagamento mensal de 30 dinheiros, isto é, 30 mil reais, aos parlamentares, para votarem os projetos do governo.
Mentira confirmada por cálculos matemáticos, que demonstraram não haver correlação de datas entre os saques do dinheiro no caixa do Banco Rural com as votações em plenário das reformas da Previdência e Tributária, que aliás tiveram votação maciça dos partidos da oposição. Mentirão, sim!
Isso me envergonhou, me entristeceu profundamente, fazendo-me baixar o olhar a cada vez que via, no monitor de minha TV, aquele espetáculo de capas parecendo medievais que se moviam, não com a pretendida altivez, mas gerando, em mim, em vez de segurança, temor, consternação, inspirando poder sem limite e até certa arrogância de alguns.
Eu, que já presenciara em tribunais de exceção, meu irmão, mesmo morto, ser julgado como se vivo estivesse, fiquei apavorada e decepcionada com meu país. Com este momento, que sei democrático, mas que esperava fosse mais.
Esperava que nossa corte mais alta, composta por esses doutos homens e mulheres de capa, detentores do Supremo poder de julgar, fosse imune à sedução e aos fascínios que a fama midiática inspira.
Que ela fosse à prova de holofotes, aplausos,  projeção, mimos e bajulações da super-exposição no noticiário e das capas de revistas de circulação nacional. E que fosse impermeável às pressões externas.
Daí que, interpretação minha, vimos aquele show de deduções, de indícios, de ausências de provas, de contorcionismos jurídicos, jurisprudências pós-modernas, criatividades inéditas nunca dantes aplicadas serem retiradas de sob as capas e utilizadas para as condenações.
Para isso, bastando mudar a preposição. Se ato DE ofício virasse ato DO ofício é porque havia culpa. E o ônus da prova passou a caber a quem era acusado e não a quem acusava. A ponto de juristas e jornalistas de importância inquestionável classificarem o julgamento como de “exceção”.
Não digo eu, porque sou completamente desimportante, sou apenas uma brasileira cheia de cicatrizes não curadas e permanentemente expostas.
Uma brasileira assustada, acuada, mas disposta a vir aqui, não por mim, mas por todos os meus compatriotas, e abrir meu coração.
A grande maioria dos que conheço não pensa como eu. Os que leem minhas colunas sociais não pensam como eu. Os que eu frequento as festas também não pensam, assim como os que frequentam as minhas festas. Mas estes estão bem protegidos.
Importa-me os que não conheço e não me conhecem, o grande Brasil, o que está completamente fragilizado e exposto à manipulação de uma mídia voraz, impiedosa e que só vê seus próprios interesses. Grandes e poderosos. E que para isso não mede limites.
Esta mídia que manipula, oprime, seduz, conduz, coopta, esta não me encanta. E é ela que manda.
Quando assisti ao julgamento da Ação Penal 470, eu, com meu passado de atriz profissional, voltei à dramaturgia e me lembrei de obras-primas, como a peça As feiticeiras de Salém, escrita por Arthur Miller. É uma alegoria ao Macartismo da caça às bruxas, encetada pela direita norte-americana contra o pensamento de esquerda.
A peça se passa no século 17, em Massachusets, e o ponto crucial é a cena do julgamento de uma suposta feiticeira, Tituba, vivida em montagem brasileira, no palco do Teatro Copacabana, magistralmente, por Cléa Simões. Da cena participavam Eva Wilma, Rodolpho Mayer, Oswaldo Loureiro, Milton Gonçalves. Era uma grande pantomima, um julgamento fictício, em que tudo que Tituba dizia era interpretado ao contrário, para condená-la, mesmo sem provas.
Como me lembro da peça Joana D’Arc, de Paul Claudel, no julgamento farsesco da santa católica, que foi para a fogueira em 1431, sem provas e apesar de todo o tempo negar, no processo conduzido pelo bispo de Beauvais, Pierre Cauchon, que saiu do anonimato para ao anonimato retornar, deixando na História as digitais do protótipo do homem indigno. E a História costuma se repetir.
No julgamento de meu irmão, Stuart Angel Jones, à revelia, já morto, no Tribunal Militar, houve um momento em que ele foi descrito como de cor parda e medindo um metro e sessenta e poucos. Minha mãe, Zuzu Angel, vestida de luto, com um anjo pendurado no pescoço, aflita, passou um torpedo para o então jovem advogado de defesa, Nilo Batista, assistente do professor Heleno Fragoso, que ali ele representava. O bilhete dizia: “Meu filho era louro, olhos verdes, e tinha mais de um metro e 80 de altura”. Nilo o leu em voz alta, dizendo antes disso: “Vejam, senhores juízes, esta mãe aflita quebra a incomunicabilidade deste júri e me envia estas palavras”.
Eu era muito jovem e mais crédula e romântica do que ainda sou, mas juro que acredito ter visto o juiz militar da Marinha se comover. Não havia provas. Meu irmão foi absolvido. Era uma ditadura sanguinária. Surpreende que, hoje, conquistada a tão ansiada democracia, haja condenações por indícios dos indícios dos indícios ou coisa parecida…

Muito obrigada.