sábado, 26 de janeiro de 2013

DOM QUIXOTE E OS GOVERNANTES




Esta e demais lustrações são litogravuras
 do francês Gustave Doré (1832-83)


Dom Quixote é uma daquelas obras-primas do engenho e refinamento humano. Mas parece escrito por mãos superiores. Narra a história dum velho fidalgo que, de tanto ler romances de cavalaria, imagina-se, ele próprio, um extemporâneo cavaleiro andante. E, no frenesi dos delírios, sai na ânsia de endireitar as torpezas do mundo, em socorro dos aflitos e injustiçados. Seu escudeiro, o lavrador Sancho Pança, é seduzido pelas venturas e aventuras do herói sonhador.
 


Na segunda parte (1615), Quixote e Sancho são recebidos no Castelo dos Duques. Como os moradores já conheciam a fama do personagem, por o terem lido na primeira parte (1605), pregam-lhe todo tipo de troças e patifarias. No entanto, como não via nos outros nenhum tipo de maldade, imagina que as afrontas recebidas o homenageavam. Em certo momento, prometem a Sancho uma ilha para governar. Acreditando ser verdade, Dom Quixote explica ao companheiro sobre como deveria se pautar no exercício do poder (Cap. II-XLII).


Foram muitos os alertas a Sancho acerca dos subornam, importunam e porfiam para estarem ao lado dos governos em busca de vantagens. “Os grandes cargos – ensina – não são senão um golfo profundo de confusões”. Previne-o para afastar-se dos venais e fraudulentos, e dos que usam o patrimônio coletivo em benefício pessoal, de correligionários, bajuladores, aliciadores de votos e parentes. Se ética e moralidade são pressupostos da honradez, mais seriam a de alguém no cargo de governante.


Apresento meia dúzia de preceitos ditos por Quixote ao escudeiro, em tradução livre do original. Como adornos da alma, alertam aos que exercem funções públicas, à época em que a obra foi concebida e em todos os tempos. E nos advertem como deveríamos governar a nós mesmos ao longo da existência.



1. Nunca te guies pela lei do bel-prazer, que costuma ter cabimento entre os ignorantes e presumidos. 2. Achem em ti mais compaixão as lágrimas do pobre, porém não mais justiça que as informações do rico. 3. Procura a verdade por entre as promessas e favores dos poderosos, como por entre os soluços insistentes dos despossuídos. 4. Quando tiveres que julgar, não descarregues todo o rigor da lei sobre o delinquente, pois não é melhor a fama do juiz rigoroso que a do compassivo. 5. Se acaso fizeres concessão às leis, que não seja com o peso da dádiva, mas da misericórdia. 6. Ao que castigares com obras não o trates mal com palavras, pois basta ao infeliz a pena do suplício, sem o acréscimo das más razões.



O velho Quixote, encarnação do ser em estado sublime, confunde-se com Miguel de Cervantes. Idealismo e realidade se misturam. Um nasceu para as páginas do livro; o outro para escrevê-las. Talvez tenham sido loucos-gênios ou gênios-loucos. Não importa. Persistem visionários e comoventes, a abastecer-nos de reflexões sobre as seivas mais puras do existirmos. Para nos tornarmos sensíveis e por isso melhores, nos intrincados enredos da vida.


Primeira edição da primeira parte (1605)




Um comentário:

Janice Adja disse...

Quando li este livro ainda criança confesso não ter entendido nada. Anos depois já perto de terminar mo segundo grau, reli e descobri um novo mundo. Um mundo de fantasias, sonhos desejos de um grande amor.
Acabei por viver um grande amor dulcineia.
beijos!!!
Para tirar estas letrinhas posso te ajudar . Caso queira.