terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Na cara




autor: Jader Resende 
 
De um lado e do outro da rua, aos poucos formavam aglomerados de olho na sinaleira.  Logo, logo, brilhou o sinal verde, esperamos o invasor de sinal passar. Infelizmente um rapaz confiando na faixa amarela não percebeu o apressado, foi atingido pelo carro e atirado no meio da rua. Todos correram para ajudar. Quando uma voz grossa berrou.

—Sai da frente que vou dar uma lição nesse vagabundo. Atingindo-o com um murro na cara. Quando tentaram segurar o furioso homem, ele fez um gesto suspeito com ódio encarniçado na cara e disse:

—Vão me encarar? Foi o bastante pra todos se afastarem. Entrou no carro e disse:

—Anote a placa, dê queixa na delegacia e saio cantando pneus.  Todos foram chegando lentamente e falando ao mesmo tempo.

—Leva o homem pro pronto socorro, dizia uma mulher.

—O rapaz foi atropelado, apanha e ninguém faz nada. Falava um senhor.  

—Esse queria se matar, dizia outro.

—Cala boca, já viu alguém se matar na faixa de segurança.

—Esta cheirando a desilusão amorosa. Insistia o adepto ao suicídio.

—É culpa do governo, pobre só serve pra votar e tomar na cara.

—O fuzuê estava formado.  Apareceu gente de todos os lados.

A dona da loja em frente socorreu o rapaz sem ninguém perceber e deu-lhe água com açúcar. Como ele nada falava, ela perguntou.

—Você quer alguma coisa, um café, telefonar pra alguém? Ele balançava negativamente a cabeça. Sentou-se a seu lado e perguntou.

—Você se machucou?

Não, nada grave.

—Como é seu nome?
—Zé. Respondeu numa introversão denunciando sua origem.
—Zé, vá direto a delegacia dar queixa.

—Pra quê?

—Pra tomarem a carteira dele.

—Vou não, senhora.

—Ele te atropelou e ainda te agrediu.

—O que se há de fazer?

—Meu filho que pessimismo é esse. Temos leis, justiça. Vá por mim, vai dar tudo certo.

—Vai não, senhora.

—Mas por que, meu filho? Vira-se para sua vendedora e diz.

—Fecha à porta, por favor. Ela fechou, ficando do lado de fora olhando o tumulto.

—Então meu filho, seja corajoso, vá e registre queixa.

—Não vou senhora.
—Olha, Maria anotou a placa do carro, cor, modelo e tudo. Esta no meio da confusão, mas ela volta.
—Agradeço, mas não vou.

—Então diga. Por quê?

—Nunca entrei numa delegacia e não vou de jeito nenhum.

—Meu filho, precisa fazer valer seus direitos.

—Não acredito.

—Como, não! Zé.

— Esse golpe é velho. É justamente o que ele quer. Invadiu o sinal, me atropelou encima da faixa. Nessa altura já esta na delegacia e registrou queixa contra mim.

— Como assim, meu filho?

—Diz que o sinal foi invadido por um louco e ele freou bruscamente para não me atropelar, que tentei esfaqueá-lo e com medo de ser morto buscou ajuda da policia.

—Mas isso não é verdade.

—Pois é. Se aparecer numa delegacia vai dar flagrante, quando me condenarem, já cumpri o dobro esperando julgamento.

—Virgem Mãe de Deus, isso é muito triste. Como você sabe disso?

—Vejo acontecer todos os dias onde moro, com pessoas desempregadas como eu e de varias formas. A senhora não precisa ficar constrangida que não vou à delegacia, nem preciso de testemunhas.

—Posso ficar aqui até ter certeza que a policia não veio me buscar.

—Claro que pode. Admirava a inteligência daquele rapaz, sua inconsciência coletiva se manifestava firme e forte. O motorista infrator aplicava uma tentativa de psicologia reversa,  pretendia anular o seu crime através de uma contradição proposital, planejada e fazer do Zé um criminoso.

Pensava no poder de uma técnica tão primária da psicologia assumida pelo povo, onde se procura construir um resultado através de outro inverso, de forma tão covarde e desumana. Via no seu gesto, verdades que os meios de comunicação e a justiça negam a todos. Só restou a tomada de consciência social adquirida no dia a dia, talvez vendo seus amigos de infância serem presos ou mortos sem terem cometido nenhum crime e acabou criando um sistema de auto defesa.

Incapaz de ajudá-lo sofria por sua fraqueza, tinha vergonha de sentir tanta impotência pairando entre eles. Pensou  na lei de Greshan que determina a destruição de uma moeda boa para a sobrevivência da ruim. O homem bom, inteligente e humano como esse rapaz esta sendo destruído pela política da desinformação dos governos de todo o mundo.

Como estátuas permaneceram quietos e mudos até a rua ficar deserta.

Despediram-se de cabeça baixa sem se olharem.

Conto de Jader Resende


2 comentários:

Janice Adja disse...

É comum sentir vergonha por causa da impotência. É uma situação difícil
Beijos!!
Feliz ano novo!!

jader resende disse...

Janice Adja.

Felicidades pra você também neste novo ano.
Quanto a vergonha, acho que temos motivos de sobre pra ter.
Um grande abraço